Lúpulo para além da cerveja

O lúpulo é uma planta trepadeira de origem europeia da família Canabiáceas. Sua flor é utilizada na produção de cervejas, conferindo-lhes amargor e aroma específicos. Há estudos que sugerem que o consumo baixo/moderado de bebidas alcoólicas pode ter efeito protetivo contra inflamações e algumas doenças cardiovasculares. A partir deles, Eduardo José Gaio, professor da Faculdade de Odontologia da UFRGS, obteve uma patente sobre o uso do lúpulo em produtos de saúde bucal. O objetivo é aplicar propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias da flor – observadas pelo professor em um estudo de 2017 – em produtos de uso bucal diário , para prevenir e reduzir os efeitos da gengivite e da periodontite, inflamações muito comuns na população em geral.

As pesquisas de Eduardo são no campo da periodontia, uma área da odontologia que estuda o sistema de sustentação e implantação dos dentes (a gengiva e os tecidos ósseos da região), atuando no diagnóstico, na prevenção e no tratamento da gengivite e da periodontite, causadas pelo acúmulo de bactérias nos dentes e na gengiva quando falta higienização. O pesquisador explica que a gengivite é uma primeira inflamação, a qual não causa danos às estruturas da região, mas traz mau hálito, sangramentos e dor durante a escovação, dificultando a higiene. Com o tempo, se não for tratada, ela pode se tornar crônica e evoluir para uma periodontite. Esta, por sua vez, tem como consequência a destruição de tecidos gengivais e ósseos, podendo levar à perda de dentes e até causar outros problemas relacionados com o sistema cardiovascular.

O professor coordenou um estudo em 2017, no Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), no qual observou um efeito antioxidante age contra o dano oxidativo, o qual acontece quando uma célula é estressada. O acúmulo de bactérias no dente em contato com as células locais faz com que elas produzam mais oxigênio no tecido. Depois de uma quantidade x ela se estressa liberando mediadores químicos inflamatórios. A longo prazo pode acontecer um dano sistêmico, em razão da constante corrente sanguínea passando pela área inflamada, levando resquícios a todo corpo. presente em cervejas lupuladas, o que pode ajudar a controlar a inflamação. A pesquisa foi feita com ratos Wistar, que foram divididos em quatro grupos: um de controle (que não ingeria álcool); um que consumia cerveja Indian Pale Ale (IPA) (com alto teor de lúpulo), outro, cerveja Pilsen (menos lupulada); e outro que recebeu uma solução alcoólica sem lúpulo. Todas as bebidas possuíam a mesma concentração de álcool. Então, foi induzida uma inflamação periodontal nos ratos, que chegou à periodontite, com destruição de tecido ósseo. Os grupos experimentais, exceto o grupo de controle, ingeriam diariamente a bebida alcoólica, disponibilizada por doze horas, voltando à dieta normal com água depois. A intenção era analisar a destruição dos tecidos em cada grupo mediante o consumo moderado da bebida – a relação entre o benefício e o malefício da utilização de álcool envolve algumas variáveis, como quantidade de doses ingeridas, peso corporal, gênero, idade, dieta, etc, o que faz o consumo moderado ser peça-chave do estudo.

Como resultado, os grupos que ingeriam cerveja apresentaram menor dano em seus tecidos, mesmo que não tenha acontecido inibição total da inflamação. E o grupo que consumiu cerveja IPA, mais lupulada, apresentou um dano ainda menor. Esses resultados foram levados à Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, em 2018, para que a pesquisa fosse testada em nível epigenético – para tentar explicar o que aconteceu geneticamente em relação aos danos nos tecidos periodontais. Comparando os ratos que não ingeriram álcool com aqueles que consumiram cerveja IPA, há muita diferença nos marcadores genéticos. Eduardo diz que “a presença da cerveja IPA fez modificações na cromatina uma proteína que envolve a camada do DNA, que geralmente está em dupla-hélice. , e isso provavelmente explica por que esses animais tiveram menos inflamação e destruição do tecido ósseo”. Por outro lado, ele afirma que, com o modelo aplicado até aqui, não é possível afirmar se o efeito protetivo funciona de forma local, na gengiva, ou sistêmica, via corrente sanguínea, ou até mesmo de maneira conjunta. Mesmo assim, surgiu a ideia de patentear a aplicação do lúpulo em produtos de saúde bucal, já que os resultados são interessantes na área odontológica. Com a obtenção dela, pesquisas nesse âmbito podem prosseguir. “É importante [obter a patente], porque protege intelectualmente esse produto em desenvolvimento”, diz o professor. As patentes nacionais são concedidas pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), e o pesquisador redigiu o pedido citando exemplos de produtos odontológicos nos quais o lúpulo e seus extratos podem ser utilizados, como cremes dentais, géis de aplicação caseira e enxaguantes bucais. Em processo desde maio de 2019, a patente foi obtida em dezembro do mesmo ano, na categoria “patente de invenção”, e o próximo passo é fazer um registro internacional.

Próximos passos

A pandemia do novo coronavírus trouxe adiamento de algumas etapas da pesquisa. Há a necessidade de identificar melhor se as ações do lúpulo são locais ou sistêmicas. Também é preciso encontrar especificamente quais princípios ativos da planta estão controlando as inflamações e conseguir dar prosseguimento aos estudos até a fase clínica. Por outro lado, Eduardo conta que está fazendo cursos de empreendedorismo e pensa em abrir uma startup para produzir produtos odontológicos à base de lúpulo, caso os achados sigam sendo positivos.