1. Carne
Tuvalu é uma pequena nação no Oceano Pacífico, composta por nove pequenas ilhas insulares. Com cerca de 11 mil habitantes, Tuvalu é conhecida por suas paisagens exuberantes, praias de areia branca e águas cristalinas. Em 2100, Tuvalu talvez esteja abaixo do nível do mar, submersa, devido às mudanças climáticas e ao aumento do nível do mar. Mediante ferramentas de Realidade Virtual, há um projeto voltado para a criação de uma gêmea digital de Tuvalu, um ambiente virtual que replique a ilha em detalhe, permitindo que os tuvaluanos e suas futuras gerações possam experimentar e preservar sua terra natal e sua cultura de maneira digital.
Ultimamente, venho tentando preservar e experimentar com os espaços de onde moro, na Vila Fernandes, no bairro Niterói, Canoas–RS, por meio de técnicas de escaneamento 3D, experimentando em contextos de composição visual a partir de desdobramentos de objetos virtuais.
Nossa Vila, após tornar-se parte do bairro de Niterói, passa por um processo de gentrificação. Moradores novos e com maior poder aquisitivo, grandes construções que não consideram os vizinhos anteriores e o abandono de lugares que serviam a um propósito para a comunidade – muito de nossa história material está desaparecendo lentamente.
Refiro-me poeticamente a esse processo de escaneamento desses espaços por meios digitais como a criação de “fósseis digitais”. Essas versões digitais de espaços e artefatos físicos, devidamente guardadas e arquivadas, durarão muito tempo após se perderem no mundo material, e serão preservadas por meio da lente de minha prática artística. Portanto, penso nessa digitalização e experimentação também como preservação. Capturo objetos, artefatos, muros e cenas do cotidiano e trabalho com o erro que surge do ato da captura. Penso o trânsito do material para o imaterial, exercitando questões de memória, território, espaço público, junto de um pensamento escultórico 3D, experimentando com diferentes elementos do digital, como textura, topologia e animação em vídeo. Mas também com linguagem fotográfica, impressões em materiais diversos e texto.
Abaixo, registro em formato de escaneamento 3D em que me coloco junto de uma arte do grafiteiro canoense PIX:

“Tudo no tempo de Deus!” – esquina da rua Barão do Rio Branco
com a Farroupilha, Canoas–RS. Fonte: arquivo do autor (2022). Disponível em: https://youtu.be/wB8ogTMkjwM
A seguir, mais um registro, dessa vez da esquina de onde moro, na rua Sapucaia com a D. Pedro II. Pixado na parede está a frase “é os guri pai V.F”, a qual se refere à Vila Fernandes, lugar onde moro.

“É os guri pai V.F”. Fonte: arquivo do autor (2022). Disponível em: https://youtu.be/LxHRUM7vSHE
Outros dois registros têm a ver com a passagem do tempo de sua forma mais bruta. RM foi um pixador e grafiteiro de grande influência entre os anos 1990 e 2010, e foi também de grande influência para o início de minha trajetória artística. Tirei a primeira foto em setembro de 2021, e a segunda em dezembro de 2022. Entre esse um ano, uma vida. Minha vida. Após essa passagem de tempo, RM veio a falecer. O prédio foi pintado. O grafitti foi apagado. Aqui, parafraseio Chris Marker, cineasta, referindo-se às fotos de árvores, tiradas com 40 anos de diferença, em seu espaço virtual Ouvroir, na plataforma Second Life:
“No meio, na varanda, a árvore cresceu, só um pouco.
Dentro destes poucos centímetros, quarenta anos da minha vida.”


Graffiti de RM. Fonte: arquivo do autor (setembro de 2021) / Mesmo prédio, um ano depois. Fonte: arquivo do autor (dezembro de 2022).
O segundo registro se dá em um lugar que é muito ambíguo para mim. Enquanto ele é banal pela quantidade de vezes que passei, e passo lá, ele me marca de maneira afetiva através de muitos episódios da minha vida. É um lugar específico marcado pela localização do Relógio do prédio da MBM, na rua dos Andradas, entre a lancheria P.h.ade e o restaurante D’Torres. Lado direito de quem vai em direção ao rio Guaíba. Apesar da carga cotidiana desse objeto, e desse pedaço de calçada de menos de 10 metros, sempre arrepio um pouco quando passo por lá.
Já disse “eu te amo” embaixo do relógio. Já disse “eu te amo” na distância entre esses dois pontos. Já passei por ali em momentos muitos ruins, que contrastavam com esse afeto. Além de tudo, é um objeto que me serve de uma função muito pontual: pego o trem para Canoas, e sempre olho para o relógio como um guia, que me acalenta e me faz tomar a decisão certa de sempre pegar o último trem.
Neural Radiance Fields (NeRF) do relógio da MBM na rua dos Andradas.

Fonte: arquivo do autor (2022). Disponível em: https://youtube.com/shorts/pGjAAxhoZRg
Então, em minha prática, criou-se o hábito de caminhar, de estar à deriva, de olhar pra esses lugares com outros olhos. De também poder mudar a estratégia, ir pra outros ambientes e experimentar os mesmos exercícios de andar. E há a jornada do registro, do que fica dessa experiência de deslocar-se. Entre elas, existe essa passagem do tempo. Esse retrato geográfico congelado num espaço-tempo, permitido por essas novas ferramentas de captura pensadas como processo artístico. Há uma relação com o registro fotográfico, porém há outro campo expandido que proporciona maior interatividade e imersão. Posso importar essa arquitetura em uma plataforma de criação de ambientes virtuais e fazer com que as pessoas possam andar por esses lugares virtualmente. Posso criar objetos a partir dessas técnicas, intervir neles digitalmente e recolocá-los em seu lugar físico por filtros de Realidade Aumentada. Penso assim, que a técnica em minha prática artística acaba por ter o papel de traduzir e ampliar as temáticas que me são caras, considerando as narrativas que envolvem quem sou, de onde eu venho. E também, sobretudo, das pessoas e lugares que me importam e que eu amo.
2. É possível uma topologia da memória?
“Um fóssil é qualquer resto preservado, impressão ou vestígio
de qualquer coisa viva
de uma era geológica passada.”
Sempre que saio de Canoas, Canoas vem comigo. Sempre que saio de Niterói, Niterói vem comigo, Vila Fernandes vem comigo. Minhas memórias desses lugares estão intrinsecamente ligadas ao meu corpo no espaço. Parafraseando Arthur Verocai, na música Na Boca do Sol:
“Na minha cidade do interior, pra quem mora lá o céu é lá”
Mais recentemente, participei de uma residência da Uberbau-house, em São Paulo, e pensei em transpor o projeto para a vivência que teria lá: uma estadia no Copan, no coração do centro da cidade, imerso apenas em meu processo artístico pela primeira vez em anos. O plano era investigar, a partir da caminhada e de outros meios de locomoção, trajetos que contivessem artefatos e espaços que eu me relacionasse afetivamente, focando em lugares em disputa política e estética da
cidade de São Paulo, mais especificamente na região onde estaria hospedado. Porém, nada me foi como planejado. Em Niterói, em Vila Fernandes, sou um, pertenço. Em São Paulo, não.
Uma noite, encontrei amigos daqui, Erick e Gisa, em SP. Saímos para beber. Discutimos sobre pertencimento, e sobre que sempre dizíamos sermos da Vila Ipê 1, ou da Vila Nova, da Vila Fernandes, de Sapucaia, antes de falar da Grande Porto Alegre.

O que ficou dessa conversa: um mapa. A junção hipotética desses três lugares separados pelo tempo e espaço, porém interligados nas experiências subjetivas de território e vivência que compartilhamos. Através dessas sensações, veio-me a vontade de evoluir essa prática de registro como um mapa da memória aberto à experimentação.
3. Fóssil


Almoço com Cami e Mayté I, 2023.
Passei a trabalhar com cenas do cotidiano e com o erro que surgia do ato da captura. As ferramentas que utilizo me permitem explorar essas nuances de falhas digitais. Às vezes a IA “erra” a identificação de pontos-chave entre uma foto e outra do escaneamento, criando novas texturas e distorções que não existem. Alimentado por esse erro, comecei a intervir em cima desses artefatos 3D até que algo escultórico quase-fóssil surgisse.

Fóssil (a partir de Almoço com Cami e Mayté), 2023. Fonte: arquivo do autor (2023). Disponível em: https://youtu.be/HF5P-oGIbPs
E desses mapas, desses momentos da memória e do cotidiano, foram surgindo esses objetos imateriais, representativos da passagem do tempo, dos momentos, mas sobretudo das emoções que o acompanham. Embora haja uma fisicalidade a esses objetos, eles novamente fazem parte de um escopo maior da minha prática – essa tentativa de traçar paisagens mentais do cotidiano, da memória e do território.
4. Plasticidade do registro e experimentações futuras

Fonte: arquivo do autor (2024).
Interessa-me muito o olhar pitoresco sobre as texturas dos muros pichados sobre o concreto cru, em contraste com os fios emaranhados dos postes de luz, a vegetação e a calçada. Há, além de um arquivamento de narrativa e memória – minha e do lugar de onde vivo – uma plasticidade há ser entendida por trás desses registros. Pois, novamente, tudo que perpassa esses modelos 3D escaneados, esses ambientes virtuais a partir de fotos via técnicas de Inteligência Artificial, é o registro.
Imagino-me usando um grande drone para capturar e escanear em 3D toda a extensão de onde moro, e me imagino intervindo nesse território como um usuário do Google Street View, porém invés de andar pelas ruas, mexo nelas com minhas mãos. As distorço, mudo suas texturas 3D, e experimento em outros contextos de composição e recorte, e com isso penso suas qualidades maleáveis de pintura, de fotografia, e de escultura.
Referências:
DOS SANTOS, Laymert Garcia. Politizar as novas tecnologias: o Impacto Sócio-técnico da Informação Digital e Genética. São Paulo: Editora 34, 2011.
MACHADO, Henrique Fagundes. Realidades Virtuais: autoficções, afeto e memória em ambientes virtuais. Orientador: Alberto Marinho Ribas Semeler. 2023. Dissertação (Mestrado) – PPGAV UFRGS, Porto Alegre, 2023. Disponível em: http://hdl.handle.net/10183/259352. Acesso em: 20 fev. 2024.
MASSEY, Doreen. Pelo Espaço: Uma nova política da espacialidade. Rio de Janeiro: Bertrand, 2008.
PARIKKA, Jussi. A Geology of Media. Minneapolis: Univ Of Minnesota Press, 2015.
SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1996.
KOSARI, Masoud; AMOORI, Abbas. THIRDSPACE: The Trialectics of the Real, Virtual and Blended Spaces. [S. l.]: ResearchGate, 2018.