Boaventura e as ciências sociais necessárias

Na conferência “As epistemologias do Sul e as ciências sociais do futuro”, realizada no dia 5 de setembro de 2014 para um Salão de Atos da UFRGS lotado, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos realizou uma reflexão crítica acerca das ciências sociais e de seu papel no mundo contemporâneo, além de sugerir também alguns caminhos epistemológicos passíveis de serem seguidos no presente e no futuro.
Para Boaventura, as ciências sociais dão sinais de esgotamento. Enquanto a alma deste grupo de disciplinas, ao longo dos tempos, caracterizou-se pelo desejo de construir uma sociedade melhor e mais justa, hoje em dia isto já não se verifica. Impregnados pelo espírito neoliberal (segundo o qual não há alternativa de mundo possível a esta), cada vez mais cientistas sociais inserem-se em um pensamento funcional voltado para os interesses dos mercados e/ou para as questões técnicas e administrativas relacionadas ao Estado. Da mesma maneira, as universidades funcionam tal como empresas, numa lógica mercadológica que fortalece as áreas voltadas à tecnologia em detrimento dos departamentos de humanidades. Empresas privadas de consultoria corporativa, aliás, já disputam com a academia a mão de obra de sociólogos, antropólogos e historiadores, entre outros. Segundo ele, vemos hoje o ápice de um processo iniciado quando da Revolução Industrial, que lentamente deslocou a força motriz da ciência da “curiosidade” para a “utilidade”.
O diagnóstico do sociólogo é de que vivemos sob a dominação de três blocos: o capitalismo, o patriarcado e o colonialismo. Enquanto o primeiro é alvo tradicional das mais variadas críticas, e o segundo vem sendo crescentemente questionado pelo movimento feminista, o colonialismo ainda recebe pouca atenção. Boaventura ressalta este como o maior empecilho atual às ciências sociais. Para melhor explicar seus traços característicos, ele divide o colonialismo entre colonialismo externo e interno.

Em relação ao colonialismo externo, o intelectual nascido em Coimbra critica o olhar eurocêntrico, dominante até hoje na academia, que sempre desprezou outras visões de mundo e pensadores dos demais continentes. Cientistas europeus – ligados às mais variadas correntes políticas e filosóficas –construíram obras relevantes, mas totalmente baseadas na noção de uma condição superior da Europa sobre o resto do planeta. O conceito de desenvolvimento, segundo Boaventura,revela-se altamente agressivo e limitador da genuína produção de conhecimento.Paradoxalmente, acadêmicos dos países do “Sul geopolítico” dão continuidade a este processo desigual, utilizando-se das epistemologias cristalizadas no Norte durante os séculos XIX e XX.
No ambiente interno das ciências sociais, Boaventura aponta que o colonialismo traduz-se na exclusão do quadro teórico e do debate progressista atores sociais como os negros, as mulheres e os indígenas. Assim como no colonialismo externo, aqui a voz dos grupos “vencidos” também não é considerada.Para ele, estas são provas de que as ciências sociais não conseguem mais representar o mundo como ele realmente é, por dispor de instrumentos atrasados para a análise da sociedade.
A partir disto,Boaventura de Sousa Santos propõe o desenvolvimento das “epistemologias do Sul”: novas formas de conhecimento e modelos de colaboração entre a academia e os movimentos populares, as minorias, os grupos sociais tradicionalmente excluídos do ambiente científico tradicional. Elaborações não extrativistas, mas dialógicas, que valorizem o diferente e primem pela justiça cognitiva. Nas palavras dele, é preciso “desmonumentalizar o Ocidente”, para que se possa realizar uma conversa mundial mais ampla. Como um dos exemplos deste tipo de atuação, ele cita a Universidade Popular dos Movimentos Sociais, iniciativa que ajudou a conceber no âmbito do Fórum Social Mundial (http://www.universidadepopular.org/site/pages/pt/em-destaque.php).
Assista à conferência “As epistemologias do Sul e as ciências sociais do futuro”, registrada pela UFRGS TV:
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TEXTO
Ramiro Simch
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