O MODELO VERDADEIRO DE PASSARELA NO MUNDO DA MODA
A deficiência, seja em qualquer grau na vida de um portador, deixou de ser algo que o impeça de realizações. Portadores têm ganhado espaço não só no mercado de trabalho, mas também sob os holofotes. No início desse mês, Nova York foi centro das atenções ao colocar modelos portadores de deficiência a desfilar na passarela de um dos eventos de moda mais renomado e conhecido do mundo: a “New York Fashion Week”, (Semana da Moda de Nova York).
O desfile foi elogiado por sua inclusão das pessoas com deficiência para uma indústria que muitas vezes é criticada por sua falta de diversidade. O show de moda foi em parceria com a Fondazione Vertical, uma fundação de pesquisa italiana para lesões na medula espinhal. A NYFW faz um papel importante no trabalho de divulgação da inclusão social de deficientes físicos. Para os que assistiram o desfile, notaram a história de Jack Eyers, personaltrainer e modelo, que se tornou o primeiro homem com uma perna amputada a desfilar numa das passarelas mais importantes para a indústria da moda mundial.

Em fevereiro deste ano, Jamie Brewer entrou para a história da moda. A atriz norte-americana, conhecida pelo o seu papel no seriado American Horror Story, se consagrou como a primeira modelo com Síndrome de Down a desfilar pela passarela da Semana de Moda de Nova York. Ela usou uma das peças da nova coleção da designer Carrie Hammer.
Esse fato virou uma mensagem importante sobre a diversidade, e que provocou uma nova abordagem na visibilização de coleções. Carriedá o crédito a um e-mail específico que recebeu após o fato de Katie Driscoll, co-fundadora da “Changingthe Face ofBeauty”, uma organização sem fins lucrativos que incentiva a mídia a incluir as pessoas com deficiência, e mãe de uma jovem garota chamada Grace, que também tem síndrome de Down.
Ela escreveu: “Obrigado por ser a mudança que já está muito atrasada. Eu poderia literalmente chorar cada vez que leio um artigo falando sobre a sua decisão de incluir uma modelo que tem uma deficiência. Você é o que este mundo necessitava!”
Carrie Hammer pediu a Driscoll que sugerisse um bom exemplo para sua filha, Grace, e o nome de Jamie Brewer veio à tona. “Expliquei a ela o quão importante é para a minha filha ter modelos como Jamie para ver que tudo é possível”, disse Driscoll.
O corpo é um meio comunicador e para Cleide Riva Campelo em seu livro, Cal(e)idoscorpos, eletransmite mensagens a todo o momento aos receptores. Assim, criar espaços de visibilidade para pessoas com deficiências é reforçar sua cidadania.
É importante destacar também a questão da ruptura de sentido que esses modelos causaram nesse evento. Na linha do previsível do NYFW era esperada o “padrão”: modelos com corpos magros, longelíneos e sem nenhum tipo de deficiência física. A Fashion Week trouxe o inesperado, ou seja, a entrada de modelos que quebram esse paradigma do que é “padrão” nas passarelas. Para entendermos melhor esse imprevisível, buscamos Yuri Lotmanque nos traz o conceito de explosão, que opera sobre as rupturas de sentidos na cadeia de significação e sobre o inesperado. As passarelas da NYFW provocaram uma explosão de sentidos.
Aqui no Brasil já existe uma agencia de modelos que trabalha apenas com pessoas portadoras de alguma deficiência. A proposta é usar a moda e a fotografia como forma de inclusão. Essa agência não só está inovando e buscando um nicho de mercado, como está trabalhando com sentidos que vão além dos padrões de beleza hegemônicos e que podem ser conotados como: pertencimento, diversidade e auto-estima.
Kika de Castro, com a sua agência especializada, pioneira no Brasil. Quando trabalhava em um Centro de Reabilitação para deficientes, onde estava responsável pelo setor de fotografia, Kika de Castro percebeu o constrangimento dos pacientes perante a câmera. Foi aí que decidiu comprar acessórios de beleza, transformar o local em um estúdio de moda, e iniciar um projeto de terapia com base na imagem.
Em 2007 montou sua própria agência, que hoje conta com mais de 80 modelos.
TEXTO
Matheus Felipe Ferreira
Professora Orientadora: Dra. Nísia Martins do Rosário | PPGCOM – UFRGS
Referências:
CAMPELO, Cleide Riva. Cal(e)idoscorpos: um estudo semiótico do corpo e seus códigos. São Paulo: Anablume, 1996.
LOTMAN, Yuri. Cultura y explosión: lo previsible y lo imprevisible en los procesos de cambio social. Barcelona: Gedisa, 1999.
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