Pluralidade (binária?) dos corpos
É da minha recente leitura da obra Breve história do corpo e seus monstros (1999) de Ieda Tucherman que extraio o seguinte pensamento para nossa discussão:
Assim, se na modernidade as fronteiras demarcadas permitiam que o freak fosse percebido como “um outro”, na nossa atual experiência parece ter-se configurado uma forma que afirma direito à diferença e à individualidade calcado fora do parâmetro binário, mas na ideia de uma pluralidade de diferenças irredutíveis à binaridade. Em princípio, deveríamos assumir como salutar esta nova proposta de culto à diferença, pois ela deveria gerar pluralidades correspondentes de criação e invenção. O que, no entanto, parece fazer-se presente, é que o atual processo de diferenciação tem, paradoxalmente, conduzido a uma profunda homogeneização, onde as condições efetivas de criar e inventar parecem dissolver-se numa sociedade voltada para o consumo e para o mercado (TUCHERMAN, 1999, p.155).
A autora faz um breve histórico das relações de identidade e alteridade do corpo humano e um dos exemplos notórios é o processo de diferenciação do sujeito na era moderna com o “freak”, pessoas que nasceram com alguma deficiência ou mesmo as que teriam optado por se inserirem nesta categoria “freak” por alguma característica especial (como eram vistos os tatuados na época) e como esses indivíduos eram tratados como “os outros”, geralmente pessoas mostradas em shows e performances específicas para voyeurs curiosos. Dos anos 60 em diante, a noção de “freak” passa a ser digna de reapropriação para a lógica do consumo; os corpos reivindicantes da contracultura (corpos feministas, corpos gays, corpos hippies, corpos punks) são incorporados ao sistema cultural vigente num movimento em que “obtinham-se duas excepcionais vantagens, já que, incorporando-os como produto, anulava-se a critica que eles representavam e, de outro lado, realimentava-se a juventude, ao mesmo tempo, como categoria e público para o consumo” (TUCHERMAN, 1999, p. 147).
Este caminho teórico apresentado por Ieda Tucherman abre espaço para uma reflexão tão iminente quanto transbordada: há uma pluralidade de corpos e suas respectivas representações no mundo mercadológico e midiático? Ou seria a própria logica do mercado e do consumo um arcabouço universal onde só se fazem possíveis as corporalidades que respiram em suas fronteiras? A pluralidade de corpos e representações (que incorporaram os “freaks”, as “minorias”, as apologias controversas, as drogas – visto o visual heroin chic dos anos 1990 ) que permeiam a mídia e a moda, por exemplo, a qual Tucherman questiona, talvez não tenham excluído os parâmetros binários e sim os colocado em extrema tensão para o proveito das lógicas de consumo. Como espécie de um torneio de gladiadores contemporâneos, o que observo é uma retroalimentação das potenciais corporalidades disponíveis em posições dogmáticas de negação/afirmação, em que a diferença e a pluralidade são variáveis previamente determinadas e hierarquizadas por instâncias que exercem o controle social como a política, a mídia e o próprio influxo dos indivíduos que emanam seus desejos – tabelados – sobre seus corpos e os corpos dos outros. As diferenças podem ser possíveis, mas não atuam com valores na lógica da cultura. Vide a capa da revista Vogue Brasil do mês de junho, que traz a socialite e modelo norte-americana Kim Kardashian; a chamada não omite o sistema de repetição da moda, mas retoca o íntimo das relações de afirmação e negação que temos com nossos corpos: “curvas dominam o red carpet e definem um novo corpo ideal”. As páginas da publicação, no entanto, continuam majoritariamente preenchidas por corpos magros e longilíneos. Parece a pluralidade, neste contemporâneo, uma grande roleta, onde as potenciais escolhas estão sempre a espera de onde se estabilizará a esfera, pontuando qual aposta foi a mais bem-aventurada. Para os outros “possíveis plurais”, os possíveis novos corpos ideais, os possíveis novos corpos postulados ao establishment, resta a sorte de uma nova rodada – do mesmo jogo – que contemple suas ilusórias diferenças.
Referências:
TUCHERMAN, Ieda. Breve história do corpo e de seus monstros. Lisboa: Vega, 1999. (Passagens).
TEXTO:
Maurício Rodrigues
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