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Bodybuilders: a incessante atualização do corpo

Já há algum tempo percebe-se um apelo social e midiático ao culto da boa forma e hábitos saudáveis como alimentação regrada e prática de exercícios. Longe de querer remeter aos primórdios dessa cultura a qual o principal objeto de enaltecimento é o corpo, e principalmente, um corpo saudável, o que quero discutir aqui são as incursões em um âmbito social contemporâneo de como uma específica modalidade esportiva tem formulado ingerências sobre as corporalidades.

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As academias de musculação nunca estiveram tão lotadas. É verdade que não há uma novidade em uma busca por um corpo musculoso, “sarado”. No âmbito dos esportes olímpicos, o Fisiculturismo (exercícios progressivos para aumento de resistência e força muscular) é uma modalidade já muito bem radicada, com sua própria federação internacional.  Contudo, é importante notar que há uma profusão muito grande dos chamados “bodybuilders” em uma esfera social mais corriqueira, os quais não têm o objetivo de participar de campeonatos olímpicos. São indivíduos que praticam a musculação com muita frequência no intuito de aumentar a massa muscular e construir o corpo desejado – como indica o termo em inglês – para satisfação pessoal. Embora sejam passíveis de discussão sobre esse tema questões éticas sobre o comum uso de anabolizantes ou ainda a alimentação feroz de um padrão estético muito engendrado pela mídia e a indústria de suplementos, o que trago aqui é o que parece ser a formação de uma cosmologia própria dos “bodybuilders”, algo que além de ser uma manifestação de nicho, se constrói como uma verdadeira doutrinação.

Embora o grande objetivo entre os “bodybuilders” seja  o deleite em uma constante construção muscular a base de rigorosos exercícios que prezam o progresso de novas cargas e novos modos de fazer, o emblema não parece estar no simples desenvolvimento da aparência física, mas no próprio desafio de superação. A disciplina com os exercícios e alimentação rigorosa faz parte de uma engrenagem constante que tem como força motriz o avanço no desenvolvimento muscular do corpo. É uma busca que se mescla com o hábito de fazer que se apoia em uma fé extraordinária: não há um fim, ou um limite, a própria falta de limite é o que rege de maneira religiosa e motivadora a atividade dos “bodybuilders”. Ao que parece o corpo jamais está construído, sua instância como corporalidade é a eterna construção em andamento. Tal cenário vai ao encontro daquilo que o teórico francês Pierre Lévy relata sobre os corpos que se virtualizam quando buscam novas velocidades e novos extremos; em um universo onde o deslocamento é sempre constante, o corpo está em incessante atualização:

“Meu corpo pessoal é a atualização temporária de um enorme hipercorpo híbrido, social e tecnobiológico. O corpo contemporâneo assemelha-se a uma chama. Frequentemente é minúsculo, isolado, separado, quase imóvel. Mais tarde, corre para fora de si mesmo, intensificado pelos esportes ou pelas drogas, funciona como um satélite, lança algum braço virtual bem alto em direção ao céu, ao longo de redes de interesses ou de comunicação” (LÉVY, 1996, p.33).

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São muito frequentes os blogs, páginas e perfis que reproduzem mensagens de incentivo coletivo para motivar esses atletas amadores a treinarem. O conteúdo das mensagens faz menção ao preparo físico, no entanto, o que gera comoção é difundir as próprias dores e glórias da prática, ou seja, é a esfera que se fundou em torno execução, um universo de saberes, uma doutrina. E uma vez que se assemelhe a uma doutrinação, vamos novamente ratificar as ideias de Lévy, pois o individuo portador do corpo singular que está em construção compartilha das mesmas crenças do outro, formando uma rede, um “supercorpo” – uma entidade talvez – que emana suas prerrogativas de eterno progresso.

Pode ser arriscado dizer que o corpo “bodybuilder” queira ser a superação de um corpo padrão engendrado socialmente, ou até mesmo a própria saturação de todos os ideais políticos e sociais do que deve ser um corpo saudável, biologicamente preparado e esteticamente apreciável. No entanto, esse corpo combina perfeitamente com um contemporâneo dissolvido, fragmentado, radicado na onda pós-modernista. De tanto progredir, sublima-se, a massa corpórea propriamente dita, o tônus ainda que visível, torna-se espírito.  Não é um corpo máquina, pois a obsolescência e a repetição do mesmo é o seu pior pesadelo, talvez um corpo predestinado, etéreo, afeito ao ritual e ao sacrifício de se conceber enquanto parte de uma nova crença.

TEXTO

Mauricio Rodrigues

REFERÊNCIA

LÉVY, Pierre. O que é o virtual?; tradução: Paulo Neves. São Paulo: Ed, v. 34, 1996.

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