Sexo x Gênero e a mania de binarismo
A grande parte das sociedades ocidentais pensa de forma binária e em relação à configuração dos corpos não seria diferente; dividimos os seres humanos em homens e mulheres, pênis e vaginas. No entanto, é ingenuidade acreditar que as diferenciações de gênero acabam aí – se assim fosse, não poderíamos chamar alguém de “ele” ou “ela” sem vermos seu órgão genital.

Como já tratamos em alguns posts anteriores, existe uma forte ligação entre as categorias sexo/gênero/desejo pela qual adequamos e ajustamos nossas vidas. Hoje, cada vez mais pessoas estão questionando a rigidez dessa relação e desafiando esteriótipos, em especial nos eixos de gênero e desejo. Estimulado pelo movimento feminista, a busca pelos direitos e “aceitação” dos homossexuais ganhou grande visibilidade nas últimas décadas.
Há, porém, certa resistência do pensamento conforme os eixos sexo e gênero; apesar de ser cada vez mais comum encontrar histórias de transexuais noticiadas, percebe-se uma dificuldade para realizar a quebra do senso comum em que a genitália masculina (pênis) corresponde ao gênero masculino (homem) e a genitália feminina (vagina), ao gênero feminino (mulher).
Além de várias pessoas transgêneras que decidem quebrar esse padrão ao permanecer com sua genitália de nascimento e assumirem-se no gênero oposto, é conhecida a história de um indivíduo norte-americano que reafirma a separação dos três eixos acima citados.

David Reimer nasceu em 1965 e, após uma circuncisão mal feita que queimou seu pênis, teve seu sexo alterado para genitália feminina por indicação do psicólogo John Money, que assegurava que os bebês teriam sua identidade de gênero definida a partir da maneira como eram criados. Apesar de sua identidade corresponder ao órgão com o qual havia nascido, David não tinha noção disso e cresceu acreditando que era uma menina, mas comportando-se como seu irmão, Bruce. Aos 14 anos, quando seus pais lhe contaram a verdade, iniciou o processo para voltar ao sexo masculino. Reimer morreu em maio de 2014, por suicídio.
Muitas pessoas não sentem que seu sexo corresponde tradicionalmente a sua identidade de gênero, e é uma tortura muito grande não ser aceito pela sociedade que insiste em colocá-las em caixinhas classificatórias que elas não desejam estar. Deve-se fazer o exercício, portanto, de desassociar ‘sexo’ de ‘gênero’, para que essa esfera não seja mais uma das que temos que enfrentar com dificuldade todos os dias, por conta da mania de binarismo da sociedade ocidental.

REFERÊNCIA
http://www.polbr.med.br/ano04/psi0604.php
TEXTO
Carolina Kauer
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