Na torcida! Corpos subversivos no futebol.
A Coligay, torcida organizada gay do Grêmio, a primeira do Brasil, comemora seus 40 anos de nascimento e não tinha como não falar deles aqui no Corporalidades, em se tratando da representatividade, da importância desse ato de desconstrução da normatividade e a ocupação de um espaço em que LGBT também podem ocupar, que é o futebol. Em um contexto histórico de ditadura militar – o Brasil de 1977, vigorava leis de morais e bons costumes, que vigiava e controlava os corpos de uma forma muita mais coercitiva (FOUCAULT, 1999) – e um ambiente extremamente machista (ainda hoje é!), um grupo de frequentadores da boate gay Coliseu, que eram torcedores do Grêmio, decidiram formar essa organizada para ir assistir aos jogos e torcer juntos no estádio. Seus corpos subversivos (BUTLER, 2003) estavam lá performáticos, políticos, tensionando toda a heteronormatividade.

Sem dúvida, em estádio de futebol cerca de 60 torcedores assumirem sua sexualidade e marcarem o seu espaço dentro de um ambiente extremamente machista causou uma explosão dos sentidos (LOTMAN, 1999), já que esse esporte é normalizado pelo discurso cultural de que é um “esporte de macho”. Resistência e falta de apoio dos dirigentes do clube, de outras torcidas do grêmio, destaque nos cadernos de esportes, eles conseguiram lacrar e se consolidar como a organizada que fazia muita festa e incentivava o time em todos os jogos. Porém, com o risco de agressões, as quais teriam o objetivo de punir e normalizar estes corpos (BUTLER, FOUCAULT), os membros da Coligay aprenderam artes marciais para se defender de possíveis tentativas de hostilidade física.

É compreensível que muitos LGBT não gostem de futebol, pois no Brasil é um esporte culturalmente masculino e, portanto, imposto como uma prática obrigatória para homens e com restrições, pouca visibilidade, para mulheres. É um dispositivo de normalização dos corpos quanto sexo/gênero. Porém, não deve haver imposições vindas do discurso heteronormativo ou o rechaço dos/aos LGBT. Devemos sim, lembrar que ao ocuparmos esse espaço com nossos corpos subversivos, com nossas performatividades trata-se, também, de um ato político, que mostra a diversidade que existe, consome e, penso que, através das nossas práticas podemos diminuir os preconceitos, sempre observando as ações para não reforçarmos discursos machistas ou LGBTfóbicos.
Se faz necessário desconstruir a ideia de que Futebol é exclusividade de macho. Daí a importância da Coligay, assumir que o Futebol também é das bichas, das lésbicas, das bi, das travesti e das pessoas transsexuais!

REFERÊNCIAS
BUTLER: Problema de Gênero. Feminismo e subversão da identidade. (2003)
______ . Corpos que pensam: sobre os limites discursivos do “sexo”. in: LOURO, Guacira Lopes. O Corpo Educado Pedagogias da Sexualidade (2000)
FOUCAULT: Vigiar e punir (1999)
LOTMAN: Cultura e Explosão (1999)
TEXTO
Felipe André Schütz Santos
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