Um corpo (e uma corporalidade) cansado
Paula Coruja
Eu devia um artigo para esse blog que fosse acadêmico, que se relacionasse com os meus temas prioritários de pesquisa (ou, quem sabe, desse uma pitada do fim da tese). E muito do que eu pesquiso explodiu (ó o Lotman passando por aqui) depois da pandemia. O corpo sempre foi tema para discussão: o que é, quais seus limites, o que dele pode ser expandido, questões estéticas, questões de representatividade a partir dele, como e porquê ele é medicado, o que dele é natureza, o que dele é cultura, será que ele separa os dois?
Questões relativas ao corpo vêm permeando a pesquisa em muitas áreas de conhecimento e com a comunicação não seria diferente. Pensando especificamente em meios de comunicação (o que é uma pontinha, apenas, da pesquisa em comunicação), já víamos a formação e processos do corpo eletrônico (ó a professora Nísia passando por aqui) interrelacionados às semiosferas as quais fazem parte. Mas, como já falei, a pandemia explodiu tudo ao transformar toda e qualquer pessoa com smartphone que tenha acesso à internet (mais de 90% da população brasileira, segundo estimativa) em um corpo eletrônico pandêmico (ó eu passando aqui também).
Mas enquanto eu estava vendo corpos eletrônicos pandêmicos, eu também estava sendo. Vi minha corporalidade em diversos modos possíveis de presença. E senti cada uma delas cada vez mais exausta. Cansada. Triste. Cada vez mais uma presença sem corpo, de tela desligada. Um corpo cansado de existir em si mesmo e para si. Corporalidades cada vez mais estáticas, isoladas. Se a cultura só acontece e muda em relação, assim também são os corpos. Quanto menos relações, menos possibilidades de imprevisibilidades. E quando tudo fica igual, dia após dia, mês após mês, só resta mexer no que já está ali. Incluindo tudo que a gente não quer ver. E nesse processo temporal de transformação em algo outro, cada vez mais senti me transformar em algo mesmo. E senti uma outra corporalidade que eu não conhecia, a corporalidade deprimida.
Puxada por pensamentos cada vez mais repetitivos e desesperançosos, a depressão vai transformando o corpo e tudo que o rodeia, que entra na composição dessa corporalidade. Passando pelo desinteresse pela manutenção do próprio corpo (coisas básicas, como higiene) e do lugar em que habita. Aos poucos vemos esse corpo definhar, junto com tudo que há ao redor dele – e na pandemia esse “ao redor” foi ficando cada vez menor e menos acessível a outros corpos. E o corpo vai cansando de tudo. Até de existir.
Eu, confesso, cheguei a cansar de existir. Ao entrar cada vez menos em relação, meu corpo não parece necessário em nenhuma semiosfera. No isolamento a gente sente uma desconexão com o outro. Até que esse outro (qualquer deles) para de fazer sentido com a gente. E o vislumbre do mundo lá fora, por janelas mediadas, não ajudava na tarefa de restabelecer essa esperança. E olhar para as janelas (físicas) do isolamento, também era tudo mais do mesmo.
Deixar essa corporalidade por outra demandava o que não se podia ter: relação (incluindo a relação médica com interação medicamentosa para restabelecer um equilíbrio neuroquímico). Mesmo sabendo que a pandemia não acabou, fui tirando meu corpo da inércia. Estou em processo, vendo em mim uma corporalidade que eu não conheço, um corpo que aflora ao ressocializar, que não se entende bem, que ainda tem medo, não tem bem certeza do seu lugar, mas que a partir das novas conexões em andamento se depara com a imprevisibilidade e, aos poucos, respira novamente. Um processo extremamente doloroso, como sempre é após meses sem se mexer. Sim, continuo exausta. Mas com esperança de que ao restabelecer relações, consiga voltar a me sentir parte.
Como citar este artigo
CORUJA, Paula. Um corpo (e uma corporalidade) cansado. 2022. Edição: Ricardo Machado. Disponível em: ufrgs.br/corporalidades/um-corpo-e-uma-corporalidade-cansado. Acesso em: 27 Jun. 2022.
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