“O CCRU não existe, nunca existiu, e nunca vai existir” – Uma introdução – Parte I
A frase que ilustra a contracapa de Writings 1997-2003 (CCRU, 2020) foi, conforme consta já na introdução ao livro (CCRU, 2020, p. 7), afirmada pela própria Universidade de Warwick – instituição cujo Departamento de Filosofia abrigou uma porta com estas mesmas quatro letras de 1995 até, pelo menos, 1998. Traçar linhas que circunscrevem o que foi – ou não – o CCRU é uma tarefa complexa, que parece implicar em revirar e fazer uma escavação na história tanto da internet quanto de certos desdobramentos contemporâneos da filosofia e das ciências humanas como um todo.
A nota de explicação inclusa no glossário disponibilizado originalmente no blog do coletivo – e adicionado como apêndice à coletânea de textos organizada[1] e publicada pela editora Urbanomic – não é muito esclarecedora à primeira vista (e talvez nem à segunda), mas ajuda a inserir o leitor no tom geral do que se espera da produção do Cybernetic Culture Research Unit: “CCRU: Entidade hipersticional críptica, com visíveis tendências Neolemurianas, envolvida na escritura de diversas transmutações microculturais” (CCRU, 2020, p. 359). Se nada disso parece fazer sentido, é porque funciona; uma desorientação inicial, penso, é parte integrante – e imprescindível! – da experiência de mergulhar, ainda que de forma breve, na produção do grupo.
Em uma história tão cheia de pontas soltas, traçar um caminho linear, cronológico, meramente documental, parece poder reduzir o potencial de instigação de curiosidade que o universo teórico do CCRU proporciona – afinal, como os próprios afirmam: “a questão ‘da’ história do CCRU é problemática, uma vez que suas atividades são caracterizadas pelo seu antagonismo a uma temporalidade estável […] o processo do CCRU se conecta a coincidências, glitches e consequências imprevistas – quebras, viradas e curvas no tempo” (CCRU, 1999?).
Uma chave de leitura inicial adequada ao enorme buraco de minhoca que constitui a cosmologia desenvolvida pelo e ao redor do grupo talvez seja algo próximo ao trajeto percorrido por Simon Reynolds[2], em reportagem realizada ainda no final dos anos 90; segundo o jornalista, seus únicos contatos com o coletivo até então se tratavam dos textos “desorientadores” publicados na Abstract Culture[3] e por e-mails recebidos descritos como “intencionalmente vagos”. Em um dos “comunicados[4]” enviados para Reynolds, o CCRU se define como “Enxames-Convergências datificáveis em processo. Não possui genealogia, centro geográfico, atribuição biográfica ou dependência institucional” (CCRU, 2020, p. 7). Apesar disso, relata, “desencadeia-se retrocronicamente” de outubro de 1995, utilizando uma universidade do Reino Unido como habitat temporário e afirma que a sua “emergência foi acelerada por uma série de singularidades”: as conferências Virtual Futures[5], o livro Cyberpositive[6], feito em colaboração com o coletivo O[rphan] D[rift][7], a revista ***collapse[8], o evento Afro-Futures[9], a zona experimental Ko::Labs[10], o evento Virotechnics[11], e a mostra colaborativa Syzygy[12] – em parceria novamente com O[rphan] D[rift].

Antes de entrarmos, de fato, no que começou a acontecer em Warwick a partir de 1995, cabe destacar a descrição de Reynolds da maneira como foi recebido, para a realização de seu texto, no QG do CCRU já apartado da universidade, em Leamington Spa – curiosamente, na exata mesma casa onde, pouco mais de 100 anos antes, nascia Aleister Crowley[13].
Eu encontro três mulheres e quatro homens que parecem tranquilizadoramente normais. As paredes, no entanto, estão cobertas de diagramas e tabelas peculiares que sugerem a amplitude e a bizarrice das pesquisas da unidade. Antes que eu possa investigar melhor, me fazem sentar no meio de três caixas de som. O CCRU havia preparado uma re-apresentação da performance feita na Virotechnics em outubro de 1997. O primeiro tocador de fitas começa a tocar um loop de palavras que lembra a conjuração de um feitiço. Do segundo, vem um texto sinistro recitado por uma mulher americana sem expressão – não era uma apresentação, mas um tipo de poema em prosa, com uma imagética cheia de “máquinas-enxame” […]. O terceiro emitia algo que poderia ser tanto uma composição eletroacústica estilo Stockhausen ou uma música do mundo dos insetos, feita com cliques de mandíbula e pizzicatos. Mais tarde, eu descobri que era uma voz humana sinteticamente processada, com todas as vogais removidas
REYNOLDS, 2009, sp
Essa apresentação, para Reynolds, tratava-se de um exemplo extremamente preciso do que o CCRU se propunha a fazer: “uma amálgama ultra-vívida de textos, sons e imagens feitos para ‘libidinizar’ os eventos acadêmicos mais sem graça” (REYNOLDS, 2009, sp).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRYANT, Levi; SRNICEK, Nick; HARMAN, Graham. The Speculative Turn: Continental Realism and Materialism. Prahran: re.press, 2011
CCRU. Writings 1997-2003. Falmouth: Urbanomic, 2020
CCRU. A Short Prehistory of Ccru. CCRU, 1999?. Disponível em: http://www.ccru.net/id(entity)/ccruhistory.htm. Acesso em: 30 mar. 2023
FELINTO, Erick. ARQUEOLOGIA DA HIPERSTIÇÃO #00. [s.l]: Komite Zero, 2023. 1 vídeo (3h26). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=1Biy-rMEGLo&. Acesso em: 28 mar. 2023.
MARKS, Gregory. A Theory Fiction Reading List. The Wasted World, 2018. Disponível em: https://thewastedworld.com/2018/11/03/a-theory-fiction-reading-list/. Acesso em: 28 mar. 2023.
PINHEIRO, Damares Bastos. O domínio de Tamerlão : os efeitos dos presságios aceleracionistas em Marx. 2020. 177 f. Dissertação (Mestrado em Filosofia) — Universidade de Brasília, Brasília, 2020.
REYNOLDS, Simon. RENEGADE ACADEMIA: The Cybernetic Culture Research Unit. Energy Flash, 2009. Disponível em: http://energyflashbysimonreynolds.blogspot.com/2009/11/renegade-academia-cybernetic-culture.html. Acesso em: 28 mar. 2023.
SILVEIRA, Fabrício. Da arqueologia da mídia às ficções teóricas. Um giro reflexivo. VOZES & DIÁLOGO , v. 20, p. 102-118, 2021. Disponível em: https://periodicos.univali.br/index.php/vd/article/view/16959. Acesso em: 28 mar. 2023.
Notas
[1] A coletânea, originalmente publicada como um e-book pela Time Spiral Press em 2015, e posteriormente publicada em formato de livro em 2017, se propõe estritamente ao papel de documentação rígida dos textos escritos e creditados como parte da produção do CCRU. Conforme consta no prefácio à última edição, o site original do coletivo entrou e saiu do ar diversas vezes nas últimas décadas, sem qualquer esforço por parte dos membros originais de tentar preservar as publicações ali depositadas. Daí partiu a iniciativa da organização do livro, que “não é esperado que esclareça qualquer coisa, muito antes pelo contrário” (CCRU, 2020, p.1) e manteve inalteradas “infelicidades estilísticas, erros factuais, absurdos conceituais e monstruosidades ético-políticas” (CCRU, 2020, p.1).
[2] Simon Reynolds é um jornalista e crítico cultural britânico, conhecido particularmente por escritos sobre música – em especial o rock, o pós-punk e a música eletrônica – e pelo livro Retromania: Pop Culture’s Addiction to Its Own Past (2010).
[3] A Abstract Culture foi uma zine criada e publicada pelo CCRU com textos de produção própria.
[4] Intitulado de “Communique One”, o e-mail enviado para Reynolds pelo CCRU está disponível na íntegra em Writings 1997-2003 (CCRU, 2020, p.7)
[5] A conferência Virtual Futures foi um evento que aconteceu em Warwick em 1994, 1995 e 1996; se tratava de um espaço de experimentação teórica, interdisciplinar e especulativa ao redor das provocações levantadas pela iminência do novo milênio e da popularização da internet. É possível dizer que muitas das preocupações do CCRU foram gestadas, ou no mínimo intensificadas, pelo clima propiciado em Warwick pelas conferências de 94 e 95. Em 96, sua última edição, o CCRU foi o principal organizador do evento. Existe um arquivo das três edições da conferência disponível em: https://www.virtualfutures.co.uk/
[6] Cyberpositive (1995) é um romance experimental de ficção-científica que serviu como uma espécie de manifesto da proposta do O[rphan] D[rift] e de sua proximidade teórica e prática com o CCRU.
[7] O[rphan] D[drift] é um coletivo de arte experimental fundado em 1994 que segue ativo e trabalha com performances, videoarte, colagens, artes visuais, músicas, textos e interseções possíveis entre arte e tecnologia. Por conta da proximidade com os temas abordados pelo CCRU, boa parte das empreitadas artísticas do CCRU em performances e eventos eram feitas com a colaboração do O[rphan] D[rift].
[8] A ***collapse foi um periódico de filosofia experimental iniciado pelo CCRU em 1995 e descontinuado a partir de 1997. Em 2006, foi fundada a Collapse, como forma de dar continuidade à proposta iniciada na década anterior.
[9] O Afro-Futures foi um pequeno evento organizado pelo CCRU em parceria com Kodwo Eshun em fevereiro de 1996. O objetivo era explorar as conexões entre “teoria periférica, sistemas rítmicos e Jungle/Drum&Bass” (CCRU, 2020, p. 11)
[10] A Ko::Labs era o nome sob o qual eram produzidas as experimentações musicais do CCRU através, especialmente, de Steve Goodman/kode9.
[11] Virotechnics foi uma conferência realizada pelo CCRU em outubro de 1997. De acordo com Reynolds (2009, sp), a ida de Nick Land para o evento no mesmo horário em que deveria estar oferecendo um seminário na Universidade de Warwick foi o estopim para o eventual pedido de demissão de Land. Além disso, para Land, a Virotechnics foi a última tentativa do CCRU de tentar produzir o que eles queriam em um ambiente acadêmico.
[12] Syzygy foi uma mostra artística colaborativa que durou 5 semanas. Além disso, o CCRU afirma que, durante esse evento, houveram os primeiros contatos com o Continente de Lemúria – parte essencial da história hipersticional do coletivo.
[13] Aleister Crowley foi um dos mais importantes ocultistas do século XX e responsável pela fundação de Thelema, linha esotérica que teria, posteriormente, influência direta na consolidação da Magia do Caos, da qual o CCRU toma algumas premissas importantes para seu pensamento: a ideia, por exemplo, de que palavras e crenças teriam efeito direto na realidade; ou, ainda, a instrumentalização do caráter ficcional de determinados símbolos e conceitos em práticas magickas com suposto efeito no mundo material.
You May Also Like
“A Livraria”, um duelo feminino
6 de May de 2025
Memoricídios e as políticas do esquecimento de Giselle Beiguelman – Parte I
27 de April de 2023