As controvérsias da masculinização de Michael Jackson

Tornando-se um astro já na infância, Michael Jackson passou por uma série de reconfigurações de sentidos ao longo de cinco décadas, que puderam ser acompanhadas especialmente durante suas performances nos palcos e em seus videoclipes. O que chama a atenção é que as transformações físicas do cantor (abordadas no post anterior), de certa forma, acompanharam a ressignificação de sua masculinidade.
Com uma legião de fãs antes de chegar à adolescência, Jackson tornou-se símbolo precoce de um ídolo sedutor que cantava hits românticos e embalava as fantasias de garotas do mundo todo. À frente do conjunto The Jackson Five, também integrado por seus irmãos, Michael chegou rapidamente às paradas de sucesso, tornando-se presença constante em programas de televisão, onde cantava com uma voz incomum em um garoto de sua idade, pedindo uma segunda chance à namorada, em músicas como I Want You Back.
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A exploração do romantismo também esteve presente ao longo da carreira solo de Michael: mesclando ritmos como o Disco característico dos anos 1970 e o Rock. A prevalência do Pop dançante e romântico garante que a conquista domine as letras de seus hits. No início da carreira solo, o ídolo pop marca algumas de suas letras por temáticas do mundo masculino, como a paternidade, o sexo sem compromisso, os relacionamentos fugazes. É o caso de um de seus maiores sucessos: Billie Jean. Ele provavelmente tentava seguir o padrão imposto aos meninos, conforme menciona Costa (1994) já que eles, desde tenra idade, são preparados para determinado desempenho sexual, determinados comportamentos masculinos.
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A conquista e a ênfase em relacionamentos heterossexuais nas músicas também está presente nas parcerias de Jackson com outros artistas, como o ex-beatle Paul McCartney. No início dos anos 1980, Michael gravou com Paul músicas como Say, Say, Say e The Girl Is Mine, na qual os dois disputam a mesma mulher. Essa escolha de repertório parece querer auxiliar na construção de uma imagem pop de conquistador, afirmando a heterossexualidade do cantor. Contudo não parece surtir resultados tendo em vista a imagem frágil e angelical de Jackson.
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Gesto de conotação sexual que se tornou uma marca registrada das performances de Jackson é a “mão na virilha”, um grande exemplo da tentativa de construção de sentidos sexualizados e viris. Postura que garantiu maior polêmica e visibilidade para as apresentações do cantor, o gesto foi alvo de diversos comentários em jornais e programas televisivos especializados em celebridades, sendo inclusive tema de uma entrevista com os pais e irmãos do cantor. Segundo afirmou a mãe de Michael, Katherine, durante a entrevista, “as pessoas diziam que ele pegava lá, mas não era lá, era um pouco do lado. Depois disso, ele começou a pegar lá”. Além da exploração do aspecto sexual, podemos notar, em clipes como “Bad” e “Beat It”, que falam de lutas entre gangues, a exposição da competitividade e da agressividade, características “que a sociedade considera como masculinas”, segundo Pamplona (1994, p. 88).
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Dentro da construção de uma imagem Pop e masculina, a produção de videoclipes longos e caros, com grandes investimentos em efeitos especiais, também teve uma grande importância. Desde as primeiras superproduções, famosas pelas coreografias e efeitos inovadores para os fins dos anos 1970 e 80, os videoclipes de Jackson também serviram para a sua tentativa de firmar-se como uma persona masculinizada e viril. No clipe de Remember The Time, de 1992, com custo de US$ 1.200,00, segundo reportagem da revista Rolling Stone de 2012, Jackson beija pela primeira vez nas telas uma mulher, a top model Iman, no papel da esposa do faraó, este interpretado por Eddie Murphy.
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Também na década de 1990, o astro pop enfrentou uma série de dificuldades, como acusações de abuso sexual de menores e dependência de medicamentos, e tornou-se próximo da filha de Elvis Presley. Em 1994, Michael e Lisa Presley se casaram. Apesar da relação ter durado apenas 19 meses, foi emblemática por mostrar o cantor acompanhado em público de uma mulher com quem tinha um relacionamento, tanto em eventos musicais, entre eles o MTV Music Awards, quanto em entrevistas, como a feita pela jornalista Diane Sawyer com o casal, em 1995, segundo reportagem de 2003 da BBCBrasil.com.
No mesmo ano, ambos estrelaram o clipe de “You Are Not Alone”, em que apareciam nus. As imagens mostram cenas sensuais, que parecem não ter convencido na significação da sexualidade hetero pela aparência angelical de Michael, quase andrógeno: pele branca, franja no rosto, lábios avermelhados, peito sem pêlos, sobrancelhas desenhadas, traços do rosto delicados, formas esguias. A virilidade e agressividade dos anos 1980 parecem ter perdido espaço, indicando uma transformação da figura pública do artista, mais perceptível nos anos seguintes.
A sexualidade de Michael Jackson não deveria ser uma das principais pautas de sua carreira, mas, sim a qualidade de seu trabalho musical. Contudo, a ambiguidade despertada pela sua figura em uma sociedade em que os afazeres das celebridades ganham o status de notícia, o cantor não pode escapar de constantes especulações sobre suas opções sexuais.
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Referências
Os vídeos mais caros de Michael Jackson: http://rollingstone.uol.com.br/galeria/michael-jackson-completaria-54-anos-hoje/#imagem0. Visualizado em 22 de maio de 2013.
Presley lamenta ter se casado com Michael Jackson: http://www.bbc.co.uk/portuguese/cultura/030328_lisafn.shtml. Visualizado em 23 de maio de 2013.
COSTA, Ronaldo Pamplona da. Os onze sexos: as faces múltiplas da sexualidade humana. São Paulo, Editora Gente, 1994.
Texto
Nísia Martins do Rosário
Guilherme Almeida
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One Comment
Aloysio Letra
Muito bom o texto. Importante ver que somente atualmente uma figura pública como MJ teria espaço para performar sua real masculinidade/feminilidade. Estou escrevendo sobre masculidades negras e este material me ajudou bastante. Obrigado !