
Explorando as formas de fazer arte
“Uma artista educadora ou uma educadora artista.” É assim que a escritora, artista visual e ilustradora Paula Mastroberti se define. Sempre muito fascinada pelo mundo das artes, desde pequenininha, Paula encontrou nesse universo espaço para explorar toda a sua criatividade e maneira de ser.
Os primeiros contatos com a arte e a literatura começaram em casa, com os pais. Foi em especial com a mãe, uma exímia apaixonada pelas artes, que Paula aprendeu a explorar nos livros seu interesse pelo tema. “A minha mãe costumava comprar muitos livros sobre arte, história da arte. Desde criança me habituei a conviver com esses livros, e sempre gostei muito de ler.”
Em um lar onde as manifestações artísticas estavam presentes por todo lado, a artista cresceu. Com 18 anos ingressou no curso de Artes Visuais, no Instituto de Artes da UFRGS. Foi durante esse período que iniciou sua trajetória no mercado editorial como ilustradora. Paula conta que naquela época não existia muita abertura para gêneros de arte, como os quadrinhos e as ilustrações. “Isso não era muito bem-visto pelos professores. Não era considerado arte. Então eu entrava muito em conflito com os professores por causa disso”, conta.
Segundo a escritora, esse conflito com o mundo acadêmico foi benéfico de alguma maneira, porque ele desestabiliza e possibilita o crescimento, além do aprofundamento em algumas questões sobre a arte. Paula diz que, atualmente, vê todo esse choque que teve durante a sua graduação de forma positiva.
“Houve época em que eu via isso de uma forma muito negativa quase rancorosa contra o Instituto. Hoje não, hoje vejo isso até como uma parte da formação mesmo. Porque eu fui obrigada a aprofundar as minhas bases como ilustradora e quadrinista”
Paula Mastroberti
“Eu acredito que isso tudo se atravessa em mim, e é por isso que hoje eu sou uma artista que procura atuar de uma forma muito diversificada”, afirma.


Intervenções digitais sobre radiografia da cabeça da autora. Dimensões: 1920 x 640 pixeis. Duração aproximada: 30 segundos. Data: março de 2022.
Imergindo nas palavras
Atrelado a sua paixão pela arte estava o seu amor pela literatura. Com uma imaginação muito fértil, a escritora conta que desde criança gostava de escrever poesias e inventar histórias. “Eram sempre histórias bem elaboradas, tipo policial, cheio de mistérios”, relembra.
Trabalhando no mercado editorial não demorou muito tempo para as editoras perceberem que a artista levava jeito com as palavras. Paula relata que apresentava materiais que escreveu aos editores, e isso caiu no agrado deles.
“Eu me tornei escritora por acaso. Não era muito minha ideia. A minha ideia era trabalhar como ilustradora e quadrinista”
Paula Mastroberti
Cada vez mais envolvida com o mercado editorial, Paula começou a editar livros. Foi a partir disso que, com 39 anos, a escritora embarcou em um novo desafio em sua trajetória: a pós-graduação em Letras. “Eu não via como encaixar o meu projeto numa pós-graduação em Artes, porque naquela época não abraçava o tipo de projeto que eu queria desenvolver, que era um projeto interdisciplinar envolvendo artes visuais e literatura”, conta.
De acordo com Paula, foi a partir do seu projeto de pesquisa que ela aprendeu a valorizar ainda mais as questões da arte, visto que em muitas situações dentro da pós-graduação teve que defender as linguagens da arte. “A pós-graduação acabou enriquecendo a minha formação como artista de forma indireta. Assim como a minha formação de artista repercute diretamente no meu trabalho de escritora.”
O reconhecimento pelo trabalho bem-feito chegou. Com 10 livros publicados, a escritora foi agraciada algumas vezes com as mais importantes premiações do campo literário do estado e do país. Uma das conquistas de maior expressão foi em 2006, quando conquistou o segundo lugar na categoria juvenil do Prêmio Jabuti com a obra Heroísmo de Quixote.
“Tudo é expressão humana, e tudo parte de um desejo de se expressar poeticamente. Pelo sensível. A literatura pra mim também é uma arte. É a arte de se expressar sensivelmente através de palavras”
Paula Mastroberti
Relação com os Quadrinhos
“Comecei a fazer meus primeiros quadrinhos com treze anos”, revela Paula. Desde muito jovem gostava de ler histórias em quadrinhos. As que mais chamavam sua atenção eram aquelas que tinham os desenhos mais elaborados, com muitos detalhes. “Eu gostava desses desenhos mais realistas quando era criança. À medida que fui lendo mais quadrinhos e me aprofundando, fui verificando as possibilidades que eles oferecem, que vão muito além de um simples desenho convencional.”
Conseguir o apoio do mercado editorial para publicar as suas criações em quadrinhos não foi nada fácil. De acordo com a escritora, no início todas as editoras diziam que o tipo de história que ela produzia não era apropriado para ser publicado. “Primeiro porque o quadrinho no Brasil para adultos não era uma coisa em que se pensava. Sempre relacionavam esse tipo de histórias com o público infantil“, declara.
Foi apenas em 2012 que Paula teve a oportunidade de publicar um de seus quadrinhos, cujo nome é Adormecida: Cem Anos Para Sempre. Foi a primeira narrativa gráfica com roteiro e ilustrações feitos por uma mulher publicada no Brasil.
“Até então nós tínhamos algumas mulheres já publicando por aqui, mas ou elas faziam o roteiro, ou elas faziam as artes. No caso de Adormecida, ela é uma obra de apenas uma autora”
Paula Mastroberti
A publicação chamou a atenção do Instituto Goethe de Porto Alegre, que convidou Paula para participar do projeto Osmose – Brasil e Alemanha em Quadrinhos. A iniciativa promoveu um intercâmbio artístico, por quatro semanas, entre 6 quadrinistas, sendo 3 brasileiros e 3 alemães. A escritora foi para a cidade de Berlim, na Alemanha, e produziu o conto gráfico Duas Rosas em Berlim, que foi inspirado em um conto de fadas. “É uma predileção minha trabalhar com contos de fadas”, conta.
O projeto, publicado em 2013, deu uma vasta visibilidade ao trabalho de Paula como quadrinista: “A repercussão de todo esse trabalho permanece ainda hoje. Eu acho muito legal porque os quadrinhos hoje em dia não são mais lidos como antes, as pessoas leem muito pouco quadrinho”, diz.
O que é arte?
O conceito de arte é vasto, e praticamente cada indivíduo tem a sua própria definição. De acordo com Paula, a sua concepção sobre “o que é arte“ foi se modificando ao longo de sua vida.
“Eu já tive meus conceitos de arte quando eu era criança, e para mim arte era aquilo que minha mãe me mostrava. Aquelas pinturas, aqueles artistas. Depois eu fui aprendendo a desconstruir essa noção de arte ainda muito focada nos grandes pintores, escultores, na arte de museu”
Paula Mastroberti
Segundo a escritora, a sua definição de arte é muito ampla. ”Para mim tudo é arte, porque arte vem do latim ars: habilidade, competências. Habilidade de se expressar, habilidade de criar – e todos somos criativos.” Entretanto, ela reitera que o domínio da linguagem poética como forma de se expressar e se responsabilizar perante a sociedade é próprio daqueles que se formam e se aprofundam sobre as questões da arte. “A gente tem que separar tudo aquilo que é a arte como expressão humana, onde todo mundo é capaz de se expressar artisticamente, da profissão de artista, que é aquele que se empenha, que investiga, que estuda profundamente as linguagens de expressão, as modalidades formais”, afirma.




Planos para o Futuro
Sobre os projetos em aberto, Paula fala que está produzindo sua própria versão do clássico Peter Pan, de J.M. Barrie. “Estou desenvolvendo em forma de quadrinhos, trazendo o Peter Pan para o Brasil. Fazendo um sincretismo entre as tradições culturais inglesas e a cultura brasileira”, conta.
A escritora também está envolvida no projeto Livros Impossíveis, no qual ela se inspira na ideia de livro e trabalha com personagens femininas da literatura clássica que não possuem muito destaque. Segundo Paula é um trabalho de objetos tridimensionais que partem da ideia de um livro, mas acabam se transformando praticamente em esculturas.
“Estou transformando elas em livros. Elas são um livro. O livro é o corpo dessas mulheres, a grande questão dos livros impossíveis é como esses livros te oferecem ou não a leitura”
Paula Mastroberti
De acordo com a artista, esses projetos estão sendo desenvolvidos lentamente, pois ela vem se dedicando exclusivamente à função de professora do IA. Paula diz se sentir muito confortável na posição de docente. “Eu não consigo nem imaginar a Paula artista sem a Paula professora. Sou artista porque sou educadora e acredito no potencial da arte como um lugar de educação, assim como acredito que a educação é o lugar da arte, porque educar é uma arte”, conclui.




