
Ressignificação através da arte
*Foto: Angelica Dass – Meu Pantone: autorretrato cujo fundo foi colocado
a minha cor Pantone correspondente_ referência Humanae 2012
Normalmente, a maioria dos artistas tem seu primeiro contato com a arte durante a infância. No entanto, foi já na vida adulta que Ário Gonçalves teve sua paixão pela fotografia consolidada. Apaixonado por capturar imagens, o artista viu nessa técnica das artes visuais uma maneira de registrar o mundo para além daquilo que se vê.
A proximidade com a fotografia se estabeleceu de fato aos 23 anos por meio de fotoclubes. A partir daí, teve contato com fotógrafos amadores, além de praticar e aprender técnicas para aprimorar ainda mais a captura de imagens. “Eu aperfeiçoei muito meu jeito de fotografar”, reitera. “Desenvolvi um olhar mais atento e mais artístico.” Com isso, passou a participar de eventos como bienais, concursos internacionais, nos quais conquistou algumas premiações. Desde então, a fotografia passou a integrar completamente a jornada de Ário.
Apesar de sua caminhada por trás das lentes ter começado no início da vida adulta, ingressou no curso de Licenciatura em Artes Visuais somente em 2016, aos 46 anos. Isso porque o artista foi fotógrafo criminalístico no Instituto Geral de Perícias por 20 anos. No decorrer desse período, suas fotos se transformaram, em razão de ele não poder interferir ou modificar o que capturava. “Minha fotografia passou a ser unicamente técnica. Elas faziam parte de um laudo que iria para um inquérito e daqui a pouco para o Judiciário em um julgamento”, afirma. Assim, ao longo da sua carreira na criminalística, Ário acabou se desvinculando totalmente das fotos artísticas.
“Quando se fica muito tempo lidando com essas cenas brutais tu tenta, pelo menos naquele período, te desumanizar, porque senão tu não aguenta”
Ário Gonçalves
Foi prestes a se aposentar que o fotógrafo decidiu buscar uma ressignificação. Ao ingressar no Instituto de Artes, ele pôde finalmente retomar seu olhar artístico. Fez isso fotografando os entornos da cena do crime. A partir daí, o artista retornou com a sua sensibilidade e voltou a fotografar espaços da cidade que chamavam a sua atenção. “Comecei a fazer uns devaneios pela cidade e fotografar o que eu via de Porto Alegre”, diz. Ário tem preferência por capturar imagens de zonas periféricas, pois, segundo ele, a região central todo mundo vê e conhece, já as periferias são as partes invisíveis da cidade.
“Eu estava caminhando para uma desumanização por conta do meu trabalho e com a arte eu me reumanizei, recuperei uma sensibilidade que estava sendo perdida”
Ário Gonçalves
Durante a graduação, entrou no Núcleo de Arte Impressa (NAI), da UFRGS, o que foi um divisor de águas para a sua trajetória acadêmica e profissional. “Eu ingressei no grupo justamente porque, dentro da Universidade, era o segmento que mais se aproximava do que eu fazia com fotografia”, declara. De acordo com Ário, havia poucas disciplinas ligadas à fotografia no curso de Artes Visuais e entrar para o NAI fez com que ele se aproximasse mais das gravuras. “Porque o NAI trabalha com esse entendimento, esse pensamento de gravura e seus desdobramentos”, conta. “E foi aí que eu realmente percebi que era esse o caminho que eu queria trilhar.”
Pesquisa e reflexões
Segundo Ário, outro marco para a sua caminhada como artista e como pessoa foi voltar a questionar a falta de representatividade negra dentro dos espaços que ocupava. O fotógrafo conta que foi criado na periferia de Alvorada e passou toda a sua adolescência tendo contato com a comunidade negra e refletindo sobre diversas questões. Depois de passar no concurso público e engrenar na carreira de fotógrafo criminal, começou a se afastar um pouco das suas origens. “Naturalmente os corpos negros vão sumindo da tua volta, vão desaparecendo, só que tu não te dá conta disso, porque vai se tornando normal”, reflete.
“Então, quando eu entrei no Instituto de Artes, para mim, essa falta de corpos negros dentro da sala de aula era natural, porque onde eu circulava eu sempre era um dos únicos ali”
Ário Gonçalves
Somente na reta final do curso o artista percebeu essa ausência de pessoas negras no seu entorno, além da falta de artistas negros sendo citados como referências nas aulas. Foi analisando um livro que essa percepção veio à tona. Ário notou que naquele livro havia poucas imagens ou representações de pessoas negras e, quando tinha, elas eram quase brancas.
“E aí passa um filme, um flash na cabeça da gente. O Instituto de Artes é isso daqui”, relembra o artista. Ao perceber isso, Ário criou materiais educativos que trouxessem artistas negros como referência e definiu esse assunto como pesquisa para o seu TCC. De acordo com o fotógrafo, durante seu estudo encontrou vários outros artistas que também perceberam isso no final da formação. Ário comenta que isso acontece em razão de a graduação dar um embasamento teórico para os estudantes-artistas negros, o que traz coragem para falarem de questões que não tinham falado até então.
“Se tu fala sobre isso no meio da formação ou tu não vai ser ouvido ou tu vai falar de uma maneira errada, porque, no meu caso, agora com 53 anos, tu passa mais de 50 anos sendo colocado no lugar de subalterno, então acaba não tendo a coragem de falar quando entra”
Ário Gonçalves
Referências
As referências que Ário utilizou para estruturar sua pesquisa são variadas. O fotógrafo transitou por artistas como Angélica Dass, carioca que mora em Madrid e trabalha na criação de um grande mosaico – intitulado Humanae -, em que cada retrato é apresentado num papel de parede da cor correspondente ao da pele da pessoa. O projeto vem com o forte intuito de abolir a discriminação e encorajar o diálogo sobre os estereótipos e preconceitos que condicionam nossas percepções. Traz também o fotógrafo e artista visual Eustáquio Neves com o trabalho chamado “Boa Aparência”, em que ele confronta textos de classificados do período colonial com ofertas de emprego dos dias de hoje.
Além disso, Ário trouxe artistas do próprio Instituto de Artes, como a graduada Pâmela Zorn Vianna, com sua pesquisa “Este solo não é ruim para certos tipos de flores”, em que a artista reflete sobre o pertencimento de corpos mestiços/negros na sociedade e sobre sua pluralidade. “Ela também descobriu a negritude com o tempo, não foi uma coisa que já nasceu com ela. Ela foi descobrindo”, afirma Ário.
Ainda para conversar com seu trabalho como fotógrafo criminal, o graduando traz a perita criminal e artista visual Berna Reale, com a performance “Ginástica de Pele”. Nesse trabalho, Berna reúne mais de cem jovens entre 18 e 29 anos (média de idade da população carcerária no Brasil) que já foram abordados pela polícia e simula o exercício de prender, de abordar e de encarcerar essa juventude. “Escolhi esse trabalho porque na primeira vez que o vi pessoalmente eu me emocionei muito”, conta.
“A Brigada Militar impõe essa condição. Ela discrimina e normalmente age com mais contundência na zona de periferia, e eu sei do que se trata isso porque eu cresci nesse lugar”
Ário Gonçalves
Trabalho mais marcante
Sobre seus projetos, Ário diz que não costuma se apegar a eles em razão de ter ficado muito tempo produzindo fotos públicas, que viajavam por diversos lugares. Após voltar a praticar um olhar sensível, o graduando passou a juntar a fotografia criminal com a fotografia artística. “Eu percebi que todas aquelas pessoas que eu fotografava, que estavam mortas, também tinham uma história”, diz. “Talvez por isso o trabalho da Berna tenha me tocado tanto, porque o que eu fotografava era o que não estava no trabalho dela.”
A partir daí, o fotógrafo passou a associar as imagens criminais que fazia com alguma obra da história da arte. Com isso, Ário começou a relacionar a escultura Pietà, de Michelangelo, que mostra Jesus morto nos braços de sua mãe, Maria, com as cenas dos crimes que fotografava. “Eu comecei a observar que a mãe era sempre a única pessoa que chorava de verdade por aquele jovem que tava ali, independente do que ele tivesse feito”, declara.
Assim, Ário transformou essa relação em um ensaio intitulado As Dores de Maria. Nele, o fotógrafo imprimiu uma tela de serigrafia com as tatuagens extraídas dos corpos que fotografava e as costurou em um manto. “E fiz esse ensaio que representava isso: a Maria pegando seu Cristo morto, só que na contemporaneidade”, relata. O projeto foi feito dentro do prédio incendiado do Instituto de Criminalística e uma das fotos participou da exposição dos cinco anos do NAI.
“Esse manto da Maria ficou com as tatuagens por isso, porque ela leva a dor, ela leva a saudade, leva a falta do filho que foi colocado nesse manto através dessas tatuagens”
Ário Gonçalves
Ário Gonçalves como artista
“É um cara que faz muitas coisas ao mesmo tempo e sempre acha que podia ter feito melhor.” Assim que o fotógrafo define sua atuação no circuito artístico. Atualmente, o trabalho de Ário está se modificando por conta de reflexões sobre questões raciais voltarem a permear a sua vida. Algumas de suas obras passaram a incomodá-lo por conta desse contato com essas novas percepções. “Eu sou dúvida. Às vezes pareço muito certeza, posso até transmitir isso, mas eu sou dúvida o tempo todo”, afirma.
De acordo com ele, depois que começou a se informar, a ver outras coisas, passou a questionar o próprio trabalho e perceber que há poucas pessoas negras nele. Por isso, sua ideia para este ano é espalhar o material que está produzindo e pesquisando no momento. Sua intenção é que essa pesquisa atinja o público, para que as pessoas consigam encurtar esse caminho e percebam a questão do racismo antes de chegar ao ponto que chegou.
“Se tu perceber tudo isso antes eu acho que a gente já consegue lá no futuro dar uma amenizada. Nós não temos a pretensão de salvar o mundo, mas ao menos tentar dar uma melhorada”
Ário Gonçalves





