
Criando Horizontes
*Foto: Flávio Dutra/JU
“A gente faz contato com a arte, e a arte faz contato com a gente.” É assim que a artista Elida Tessler diz que acontece a relação do ser humano com o mundo artístico. Oriunda de uma família conectada com o mundo das artes, desde cedo, ela foi influenciada a desbravar o universo artístico. “Minha mãe oferecia sabão para mim e meu irmão para fazermos esculturas, para criarmos formas”, diz.
Na infância, participou da escolinha de artes da UFRGS, onde pôde emergir em um universo repleto de criatividade. “Era uma entrada num outro espaço, em que coisas incríveis pudessem acontecer, e isso acontecia justamente porque havia materiais específicos, como a argila”, comenta. A artista conta que tem a sensação de sempre ter tido essa aproximação íntima com a arte.
“Eu acho que eu sempre quis ingressar nessa história da arte, de saber por ela, através dela”
Elida Tessler
Os caminhos de Elida sempre rumaram em direção à graduação em Artes Visuais. “Eu tinha certeza de que a minha escolha por um curso e uma universidade seria a UFRGS e o Instituto de Artes, era quase uma única opção”, relembra. E assim foi feito: em 1980, ingressou no IA. E logo em seguida foi convidada a dar aulas na Escolinha de Artes da UFRGS. “Eu trabalhei como professora sendo estudante até 1988”, recorda. Na sequência, foi cursar doutorado em Paris. Quando retornou ao Brasil, Elida se tornou professora do IA.
Me dá a sua palavra?
Ao longo de sua trajetória, Elida realizou alguns trabalhos marcantes. Um deles é “Você me dá a sua palavra?”, que surgiu em uma viagem da artista ao norte do país, durante uma corrida de táxi. Segundo ela, naquele dia houve um escândalo político na cidade, e o prefeito havia sido preso. “Eu fiquei com essa palavra na cabeça: prender. Por que prenderam?”, relembra. “Daí eu soube pelo motorista de táxi que o então prefeito teria desviado verbas, e a expressão desse motorista foi exatamente – ‘Mas você não sabe?’. Eu realmente não sabia, e a indignação dele era tanta que disse – ‘Porque ele faltou com a palavra!’”.
A artista conta que naquele momento ligou a palavra “prender” com a frase “faltou com a palavra”, e a partir disso veio a necessidade de parar e comprar prendedores de roupas. “Eu tirei um prendedor da embalagem e perguntei ao motorista: ‘Você me dá a sua palavra?’”, conta.
De acordo com Elida, atualmente vivemos em um momento em que a palavra perdeu um pouco o valor, não possuiu a mesma potência de antigamente. “Quem é que mantém a sua palavra? Quem é que dá a sua palavra? A palavra se sustenta?”, questiona.
“Acho que tem uma questão de sustentação da palavra. E isso tudo, claro, não nasce junto com o trabalho em 2004, mas vem-se construindo”
Elida Tessler
Como os prendedores são estendidos em cordas de varal, esse trabalho, ela acrescenta, faz com que formalmente se assuma uma linha, que é uma linha de tempo, uma linha de horizonte. E, portanto, não se marca especificamente o ponto de início e o ponto final. Talvez, reflete, ajude outras pessoas a perceber a vida quase como uma pauta, uma partitura, uma possibilidade de obras abertas.
Inspirações
É da arte produzida por palavras que Elida tira muitas das inspirações para os seus trabalhos. “São principalmente objetos relacionados com a literatura e os textos literários”, diz. Este é o caso do seu mais novo projeto, a exposição “PALAVRAR”, que celebra os 90 anos do escritor, filósofo e tradutor Donaldo Schüler, além de festejar a extensa parceria entre os dois.
A mostra acontece simultaneamente em três espaços de Porto Alegre: Centro Cultural da UFRGS, Galeria Bolsa de Arte e Biblioteca Pública do Rio Grande do Sul. No Centro Cultural da Universidade, a artista expõe mais de 500 pratos de porcelana que trazem, cada um, um verbo no infinitivo retirados do livro “A arte no horizonte do provável”, publicado em 1969 por Haroldo de Campos.
Segundo Elida, um dos objetivos do trabalho é dar voz ao escritor, além de ocupar um espaço tão importante para a pesquisa sobre arte. “Ele é somente isso, um horizonte provável, não um horizonte absoluto, porque não há nenhuma ideia absoluta nesse trabalho”, afirma.
“Ele é essa possibilidade aberta de jogar, de brincar, de conviver em meio aos verbos, de sonhar, de propor um outro texto, de conviver com a palavra”
Elida Tessler
Perspectivas
Elida revela alcançar uma sensação de completude com “PALAVRAR”. “Essa mostra eu acho que já realiza muito do que eu sempre quis, do que eu sempre fiz e do que eu sempre faço. De tomar a palavra para si e oferecer também a palavra aos outros de outras formas”, arremata.
Entre os planos ainda não concretizados, a artista planeja se aprofundar no universo da tradução. “Tenho uma vontade imensa de ingressar nesse mundo da tradução, e eu acho que muito pelo Donaldo, mas eu quero inventar minha própria forma, porque para mim não seria uma questão somente de idiomas, mas de cruzamento de linguagens”, conclui.





