
Ancestralidade, espiritualidade e arte
Foi durante a graduação em Design Gráfico, em Santa Maria, que Rafael Souza descobriu sua paixão pelo meio artístico. Mesmo seguindo o curso até o final, o artista nunca havia se envolvido integralmente com as artes. A partir de formado, entretanto, passaram a surgir oportunidades de trabalho relacionadas à cultura e à arte, o que só aumentou o seu contato com a área que hoje estuda e pratica.
Apesar de a paixão pelo mundo das artes sempre ter existido, o artista ingressou no curso de Licenciatura em Artes Visuais na UFRGS somente em 2016. Natural da cidade de Júlio de Castilhos, no interior do estado, Rafael passou a participar de oficinas culturais com crianças e se apaixonou. “Eu vi que gostava também dessa coisa da licenciatura, da educação”, conta. “Nessa experiência, eu me senti à vontade.” Assim, com o tempo, Rafael foi percebendo a necessidade de seguir na área de arte-educação. “Esses trabalhos reforçaram aquilo de fazer um pós ou outra graduação. Aí resolvi voltar a estudar e entrar no curso de Artes da UFRGS”, reitera.
Segundo Rafael, sua trajetória na graduação foi marcada por bastante trabalho. Atuou por cinco anos no Programa de Pós-graduação em Artes Visuais (PPGAV), fez estágio no Museu de Arte Contemporânea (MACRS), no Hospital Psiquiátrico São Pedro e na Bienal do Mercosul. “Sempre trabalhando em função da arte”, afirma. “No Hospital São Pedro, por exemplo, trabalhava como oficineiro na oficina de criatividade com os pacientes.” Em função do circuito artístico da cidade ser muito fechado, de acordo com o artista, trabalhar em diferentes lugares foi uma necessidade para sobreviver. “Eu sempre fiz o curso em três turnos: estagiava de manhã num lugar, à tarde em outro e à noite eu fazia as cadeiras”, relata.

Obra que estampa o site do JU Cultura nesta quinzena.
Além disso, dentre as dificuldades que o artista enfrentou durante a graduação, uma delas foi conciliar as disciplinas com os estágios. “A universidade pública deve pensar mais no público que já é mais velho, que já é adulto, e não [somente] naquele estudante que tem 17 e 18 anos, mora com os pais e tem esse conforto”, diz. Rafael conta ainda sobre o sistema das Artes Visuais ser muito elitizado, embora tenha sofrido mudanças consideráveis nos últimos tempos. “Eu acho que o curso deveria dialogar mais com a comunidade, com a cidade e com os artistas locais também”, pondera. “Acho que as pesquisas deveriam ser mais direcionadas para as nossas coisas, para o que é daqui.”
“O nosso regional não precisa ser só o gaúcho gaudério, tem muitas coisas na nossa cultura, muitas outras frentes, muita riqueza. A cultura afro, por exemplo, infelizmente é pouquíssimo explorada”
Rafael Souza
Pesquisa e espiritualidade
A religião sempre foi algo muito presente na vida de Rafael. Desde jovem, o graduado tem contato com as religiões de matriz africana, mas nunca havia de fato se inserido nelas. No entanto, após passar uma temporada em Santa Catarina, sentiu sua espiritualidade se fortalecer ao lado das praias. Foi quando descobriu ser filho de Iemanjá, orixá das águas. Era o que faltava para Rafael ingressar de vez na religião que sempre permeou seu caminho.
Durante a escolha do tema para seu TCC, o artista já vinha fazendo alguns trabalhos de desenho e pintura com essa referência da religião e, mais precisamente, de Iemanjá. Com isso, já sabia que queria seguir essa linha na sua pesquisa. “Eu faço uns desenhos grandes, umas pinturas em painéis, e eu achava que meu trabalho ia se desenrolar por aí”, conta. Surgiu, contudo, a necessidade de produzir algo a mais para a pesquisa em função de a religião afro ter bastante relação com a corporeidade. “Eu acabei sentindo a necessidade de experienciar e vivenciar tudo”, afirma. “Então eu comecei a ir aos eventos relacionados a isso para poder sentir por que eu queria fazer alguma coisa de performance.”
Assim, Rafael produziu uma fotoperformance em que traz a representação de mãe Iemanjá. O artista foi até Torres começar o processo do trabalho, intitulado “Mãe D’água, Macumba, Iemanjá, Artes Visuais e Nação Africana”, e finalizou em Porto Alegre, nas pequenas praias da capital. “Tentei expandir aquela experiência e testar, porque era uma novidade para mim a fotoperformance”, diz. A vivência durante a produção, segundo Rafael, foi uma busca pelo axé, pela energia e pela ancestralidade à beira das águas.
“Buscar pelo axé do orixá, aquela força ancestral, aquela energia, chegar no lugar e ver que eu realmente me sentia conectado, sentia aquela vibração, foi bem gratificante, eu fiquei bem satisfeito com o trabalho”
Rafael Souza
Em meio a tantos acontecimentos, Rafael está prestes a concluir a sua segunda graduação. Ele encara a futura conquista com muita felicidade, pois, com todas as dificuldades que um estudante-artista enfrenta durante esse percurso, conseguiu chegar ao fim.
Referências
As referências que Rafael utilizou para estruturar sua pesquisa são variadas. Entre elas está uma exposição intitulada “Violência e Paixão”, realizada no Santander Cultural no começo dos anos 2000 e que trazia obras expressionistas de artistas brasileiros muito admirados por ele. Recorre também ao artista plástico Iberê Camargo, outra inspiração expressionista do estado junto com Karin Lambrecht, pintora e desenhista que dialoga em suas produções com correntes do expressionismo.
Além disso, o graduado transitou por artistas estrangeiros da História da Arte, como Antoni Tàpies, pintor espanhol que, de acordo com Rafael, era ligado à espiritualidade e produziu trabalhos muito expressivos e gráficos. Também perpassam a obra de Rafael artistas como Jean-Michel Basquiat, que possuía uma tendência neoexpressionista, retratando cenas da vida urbana com colagens junto a pinceladas nervosas e rabiscos.
Sobre seu contato com a espiritualidade e a ancestralidade, Rafael passou a pesquisar alguns artistas africanos, alguns artistas brasileiros, afro-brasileiros, ou não necessariamente negros, mas que trabalhassem com essa questão cultural.
“Isso foi abrindo novos parâmetros com artistas que eu não conhecia, e eles todos foram referenciais para o meu trabalho”
Rafael Souza

Rafael como artista
O graduando define sua atuação no circuito artístico como uma ferramenta para a arte. Atualmente, o trabalho do artista vem se transformando a cada dia por conta da sua inserção na religião. “Ao mesmo tempo que eu vou acertando coisas em mim, corrigindo hábitos, eu vou me acalmando e me harmonizando”, relata. Rafael procura na espiritualidade um centro de equilíbrio, além de restaurar suas energias para lidar com as demandas de trabalho e produções artísticas.
“Acho que a arte faz parte do nosso dia a dia.” É assim que Rafael define a dimensão da arte em sua vida. Para ele, o sistema artístico vai muito além da pesquisa e de exposições em galerias ou museus, mas consiste em se conectar consigo mesmo durante a rotina do dia a dia. “É você tentar fazer tudo o que você pode fazer com a arte”, diz. Ainda, segundo ele, a arte é como se fosse um portal de conexão com a espiritualidade.
Sempre vinculando arte e espiritualidade, Rafael exemplifica que a religião na África é como escovar os dentes, ou seja, está inserida na rotina das comunidades. Pensar a atuação artística relacionada com outras áreas, principalmente com a religião e a espiritualidade, é o que vem alimentando Rafael atualmente. “Poder pensar arte relacionada com a ecologia, que é muito legal, com a política, com vários outros aspectos da sociedade e do conhecimento humano”, pondera. Para ele, arte pode ser um risco, um gesto, uma palavra, um alimento que se prepara e, ainda, a atuação de um educador nas salas de aula.
“Trazer essas imagens, essas visões da espiritualidade, materializar ela, eu acho que essa é uma das coisas mais nobres do artista”
Rafael Souza











