Gugu Lacerda: filho da arte

*Foto: Ana Laura Freitas

Foi durante a infância e finalmente na mocidade que Luiz Augusto Lacerda teve forjado o apelido que hoje exibe. O “Gugu”, conta ele, lhe foi dado por Iara Deodoro quando ele ainda era criança, enquanto frequentava uma escola de educação infantil na Vila Ipiranga, Zona Norte de Porto Alegre, bairro onde nasceu e reside. A alcunha completa seria concebida apenas décadas depois, em 2009, pelo jornalista e amigo Vinícius Brito momentos antes da realização de uma entrevista sobre o Carnaval daquele ano. “Não faz isso, esse não é o meu nome”, relembra Gugu sobre sua reação à ideia de Vinícius à época, bastante oposta à maneira com que lida com o nome artístico atualmente. “Hoje, nas redes sociais, é Luiz Augusto ‘Gugu’ Lacerda. Se alguém me encontrar, será assim”, afirma o artista.

A relutância de Gugu em aceitar o apelido com o qual hoje tanto se identifica faz lembrar sua antiga resistência em se aceitar como artista. Estudante de Artes Visuais na UFRGS, o carnavalesco e figurinista conta que tardou a concordar em trilhar os caminhos das artes, ainda que seu contato com o universo artístico tenha sido estimulado desde cedo. “Eu demorei muito para aceitar que a minha vida era na arte”, conta Gugu. “Porque eu fui criado de uma forma em que o certo seria eu me concursar, ter uma carreira no sistema público, para ter estabilidade. Sendo negro, essa responsabilidade cresce duas vezes mais, porque tu tens que provar diariamente, a todo instante, que tu és capaz.”

“Eu costumo dizer que sou filho da arte”, responde sobre o momento em que as artes se fizeram presentes em sua vida. Hoje figurinista, aderecista, cenógrafo e roteirista de espetáculos do Instituto Sociocultural Afro-Sul Odomode e figurinista de shows burlescos do Valen Bar, a trajetória artística de Gugu teve início com rabiscos infantis de casas, influência do padrinho engenheiro civil. “Mas aí, em um belo dia, eu me deparei com um figurino de Carnaval”, recorda sobre quando, aos cinco anos, conheceu uma obra do comunicador e artista gráfico Adoniram Ferreira. “Era um figurino com cores muito vibrantes. E no desenho dele os modelos eram negros com traços de pessoas negras. Aquilo me chamou muito atenção”, recorda Gugu. Foi o princípio de sua identificação e fascínio com as artes.

Mestres

Adoniram Ferreira, Alvino Machado, Guaraci Feijó, Paula Kaminski. Quando questionado sobre o início dessa trajetória, Gugu instantaneamente evoca suas referências, demonstrando ser impossível dissociar sua história das contribuições dessas figuras. Além de Ferreira, que apresentou a Gugu o desenho de figurinos carnavalescos vestidos por corpos pretos como o seu, o artista recorda-se de Alvino Machado, cuja ligação com a cultura popular muito o interessou. “O Alvino sempre tentou levar para a avenida temas relacionados ao povo, críticas à política, sempre trabalhou muito com materiais reciclados. E ele também tinha um desenho muito bonito”, lembra Lacerda.

“Eu também tenho uma madrinha que é artista plástica, a Paula Kaminski. O meu primeiro estojo de aquarela foi ela quem me deu. Inclusive esse estojo está olhando para mim agora. Eu sempre fui muito impulsionado pelas pessoas, porque elas entenderam que eu era artista”

Gugu Lacerda

O grande mestre de Gugu é o carnavalesco e figurinista Guaraci Feijó, cujo estilo de desenho deslumbrou o então jovem artista. “Guaraci Feijó me apresentou um outro estilo de desenho, pintado em aquarela. E que não fazia uso de purpurina, mas que brilhava do mesmo jeito só pela maneira como ele pintava”, afirma. Amigo de longa data da família Lacerda, Feijó prontamente assumiu a paternidade do percurso artístico de Gugu quando soube que o outrora menino possuía predileção pela mesma arte que a sua. “O teu filho agora é o meu filho”, teria dito Feijó ao pai de Gugu. “Toda vez que o Guaraci chegava na Vila do IAPI, ele me pegava pela mão, e aí as pessoas diziam ‘Guaraci, tu tens um filho?’. ‘É meu filho, sim. Ele também desenha’, Guaraci respondia.”

“Com o Guaraci e com o Grupo Afro-Sul, com a Iara Deodoro, eu também descobri a cultura afro-brasileira. O Guaraci é um pesquisador da cultura afro e, referente às artes plásticas, foi talvez o carnavalesco que mais apresentou temas-enredo e figurinos relacionados à cultura afro-brasileira”

Gugu Lacerda
Universidade

Gugu ingressou na UFRGS em 2016, no Bacharelado em Artes Visuais. Segundo o artista, um importante compromisso foi assumido por ele já no primeiro dia de aula na Universidade, e que o guia ainda hoje. “O IA tem uma reunião para receber os calouros. Naquele dia, eu me dei conta do seguinte: em 1957, o primeiro negro se formou nessa instituição. Foi Djalma do Alegrete. Djalma foi um artista que retratou, na grande maioria das suas obras, as manifestações da cultura afro-brasileira. Mas foi um artista esquecido. E eu disse: ‘Eu estou aqui para honrar esse legado’. Eu, que já tinha pesquisa sobre cultura afro-brasileira, assumi isso para mim como um compromisso: a partir de então, e em todos os meus trabalhos, eu ia exaltar a cultura afro-brasileira.”

De acordo com Gugu, algo que a academia lhe proporcionou foi aplicar a filosofia da arte em seu trabalho. O artista revela, contudo, que a experiência nas Artes Visuais da UFRGS não tem sido livre de tensões. Lacerda conta que há um esquecimento das contribuições artísticas de pessoas negras, sejam brasileiras ou estrangeiras, nos conteúdos do curso. “Nós temos aqui Abdias do Nascimento, Djalma do Alegrete, tantos outros que não são levados em consideração. Para alguns acadêmicos, as artes plásticas precisam ser figurativas e passearem no Louvre, ou seja, ela é europeia, branca, colonizadora”, afirma. “Nem sempre as pessoas estão dispostas a esse tipo de discussão. Mas a gente vai trazendo essas questões, problematizando as relações.”

Carnaval

“O Carnaval é a mola que me impulsiona”, diz Gugu convicto sobre a importância da folia em sua vida. Não poderia ser diferente. Cria de inúmeros barracões de samba, ele construiu sua vida em meio à festa. “Eu sou muito grato ao Carnaval, até pelos presentes que ele me deu, como algumas das grandes pessoas da minha vida”, afirma ele sobre sua intensa relação com o Carnaval, razão pela qual pratica uma defesa irrevogável da festa. “Eu trato como obrigação, um compromisso inadiável defender o Carnaval. Eu preciso defender essa cultura que é marginalizada. E que, por ser marginalizada, é perseguida, é prejudicada.”

Luiz Augusto Lacerda. Amanhecer na perimetral. 2020. Reprodução.

“Eu me apresento como um homem negro, carnavalesco e que tem o compromisso de retratar a cultura afro-brasileira”

Gugu Lacerda

Lacerda denuncia ainda a crescente intolerância que vem sofrendo a gente do Carnaval durante a pandemia, praticada por pessoas que, segundo ele, estão “despidas de todo pudor para afirmar o seu ódio às ruas”. “Tamanha ignorância! As escolas de samba foram instituições que trabalharam de forma beneficente durante toda pandemia. Muitas foram as escolas de samba que doaram cestas básicas, que promoveram campanhas de arrecadação de alimentos, de vestuário, de materiais de construção. O Carnaval vai muito além do produto que as pessoas enxergam, que é o desfile”, declara.

“A instituição escola de samba cultiva nos seus adeptos a sensação de pertencimento, tanto que essas pessoas se sentem protegidas nesses lugares. É um lugar onde as famílias se encontram, onde a gente confraterniza a vida”

Gugu Lacerda

Atual integrante da Realeza, escola de samba localizada no bairro Partenon, Gugu afirma ter sido “complicado” não desfilar em 2021. “Mas nós temos a esperança de desfilar em 2022. E de forma digna, de forma digna! Como a história do Carnaval merece, honrando essas figuras que tanto lutaram para que a gente estivesse aqui”, diz Gugu. “O Carnaval precisa ser levado a sério, e para isso a gente precisa defender essa dignidade. O evento merece respeito por tudo o que já contribuiu e contribui para essa cidade, um segmento cultural tão digno quanto qualquer outro, como o nativismo”, finaliza.

Futuro

Luiz Augusto deseja ainda levar a academia ao encontro de sua gente – e vice-versa -, pois, de acordo com ele, “de nada adianta eu me munir de conhecimentos acadêmicos se eu não os colocar à disposição da minha comunidade”. Além disso, Gugu também pretende promover ainda mais oficinas de artes em escolas de samba, incentivando a experimentação das artes no interior dos barracões.

Lacerda afirma desejar que os artistas sejam mais valorizados por parte da população por sua contribuição ao cenário cultural do país. “E, da mesma forma, eu espero mais respeito pelo artista carnavalesco, seja ele artista plástico, da dança, da música, enfim, que ele seja valorizado não só no Carnaval, mas em todos os momentos”, complementa.

“Que a gente consiga trabalhar cada vez mais e que a cultura nesse país volte a ser valorizada e respeitada. A gente precisa reconstruir esse cenário para viver dias felizes daqui por diante”

Gugu Lacerda