O desenhar em voz alta

Foi transformando uma poltrona branca da sua casa em sua primeira tela, aos 5 anos de idade, que Mariana Lemmertz iniciou sua paixão por desenhos. Além da poltrona, a artista lembra de desenhar naturalmente em qualquer superfície que pudesse – inclusive nas que não podia. A partir daí, a vontade de querer aprimorar o que fazia, produzir figuras mais realistas e conhecer outros meios artísticos só cresceu. 

Apesar do contato com a ponta do lápis ter começado cedo, a escolha da artista para o curso de Bacharelado em Artes Visuais aconteceu de última hora. Durante o ensino médio sua paixão pela arte aumentou. Mariana, porém, conta que não se via trabalhando com o âmbito artístico no futuro. “Eu achava que seria uma coisa incrível, mas muito fora do meu alcance, muito em outra realidade, algo só de sonho”, afirma. Foi com o incentivo dos pais, em especial de sua mãe, que ela decidiu prestar vestibular para Artes Visuais em 2019. Apesar da incerteza, a graduanda reitera que fez a escolha certa. “Era um medo para mim, mas quanto mais eu avanço no curso mais fico certa de que foi a decisão que eu precisava e a decisão que mais faz sentido.” 

Segundo Mariana, quando ingressou no bacharelado, pensava que iria aprender a pintar e a desenhar apenas obras realistas. “Com certeza foi um choque”, recorda. “Mas também uma surpresa muito boa descobrir que muitos dos professores te incentivam a fugir do realismo, do padrão e do mais óbvio.” Antes de ingressar nas Artes, a estudante achava que quanto mais realista ela desenhasse mais bonita seria a obra. Atualmente, a artista passou a considerar outras coisas quando inicia um trabalho, como a poética, a linguagem, os materiais e a trajetória. 

“Isso foi uma coisa que fez eu mudar o pensamento sobre arte que eu tinha. O que mudou mais talvez seja pensar qual é o meu objetivo em vez de pensar no meu traço em si”

Mariana Lemmertz
Sem título, 2020
Tinta acrílica sobre papel
30cm x 30 cm

Ainda, para além da UFRGS, Mariana guarda com muito carinho as recordações das visitas ao Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS) antes da pandemia. De acordo com a graduanda, elas também foram essenciais para o seu crescimento nas Artes, pois ofereceram um respaldo artístico para além da Universidade. 

Na maioria das vezes, Mariana inicia uma obra levando em consideração a cor, a materialidade e a luz com que quer trabalhar. Atualmente ela tem optado por representar coisas abstratas ou não materiais. Com a pandemia, a graduanda passou a aplicar nas obras seus sentimentos sobre a situação. “Esse sentimento que eu tentei representar é aquele de tu estar preso dentro de casa, se sentindo impotente em relação ao que tá acontecendo no mundo”, afirma. “O sentimento de amarra, de estar num espaço tão grande, mas não poder te mexer, não poder respirar praticamente.” 

“Esta obra que eu fiz é uma tela a óleo e eu coloquei cores pesadas, cores que remetem a mofo e a coisas apodrecendo, são cores que deixam uma sensação pesada e que incomoda”

Mariana Lemmertz
Sem título, 2021
Colagem digital
Sem título, 2021
Óleo e acrílica sobre tela
50 x 70 cm
Iniciação científica 

Em 2020, Mariana teve a oportunidade de ter experiência em pesquisa acadêmica. Sem nunca ter participado desse tipo de trabalho, ela conta que a prática a transformou em termos artísticos e pessoais. “Eu fui conseguindo essa maior autonomia e podendo dar mais a minha opinião, intervir mais como artista-pesquisadora e menos como estudante”, revela. Teve a oportunidade de fazer conexões e pesquisar ativamente sobre ilustrações, tema que a interessa bastante. 

A pesquisa aborda livros ilustrados, ou seja, a diferença de livro com ilustração e livro ilustrado. Segundo a artista, o livro com ilustração poderia ser qualquer publicação que contém imagens, sem importar o quão grande seja a narrativa em palavras; se conteve uma ou outra imagem ele já é considerado um livro com ilustrações. Já o livro ilustrado é aquele em que a narrativa é sustentada tanto pelas imagens quanto pelo texto escrito; se anular um ou outro a narrativa se perde. 

“A gente usa esse termo do livro ilustrado como objeto de pesquisa e o quão importante é inserir o livro ilustrado como uma possibilidade artística dentro da Universidade. Porque por muito tempo a Universidade era um pouco mais seletiva quanto ao que é e o que não é arte, então isso é uma coisa que tem sido aos poucos aberta”

Mariana Lemmertz

Mariana conta que a ideia de que arte é só o que está dentro de um museu, com uma única cópia que fica sobre um pedestal e ninguém pode encostar já está sendo substituída há algumas décadas. Por isso, o livro acaba sendo um objeto que qualquer um pode ter. “Ainda mais o livro ilustrado, que muitas vezes é feito para crianças, então tu vai botar o que a gente está chamando de uma obra de arte na mão de uma criança”, ressalta a graduanda.

Luto Nacional, 2021
Imagem Digital
 Trabalhos marcantes

Sobre suas produções, a artista relata que algumas a tocam por conta de nascerem de um lugar muito pessoal. Uma delas é uma obra que fez sobre o luto que estava sentindo com a morte de sua avó. “Foi uma coisa que eu precisava fazer de alguma forma para me entender, para entender o que eu estava sentindo”, diz. “Comecei a rabiscar essa tela no dia em que recebi a notícia, então acabou sendo um trabalho de uns dois meses de luto em que é possível ver as etapas através do desenho. É um trabalho que me marcou muito justamente pelo peso emocional que eu coloquei nele.” Mariana conta que até hoje é relutante sobre o que fazer com a obra, por ser muito forte e pessoal para ela. 

Outra produção que teve peso em sua trajetória artística é um trabalho feito numa disciplina de Ilustração Digital, área em que Mariana não possuía nenhum domínio, mas sempre admirou. A obra começou com um autorretrato em preto e branco, porém precisou ser modificada em função de a graduanda participar do Flow – Festival de Linguagens, Arte e Tecnologia em Caxias do Sul no ano passado. A proposta do evento consistia em os artistas criarem imagens digitais que seriam projetadas em fachadas de prédios da cidade. “Retrabalhei esse autorretrato de uma forma que ia ficar muito interessante visualmente, colocando muita cor”, conta. 

“Minha obra acabou sendo esse autorretrato com um cabelo completamente colorido e plantas que crescem ao redor do rosto, e ele foi projetado em alguns prédios de Caxias”

Mariana Lemmertz

De acordo com ela, essa obra foi marcante por ter sido sua primeira imagem digital concluída. Ver sua obra feita no computador ir para a vida real e ser projetada em grandes prédios foi bastante significativo. “O sentimento que isso me causou foi um impulso para eu querer continuar ainda mais, então esse trabalho me marcou muito positivamente”, reitera Mariana. 

Releitura do trabalho da residência artística no Festival Flow, em Caxias do Sul, feita para o Jornal da Ufrgs, 2022
640 x 1920 px
A obra ilustra o site do JU nesta quinzena.
Mariana Lemmertz como artista 

“Alguém que usa a arte para tentar entender o mundo ao redor dela e se entender também”: é assim que a graduanda define a sua atuação no meio artístico. A arte para Mariana é quase uma necessidade fisiológica, uma forma para que ela entenda o que sente e traduza o mundo para si mesma. “Daria para fazer uma comparação com pessoas que falam em voz alta”, afirma. “Eu desenho em voz alta para mim mesma, para entender meus pensamentos.”

Por isso seu principal objetivo é conseguir se comunicar por meio da arte e da pintura. Para ela, a troca entre público e obra é essencial. “Eu acho que a arte é muito importante para fazer uma troca intersubjetiva de pensamento entre as pessoas”, ela poderia ser uma forma de expressar os sentimentos quando não se tem palavras para tal. 

“Pensando assim é muito importante a gente dar valor a essa forma de linguagem, porque tem sentimentos que justamente não tem como explicar. E a troca entre artista e público conversando sobre uma obra é muito importante, porque se está incentivando a tua interpretação das coisas”

Mariana Lemmertz
Sem título, 2021
Carimbo de tinta acrílica, aquarela e nanquim sobre papel
30 x 42 cm
Futuro 

Sobre os planos em aberto para este ano, a graduanda conta que está participando da Bienal Black Brasil Art 2, após marcar presença na primeira edição, quando expôs um trabalho que questionava algumas figuras femininas invisibilizadas na sociedade. “Era quase uma piada, uma coisa meio de sátira”, diz. “Então eu fiz várias Barbies que a Mattel nunca produziria, e esse trabalho foi selecionado para o evento.” O trabalho escolhido para a segunda edição é completamente diferente do primeiro. Desta vez, Mariana produziu uma obra sobre a pandemia. “Virou um quadro sobre angústia, sobre gritos, sobre querer sair dali e não poder”, declara. 

Além disso, a artista está auxiliando o programa de extensão Histórias e Práticas Artísticas como fotógrafa e também fazendo um trabalho de auxiliar pedagógica com crianças, uma experiência totalmente nova para ela. 

“Isso é uma coisa que eu comecei recentemente e provavelmente vá continuar ajudando na extensão de artes. Isso tem sido muito legal, porque eu consigo ter um contato com várias propostas artísticas, com vários profissionais”

Mariana Lemmertz