
O olhar para além das lentes
*Foto: Luciano Teston
“A multiplicidade da fotografia em relação à arte e a maneira como ela influencia o ser humano a enxergar o mundo”, esses foram alguns dos motivos para Giordana Winckler se apaixonar pela captura de imagens. Sempre muito encantada pelo cinema surrealista, que propõe um olhar voltado para a fotografia e sua relação com as artes, a artista passou a se interessar por essa técnica das artes visuais.
O contato com a fotografia começou casualmente aos 17 anos. Mais tarde, aos 27, ingressou no curso de Bacharelado em Artes Visuais na UFRGS, onde finalmente pôde pensar a fotografia com relação a outras linguagens – como a pintura, a escultura e o desenho-, além de compreender seu percurso ao longo da história da arte. “Eu sempre quis estudar arte, mas por várias circunstâncias fui deixando para depois”, relata Giordana, e complementa: “Tive que trabalhar muito cedo, assim não pude entrar na graduação no tempo em que eu gostaria”.
“A questão de pensar a imagem, não só fotografar e documentar alguma coisa, mas pensar o que torna essas imagens interessantes me instiga muito”
Giordana Winckler
Antes de ingressar na graduação, Giordana teve contato com o campo da moda. Sempre pensava a moda, a fotografia, a arte como um conjunto. Esse interesse acabou transportando o olhar que imprimia ao seu trabalho para outros artistas que produziam moda e arte também. “Tudo que eu fiz antes de começar a construir uma trajetória como artista que hoje trabalha com foto foi sempre pensar a relação entre campos um pouco diferentes mas que no final se encaixavam”, afirma.
Segundo Giordana, quando ingressou na graduação, teve experiências com diferentes linguagens artísticas. Apesar desse primeiro impacto ter sido difícil para ela, ao mesmo tempo foi desafiador produzir, conhecer e apresentar trabalhos utilizando técnicas com as quais ainda não tinha afinidade. “Lembro que eu fazia desenho e tinha um pouco de dificuldade com lápis de grafite”, recorda. Até que descobriu que seu desenho ficava muito melhor se feito com carvão, que é como desenha até hoje. “Às vezes temos dificuldade com algumas linguagens até que encontramos o material adequado para o nosso tipo de trabalho”, reflete.
Durante seu percurso como graduanda na UFRGS, Giordana teve oportunidade de participar de um projeto de extensão por meio do qual passou a compreender melhor as maneiras como a fotografia era contaminada por outras linguagens. De acordo com ela, a partir disso, começou a buscar amparo teórico para desenvolver essas reflexões que surgiam à medida que adquiria conhecimento sobre o tema.
“Quando a gente começa a encontrar e ver que existe e que é possível escrever em arte, começa a se tornar uma coisa muito mágica. É maravilhoso quando isso acontece!”
Giordana Winckler
A linguagem que a artista mais relacionou ao seu trabalho fotográfico durante a graduação foi a pintura. A relação entre espectador e obra, a forma de impressão da imagem, se terá moldura ou não, o formato que a foto terá no espaço expositivo, todos esses fatores são heranças do campo da pintura. “Quando se pensa uma escultura, por exemplo, sempre se pensa em um objeto no espaço expositivo”, observa, e “a fotografia também se coloca como esse objeto no espaço”. O conhecimento sobre essas possibilidades no processo de criação se materializa na percepção de que as linguagens artísticas estão mais próximas do que parecem e o quanto é necessário pesquisar, escrever e conversar sobre isso.

Obra escolhida para ilustrar o site do JU.
Trabalhos e exposições
Após terminar a graduação em 2018, a fotógrafa trabalhou um tempo sozinha e com algumas amigas artistas. Passou a dar suporte para marcas de moda e arquitetura. Giordana conta que uma das coisas mais interessantes do curso de Artes Visuais é entender o trabalho como uma unidade, ou seja, olhar coisas diferentes e perceber em que momento elas estão alinhadas. “Eu comecei a fazer esse mesmo processo para atender às marcas”, relata. “Eu atendia o cliente que tinha dificuldades – como não saber qual era o seu traço de trabalho – dentro da ótica da artista visual, com um olhar muito mais sensível e com referências do campo da arte.” Além disso, Giordana fotografava para essas empresas imagens feitas com o olhar das artes visuais, diferente de uma visão publicitária.
Ao longo da sua caminhada no circuito artístico, a fotógrafa fez algumas exposições coletivas. Além disso, teve duas exposições individuais, as quais, segundo ela, foram experiências maravilhosas pelo fato de poder juntar diferentes obras e ter um feedback do público, de como se sentiam e enxergavam esses trabalhos. A partir disso, Giordana passou a vislumbrar suas composições com muito mais consistência em razão de conseguir criar uma conexão entre o espectador e suas capturas.
Muitas vezes, estamos acostumados a ver fotografias pela tela do celular e do computador, o que estabelece uma relação muito superficial e ao mesmo tempo precária com a imagem. “Mas quando tu coloca as tuas imagens dentro de um espaço expositivo é algo muito incrível”, se emociona. “O sentimento de mundo das pessoas muda com a imagem fotográfica, a temporalidade é outra, o tempo das pessoas é outro diante dessa fotografia.” Para quem pensa na materialidade da imagem para além dos meios tecnológicos, as exposições são essenciais para que haja esse vínculo mais forte com o público.
“Quando aconteceram essas exposições, eu fiquei muito feliz de ver o olhar de deslumbre das pessoas para imagens que, se estivessem na internet, com toda a certeza não provocariam muita atenção”
Giordana Winckler
Ainda, a artista tem um perfil como fotógrafa na Vogue Itália – ela enviou algumas de suas obras para uma comissão, e elas foram selecionadas para a revista. A partir de então, passou a alimentar esse perfil com suas fotos. A maioria das imagens são sobre moda ou tem alguma relação com isso. “Já mandei algumas que eles não aceitaram”, diverte-se, “mas há também outras que já foram publicadas.”
Fotografia e natureza
Atualmente Giordana diz que tem gostado muito de fotografar a natureza. A artista viaja à procura de lugares que ainda não tenham sido domesticados pelo homem, mas ao mesmo tempo também busca algum vestígio da presença humana. Um local que ela gosta muito de fotografar são os cânions dos Campos de Cima da Serra. Seu trabalho mais marcante, inclusive, foi feito lá. Intitulado “Império dos Sonhos – intervenções da consciência”, a artista captura imagens de uma mulher correndo até a borda dos cânions, sempre de costas para a câmera.
A principal intenção do trabalho é justamente convidar o espectador a olhar esse lugar que é tão misterioso para todos. Giordana traz questões como o enigma, o mistério e a fantasia, assuntos que estava perseguindo na época. Algumas dessas fotos foram publicadas na Vogue Itália, algo que deixou o trabalho ainda mais marcante para a artista. “Eu fico feliz por essas fotos terem saído um pouco das artes visuais e ido para outro lugar”, afirma.
“Império dos Sonhos é um trabalho que eu considero fantástico, maravilhoso. Eu acho que ali foi o pontapé pra mim, um trabalho meu, sobre o que eu venho escrevendo e que serve de estímulo até hoje”
Giordana Winckler
Outro lugar que fotografou e que foi muito marcante na sua trajetória é a entrada da floresta em São Francisco de Paula. Hoje os indígenas Xokleng estão tentando retomar esse espaço. Ao fotografar esse lugar, é impossível não trazer as questões que estão colocadas ali. Vai além do apenas retratar o que está ali, também inclui o conhecimento sobre o que os indígenas do Brasil estão enfrentando atualmente.
Giordana Winckler como artista
“Eu me vejo como uma pessoa muito prolixa”: é assim que a fotógrafa define sua atuação no meio artístico. Seus trabalhos sempre vêm muito contaminados pelas coisas que lê; muito além de intuição, acompanha as obras muita pesquisa e leitura. O mote do conhecimento é, portanto, extremamente importante para Giordana.
Por isso, se considera uma artista intelectual, em razão de estar sempre lendo sobre a sociedade em que está inserida, sobre política e outras várias questões que a tocam. “Eu sou uma artista um pouco complexa, no sentido de estar sempre pensando várias questões”, reitera. “Meu trabalho nunca foi sobre algo que eu ache apenas bonito, não é só sobre uma questão de proposição ou enquadramento. Há outras reflexões.”
De acordo com ela, uma obra sua chamada “Terra Indígena”, marcada por um cenário quase todo preto com um varal de toalhas brancas, retrata bem seu lugar no campo das artes. As reflexões possíveis perante essas imagens e a atual situação do país são muitas, e é justamente dessa forma que a fotógrafa gosta de trabalhar, trazendo inquietações para o público e para ela própria.
“Pensar a Giordana é isso. Uma mulher feminista, artista, parda, que entrou na Universidade um pouco mais tarde por várias razões, mas que reconhece seu lugar e os lugares que fotografa”
Giordana Winckler
Futuro
Sobre os planos em aberto, Giordana fala sobre a vontade de seguir no meio acadêmico. Visa terminar o mestrado em Poéticas Visuais e depois dedicar um tempo para estudar a parte técnica da iluminação na fotografia. Pretende aprimorar essa parte que, segundo ela, é aperfeiçoada fora do Instituto de Artes. “Depois disso, retorno à vida acadêmica no doutorado”, declara.
Segundo a fotógrafa, no futuro se vê como professora acadêmica, dando aulas sobre processos de criação e gestualidade. A maior paixão de Giordana é pensar as imagens de maneiras diversas, além de sempre dialogar com outras linguagens do meio artístico e refletir sobre variadas questões embutidas em suas obras.
“O trabalho acadêmico em Artes Visuais tem a tendência a vir carregado dessa consciência das reflexões. Acho que a diferença está justamente aí, de se ter consciência de quais são as questões que se colocam nas tuas produções em determinado momento”
Giordana Winckler




