
O universo através das rochas
*Foto: FZagoStudioZ
A descoberta da arte é algo particular para cada indivíduo: ela pode acontecer logo na infância ou apenas na fase adulta. A artista visual e professora do Instituto de Artes da UFRGS Helena Kanaan teve o privilégio de emergir no mundo das artes ainda na infância, com os pais. “Eu venho de uma família que já pensava e atuava dentro da arte. Meu pai foi um pintor amador e minha mãe foi professora de música”, conta. “Por isso, eu fui atraída.”
Oriunda de uma família extremamente conectada às manifestações artísticas, Helena foi se desenvolvendo artisticamente até ingressar, em 1982, no curso de Artes Visuais na Universidade Federal de Pelotas. “O meu pai dizia que eu tinha um desenho interessante, então eu fui desenvolvendo até fazer vestibular”, relembra. O período de sua graduação foi muito marcante na vida da artista. “Foi um momento muito forte, muito importante de convivência com os colegas, de política estudantil”, diz. “Eu acho que todo momento de estudante foi muito importante. Eu sempre falo para os meus alunos aproveitarem ao máximo o curso que ali a gente tem todos os ateliês montados.”

Sempre muito ligada à criação e a técnicas diferentes de fazer arte, a artista conta que, durante o último ano de graduação, teve a oportunidade de criar um ateliê do zero. “A gente ainda não tinha especificamente um ateliê, então a partir dali eu peguei a litografia, as professoras fizeram um grande projeto com a Funarte, e compramos todo o material necessário”, relembra.
Apesar de terem conseguido todo o material necessário para produzir arte através de rochas, nenhum dos idealizadores do ateliê possuía domínio sobre a técnica. Assim, Helena conta que recebeu ajuda de um dos mestres da gravura no Rio Grande do Sul, Danúbio Gonçalves. “Ele passou um ano inteiro conosco, fazendo essa imersão”, diz. Foi a partir do contato com Danúbio que a artista despertou ainda mais interesse pela litografia. A relação com Danúbio possibilitou que Helena conhecesse mais profundamente o universo das gravuras, frequentando ateliês, amostras de arte, proporcionando, assim, um maior carinho pela prática.
Relação com a gravura e a litografia
“A gravura contemporânea realmente me instiga muito”, afirma Helena sobre a técnica que permite produzir obras de arte a partir de uma matriz, que pode ser de pedra, madeira, ferro ou tecido estêncil. Esse fascínio levou a artista a fazer mestrado e doutorado ligados à gravura. “Nos meus trabalhos, eu estou sempre tentando encontrar modos de contemporaneizar a gravura”, conta.
Indo em convergência com a sua proposta de trazer a gravura para a atualidade, em 2018 Helena expôs a obra “Ritidoma” na exposição “O poder da Multiplicação”, promovida pelo Goethe-Institut Porto Alegre. “Neste trabalho, eu saio desse padrão da gravura de colocar em molduras, superprotegida com vidro, aquela coisa mais imaculada, e levo até o espaço”, diz. Segundo Helena, a participação na mostra foi muito importante, pois reuniu gravadores contemporâneos de vários estilos e que pensam a gravura de maneiras diferentes. “Esse grupo trouxe bastante material para a gente pensar na gravura contemporânea, no modo como cada um apresentou com uma grande diferença entre os trabalhos”, conta.

O encanto de Helena pela litografia surge pela possibilidade de trabalhar com uma matéria que nasceu praticamente com o planeta: as rochas. Durante a pandemia, a artista produziu litografias denominadas “Seres Metamórficos”. “Elas foram feitas exatamente no pico da pandemia, o que me fez pensar que eu estava com pedras de 200 milhões de anos nas mãos, praticamente do início do planeta. E pensar também de que naquele momento a gente teve um anúncio do fim do planeta.”
Sempre muito ligada às técnicas usadas na arte litográfica, Helena diz que não se pode brincar com técnicas, e sim ter domínio sobre ela para poder explorar todas as suas possibilidades. “Eu aprendi muito com o Danúbio sobre a técnica. A litografia é toda química, então se tu não fizeres a quantidade certa de ácido, a goma não acontece.” Todos esses processos – as reações químicas que acontecem durante a realização de uma obra a partir da litografia – instigam a artista.










(Imagens: Helena Kanaan/ Divulgação)
Planos para o futuro
Helena diz que está dando continuidade a pesquisas dentro do universo da linguagem gravura, juntamente com o Núcleo de Arte Impressa que a artista idealizou no IA/UFRGS. “O grupo me ajuda muito a pensar, e a gente tem pensado muito sobre essa gravura mutante”, conta. “Nós fizemos até um projeto que pensa a essência da gravura, o DNA da gravura, levando um pouco dessa mutação para o lado científico.”
Além do grupo, a artista também participa de coletivos que exploram e estudam a técnica artística chamada frotagem. “Eu trago essa prática para contemporaneidade, formatando-a de uma outra maneira e pensando em uma cegueira no caso de tu saberes que tu estás fazendo uma imagem não pelo que tu olhas, mas pelo que tu tocas”. Além disso, Helena está engajada no projeto “Espacios Provisorios”, que explora a arte impressa e suas muitas possibilidades, juntamente com o Proyecto´ace, de Buenos Aires, na Argentina.










