
Pâmela Zorn: pertencimento, percurso e identidade
*Por Victoria Rodrigues
*Foto: Filipe Conde
Muitas vezes, o primeiro contato que temos com qualquer fazer artístico acontece na infância, seja ao desenhar uma árvore ou pintar uma imagem qualquer sem preocupação. Pois foi assim que, ainda criança, aos quatro anos de idade, Pâmela Zorn Vianna teve seu primeiro contato com a arte que hoje estuda e pratica. Ao lado de sua avó, artesã e professora de pintura, Pâmela experimentou a criação artística ajudando na confecção das pinturas feitas em panos de prato e em camisetas.
Levou a atividade como um hobby até a adolescência, quando passou a olhar com mais seriedade para o meio artístico, até se dar conta de que queria se aprofundar nesse mundo. Aos 17 anos, ingressou no curso de Bacharelado em Artes Visuais na UFRGS. Apesar de muito jovem e sem saber se estava seguindo o caminho certo, Pâmela desejava fazer algo que realmente gostasse. “Não me arrependo de ter escolhido essa área porque hoje é o que eu amo fazer”, diz.
Por conta de ter nascido no interior do estado, na cidade de Três Coroas, a artista nunca havia tido a oportunidade de visitar espaços como museus e galerias de arte. Pâmela lembra com nostalgia a primeira vez em que entrou no ateliê do Instituto de Artes. Ficou encantada com tudo que viu, com todas as possibilidades do lugar. “Ver aqueles banquinhos altos, as tintas, um monte de gente pintando e produzindo foi muito bacana, me marcou muito”, conta a graduanda. De acordo com ela, ao mesmo tempo em que se sentiu deslocada quando entrou, sentiu também uma vontade imensa de explorar tudo daquele novo universo.
“Aquelas janelas gigantes com uma vista muito linda do centro de Porto Alegre são muito impactantes. Entra uma luz muito bonita que é proposital, porque a luz natural ajuda a pintar. Ver tudo isso foi maravilhoso”
Pâmela Zorn Vianna
Ao longo da sua trajetória no curso de Artes, Pâmela tentou aproveitar ao máximo o que a Universidade proporciona. Foi bolsista no acervo da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo, situada no prédio do Instituto de Artes da UFRGS. “Conheci muita coisa ali, foi muito legal ver as reservas técnicas”, declara. Ela aponta que o acervo conta com diversas obras de diferentes artistas e que todas as pessoas deveriam ter a oportunidade de o visitar e conhecer. Fora da Universidade, como estágio não obrigatório, atuou como mediadora no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS), onde pôde colocar em prática um pouco do que estava aprendendo no curso.
Ainda para além da UFRGS, Pâmela conseguiu bolsa no Atelier Livre Xico Stockinger. Sua motivação para buscar o Atelier foi a vontade de expandir sua arte a outros lugares para além da Universidade. “Tem muita gente que entra nas Artes Visuais e já passou pelo Atelier Livre, ou então conhece, já teve algum envolvimento”, declara. De acordo com Pâmela, com ela foi o contrário. Só depois de ingressar na UFRGS foi que procurou o espaço não acadêmico para que pudesse aprimorar suas produções artísticas e, também, entrar em contato com outros artistas da cena local. Por conta de o mundo das artes ser muito fechado, é importante conhecer pessoas para conseguir se movimentar melhor nele. O interesse de Pâmela é, futuramente, poder criar brechas para novas pessoas entrarem nesse círculo. “Quero que mais pessoas entrem, se quiserem, nesse meio. Ampliar um pouco ele para que não seja mais tão fechadinho”, acrescenta.
Experiência em Portugal
Em 2017, Pâmela teve conhecimento de que a Universidade proporciona bolsas de mobilidade acadêmica. Decidiu se inscrever e no ano seguinte conseguiu uma bolsa para estudar por um semestre na cidade de Évora, em Portugal. Sem nunca ter saído do país, ir para o exterior foi uma experiência que a transformou em termos artísticos e pessoais. Teve oportunidade de visitar diversos museus e galerias de arte, ver pinturas de artistas que ela estudou ao longo da graduação. “Aqui no Brasil, principalmente em Porto Alegre, a gente não tem acesso a muitas obras que estudamos na Universidade”, afirma. “Então lá eu tive a oportunidade, que todo mundo deveria ter, de conseguir ver isso pessoalmente.”
Além das visitas aos museus europeus, outra questão chamou a atenção de Pâmela durante a viagem: a forma como era vista em Portugal. Segundo a graduanda, houve comentários um pouco degradantes por parte dos portugueses, inclusive dos próprios professores da Universidade em que esteve. “A experiência em si, até por conta disso, de perceber essa forma com que muitas vezes a gente pode ser tratada foi bem importante pra mim”, conta.
Isso, porém, não a impediu que usufruísse o máximo de sua viagem. Fez amizades importantes com pessoas de diferentes cursos. Explorou, ainda, outros países, como França e Espanha, além de visitar cidades de Portugal, como Lisboa, Porto e Nazaré, o que só aprimorou o seu conhecimento no fazer artístico.
“Essas cidades históricas foram muito bacanas de conhecer, a gente fica bem emocionado”
Pâmela Zorn Vianna
Coabitar entre lugares
Em meio a tantos turbilhões de acontecimentos em um ano difícil como o de 2021, Pâmela se formou bacharel em Artes Visuais. Ela encara com muita felicidade essa conquista, pois, com todas as dificuldades que uma estudante-artista enfrenta durante o percurso da graduação, conseguiu chegar ao fim. Em sua pesquisa, chamada “Entre Lugares: uma investigação pictórica sobre autorrepresentação e identidade”, a artista convida o público a refletir sobre o pertencimento de corpos mestiços/negros na sociedade e sobre a pluralidade.
Apesar de explorar outros temas durante sua trajetória nas artes, Pâmela nunca fugiu muito da temática que traz na sua pesquisa. Desde o seu primeiro trabalho mais sério como pintora, em meados de 2015, logo após seu ingresso na UFRGS, a artista retrata mulheres negras em seus quadros. “Eu ainda não havia tido quase nenhum contato com discussões raciais ou algo assim”, recorda. “Mas era algo que eu queria desenhar, queria falar sobre de alguma forma.” Ao longo do curso, foi se afastando um pouco dessa questão; isso, contudo, sempre pulsou nela de alguma forma.
O retrato e a figura humana sempre permearam os trabalhos de Pâmela durante a graduação. A artista conta que durante uma época passou a se interessar por crânios de animais. A questão do osso, da morte a fascinava muito, acompanhada sempre dessa pegada do retrato. No entanto, com o passar do tempo, foi perdendo o sentido.
Até que, em 2019, Pâmela foi convidada para uma exposição coletiva na Pinacoteca Ruben Berta. Segundo ela, o acervo do lugar não contava com nenhuma mulher negra artista, e as curadoras do evento gostariam de dar “uma sacudida” nesse acervo, repaginando o estilo das obras. A artista decidiu então trazer à tona a questão da representatividade como tema de reflexão. “Eu fiz um autorretrato com sangue menstrual”, diz, “questionando essa coisa da sujeira, que é muito comum quando se fala de corpos negros”. Muitas vezes, em obras de arte, não é raro existir uma associação direta de corpos negros com a sujeira, seja no sentido de hipersexualização, seja no sentido literal da palavra. Por esse motivo, Pâmela quis trazer isso nesse trabalho.
“Eu achei muito potente por conta da autorrepresentação, que eu tava me colocando ali, colocando esse corpo, que muitas vezes não é o corpo que a gente vê representado em uma exposição de arte”
Pâmela Zorn Vianna
A partir daí, a autorrepresentação e a figura humana sempre estiveram presentes nas pinturas da artista. Passou a perceber que nos museus e nas galerias que visitava se viam poucos autorretratos de artistas negros e, quando havia algum, eram pintados por pessoas brancas. Isso fazia com que os corpos fossem colocados em posições subalternizadas ou em situações degradantes, como se fossem caricaturas. “Foi aí que eu vi uma lacuna”, conta Pâmela. “Porque eu vejo uma importância em falar sobre isso. Me colocando também, colocando meu próprio corpo que também foi um corpo que por muito tempo não foi lido como negro.”
O fato de o corpo de Pâmela não ser visto como negro sempre foi muito forte em sua vida desde a infância. Por crescer em uma cidade do interior onde a maior parte da população era branca – inclusive sua família materna, que possuía descendência alemã -, a artista sempre conviveu com pessoas brancas que, consciente ou inconscientemente, tentavam embranquecer seu corpo. Essas situações recorrentes na vida de Pâmela foram os motores que a fizeram trazer o assunto para sua pesquisa.
“Por isso o título ‘Entre lugar’. Estar nesse lugar que muitos tentam classificar por conta do projeto de Brasil em que a gente sempre cresceu e viveu. E hoje temos tentado desmistificar e conscientizar o máximo de pessoas de que não é bem assim”
Pâmela Zorn Vianna
Ressignificação
Sobre seus trabalhos, Pâmela relata que alguns a tocam de alguma forma até hoje por conta de nascerem de um lugar muito pessoal. Um deles é a própria pintura que apresentou no seu TCC, chamada “Este solo não é ruim para certos tipos de flores”, que consiste em um mural de pinturas – intitulado políptico, por ser uma obra formada por outras pequenas obras. O processo para montar esse mural, formado por 110 pequenas pinturas e medindo quase 5 metros de comprimento, aconteceu por conta de Pâmela estar sem dinheiro para comprar telas novas durante a pandemia. Foi aí que teve a ideia de reciclar telas antigas, cortando-as e pintando outras coisas por cima. Assim, cada dia ela fazia uma pintura, como se fosse um processo contínuo, quase infinito, em que ela representava sempre uma mesma fotografia. “Uma foto minha na lembrancinha de 1 ano”, relembra. “Eu tô um bebezinho. O cabelo todo penteadinho, com um vestidinho alemão que a minha bisavó tinha me dado, e com uma cara muito emburrada”, diverte-se.
Apesar de achar a foto engraçada, Pâmela também a considera significativa. Segundo ela, a imagem de um bebê preto vestindo uma roupa alemã despertou questões que complementaram sua pesquisa de maneira muito forte. “Achei uma imagem muito emblemática para explorar e até mesmo esgotar ela”, pondera. Então a artista foi repetindo a imagem, pintando-a de formas diferentes. “Algumas eu deixava sem o rosto, em algumas eu fazia um rosto bem realista, outras eu o desfigurava bastante. Às vezes fazia umas cores mais escuras, outras partia de um tom muito mais claro”, exemplifica.
Além de explorar sua fotografia, Pâmela trouxe palavras para a obra. Palavras que lia em livros, das referências bibliográficas que usou na sua pesquisa ou até de retratos de outros artistas. Ela brinca que a palavra invadiu a figura da criança e foi se tornando imagem também, formando assim uma grande colcha de retalhos que representa o que a artista foi durante sua trajetória na graduação.
“Fala diretamente sobre a questão do entre lugar. De ser uma pessoa de certa forma preta demais pra ser branca e branca demais pra ser preta. E como tu te movimentas no mundo com essas identificações, como tu te constrói enquanto ser?”
Pâmela Zorn Vianna
As referências que Pâmela utilizou para estruturar sua pesquisa são variadas. A graduanda transitou por pensadores como Kabengele Munanga e bell hooks para compreender melhor sobre miscigenação e o mito da democracia racial. Já para a parte artística, trouxe pesquisadores que trabalham com a questão do autorretrato na história da arte, como o escritor Matt Ferranto e a própria orientadora de Pâmela, a professora de pintura do Departamento de Artes Visuais da UFRGS Marilice Corona. “Trago artistas mais contemporâneos para ir dialogando com os artistas do século 19, ou do século 20 mesmo, como o Wilson Tibério, um artista negro que a gente tem no acervo da pinacoteca”, conta.
Atualmente, a artista tem como principal referência para suas obras a pintora Maria Lídia Magliani, primeira mulher negra a se formar no Instituto de Artes da UFRGS, na década de 1960. A pintura expressiva de Maria Lídia encanta muito Pâmela, além da forma com que ela constrói suas figuras de um jeito espontâneo e despretensioso. “O trabalho de cor que ela faz é complementar; uma pintura muito viva, muito frenética, eu gosto muito”, declara. Outra artista que se tornou referência para Pâmela é a pintora Lynette Yiadom-Boakye, cujas obras conheceu na viagem a Portugal. Ela traz para suas pinturas retratos de pessoas negras, o que ajudou ainda mais Pâmela a se encontrar em seus trabalhos.
Ainda há muito para desbravar
Sobre os planos para este ano, Pâmela diz que tem a pretensão de seguir estudando. Tem o desejo de complementar a graduação com disciplinas da licenciatura e depois ingressar no mestrado na UFRGS. A graduanda tem vontade de aprofundar mais sua pesquisa porque, segundo ela, ainda tem muito mais a aprender e conhecer sobre o assunto.
No início deste ano foi anunciada como primeira colocada no 5.° Prêmio Aliança Francesa de Arte Contemporânea. Com isso, foi premiada com uma residência artística de dois meses no Centre Intermondes, em La Rochelle, na França. Novamente Pâmela terá a oportunidade de desbravar museus e galerias do exterior e conhecer diferentes artistas para enriquecer ainda mais sua bagagem artística.
Outros projetos acontecem agora em janeiro. Pâmela foi convidada para uma exposição intitulada “Coletiva 22 – Jardim dos Desejos”. O evento reúne diferentes linguagens artísticas da cena local. Pâmela irá expor sua obra original “Este solo não é ruim para certos tipos de flores”, em que o público terá oportunidade de ver sua “colcha de retalhos” de mais de cinco metros pessoalmente.
Empolgada com o que está por vir, Pâmela reitera a importância que a arte teve na sua vida – e também para discutir e refletir sobre o mundo. “Quando entrei na universidade, eu tinha uma visão muito romantizada do papel da arte”, lembra. “Hoje em dia eu sei que a arte sozinha não consegue modificar estruturalmente a nossa sociedade, que precisa de políticas públicas, precisa modificar nosso sistema econômico também pra conseguir reais mudanças.” Além disso, a artista vê a arte como ferramenta de educação. O acesso à arte, ao fazer artístico, é muito importante para que mais pessoas consigam ocupar museus de arte, por exemplo.
“Mais pessoas precisam ocupar esses lugares para que não seja esse cubo branco – em vários sentidos – que a gente conhece, esse espaço branco elitizado. Acho que nesse momento pandêmico, nesse momento complicado que estamos vivendo no Brasil, todos nós deveríamos ter direito a nossa subjetividade”
Pâmela Zorn Vianna





