Blog do DARQ

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Regularidade e arquivo: a questão dos discursos racializados

Rogério Modesto (DLA/UESC)

O “genocídio da população negra” é algo que nos assombra desde a constituição disso que chamamos de Brasil. Abdias do Nascimento dizia que esse “algo”, sendo uma prática em cima da qual se dá o funcionamento da colonialidade brasileira, não é da ordem da contingência, porque seria antes de tudo um projeto planejado para uma sociedade da qual certos elementos (leia-se, os elementos “negro” e “indígena”) são descartáveis: prática da necropolítica1.

Ainda assim, acostumamo-nos a dizer que vivemos em uma democracia racial, que somos todos iguais, que só deve haver “consciência humana” e coisas do gênero. Produziu-se uma imagem de Brasil como o “país do futuro”, o país do Carnaval e do futebol, da amistosidade, da cordialidade e da integração. Um lugar no qual, se há racismo, ele nunca é o do “eu”, mas do “outro”.

Talvez por isso, e obviamente por conta de uma série de outros fatores sobre os quais não consigo me debruçar aqui, seja fácil ouvir por aí que “O Brasil é um país cordial” ou que “O EUA é mais racista que o Brasil”2. Essa também parece ser uma imagem produtiva fora do país, na medida em que, não raro, ouvimos de imigrantes negros no Brasil contemporâneo, pessoas que vieram, por exemplo, do Haiti e países de África, o espanto e o choque por perceberem que o Brasil não é o paraíso racial de que ouviram falar antes de para cá imigrarem3.

A manutenção de que “o racismo é do outro”, enquanto ideia subjacente ao projeto do qual Nascimento nos alerta, parece seguir seu curso normal a partir dos aparelhos ideológicos no funcionamento do social. Exemplifico: em 29 de maio de 2020, no calor dos protestos do #BlackLivesMatter nos EUA, vimos o Jornal Nacional noticiar que “Um policial branco que matou um jovem negro é preso nos Estados Unidos”. Logo em seguida, nesse mesmo jornal e nessa mesma edição, tem-se a chamada, reiterada em outros espaços midiáticos como o site de notícias G1: “Jovem de 14 anos morre durante operação policial em favela do Rio de Janeiro”. A notícia se refere ao assassinato de João Pedro Mattos Pinto por policiais em São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro. E a pergunta inescapável é: por que a notícia referente ao país estrangeiro é racializada e a do Brasil não é, mesmo que ela também se refira a policiais brancos e um jovem negro?

Esse gesto de desracialização do dizer mostra, pelo negativo, pela elipse e pelo silenciamento, o funcionamento daquilo que tenho chamado de “discurso racializado”. Um discurso racializado dá conta de um funcionamento discursivo que movimenta imagens e dizeres de/sobre raça em diferentes condições históricas de produção, constituição, formulação, circulação, e que aparecem textualizados em diferentes materialidades significantes e tecnologias. Não se trata de uma tipologia discursiva, mas de uma discursividade propriamente dita – uma inscrição material de efeito linguísticos sobredeterminados por uma memória que não consegue contornar os efeitos dos processos de racialização. Também não é um tema, mas um funcionamento discursivo que pode ser constituído em diferentes processos de identificação e posições sujeito.

A produção de um discurso racializado, não sendo uma tipologia ou tema, mas uma inscrição material na história que constitui uma discursividade só pode ser recortada a partir da identificação de regularidades discursivas. Uma regularidade discursiva constitui uma estabilidade no eixo do interdiscurso que deixa suas marcas no intradiscurso, nas diversas formulações discursivas, uma repetição que cruza constituição e formulação ou, melhor dizendo, um encontro entre constituição e formulação, memória e sintaxe (ou sintaxes, para consideramos também composição e imbricação das diferentes materialidades significantes, como tem trabalhado Suzy Lagazzi), marcado pela repetição, pela reiteração, pelo excesso e, algumas vezes, pelo estranhamento.

Daí porque dizer aqui que a desracialização do dizer, no caso do Jornal Nacional, é também um discurso racializado, porque este não é “um ponto fora da curva” ou um “caso isolado”, mas uma regularidade no modo de noticiar esta violência racial de Estado. Um modo regular de apagar e não dizer desse genocídio em curso no Brasil que, na contraparte, ajuda na manutenção da ideia de cordialidade racial brasileira.

A questão da regularidade traz consigo a questão do arquivo e de sua construção. Na medida em que não concebemos discursivamente o arquivo como um conjunto de textos, uma “biblioteca” de documentos, lembro com Barbosa Filho (2019, p. 31) que “o arquivo não é um dado. Ele não se mostra. É preciso montá-lo”. E a montagem do arquivo toma como ponto fundamental a observação daquilo que se inscreve na história produzindo discursividade.

É preciso, então, levar em consideração a regularidade da/na montagem dos arquivos para compreender o funcionamento dos discursos racializados. Se, por um lado, é possível pensarmos num arquivo do grito negro, tendo em vista o grito como uma forma de dizer no modo de identificação da interpelação do sujeito (em) negro (cf. Modesto, 2018); por outro lado, é possível construir um arquivo em que a desracialização do dizer se mostra como ponto incontornável das formas de significar os discursos da democracia racial, da cordialidade brasileira e também do modo como se construiu o sujeito branco como um sujeito universal.

Essa parece ser uma questão que demanda uma agenda de pesquisa em análise de discurso.

Notas

  1. “Necropolítica” é, como seu nome já aponta, uma política de morte. Conforme Achile Mbembe (2018), a necropolítica é um conjunto de políticas de controle social que tem a morte como objeto. É a materialização do poder (soberania) do Estado acerca da decisão sobre quem pode e deve morrer.
  2. Num terrível livro de título “Não existe racismo no Brasil”, no qual o jornalista Ali Kamel afirma que o racismo é uma invenção dos sociológicos, dos movimentos sociais e das políticas afirmativas que começam no governo FHC, Kamel tropeça ao dizer justamente isso: “O EUA é mais racista que o Brasil”. Lembro, então, de Lacan (2009), para quem “nossas palavras que tropeçam são palavras que confessam”
  3. Fábio Ramos Barbosa Filho, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e líder do Grupo de Pesquisa Discurso e Arquivo – Darq, desenvolve, nesse momento, a pesquisa “Discurso, arquivo, memória: sentidos da presença africana no Rio Grande do Sul” que mostra como a memória da imigração e da presença africana atualizam os discursos fundadores do/no Brasil produzindo sentido sobre o que significa ser negro neste país.

Referências

BARBOSA FILHO, Fábio Ramos. O discurso antiafricano na Bahia no século XIX. São Carlos: Pedro e João Editores, 2019.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 1: os escritos técnicos de Freud (1953-1954). Rio de Janeiro: Zahar, 2009.

LAGAZZI, Suzy. O recorte significante na memória. In: Anais do III SEAD – Seminário de Estudos da Análise de Discurso, 2009.

MBEMBE, Achile. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. São Paulo: N-1 edições, 2018.

MODESTO, Rogério. Interpelação ideológica e tensão racial: efeitos de um grito. In: Revista Littera, v. 9, n. 17, 2018, p. 213-236.

NASCIMENTO, Abdias. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.