Fertilidade masculina e farmacologia: como o uso de fármacos pode impactar na qualidade seminal?

Por Martina Stapenhorst

Em um serviço de reprodução assistida são atendidos diversos casos todos os anos, com causas, diagnósticos e tratamentos variados. Considerando que a infertilidade é uma condição que atinge cerca de 15% dos casais, e que a demanda por serviços de fertilização in vitro é cada vez maior, precisamos entender as causas de infertilidade e, principalmente, aquelas que podem ser prevenidas ou minimizadas. No laboratório de andrologia, setor no qual eu trabalho, lidamos com os homens: procuramos, avaliamos e escolhemos espermatozoides. Parece simples, mas vai muito além disso.

Aproximadamente 7% dos homens ao redor do mundo são diagnosticados com infertilidade causada por fator masculino; no laboratório, isso se traduz em 30 a 50% dos casais que estão tentando engravidar através de tratamentos de reprodução assistida. Ou seja, até metade dos casais atendidos tem um diagnóstico de fator masculino. Se pararmos para pensar, é um número muito significativo, tanto que a infertilidade masculina vem sendo considerada um problema de saúde pública global que precisa de atenção. Com este quadro, será cada vez mais comum que médicos e urologistas encontrem em seus consultórios pacientes com questões seminais importantes.

Esse assunto foi tratado com brilhantismo no artigo de revisão de Tony Chen e colaboradores, publicado em outubro de 2021 na RBMO (Reproductive BioMedicine Online), intitulado “Male infertility as a marker for health” (Infertilidade masculina como um marcador de saúde), o qual iremos destrinchar, mais especificamente na seção que entrelaça a fertilidade com a farmacologia.

Na rotina do laboratório, muitas vezes nos deparamos com casos curiosos, e um dos mais comuns é oligozoospermia grave (baixíssima concentração de espermatozoides no ejaculado) ou azoospermia (ausência de espermatozoides no ejaculado) causada por uso de testosterona exógena. Alguns pacientes que apresentavam contagem de espermatozoides normal em coletas prévias “de repente” passam a apresentar um dos dois quadros que citei acima. Quando nos deparamos com uma amostra com um declínio tão abrupto, sempre investigamos e indagamos o paciente. Muitos deles informam, ao final de muito questionamento, que estão fazendo uso de testosterona. A maioria não sabe que ela pode afetar a fertilidade, e em alguns casos mais específicos, médicos de outras especialidades prescrevem medicações com a substância na fórmula e não fazem ideia dos seus riscos. A testosterona exógena afeta o eixo hipotálamo hipofisário-testicular e, mesmo após cessar o uso, a produção de espermatozoides pode não retornar. Portanto, se você é homem e está tentando ter filhos, não use testosterona (esse hormônio já foi abordado em outra matéria do farmacoLÓGICA).

Outra medicação conhecida por estar relacionada com anormalidades seminais é a finasterida, que faz parte de um grupo de fármacos conhecidos como inibidores da 5α-redutase. Com a inibição desta enzima, um dos produtos da via de formação da testosterona endógena tem sua formação comprometida: a diidrotestosterona. A redução desta substância em níveis de circulação sanguínea pode causar diminuição da concentração total de espermatozoides no ejaculado em até 30%. A finasterida é comumente utilizada para tratamento de alopecia e hiperplasia prostática benigna.

Em relação ao tratamento da pressão alta, os fármacos da classe dos betabloqueadores também podem levar a alterações na qualidade seminal. Um dos estudos citados no artigo comparou o impacto de diferentes fármacos anti-hipertensivos na qualidade seminal e constatou que pacientes em uso de beta-bloqueadores apresentaram uma significativa diminuição de concentração espermática e motilidade (número de espermatozoides móveis), enquanto pacientes que utilizaram fármacos de outras classes, como os inibidores da ECA (enzima conversora de angiotensina), bloqueadores do receptor de angiotensina e bloqueadores de canais de cálcio não apresentaram alterações na qualidade seminal. São exemplos de betabloqueadores o carvedilol, o propranolol, o atenolol e o metoprolol.

Entre as substâncias recreacionais, começaremos falando sobre o álcool. O seu consumo ocasional não é considerado um fator de risco importante; entretanto, sua ingestão diária já foi consistentemente associada à diminuição do volume seminal e a uma pior morfologia espermática (forma dos espermatozoides). Já o cigarro afeta negativamente a concentração espermática e também a morfologia. Além dessas alterações, existe uma mais sutil que não pode ser detectada através de um simples espermograma: a chamada fragmentação de DNA espermático, que consiste em quebras de fita simples ou dupla no DNA dos espermatozoides. Índices elevados estão associados à abortos de repetição, e foram associados ao consumo diário de cigarros. Ou seja, quanto maior o consumo, maior o índice de fragmentação de DNA espermático do paciente. Outra substância que também pode afetar este índice é a cafeína. Entretanto, enquanto o cigarro afeta outros parâmetros seminais, a cafeína parece mantê-los normais.

Por fim, as drogas ilícitas também têm papel importante na fertilidade masculina. Considerando que grande parte dos consumidores são homens em idade reprodutiva, investigar a história pregressa do paciente em relação a este assunto é de extrema importância. Os opioides, por exemplo, atuam inibindo o hormônio liberador de gonadotrofinas, essencial para a produção espermática. Homens que abusam de tramadol, por exemplo, apresentam menor concentração e motilidade progressiva, além de níveis mais baixos de testosterona, segundo um estudo de 2016 (Farag et al.). Já a cocaína, uma droga de abuso que atua bloqueando o transportador de dopamina (DAT), pode causar diminuição de motilidade, concentração e morfologia segundo um estudo publicado em 1990 que investigou pacientes em uso da droga por mais de 5 anos (Bracken et al.).

O manejo da infertilidade masculina deve, portanto, se basear em diversos pilares, dentre eles o que avalia a utilização de fármacos, drogas de abuso e substâncias recreacionais que podem prejudicar a qualidade seminal. Atualmente, a quantidade de substâncias utilizadas pelos pacientes para tratamento de algum tipo de doença é enorme, como conseguimos verificar na prática laboratorial.

Na clínica em que atuo, aplicamos um questionário para todos os pacientes que realizam coleta seminal e nele há perguntas relacionadas a esse tema, em que o paciente cita se é tabagista, com que frequência consome álcool, se faz uso de algum medicamento e se consome algum tipo de droga. Dessa maneira, conseguimos comparar a qualidade seminal com os hábitos de vida do paciente, e ter uma ideia do impacto que o uso dessas substâncias pode estar causando no sêmen. Casos mais delicados precisam de orientação médica especializada, por isso trabalhamos em contato direto com os médicos urologistas, que avaliam todos os casos para que tenhamos a melhor qualidade seminal possível para a formação de um embrião e, futuramente, um bebê saudável.

Se você é homem e está tentando ter filhos ou pensa em tê-los algum dia, fique atento. Seus hábitos de vida interferem diretamente na qualidade seminal, bem como diversos fármacos e substâncias com as quais você pode estar em contato, como bem destrinchamos por aqui. A farmacologia e a fertilidade, apesar de não imaginarmos, estão mais próximas do que podemos supor.


Fontes:

Chen et al. Male fertility as a marker for health. RBMO, 2021.

3 comentário em “Fertilidade masculina e farmacologia: como o uso de fármacos pode impactar na qualidade seminal?”

  1. Bom dia, sou Aluísio estava usando o atenolol diariamente faz um ano e meio
    comecei a fazer espermograma para engravidar a minha mulher e deu concentracao muito baixa menos de 2 milhoes por ml fui em varios medicos e nao tinha evidencia do que seria, depois dessa noticia acredito que seja por causa do atenolol, unica causa plausivel. Porque nos medicos nao falaram nada sobre remedios.

    1. Sr. Aluisio, existem estudos que correlacionaram o uso de beta-bloqueadores, como o atenolol, com a diminuição da qualidade espermática, quando comparado com outros fármacos que não são desta classe; entretanto, não podemos afirmar que esta é uma relação direta, ou seja: que necessariamente quem faz uso dessa medicação terá a qualidade seminal prejudicada. O estudo forneceu evidências de uma possível associação entre eles. Na prática laboratorial, observamos pacientes com concentração espermática reduzida, por vezes sem causa aparente, mas esta é uma investigação que deve ser realizada por seu médico. Outros exames essenciais para investigação da fertilidade masculina são a microdeleção do cromossomo Y e ecografia testicular com Doppler. Fique atento também aos seus hábitos de vida (cigarro, drogas ilícitas, consumo de álcool, obesidade) e consulte um urologista, que poderá orientá-lo da melhor maneira. Se for do interesse, aqui um artigo sobre o uso dos beta-bloqueadores e a qualidade seminal: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5583372/#:~:text=Moreover%2C%20the%20use%20of%20beta,isolated%20impairments%20in%20semen%20parameters.

  2. Boa noite. Eu falo a partir de Angola. Estou passando por uma situação, que acho ser ejaculação retrógrado há quase 9 meses. No princípio, o esperma saía um pouco. Mas depois, piorou, agora não sai nada. eu tenho tido aquela sensação de ejacular, mas nada sai. depois quando vou mijar, sinto como se uma bola, ou um líquido pesado sai pelo impulso da urina.

    O que posso tomar para ultrapassar isso? Próximo ano é o meu casamento, e eu estou preocupado. Me ajudam, por favor!

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