“Bora para mais uma live galera?”

Contemporâneas
Imagem retirada do IG @saquinhodelixo

Texto: Diéssica Gaige

Nas últimas semanas, temos assistido não apenas à propagação do vírus Sars-Cov-2 no âmbito global, mas também à intensificação da ferramenta “ao vivo” nas mais distintas plataformas digitais em decorrência da pandemia. Como antropóloga digital que pesquisa o universo das artes marciais mistas, tenho acompanhado o uso que atletas e fãs de artes marciais, de modo geral, têm feito principalmente do Instagram. Como sobreviver sem treinar? Sem ir à academia? “Eu não posso parar o treino, preciso manter o shape!” “Ainda quero lutar esse ano.” Em que circunstâncias serão realizados os próximos eventos?

Ficar sem o treino diário, sem o deslocamento até a academia (local que também se torna um espaço de sociabilidade para muitas pessoas) se tornou um drama e é gatilho para distintos distúrbios, como a ansiedade. A recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) é que permaneçamos em casa para corrermos menos riscos de contaminação do vírus e de propagação da doença, pois falta infraestrutura para atender a tantos pacientes ao mesmo tempo. O famoso #stayhome é NECESSÁRIO, embora, nesse momento, possa se tornar um período tedioso. Então, como gastar nossas energias? Como aproveitar a “quarentena” de uma forma empática?

Muitas academias têm se jogado mais ainda para o mundo online para propagandear seu trabalho. Além dos grupos de WhatsApp, onde geralmente se postam o treino do dia para seus clientes, outra estratégia adotada é passar um treino aberto ao público através da ferramenta “live” do Instagram ou que interessados e interessadas em treinar o solicitem através do direct dessa mesma plataforma. Para treinos personalizados e exclusivos, outra estratégia é levar as pessoas para outra plataforma através da qual terão acesso completo a esses treinos mediante pagamento.

Com isso, temos assistido a muitas (mas muitas!) stories e lives mesmo, de atletas e praticantes de esportes marciais nas mídias sociais. A foto ou vídeo do treininho pago, seguido da menção à academia e da figurinha que remete a localização “Em casa” se tornou mais corriqueira do que nunca, não concorda? Isso porque, agora, nos deparamos com uma forma mais acentuada nas relações online por conta do vírus Sars-Cov-2. A comunicação será predominantemente através das mídias para diminuir os riscos de contaminação e espalhamento da covid-19. No cenário atual, estamos tendo que usar com mais frequência as videoconferências para nos sentir próximos de familiares e amigos, ferramenta à qual a geração mais jovem é mais acostumada.

Para mim, tem sido interessante refletir sobre esse processo que coloca em evidência o que já vinha acontecendo há algum tempo: o relacionamento com as mídias digitais entre diferentes gerações. Sabemos que embora a televisão ainda exista e que praticamente toda a população brasileira tem mais acesso a ela do que à internet, nos últimos anos, o uso de smartphones também cresceu significativamente, inclusive entre os idosos.

Num país onde o envelhecimento populacional também aumentou nos últimos tempos, já vínhamos vivenciando situações e comportamentos online que se tratavam especificamente de “coisa de velhos” que estavam descobrindo o Facebook (rede social que se tornou mais usada entre pessoas com mais de 60 anos), como a não filtragem entre o que é ou não é fake news. Já foi complicado lidarmos do ponto de vista político com as fake news nas eleições de 2018, imagina como tem sido agora como um presidente que incita as pessoas a trabalhar porque a economia precisa girar e desrespeita as recomendações da OMS, de cientistas? Está difícil viver no Brasil, hein?

Diante dessas circunstâncias, quero reafirmar que as mídias sociais têm assumido um papel fundamental na propagação de informações e nós, enquanto cientistas, também devemos nos aventurar mais nelas e compartilharmos tudo o que aprendemos para assegurar que cheguem informações de qualidade para famílias, amigos, avós, crianças etc. Eu, por exemplo, envio sempre as informações atualizadas a respeito da pandemia no grupo da família no WhatsApp, mas também voltei a usar o Facebook para informar meus amigos dessa plataforma e antigos interlocutores de pesquisa do mestrado (idosos), porque sei o alcance que tem esse minha rede, que se difere dos meus contatos no Instagram.

Vivemos um cenário de ressignificação das relações no qual o digital é o protagonista. Estamos numa fase “entre gerações” que precisa aprender “na marra” a se comunicar online, numa época de influenciadores digitais. A lógica da rede é a interação e o engajamento online, então por que não investir em lives?
#FIQUEEMCASA #OMSRECOMENDA

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