Viagem ao passado: o livro*

Companhia ilimitada

Por Jéferson Alves

Como dizem Coelho e Rezende (2010), as emoções nos servem como modos de dar significados às narrativas, sejam elas biográficas ou não. O momento acerca do qual reflito é o de encontro com um objeto. Este é de fato o mais importante nessa descrição. Isso porque as memórias são fragmentadas e incertas e a origem do objeto e seu desaparecimento são um mistério gostoso de ser relembrado. Trato aqui do livro Descanse em paz, meu amor, de Pedro Bandeira.

Escolho esse livro e o momento passado com ele por dois motivos: foi o primeiro e único livro completo que li antes de ingressar na graduação (isto é, o único livro que li nos primeiros 19 anos de minha vida) e as emoções que senti quando o li são ainda muito vivas, tão vivas que hoje, relendo o livro, sinto todo o sabor delas, quase de forma inalterada.

As marcas deixadas por essas emoções (AHMED, 2014) em mim datam de um tempo que não rememoro. Não sei ao certo quantos anos tinha, mas imagino que algo entre os nove e os doze anos. Lembro que esse livro foi emprestado, primeiramente, ao meu pai por minha (anos depois) madrinha de crisma. O porquê de meu pai se interessar por um livro infanto-juvenil, ou o porquê de minha madrinha acreditar que meu pai gostaria de ler um livro infanto-juvenil, ou ainda o porquê de ela mesma o ter lido, eu não sei. Mas isso me mostrava que o livro era relevante.

A primeira vez em que vi o livro foi na sala de casa, na estante principal, onde havia uma porta com tudo que meu pai julgava importante para ele: carteira, agenda, contas a pagar, pastas, caixas e livros. Aquela era a “gaveta do pai”. Por si só já era mágica. Lembro até mesmo de um dicionário de inglês que ele guardava ali, dos tempos em que estudava no ensino médio. Era lindo, velho, gasto, com páginas caindo, mas era de inglês, língua que na época me remetia aos videogames que eu jogava, e era de meu pai. E, junto com isso tudo, o Descanse em paz, meu amor.

Em um fim de dia, momento depois do trabalho do meu pai, em que eu conseguia conversar com ele, vi que ele abria a estante e pegava o livro. Perguntei que livro era, ele me mostrou e perguntou se eu queria emprestado pra ler. Nossa! Que alegria! Imagina ler um livro da “gaveta do pai”? Aceitei. Não sei quanto tempo levou até que o livro parasse em minhas mãos, mas eu o recebei eventualmente. Hoje, lembro apenas que, até recentemente, sabia apenas do plot da história e de todas as emoções que senti lendo-o. Sei, também, que essas emoções estão intimamente ligadas por toda essa mística de empréstimo do livro, de quem ele veio e de ter depois “desaparecido”. Mas as histórias que ele conta me deixaram profundamente emocionado.

O livro conta pequenas histórias de horror para adolescentes. É uma história de um grupo de jovens que está em uma cabana, em uma montanha, e falta luz devido a uma tempestade. Não podem sair da cabana, porque a ponte que os liga à estrada foi destruída pela chuva. Assim, à luz de velas, decidem contar histórias de horror para se entreterem. Lembro que na época senti medo ao ler, mas não o medo comum que tenho dos filmes de terror e horror – sou extremamente afetado por histórias de espíritos diabólicos, talvez pela produção de sentidos “públicos” (SIQUEIRA; VÍCTORA, 2017) que essas histórias trazem. Era um medo gostoso, mais simples, uma emoção que me atiçava e me fazia querer ler cada vez mais, para saber o fim de cada um dos contos. Li o livro em um tempo que não sei. Não lembro se demorei, se li rápido, se li aos poucos ou “numa sentada”. Porém, o livro me marcou.

Para ver como o medo era de fato gostoso, aqui um trecho do livro:

— O que o senhor está dizendo? Minha filha está morta!

Foi como um soco. Para ele, aquela menina deveria ter se tornado eterna, sempre criança, como vivera por três décadas em sua memória.

— Oh, eu sinto muito! Que tragédia! Uma menina tão linda… Como foi que ela…

O velho não desviava os olhos rubros do visitante e explodiu:

— Ela já estava morta um ano antes do início da guerra!

Estavam ambos paralisados, um olhando para o outro. De repente, uma compreensão louca tomou conta dos dois. (BANDEIRA, 2011, p. 77).

Uma história de terror atrás da outra, mas sempre com uma mensagem gostosa. Aqueles que vão, os que ficam e os que voltam estão sempre se apoiando. O medo de que existisse algo sobrenatural me dava ainda mais prazer na leitura. Embora eu ainda tenha medo de imaginar coisas desse tipo, esse livro me acalenta em momentos de tensão.

A marca (AHMED, 2014) deixada por uma interação social com esse objeto também caracteriza meu modo de perceber a leitura e os livros. Sempre busquei, sem saber, algo que se assemelhasse àquela leitura, inclusive em meus livros preferidos: Alice no país das maravilhas e a sequência Alice através do espelho. Penso que isso se deve à simplicidade da escrita e do modo de contar histórias, mas que traz consigo uma profundidade enorme nas questões levantadas ao se contar as aventuras da uma pequena menina e sua grande imaginação. Para quem ainda não o leu, deixo um trecho do segundo livro aqui e recomendo que os leia o quanto antes. É indispensável a leitura dessa obra. No trecho, Alice está olhando pelo espelho acima da lareira da sala de estar, e do outro lado ela vê um outro mundo:

Bem, se você ficar só ouvindo, sem falar tanto, vou lhe contar todas as minhas ideias sobre a Casa do Espelho. Primeiro, há a sala que você pode ver através do espelho, só que as coisas trocam de lado. Posso ver a sala toda quando subo numa cadeira… fora o pedacinho atrás da lareira. Oh! Gostaria tanto de poder ver esse pedacinho! Gostaria tanto de saber se eles têm um fogo aceso no inverno: a gente nunca pode saber, a menos que o nosso fogo lance fumaça, e a fumaça chegue a essa sala também… mas pode ser só fingimento, só para dar a impressão de que têm um fogo. Agora, os livros são mais ou menos como os nossos, só que as palavras estão ao contrário; sei porque segurei um dos nossos livros diante do espelho e eles seguraram um na outra sala. (CARROLL, 2013, p. 118-119).

Esse trecho é tão marcante, tão cheio de significados, que se tornou epígrafe de minha dissertação. Além disso, já escrevi alguns textos – não publicados – acerca disso e sempre retomo esse trecho quando penso, por exemplo, as questões em torno da corporalidade em minhas pesquisas. O que mais pode ser o “olhar no espelho”, como Alice olha, do que imaginar a mim e aos que seguram um livro na outra sala, ou que tentam imitar o fogo fazendo fumaça?

Os livros que hoje leio não me fazem, na extensa maioria das vezes, chegar perto daquela emoção da leitura do livro de Pedro Bandeira. Talvez daí o conto popular de que a “primeira vez é sempre inesquecível” fazer sentido. A cada página que passava, a cada conto que lia, a emoção que me vinha junto com o medo, exprimia em minha mente um “bah! Que massa!”, “bah! O que vai ser a próxima?!”. Nunca pude imaginar que palavras escritas fariam isso comigo ou com qualquer pessoa.

O livro ficou nas minhas mãos pelo tempo que levei para lê-lo. Depois disso, devolvi para meu pai e o objeto simplesmente desapareceu. Eu não sei quando foi devolvido, nem se foi devolvido. Lembro de minha madrinha, lá em casa, perguntando ao meu pai do livro – não sei se sobre o que ele achou ou se já tinha terminado de lê-lo. E depois, adeus. Nunca mais tive contato com ele.

Durante anos quis ler de novo, mas por motivos diversos – como falta de dinheiro, falta de tempo, esquecimento, graduação, mestrado, atropelos da vida – nunca o fiz. Esse ano, em pandemia, com uma turbulenta conjuntura emocional, com uma despadronização de meus hábitos, resolvi fazer um curso de escrita criativa e comprei um exemplar do livro de Bandeira em um sebo online. Ah, que maravilha! Eu deveria ter feito isso há muito! Como é gostoso ler esse livro. E hoje ainda sinto aquela alegria e todos aqueles “bah!” de antes, com pouca perda de intensidade.

Além disso, hoje o leio também como escritor, o que me dá ideias e percepções totalmente outras. É quase como reviver integralmente uma experiência passada, mas com camadas adicionais que apenas a tornam melhor. É um livro bem escrito, como já disse. Talvez Pedro Bandeira entregue um pouco mais do que ele gostaria já no terceiro ou quarto capítulos, mas acredito que isso é só porque já sei da história. No geral, o livro me ajudou não apenas a rememorar toda aquela emoção passada, aquele marco na minha vida, mas também a traçar rumos para minhas novas experiências, agora de escrita, não mais apenas de leitura.

Se antes o livro era um mistério, hoje é uma realidade gostosa. Se era passado, é agora presente e futuro. Se era “do meu pai”, agora é meu. Muitos “se” surgiram e outros mais virão, mas confirmo uma coisa: Descanse em paz, meu amor é parte de mim, com a presença física do livro ou não.


REFERÊNCIAS

AHMED, S. Willful subjects. Durham: Duke University Press, 2014.

BANDEIRA, P. Descanse em paz, meu amor. 7 ed. São Paulo: Ática, 2011.

CARROLL, L. Aventuras de Alice no país das maravilhas & através do espelho. Ilustrações originais John Tenniel. Maria Luiza X. de A. Borges (trad.). 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

COELHO, Ma. C.; REZENDE, C. B. Antropologia das emoções. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010.

SIQUEIRA, M. C.; VÍCTORA, C. O corpo no espaço público: emoções e processos reivindicatórios no contexto da “Tragédia de Santa Maria”. sexualidad, salud y sociedad, v. 25, p. 166-190, 2017. Disponível em: <http://www. scielo. br/scielo. Php>. Acesso em: 08 de outubro de 2019.


* Esse é o terceiro dos textos que foram escritos durante a disciplina Seminário de Doutorado, ministrada no semestre letivo 2020.1 pelo professor Dr. Ruben George Oliven no PPGAS – UFRGS. Essa disciplina tem o objetivo de abrir os horizontes de pesquisadoras e pesquisadores em formação, desafiando-os a produzir notas de leitura, reflexões pontuais e coesas bem como monografias sobre algo que não se tenha cogitado investigar até então.

O jovem anarquista que a ministra costuma encerrar o semestre letivo com sua querida “caminhada etnográfica”, um passeio guiado pela cidade de Porto Alegre em que sociabilidade urbana e memória se entrecruzam. Em 2020, devido à COVID-19 e às suas medidas de mitigação, essa atividade teve de ser reelaborada e, em seu lugar, o professor propôs a escrita de reflexões de pequena extensão que caminhassem por veredas da memória ou que vertessem o olhar sobre as vias pandêmicas que nos cercam.

(Ilustração: Pixabay).

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