Por Luísa Pitanga
O nosso flanar a gente inventa
Me pego pensando como teria sido a caminhada etnográfica que não foi. Aonde iríamos, o que observaríamos, como nos organizaríamos? Um grupo de estudantes e seu professor pelas ruas. Piadas, risadas, conversas, alguns anotam, outros gravam áudios, fazemos fotos, alternamos entre dispersão e atenção. Aonde terminaríamos a caminhada? No que resultaria? Com todos os riscos e interdições ainda é possível imaginar, fabular, inventar caminhos. Como diz o poeta Manoel de Barros, “quem anda no trilho é trem de ferro. Sou água que corre entre pedras – liberdade caça jeito”.
Em tempos de caçar jeito, navego na internet em busca do caminhar etnográfico. Minha primeira pista é o flâneur. Mais do que um tipo social ou personagem literário do século XIX, o flâneur é uma ideia que vem sendo apropriada (e reinventada) pela antropologia para pensar métodos de pesquisa em antropologia urbana.
A antropóloga Beatriz Oliveira (2019) vem se debruçando em pesquisa que demonstra a formação de uma linhagem benjaminiana na antropologia em diálogo com dois significados da ideia de flâneur encontrados na obra de Walter Benjamin: (1) o flanar como experiência de deslocamento e fonte de reflexividade no trabalho etnográfico, ou ainda (2) como forma de escrita etnográfica que se aproveita de fragmentos de discursos coletados dos interlocutores, da paisagem urbana e do pesquisador e reverbera em um texto polifônico. A observação flutuante de Colette Pétonnet, pioneira da etnologia urbana francesa; a etnografia de rua de Cornélia Eckert e Ana Luiza Carvalho da Rocha; o flâneur etnográfico de Chris Jenks e Tiago Neves e o flâneur pós-moderno de Charles Soukup são as propostas estudadas por Oliveira (2019).
O flâneur é um indivíduo que se perde em deambulações pelas ruas, galerias, bulevares, sem roteiros prévios, sem planos, mas com os sentidos atentos para observar os elementos e tipos sociais urbanos. Desloca-se vagarosamente “em protesto aos ritmos do capitalismo” (OLIVEIRA, 2019, p. 03), a levar “tartarugas a passear pelas galerias” (OLIVEIRA, 2019, p. 06). É um consumidor de tempo, não de mercadorias. Inerente à ideia do flâneur, está o ato de caminhar sem pressa pela cidade. O flâneur também é um observador e um narrador. Todas práticas afins ao fazer antropológico.
(Imagem: Colagem digital sobre foto de David Blumim)
Propor-se a uma etnografia de rua ou na rua (ECKERT; ROCHA, 2003) ou a uma observação flutuante (PÉTONNET, 2008) é acreditar que a cidade fala, revela, enuncia, esconde, silencia algo que seremos capazes de ouvir, ver, ler, desvelar.
Nas enunciações pedestres de Michel de Certau (1998), cada percurso equivale a um relato. O ato de caminhar do transeunte estaria para o sistema urbano como a enunciação do falante para a língua. O caminhar seria processual, uma fuga às tentativas de fixação do sistema espacial. Se o mapa demarca e firma, o percurso fornece uma série de informações sobre os modos de usar o sistema, repletos de “táticas” (DE CERTEAU, 1998). Aquelas pequenas transgressões e astúcias que os pedestres/consumidores desenvolvem na relação com a cidade e que passam ao largo do sistema.
Tim Ingold (2007) sugere que o mundo é descoberto à medida que direcionamos a atenção e que as vidas são vividas não dentro de lugares, mas através, em torno, para e de lugares. A existência humana se desdobra ao longo de caminhos. Que deixemos de lado as formas fixas, o que importa são as linhas, as trilhas, o caminhar.
Em sintonia com De Certeau (1998) e Ingold (2007) e a abordagem fenomenológica, Barbara Bender e Margot Winer (2001) criticam o que chamam de “noção ocidental – elitista de paisagem”, entendida como algo estático, a se visualizar, emoldurar, e exploram aspectos processuais da paisagem, suas relações com a lei, com o Estado e com os processos de patrimonialização, potencialmente em conflito. É através da agência, do engajamento e do movimento que a paisagem é descoberta. Assim, Bender e Winer (2001) propõem ampliarmos a ideia de paisagem para a maneira pela qual as pessoas compreendem e interagem com o mundo material à sua volta, reconhecendo que o ser-no-mundo é sempre histórico e espacialmente contingente.
A flâneuse e os lugares por onde deixamos de andar
Vale lembrar que o flâneur representa a liberdade de vagar de um homem. Já, a figura da flâneuse surge em uma definição imaginária do termo a partir de revisões historiográficas de algumas historiadoras da arte, como uma observadora urbana, a mulher artista caminhante (NUNES, 2018).
O anonimato e a despreocupação também característicos do flâneur não caberiam à flâneuse, em geral objeto do olhar masculino de julgamento, admiração ou assédio. A mulher que vaga pela rua, em uma perspectiva machista histórica ou literária, era em geral associada à prostituição. No entanto, essa era uma mulher que também não era livre, pois marginalizada nos espaços. A rua, no imaginário dominante do início das metrópoles, era vista como lugar de risco para as mulheres, que deveriam andar sempre acompanhadas, pois eram menos capazes de evitar perigos por sua “natureza” frívola, sua vulnerabilidade mental e pouca força física (MONNET, 2013).
(Imagem: Défense d’Afficher, de Marianne Breslauer, Paris, 1936)
A palavra alemã Wanderlust pode ser traduzida como ânsia de vagar. No livro de mesmo nome, a escritora feminista Rebecca Solnit (2020) constrói uma espécie de história da caminhada, a partir da constatação de que houve uma aniquilação do desejo de caminhar sozinha nas mulheres:
A descoberta mais devastadora da minha vida foi que eu não tinha nenhum direito real a vida, a liberdade, a busca da felicidade fora de casa, que o mundo estava cheio de desconhecidos que pareciam me odiar e queriam me fazer mal só por causa do meu gênero, que o sexo se convertia prontamente em violência e que quase ninguém considerava o fato como um assunto público, e não um problema privado. (SOLNIT, 2020, p. 21).
Nadja Monnet, autodenominada flâneuse-etnóloga, fez pesquisa de campo em uma praça em Barcelona durante meses e identificou que uma mulher sozinha parada em uma praça pode ser até mais incômodo que uma mulher que caminha sozinha:
[…] as mulheres sozinhas ocupam muito raramente os bancos e, se este for o caso, elas não costumam ficar por muito tempo: seja porque alguém as encontra logo depois que elas se sentam, seja porque elas só fazem uma breve pausa em seu percurso que irá levá-las a outro lugar. […]. Tudo parece ser implementado para que as mulheres desacompanhadas tenham que solicitar uma “autorização de uso” desses lugares, uma autorização que se concretiza através de várias justificactivas que elas se sentem compelidas a dar para ficar um momento na praça ou para se envolver em uma conversa com alguém. Um pedido de informações, à espera de um/a amigo/a ou um parente, o lanche das crianças, a necessidade de acompanhar seus maridos (no caso de mulheres mais velhas) ou uma pessoa de que é responsável de cuidar, são todas as desculpas usadas para justificar a sua presença neste espaço dinâmico, que só o homem parece aproveitar plenamente. Na verdade, para a grande maioria dos interlocutores do sexo masculino, a etnóloga solitária que eu era, trabalhando neste espaço público, foi interpretado como sinônimo de disponibilidade, de ‘mulher fácil’, em busca de aventuras. Como pude perceber nas várias propostas que me foram feitas ou nas conversas que foram bruscamente interrompidas quando meu estado civil (casada com filhos) foi revelado. (MONNET, 2013, p. 226 – 227).
Permeadas pelo paradoxo da invisibilidade como sujeitas sociais e da hiperexposição como objetos no espaço público, nós, mulheres, temos nossas caminhadas feitas de interditos, lacunas, passos não dados, autoexclusão. Contudo, Monnet (2013) vislumbra uma outra forma de agir nas mulheres mais jovens, que andam em grupos, ocupam a praça e seus bancos, sentam de pernas abertas, deitam na grama e se beijam à luz do dia. A questão que fica é: como caminhamos pelas ruas?
REFERÊNCIAS
BENDER, Barbara; WINER, Margaret. (orgs.). Contested Landscapes: Movement, Exile and Place. Oxford: Routledge, 2001.
DE CERTEAU, Michel. A invenção do cotidiano. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1998.
INGOLD, Tim. Lines: a brief history. Londres: Routledge, 2007.
MONNET, Nadja. Flanâncias femininas e etnografia. Redobra, Salvador, a. 04, n. 11, p. 218 – 234, 2013. Disponível em: <http://www.redobra.ufba.br/wp-content/uploads/2013/06/redobra11_23.pdf>. Acesso em: 05 jul. 2020.
NUNES, Thiane. Em busca da flâneuse: mulheres que perambulam a cidade. Encontro de História da Arte, 13., 2018, Porto Alegre. Anais… Porto Alegre: [s.n.], 2018.
OLIVEIRA, Beatriz C. Linhagens benjaminianas do pensamento etnográfico: fragmentação e flânerie. In: Reunião de Antropologia do Mercosul, 13., 2019, Porto Alegre. Anais… Porto Alegre: [s.n.], 2019.
PÉTONNET, Colette. Observação flutuante: o exemplo de um cemitério parisiense. Antropolíticas, Niterói, n. 25, p. 99 – 111, 2008. Disponível em: <http://www.marcoaureliosc.com.br/08petonnet.pdf>. Acesso em: 05 jul. 2020.
ROCHA, Ana Luiza C. da; ECKERT, Cornelia. Etnografia de rua: estudo de antropologia urbana. Rua, Campinas, n. 9, p. 101 – 127, 2003. Disponível em: < https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/187458/000431143.pdf?sequence=1&isAllowed=y>. Acesso em: 05 jul. 2020.
SOLNIT, Rebecca. A história do caminhar. São Paulo: Martins Fontes, 2020.
* Esse é o quarto dos textos que foram escritos durante a disciplina Seminário de Doutorado, ministrada no semestre letivo 2020.1 pelo professor Dr. Ruben George Oliven no PPGAS – UFRGS. Essa disciplina tem o objetivo de abrir os horizontes de pesquisadoras e pesquisadores em formação, desafiando-os a produzir notas de leitura, reflexões pontuais e coesas bem como monografias sobre algo que não se tenha cogitado investigar até então.
O jovem anarquista que a ministra costuma encerrar o semestre letivo com sua querida “caminhada etnográfica”, um passeio guiado pela cidade de Porto Alegre em que sociabilidade urbana e memória se entrecruzam. Em 2020, devido à COVID-19 e às suas medidas de mitigação, essa atividade teve de ser reelaborada e, em seu lugar, o professor propôs a escrita de reflexões de pequena extensão que caminhassem por veredas da memória ou que vertessem o olhar sobre as vias pandêmicas que nos cercam.


