A Filosofia da Ficção de Vilém Flusser

SIMPÓSIO INTERNACIONAL:

6 a 14 de agosto de 2010

Informações

www.dubitoergosum.xpg.com.br/1simpflusser.htm

Inscrições

As inscrições já estão abertas e são gratuitas, mas devem ser feitas para reserva de lugar e para emissão posterior de certificados. Cada pessoa se inscreve através do e-mail flusserinrio@gmail.com, informando: nome completo, categoria (por exemplo: “aluno de graduação” ou “professor”), curso (por exemplo: “Instituto de Letras”) e filiação institucional (por exemplo: “UERJ”).

Local

TEATRO NOEL ROSA

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Rua São Francisco Xavier 524, Maracanã, Rio de Janeiro, RJ

Coordenação

Dr. Gustavo Bernardo (UERJ-CNPq-FAPERJ)

06 de agosto, sexta-feira: no RAV-112, 11º andar da UERJ

09:00: defesa da dissertação de Lucas de Mello Cabral e Matos: “Oásis no deserto da referencialidade: Arnaldo Antunes e Vilém Flusser”.

Banca examinadora: Gustavo Bernardo (orientador), Joachim Michael (Universität Hamburg e Universidad de Guadalajara) e Norval Baitello (PUC-SP)

14:00: lançamento do livro Machado de Assis und die Sklaverei – Machado de Assis e a escravidão. Mesa-redonda com Markus Schäffauer, Joachim Michael e Gustavo Bernardo

09 de agosto, segunda-feira: no Teatro Noel Rosa

08:00: José Castello: “A poesia do pensamento”

08:45: Rainer Guldin: “Writing philosophy: Vilém Flusser`s textual strategies”

09:45: INTERVALO

10:00: Norval Baitello Jr: “As metáforas do espaço e os vazios midiáticos pensados por Flusser”

10:45: Rafael Cardoso: “O exílio de Flusser e o refúgio da linguagem”

11:30: ALMOÇO

14:00: Maurício Dwek & Chico Toledo: “Caixa Preta: um documentário sobre Vilém Flusser”

14:45: Luciana Hidalgo: “A dúvida na ficção, na filosofia e no jornalismo”

15:30: INTERVALO

16:00: Florence Haret: “Traduções imperfeitas entre realidade social e realidade jurídica: tudo é uma questão de provas!”

16:45: Paulo de Barros Carvalho: “O legislador como poeta”

10 de agosto, terça-feira: no Teatro Noel Rosa

08:00: Markus Schäffauer: “Além da ficção”

08:45: Joachim Michael: “Flusser: apocalipse e pós-história”

09:30: INTERVALO

10:00: Rodrigo Duarte: “Vampyroteuthis Infernalis como alegoria pós-histórica”

10:45: Rafael Haddock-Lobo: “A ficcionalidade quase-originária nos gestos de Flusser e Derrida”

11:30: ALMOÇO

14:00: Anke Finger: “Science, Fiction, and Interart Literature: writing the Technoimage”

14:45: Eva Batlickova: “Ficção filosófica como transparência poética”

15:30: INTERVALO

16:00: Cláudio de Souza Castro Filho: “Modernidade e estética fenomenológica em Vilém Flusser”

16:45: Dirk Hennrich: “Ficção e loucura em Fernando Pessoa e Vilém Flusser”

Apoio

FAPERJ; Editora Annablume; Instituto de Letras da UERJ; SR-2 da UERJ; Centro de Estudos Ambientais e Desenvolvimento Sustentável da UERJ (CEADS); Grupo de Estudos de Paulo de Barros Carvalho; Editora Noeses

Informações

www.dubitoergosum.xpg.com.br/1simpflusser.htm

Inscrições

As inscrições já estão abertas e são gratuitas, mas devem ser feitas para reserva de lugar e para emissão posterior de certificados. Cada pessoa se inscreve através do e-mail flusserinrio@gmail.com, informando: nome completo, categoria (por exemplo: “aluno de graduação” ou “professor”), curso (por exemplo: “Instituto de Letras”) e filiação institucional (por exemplo: “UERJ”).

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TEATRO NOEL ROSA

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Rua São Francisco Xavier 524, Maracanã, Rio de Janeiro, RJ

Coordenação

Dr. Gustavo Bernardo (UERJ-CNPq-FAPERJ)

06 de agosto, sexta-feira: no RAV-112, 11º andar da UERJ

09:00: defesa da dissertação de Lucas de Mello Cabral e Matos: “Oásis no deserto da referencialidade: Arnaldo Antunes e Vilém Flusser”.

Banca examinadora: Gustavo Bernardo (orientador), Joachim Michael (Universität Hamburg e Universidad de Guadalajara) e Norval Baitello (PUC-SP)

14:00: lançamento do livro Machado de Assis und die Sklaverei – Machado de Assis e a escravidão. Mesa-redonda com Markus Schäffauer, Joachim Michael e Gustavo Bernardo

09 de agosto, segunda-feira: no Teatro Noel Rosa

08:00: José Castello: “A poesia do pensamento”

08:45: Rainer Guldin: “Writing philosophy: Vilém Flusser`s textual strategies”

09:45: INTERVALO

10:00: Norval Baitello Jr: “As metáforas do espaço e os vazios midiáticos pensados por Flusser”

10:45: Rafael Cardoso: “O exílio de Flusser e o refúgio da linguagem”

11:30: ALMOÇO

14:00: Maurício Dwek & Chico Toledo: “Caixa Preta: um documentário sobre Vilém Flusser”

14:45: Luciana Hidalgo: “A dúvida na ficção, na filosofia e no jornalismo”

15:30: INTERVALO

16:00: Florence Haret: “Traduções imperfeitas entre realidade social e realidade jurídica: tudo é uma questão de provas!”

16:45: Paulo de Barros Carvalho: “O legislador como poeta”

10 de agosto, terça-feira: no Teatro Noel Rosa

08:00: Markus Schäffauer: “Além da ficção“

08:45: Joachim Michael: “Flusser: apocalipse e pós-história”

09:30: INTERVALO

10:00: Rodrigo Duarte: “Vampyroteuthis Infernalis como alegoria pós-histórica”

10:45: Rafael Haddock-Lobo: “A ficcionalidade quase-originária nos gestos de Flusser e Derrida”

11:30: ALMOÇO

14:00: Anke Finger: “Science, Fiction, and Interart Literature: writing the Technoimage”

14:45: Eva Batlickova: “Ficção filosófica como transparência poética”

15:30: INTERVALO

16:00: Cláudio de Souza Castro Filho: “Modernidade e estética fenomenológica em Vilém Flusser”

16:45: Dirk Hennrich: “Ficção e loucura em Fernando Pessoa e Vilém Flusser”

Apoio

FAPERJ; Editora Annablume; Instituto de Letras da UERJ; SR-2 da UERJ; Centro de Estudos Ambientais e Desenvolvimento Sustentável da UERJ (CEADS); Grupo de Estudos de Paulo de Barros Carvalho; Editora Noeses

A Imagem-Tempo – Gilles Deleuze

Em vez de representar um real já decifrado, o neo-realismo visava um real, sempre ambíguo, a ser decifrado; por isso o plano-seqüência tendia a substituir a montagem das representações. O neo-realismo inventava, pois, um novo tipo de imagem, que Bazin propunha chamar de “imagem-fato”. (Deleuze, 1990:09)

O que define o neo-realismo é essa ascensão de situações puramente óticas (e sonoras, embora não houvesse som sincronizado no começo do neo-realismo), que se distinguem essencialmente das situações sensório-motoras da imagem-ação no antigo realismo. Talvez isso seja tão importante quanto a conquista de um espaço puramente óptico na pintura, ocorrida com o impressionismo. Objeta-se que o espectador sempre se defrontou com “descrições”, com imagens óticas e sonoras, e nada mais. Mais não é essa a questão. Pois os personagens reagiam as situações; mesmo quando uma delas se encontrava reduzida à impotência, era, em virtude dos acidentes da ação, atada e amordaçada. O que o espectador percebia era, pois, uma imagem sensório-motora da qual participava mais ou menos, por identificação com as personagens. Hitchcock inaugurou a reversão deste ponto de vista, incluindo o espectador no filme. Mas é só agora que a identificação se reverte efetivamente: a personagem tornou-se uma espécie de espectador. Por mais que se mexa, corra, agite, a situação em que está extravasa, de todos os lados, suas capacidades motoras, e lhe faz ver e ouvir o que não é mais passível, em princípio, de uma resposta ou ação. Ele registra, mais que reage. Está entregue a uma visão, perseguido por ela ou perseguindo-a, mais que engajado numa ação. (Deleuze, 1990:11)

(…) se a banalidade cotidiana tem tanta importância, é porque, submetida a esquemas sensório-motores automáticos e já construídos, ela é ainda mais capaz, à menor perturbação do equilíbrio entre a excitação e a resposta (…), de escapar subitamente às leis desse esquematismo e de se revelar a si mesma numa nudez, crueza e brutalidade visuais e sonoras que a tornam insuperável, dando-lhe o aspecto de sonho ou de pesadelo. (Deleuze, 1990:12)

Quanto a Fellini, desde seus primeiros filmes, não é apenas o espetáculo que tende a extravasar sobre o real, é o cotidiano que sempre se organiza como espetáculo ambulante, e os encadeamentos sensório-motores dão lugar a uma sucessão de variedades, submetidas a suas próprias leis de passagem. Barthélemy Amengual estabelece uma fórmula que vale para a primeira metade desta obra: “O real se faz espetacular. (…) Fellini alcança a confusão desejada do real e do espetáculo”, negando a distância, mas a própria distinção do espectador e do espetáculo. (Deleuze, 1990:14)

O olhar imaginário faz do real algo imaginário, ao mesmo tempo em que, por sua vez, se torna real e torna a nos dar realidade. (Deleuze, 1990:18)

(…) era preciso um novo tipo de atores não-profissionais que o neo-realismo revalorizara, de começo, mas o que se poderia chamar de não-atores profissionais, ou melhor, “atores-médiuns’, capazes de ver e de fazer mais que de agir, e ora ficar mundos, ora manter uma conversa qualquer infinita, mais do que responder ou seguir um diálogo. (Deleuze, 1990:31)

Um clichê é uma imagem sensório-motora da coisa. Como diz Bérgson, nós não percebemos a coisa ou a imagem inteira, percebemos sempre menos, percebemos apenas o que estamos interessados em perceber, ou melhor, o que temos interesse em perceber, devido a nossos interesses econômicos, nossas crenças ideológicas, nossas exigências psicológicas. (Deleuze, 1990:31)

Civilização da imagem? Na verdade uma civilização do clichê, na qual todos os poderes têm interesse em nos encobrir as imagens, não forçosamente em nos encobrir a mesma coisa, mas em encobrir alguma coisa na imagem. Por outro lado, ao mesmo tempo, a imagem está sempre tentando atravessar o clichê, sair do clichê. (Deleuze, 1990:32)

Primeiramente, enquanto a imagem-movimento e seus signos sensório-motores estavam em relação apenas com uma imagem indireta do tempo (dependendo da montagem), a imagem ótica e sonora pura, seus opsignos e sonsignos, ligam-se a uma imagem-tempo que sub-ordenou o movimento. É essa reversão que faz, não mais do tempo a medida do movimento, mas do movimento a perspectiva do tempo (…)(Deleuze, 1990:33)

(Welles, Resnais). Em segundo lugar, ao mesmo tempo que o olho acede a uma função de vidência, os elementos da imagem, não só visuais, mas sonoros, entram em relações internas que fazem com que a imagem inteira deva ser “lida” não menos que vista, legível tanto quanto visível. (Deleuze, 1990:34)

Enfim, a fixidez da câmera não representa única alternativa ao movimento. Mesmo móvel, a câmera já não se contenta ora em seguir o movimento das personagens, ora em fazer movimentos dos quais elas são apenas o objeto, mas, em todos os casos, subordina a descrição de um espaço a funções do pensamento. Não é a simples distinção do subjetivo e do objetivo, do real e do imaginário, é, ao contrário, a indiscernabilidade deles que vai dotar câmera de um rico conjunto de funções, e trazer consigo uma nova concepção do quadro e dos reenquadramentos. (Deleuze, 1990:34)

(…) para escapar ao mundo dos clichês. Era preciso que se abrisse em revelações poderosas [35] e diretas, as da imagem-tempo, da imagem-legível e da imagem pensante. (Deleuze, 1990:34-35)

A imagem-movimento é o objeto, é a própria coisa apreendida no movimento como função contínua. A imagem-movimento é a modulação do próprio objeto. (Deleuze, 1990:40)

O semelhante e o digital, a semelhança e o código, têm ao menos em comum o fato de serem moldes, um por forma sensível, o outro por estrutura inteligível: por isso podem se comunicar tão bem com o outro. Mas a modulação é bem diferente: é um fazer variar o molde, uma transformação do molde a cada instante da operação. (Deleuze, 1990:40)

É a modulação que nutre os dois moldes, que faz deles meios subordinados, com a possibilidade de tirar deles uma nova potência. Pois a modulação é a operação do Real, enquanto constitui e não apenas pára de reconstituir a identidade da imagem e do objeto. (Deleuze, 1990:40)

A imagem-movimento é a própria matéria, como mostrou Bérgson. É uma matéria não lingüisticamente formada, embora seja semioticamente e constitua a primeira dimensão da semiótica. Com efeito, as diferentes espécies de imagens que necessariamente se deduzem da imagem-movimento, as seis espécies, são os elementos que fazem dessa matéria uma matéria sinalética. E os próprios signos são os traços de expressão que compõem essas imagens, as combinam e não param de recriá-las, levadas ou carregadas pela matéria em movimento. (Deleuze, 1990:47)

A imagem-movimento tem duas faces, uma em relação a objetos cuja posição relativa faz ela variar, a outra em relação a um todo cuja mudança absoluta ele exprime.As posições estão no espaço, mas o todo que muda está no tempo. Se assimilarmos a imagem-movimento ao plano, chamaremos de enquadramento à primeira face do plano, voltada para os objetos, e de montagem à outra face, voltada para o todo. Daí, uma primeira tese: é a primeira montagem que constitui o todo, e nos dá assim a imagem do tempo. Ela é, portanto, o ato principal do cinema. O tempo é necessariamente uma representação indireta, porque resulta da montagem que liga uma imagem-movimento a outra. Por isso a ligação não pode ser mera justaposição: o todo não é uma adição, tampouco o tempo uma sucessão de presentes. Como Eisenstein costumava repetir, é preciso que a montagem proceda por alternâncias, conflitos, resoluções, ressonâncias, em suma, por toda uma atividade de seleção e de coordenação, para dar tanto ao tempo sua verdadeira dimensão, quanto ao todo sua consistência. Essa posição de principio implica que a própria imagem-movimento esteja no presente, e nada mais. (Deleuze, 1990: 48)

Mas também é preciso que o movimento seja normal: o movimento só pode subordinar o tempo e fazer dele um número que indiretamente o meça, se preencher condições de normalidade. O que chamamos de normalidade é a existência de centros: centros de revolução do próprio movimento, de equilíbrio das forças, de gravidade dos móveis, e de observação para um espectador capaz de conhecer ou perceber o móvel, e de determinar o movimento. Um movimento que se furta à centragem, de uma maneira ou de outra, é como tal anormalidade, aberrante. […] Ora, o movimento aberrante põe em questão o estatuto do tempo como representação indireta ou número do movimento, pois escapa às relações de número. Mas longe de o próprio tempo ficar abalado, ele encontra nisso a ocasião de surgir diretamente, e de livrar-se da subordinação ao movimento, de reverter essa subordinação. Inversamente, portanto, uma apresentação direta do tempo não implica a parada do movimento, mas, antes, a promoção do movimento aberrante. O que faz deste problema um problema tão cinematográfico quanto filosófico é o fato de a imagem-movimento parecer ser, em si mesma, um movimento fundamentalmente aberrante, anormal. (Deleuze, 1990:50)

Se o movimento normal vai subordinar o tempo, do qual nos dá uma representação indireta, o movimento aberrante atesta uma anterioridade do tempo, que ele nos apresenta diretamente, do fundo da desproporção das escalas, da dissipação dos centros, dos falsos raccords das próprias imagens. (Deleuze, 1990:51)

[…] não basta eliminar a ficção, em favor de uma realidade bruta que então nos remeteria, ainda mais, aos presentes que passam. É preciso, ao contrario, tender a um limite, fazer com que entre no filme o limite de antes e de depois do filme, apreender na personagem o limite que ela própria transpõe para entrar e sair do filme, para entrar na ficção como num presente que não se separa de seu antes e de seu depois. (Rouch, Perault). Veremos que é precisamente esse o objetivo do cinema-verdade ou do cinema direto: não alcançar um real que existisse independentemente da imagem, mas um antes e um depois assim como coexistem com a imagem, inseparáveis da imagem. Seria este o sentido do cinema direto, na medida em que é um componente de todo cinema: alcançar a apresentação direta do tempo. (Deleuze, 1990:52)

Outra coisa acontece no cinema dito moderno: não algo mais bonito, mais profundo, nem mais verdadeiro, mas outra coisa. É que o esquema sensório-motor já não se exerce, mas também não é ultrapassado, superado. Ele se quebra por dentro. Quer dizer que as percepções e as ações não se encadeiam mais, e que os espaços já não se coordenam nem se preenchem. Personagens, envolvidas em situações óticas e sonoras puras, encontram-se condenadas à deambulação ou à perambulação. São puros videntes, que existem tão-somente no intervalo de movimento, e não têm sequer o consolo do sublime, que os faria encontrar a matéria ou conquistar o espírito. Estão, antes, entregues a algo intolerável: a sua própria cotidianidade. É aí que se dá a reversão: o movimento já não é somente aberrante, mas a aberração vale agora por si mesma e designa o tempo como sua causa direta. “O tempo sai dos eixos”: ele sai dos eixos que lhe fixavam as condutas no mundo, mas também os movimentos do mundo. Não é mais o tempo que depende do movimento, é o movimento aberrante que depende do tempo. A relação situação sensório-motora/imagem indireta do tempo é substituída por uma relação não-localizavel situação ótica e sonora pura/imagem-tempo direta. Os opsignos e sonsignos são apresentações diretas do tempo. Os falsos raccords são a própria relação não-localizavel: as personagens não os saltam mais, mas mergulham neles. Para onde foi Gertrude? Para os falsos raccords. [N.R. Cf. Narboni, Sylvie Pierre et Rivette, “Montage”, in Cahiers du cinema, nº 210, mar. 1969.] (Deleuze, 1990:55)

A imagem-tempo é o fantasma que sempre assombrou o cinema, mas foi preciso o cinema moderno para dar corpo a esse fantasma. Essa imagem é virtual, em contraposição à atualidade da imagem-movimento. Mas, se virtual se opõe a atual, não se opõe a real, muito pelo contrário. Dirão ainda que essa imagem-tempo pressupõe a montagem, tal como a representação indireta a pressupunha. Mas a montagem mudou de sentido, ganhou nova função: em vez de ter por objeto as imagens-movimento, das quais ela retira uma imagem indireta do tempo, tem por objeto a imagem-tempo, extrai desta as relações de tempo, das quais o movimento aberrante agora apenas depende. Conforme uma expressão de Lapoujade, a montagem tornou-se “mostragem” [N.R. Bonitzer, Lê champ aveugle, in Cahiers du cinema-Gallimard, p. 130: “A montagem volta à ordem do dia, mas sob uma forma interrogativa que Eisenstein nunca lhe deu”.]

(Deleuze, 1990:56)

Bergson distingue dois tipos de “reconhecimento”. O reconhecimento automático ou habitual (a vaca reconhece o capim, eu reconheço meu amigo Pedro…) opera por prolongamento: a percepção se prolonga em movimentos de costume, os movimentos prolongam a percepção para tirar, dela, efeitos úteis. […] De certo modo, estamos sempre nos afastando do primeiro objeto: passamos de um objeto a outro, conforme um movimento horizontal ou associações de imagens, permanecendo, porém, num único e mesmo plano. […] Bem diferente é o segundo modo de reconhecimento, o reconhecimento atento. Aí, desisto de prolongar minha percepção, não posso prolongá-la. Meus movimentos, mais sutis e de outra natureza, retornam ao objeto, voltam ao objeto, para enfatizar certos contornos seus e extrair “alguns traços característicos”. E recomeçamos, a fim de destacar outros traços e contornos, porém, a cada vez devemos começar do zero. Em vez de uma soma de objetos distintos num mesmo plano, agora o objeto permanece o mesmo, mas passa por diferentes planos. [Bergson, Matière et mémoire, pp. 249-251 (114-116) E Lénergie spiritualle, Léffort intellectual” pp. 940-941 (166-167)] (Deleuze, 1990:59)

[…] Haveria uma resposta simples, provisória; é a que Bérgson dá em primeiro lugar: a imagem ótica (e sonora) no reconhecimento atento não se prolonga em movimento, mas entra em relação com uma “imagem-lembrança” que ela suscita. Talvez seja preciso conceber também outras respostas possíveis, mais ou menos vizinhas, mais ou menos distintas: o que entraria em relação seria algo real e imaginário, físico e mental, objetivo e subjetivo, descrição e narração, atual e virtual… (Deleuze, 1990:61)

[…] as imagens-lembrança já intervêm no reconhecimento automático: inserem-se entre a excitação e a resposta, e contribuem para ajustar melhor o mecanismo motor, reforçando-o com uma causalidade psicológica. Mas, nesse sentido, elas intervêm apenas acidental e secundariamente no reconhecimento automático, na medida em que são essenciais ao reconhecimento atento: este se faz por meio delas. Quer dizer que, com as imagens-lembrança, aparece um sentido completamente novo da subjetividade.

(Deleuze, 1990:63)

A relação da imagem atual com imagens-lembrança aparece no flash-back. Este é, precisamente, um circuito fechado que vai do presente ao passado, depois os traz de volta ao presente. (Deleuze, 1990:63)

É aí que o flash-back encontra sua razão: em cada ponto de bifurcação do tempo. A multiplicidade dos circuitos ganha portanto um novo sentido. Não são apenas várias pessoas que têm, cada uma, um flash-back, é o flash-back que é de varias pessoas (três em A condessa descalça, três em Quem é o infiel?, dois em A malvada (All about Eve)). E não são apenas os circuitos que se bifurcam entre si; cada circuito se bifurca consigo mesmo, como um cabelo quebrado. (Deleuze, 1990:65)

Portanto, são as bifurcações do tempo que dão ao flash-back necessidade, e às imagens-lembrança autenticidade: um peso de passado sem o qual elas continuariam a ser convencionais. Mas por quê, como? A resposta é simples: os pontos de bifurcação são o mais das vezes tão imperceptíveis que só podem revelar-se posteriormente, a [67] uma memória atenta. É uma história que só no passado possa ser contada. (Deleuze, 1990:66-67)

De modo que Bérgson não se cansa de girar em torno da seguinte conclusão, que também estará sempre presente no cinema: o reconhecimento atento nos informa muito mais quando fracassa do que quando tem êxito. Em suma, não é a imagem-lembrança ou o reconhecimento atento que nos dá o justo correlato da imagem ótico-sonora, são antes as confusões de memória e os fracassos do reconhecimento. (Deleuze, 1990:71)

Qual é, mais precisamente, a diferença entre uma imagem-lembrança e uma imagem-sonho? Partimos de uma imagem-percepção, cuja natureza consiste em ser atual. A lembrança, ao contrário, o que Bérgson chama de “lembrança pura”, necessariamente é virtual. Mas, no primeiro caso, ela própria se torna atual na medida em que é chamada pela imagem-percepção. Ela se atualiza numa imagem-lembrança que corresponde à imagem-percepção. O caso do sonho faz com que apareçam duas importantes diferenças. Por outro lado, as percepções da pessoa que dorme subsistem, porém no estado difuso de uma nuvem de sensações atuais, exteriores e interiores, que não são apreendidas por si mesmas, escapando à consciência. Por outro lado, a imagem virtual que se atualiza não se atualiza diretamente, mas em outra imagem, que desempenha o papel de imagem virtual atualizando-se numa terceira, ao infinito: o sonho não é uma metáfora, mas uma série de anamorfoses que traçam um circuito muito grande. Estas duas características estão ligadas. Quando a pessoa que dorme está entregue à sensação luminosa atual de uma superfície verde com manchas brancas, a pessoa que sonha, que habita a que dorme, pode evocar a imagem de um prado salpicado de flores, mas esta só se atualiza tornando-se uma mesa de sinuca cheia de bolas, que, por sua vez, não se atualiza sem se tornar ainda outra coisa. Não se trata de metáforas, mas um devir que pode, em direito, prosseguir ao infinito. (Deleuze, 1990:73)

As imagens-sonhos, por sua vez, parecem além do mais ter dois pólos, que podem ser distinguidos segundo a produção técnica delas. Um procede por meios ricos e sobrecarregados, fusões, superimpressões, desenquadramentos, movimentos complexos de câmera, efeitos especiais, manipulação de laboratório, chegando ao abstrato, tendendo à abstração. O outro, ao contrario, é bem sóbrio [75], operando por cortes bruscos ou montagem-cut, procedendo apenas a um perpétuo desprendimento que “parece” sonho, mas entre objetos que continuam a ser concretos. A técnica da imagem remete sempre a uma metafísica da imaginação. (Deleuze, 1990:74-75)

[…] a própria imagem atual tem uma imagem virtual que ela corresponde, como um duplo ou um reflexo. Em termos bergsonianos, o objeto real reflete-se numa imagem especular tal como no objeto virtual que, por seu lado e ao mesmo tempo, envolve ou reflete o real: há “coalescência” entre os [88] dois. Há formação de uma imagem bifacial, atual e virtual. É como se uma imagem especular, uma foto, um cartão-postal se animassem, ganhassem independência e passassem para o atual, com o risco de a imagem atual voltar ao espelho, retomar lugar no cartão postal ou na foto, segundo um duplo movimento de liberação e de captura.

[…] o que constitui tal ponto de indiscernibilidade é precisamente o menor circuito, quer dizer, a coalescência da imagem atual e da imagem virtual, a imagem bifacial, a um tempo atual e virtual. (Deleuze, 1990:87-88)

Com efeito, não há virtual que não se torne atual em relação ao atual, com este se tornando virtual sob esta mesma relação: são um avesso e um direito perfeitamente reversíveis. São “imagens mútuas”, como diz Bachelard, nas quais se efetua uma troca. A indiscernibilidade do real e do imaginário, ou do presente e do passado, do atual e do virtual, não se produz portanto, de modo algum, na cabeça ou no espírito, mas é o caráter objetivo de certas imagens existentes, duplas por natureza. Então, duas ordens de problema se colocam: uma de estrutura, outra de gênese. Em primeiro lugar, quais são estas consolidações de atual e virtual que definem uma estrutura cristalina (mais num sentido estético geral que num sentido científico)? E, depois, qual é a operação genética que aparece nessas estruturas?

O caso mais conhecido é o espelho. Os espelhos de viés, os espelhos côncavos e convexos, os espelhos venezianos são inseparáveis de um circuito, como vemos por toda a obra de Ophuls, e em Losey, particularmente, em Eva e o Criado. O próprio circuito é uma troca: a imagem especular é virtual em relação à personagem atual que o espelho capta, mas é atual no espelho que nada mais deixa ao personagem além de uma mera virtualidade, repelindo-a para o extra-campo. Quando as imagens virtuais assim proliferam, o seu conjunto absorve toda a atualidade da personagem, ao mesmo tempo que a personagem já não passa de uma virtualidade entre outras. [N.R. Sobre “o movimento de câmera a 360 graus com vários espelhos”, ef. Ciment, Lê livre de Losey, Stock pp. 261,262,274] (Deleuze 1990:89)

Entre as duas faces distintas uma dúvida sempre subsistirá, impedindo-nos de saber qual é límpida, qual é sombria, consideradas todas as condições. (Deleuze 1990:91)

[…] em todas as artes, a obra dentro da obra frequentemente esteve ligada à consideração de uma vigilância, de uma investigação, vingança, conspiração ou complô. (Deleuze 1990:97)

Em suma, é numa mesma operação que o cinema enfrenta seu pressuposto mais interno, o dinheiro, e que a imagem-movimento cede lugar à imagem-tempo. O que o filme dentro do filme exprime é o circuito infernal entre a imagem e o dinheiro [99], a inflação que o tempo põe na troca, a “alta estonteante”. O filme é o movimento, mas o filme dentro do filme é o dinheiro, é o tempo. A imagem-cristal recebe assim o princípio que a funda: relançar sem descanso a troca dissimétrica, desigual e sem equivalência, dar imagem contra dinheiro, dar tempo contra imagens, converter o tempo, a face transparente, e o dinheiro, a face oculta, como um pião sobre sua ponta. E o filme estará terminado quando não houver mais dinheiro…

Por mais que a imagem-cristal tenha muitos elementos distintos, sua irredutibilidade consiste na unidade indivisível de uma imagem atual e de “sua” imagem virtual. Mas o que é essa imagem virtual em coalescência com a atual? O que é uma imagem mútua? Bergson sempre se colocou esta questão, e procurou sempre a resposta no abismo do tempo. (Deleuze 1990:98-99)

A imagem-cristal não é o tempo, mas vemos o tempo no cristal. Vemos a perpétua fundação do tempo, o tempo não cronológico dentro do cristal, Cronos e não Chronos. (Deleuze 1990:102)

[…] Bergson precisou se expressar assim, ao menos no começo. Mas, cada vez mais, ele dirá algo bem diferente: a única subjetividade é o tempo, o tempo não-cronológico apreendido em sua fundação, e somos nós que somos interiores ao tempo, não o inverso. Que estejamos no tempo parece um lugar-comum, no entanto é o maior paradoxo. O tempo não é o interior em nós, é justamente o contrário, a interioridade na qual estamos, nos movemos, vivemos e mudamos. (Deleuze 1990:103)

A subjetividade nunca é a nossa, é o tempo, quer dizer, a alma ou o espírito, o virtual. O atual é sempre objetivo, mas o virtual é o subjetivo: primeiro era o afeto, o que sentimos no tempo; depois o próprio tempo, pura virtualidade que se desdobra em afetante e afetado, “a afecção de si por si” como definição do tempo. (Deleuze 1990:104)

A imagem cristal não é menos sonora que ótica, e Félix Guattari tinha razão em definir o cristal de tempo como sendo por excelência um “estribilho”. (Deleuze 1990:115)

O que o cristal revela ou faz ver é o fundamento oculto do tempo, quer dizer, sua diferenciação em dois jorros, o dos presentes que passam e o dos passados que se conservam. De uma só vez o tempo faz passar o presente e conserva em si o passado. Há portanto duas imagens-tempo possíveis,uma fundada no passado, outra no presente. Ambas são complexas e valem para o conjunto do tempo. (Deleuze 1990:121)

A memória não está em nós, somos nós que nos movemos numa memória-Ser, numa memória-mundo. (Deleuze 1990:122)

O acontecimento não se confunde mais com o espaço que lhe serve de lugar, nem com o atual presente que passa: “a hora do acontecimento termina antes que termine o acontecimento, o acontecimento começará então em outra hora (…); todo acontecimento está por assim dizer no tempo em que nada se passa”, e é no tempo vazio que antecipamos a lembrança, desagregamos o que [124] é atual e situamos a lembrança uma vez formada.

[N.R. Este belo texto de Groethuysen (“De qualquer aspects du temps”, in Recherches philosophiques, V, 1935-1936) ecoa temas de Péguy e Bergson. Em Clio, p. 230, Péguy distinguia história e memória: “A história é essencialmente longitudinal, a memória essencialmente vertical. A história consiste essencialmente em passar ao longo do acontecimento. A memória consiste essencialmente, estando dentro do acontecimento, mais que tudo em não sair dele, em nele permanecer, e remontá-lo por dentro”. Bergson propusera um esquema, que poderíamos chamar de seu quarto esquema do tempo, para distinguir a visao espacial que passa ao longo do acontecimento, e a visao temporar que se entranha no acontecimento: MM, p. 285 (159)

Encontramo-nos aqui numa imagem-tempo direta de outra natureza que a precedente: não mais a coexistência dos lençóis de passado, mas a simultaneidade das pontas de presente. Temos portanto duas espécies de cronosignos: os primeiros são aspectos (regiões, jazida), os segundos são acentos (pontas de vista).

Em Robbe Grillet nunca temos uma sucessão de presentes que passam, mas a simultaneidade de um presente de passado, de um presente de presente, de um presente de futuro, que tornam o tempo terrível, inexplicável.

[…] Os três presentes implicados sempre se retratam, desmente, apagam, substituem, recriam, bifurcam e retornam. É uma poderosa imagem-tempo, mas não vamos supor que ela suprima a narração. E sim, o que é bem mais importante, ela confere à narração um novo valor, já que a abstrai de qualquer ação sucessiva, na medida em que substitui por uma verdadeira imagem-tempo a imagem-movimento. (Deleuze 1990:124-125)

[…] A maioria das vezes em que a profundidade de campo encontra plena necessidade é quando tem relação com a memória. E também nisso o cinema é bergsoniano: não se trata de uma memória psicológica, feita de imagens-lembrança, tal como convencionalmente o flash-back pode representar. Não se trata de uma sucessão de presentes que passam conforme o tempo cronológico. Trata-se ou de um esforço de evocação produzido num presente atual, e precedendo a formação das imagens-lembrança, ou da exploração de um lençol de passado do qual, ulteriormente, surgirão as imagens-lembrança. É um aquém, e um além, da memória psicológica: os dois pólos de uma metafísica da memória. Bérgson assim apresenta estes dois extremos da memória: a extensão dos lençóis de passado, a contração do presente atual. E os dois estão ligados, já que evocar a lembrança é saltar para uma região de passado onde se supõe que ela virtualmente jaz, como todos os lençóis ou regiões coexistindo em relação ao presente atual contraído do qual procede a evocação (enquanto eles, lençóis, se sucedem psicologicamente com relação aos presentes que foram). O fato a se constatar é que a profundidade de campo nos mostra ora a evocação em ato, ora os lençóis virtuais de passado que exploramos para encontrar a lembrança procurada. (Deleuze 1990:134).

É provável que, quando lemos um livro, assistimos a um espetáculo ou olhamos um quadro, e com mais razão, quando somos nós mesmos o autor, um processo análogo se desencadeie: constituímos um lençol de transformação que inventa um tipo de continuidade ou de comunicação transversais entre vários lençóis e tece entre eles um conjunto de relações não-localizáveis. Deslindemos assim um tempo não-cronológico. Extraímos um lençol que, através de todos os outros, apreende e prolonga a trajetória dos pontos, a evolução das regiões. (Deleuze 1990:150)

Mas é possível que a obra de arte consiga inventar tais lençóis paradoxais, hipnóticos, alucinatórios, que têm a propriedade, a um só tempo, de ser um passado, mas sempre por vir. (Deleuze 1990:151)

Se considerarmos a historia do pensamento, constatamos que o tempo sempre pos em crise a noção de verdade. Não que a verdade varie conforme as épocas. Não é o mero conteúdo empírico, é a forma, ou melhor, a forca pura do tempo que põe a verdade em crise. (Deleuze 1990:159)

Leibniz diz que a batalha naval pode acontecer ou não acontecer, mas que não é no mesmo mundo: ela acontece num mundo, não acontece em outro, e esses dois mundos são possíveis, mas não “compossíveis” entre si. Ele tem de forjar, portanto, a bela noção de incompossibilidade. (Deleuze 1990:160)

É uma potencia do falso que substitui e destrona a forma do verdadeiro, pois ela afirma a simultaneidade de presentes incompossíveis, ou a coexistência de passados não – necessariamente verdadeiros. […] Compreendemos que a potencia do falso é também o princípio mais geral a determinar o conjunto das relações na imagem-tempo direta. (Deleuze 1990:161)

O essencial é isso: como o novo regime da imagem (a imagem-tempo direta) opera com descrições óticas e sonoras puras, cristalinas, e narrações falsificantes, puramente crônicas. (Deleuze 1990:165)

O que Nietzsche havia mostrado – que o ideal da verdade era a ficção mais profunda, no âmago do real – o cinema ainda havia percebido. (Deleuze 1990:182)

O que o cinema deve apreender não é a identidade de uma personagem real ou fictícia, através de seus aspectos objetivos e subjetivos. É o devir da personagem real quando ela própria se põe a “ficcionar”, quando entra “em flagrante delito de criar lendas”, e assim contribui para a invenção de seu povo. (Deleuze 1990:183)

É uma terceira imagem-tempo, que se distingue das que vimos no capitulo precedente. As duas anteriores, com efeito, se referiam à ordem do tempo, quer dizer à coexistência das relações ou à simultaneidade dos elementos internos ao tempo. A terceira se refere à serie do tempo que reúne o antes e o depois num devir, ao invés de separá-los: seu paradoxo está em introduzir um intervalo que dura no próprio momento. (Deleuze 1990:188)

Às vezes é lembrado que não há apenas uma fita sonora, mas pelo menos três grupos, falas, ruídos, musicas. Talvez até seja preciso distinguir um número maior de componentes sonoros: os ruídos (que isolam um objeto e isolam-se uns aos outros), os sons (que marcam relações e estão em relação mútua), as fonações (que recortam essas relações, podendo ser gritos, mas também verdadeiros “jargões”, como no burlesco falado de Chaplin ou de Jerry Lewis), as falas, a música. (Deleuze 1990:277)

Se o contínuo (ou componente sonoro) não tem elementos separáveis, isso não o impede de se diferenciar a cada momento, segundo duas direções divergentes que exprimem sua relação com a imagem visual. Esta dupla relação passa pelo extracampo, na medida em que este pertence plenamente à imagem visual cinematográfica. (Deleuze 1990:278)

Desde o início o problema do sonoro era: como fazer para que o som e a fala não sejam mera redundância do que se vê? Este problema não negava que o sonoro e o falado fossem um componente da imagem visual, ao contrário; era na qualidade de componente específico que o som não devia ser redundante com o que era visto no visual. (Deleuze 1990:279)

Se é verdade que o cinema moderno implica a ruína do esquema sensório-motor, o ato de fala já não revela uma trama de interações. Ele se concentra sobre si mesmo, não é mais dependência ou pertencimento da imagem visual, torna-se uma imagem integralmente sonora, ganha autonomia cinematográfica, e o cinema torna-se realmente audiovisual. (Deleuze 1990:288)

É um novo sentido de “legível” que aparece para a imagem visual, ao mesmo tempo que o ato de fala torna-se por si mesmo imagem sonora autônoma. (Deleuze 1990:291)

Vimos que este novo regime consiste nisso: as imagens, as seqüências já não se encadeiam por cortes racionais, que encerram a primeira ou começam a segunda, mas encadeiam-se sobre cortes irracionais, que já não pertencem a nenhuma das duas e valem por si mesmas (interstícios). Os cortes irracionais têm portanto valor disjuntivo, mais conjuntivo. No caso complexo que agora consideramos, a questão é: para onde vão esses cortes, e em que consistem, já que têm autonomia? Encontramo-nos diante de uma primeira seqüência de imagens visuais com componente sonoro e [295] falado, como no primeiro estágio do cinema falado; mas elas tendem para um limite que já não lhes pertence, e tampouco pertence à segunda seqüência. Ora, este limite, este corte irracional pode apresentar-se sob formas visuais bem diversas: seja sob a forma fixa de uma seqüência de imagens insólitas, “anômalas”, que vêm interromper o encadeamento normal das duas seqüências; seja sob a forma ampliada da tela preta, ou da tela branca, e seus derivados. Mas, cada vez, o corte irracional implica o novo estagio do cinema falado, a nova figura do sonoro. (Deleuze 1990:294-295)

[…] a imagem-movimento não nos dá uma imagem-tempo. E no entanto ela nos dá muitas coisas, a esse respeito. Por um lado a imagem-movimento constitui o tempo sob sua forma empírica, o curso do tempo: um presente sucessivo conforme uma relação extrínseca do antes e do depois, tal que o passado é um antigo presente, e o futuro, um presente por vir.

[…] a imagem-movimento suscita já uma imagem do tempo que se distingue dela por excesso ou por falta, estando acima ou abaixo do presente como curso empírico: desta vez, o tempo não mais é medido pelo movimento, mas é, ele próprio, o número ou medida do movimento (representação metafísica). Este número, por sua vez, tem dois aspectos, que vimos no tomo precedente: é a unidade mínima de tempo como intervalo de movimento, ou a totalidade do tempo como máximo do movimento no universo.

[…] a imagem-movimento está fundamentalmente ligada a uma representação indireta do tempo, e não nos dá uma apresentação direta dele, isto é, não nos dá uma imagem-tempo. A única apresentação direta aparece, então, na música.

[…] A imagem-tempo não implica ausência de movimento (embora comporte, com freqüência, sua rarefação), mas implica a reversão da subordinação; já não é o tempo que está subordinado ao movimento, é o movimento que se subordina ao tempo. Já não é o tempo [323] que resulta do movimento, de sua norma e de suas aberrações corrigidas, é o movimento como movimento em falso, como movimento aberrante, que depende agora do tempo. (Deleuze 1990:322-323)

Glauber e o Audiovisual

Fichamento dirgido do livro “A Revolução do Cinema Novo” de Glauber Rocha, onde o foco foi as suas definições do que é cinema e audiovisual:

“No caso do autor, que essencialmente é poeta ou ficcionista, aderir ao cinema é, em primeiro lugar, a maior ambição de criar mundos próprios mais visíveis e divulgáveis. Em segundo, adquirido logo após o ingresso, disponibilidade para a auto-flagelação. Faço referência a esse segundo aspecto apenas para salientar mais um aspecto negativo da condição de cineasta.” 11

“A imagem, rigorosamente, deve ser um vocábulo, e o cineasta deve escrever com a imagem. Mas que imagem é essa? O rosto humano? O homem? A natureza? Respondo que essa imagem apenas existiu em algumas seqüências de alguns cineastas. Porque o cinema exige uma organização, na maioria das vezes linear, a palavra interfere para auxiliar a imagem, evitando que o próprio ser do cinema seja esvaziado até uma completa inconseqüência artística, que seria o didatismo dos documentários. Não é o vanguardismo condenado até pelos mais formalistas críticos? O cinema de hoje é uma traição ao signo.” 12-13

“É inadmissível que um homem inteligente não saiba da incalculável tarefa intelectual que se exige para que o filme seja atingido como objeto e não como tubo condutor de idéias.” 13

“Não poderíamos voltar àquela antiga condição de artesão obscuro e procurar, com nossas miseráveis câmeras e os poucos metros de filme que dispomos, aquela escrita misteriosa e fascinante do verdadeiro cinema que permanece esquecido? Não saberia mesmo dizer que cinema é esse, que verdade é essa. Creio, no entanto, que o cinema só será quando o cineasta se reduzir à condição de poeta e, purificado, exercer o seu ofício com a seriedade e o sacrifício. Mas, por outro lado, o cinema se eleva como maior instrumento de idéias do universo. Seria justo a deserção dos cineastas se eles, mesmo escravos, falam por vezes tão alto?”  14

“Nosso cinema é novo porque o homem brasileiro é novo e a problemática do Brasil é nova e nossa luz é nova por isso nossos filmes nascem diferentes dos cinemas da Europa. Nossa geração tem consciência: sabe o que deseja. Queremos fazer filmes antiindustriais; queremos fazer filmes de autor, quando o cineasta passa a ser um artista comprometido com os grandes problemas do seu tempo; queremos filmes de combate na hora do combate e filmes para construir no Brasil um patrimônio cultural. A técnica é haute couture, é frescura para a burguesia se divertir. No Brasil o cinema novo é uma questão de verdade e não de fotografismo. Para nós a câmera é um olho sobre o mundo, o travelling é um instrumento de conhecimento, a montagem não é demagogia mas pontuação do nosso ambicioso discurso sobre a realidade humana e social do Brasil!” 17

“Cinema Verdade: é claro que o nome está mais ou menos na cara, mas vamos especificar um pouco. É, em regra geral, um tipo de documentário em que se usa o som direto, entrevistando pessoas, personagens, e recolhendo som da realidade, fotografando de uma maneira direta, procurando capturar o maior realismo possível, daí a palavra verdade; ou seja, um tipo de documentário que procura pelo som e pela imagem refletir uma verdade, uma realidade.” 37

“O cinema verdade tem uma grande propriedade, uma grande funcionalidade, uma grande atualidade, pois me parece muito útil do ponto de vista informativo e educativo para uma sociedade subdesenvolvida e para as sociedades em crise ou em processo de despertar político, em que a criação de uma base informativa e o levantamento de problemas gritantes que todos nós sabemos é fundamental. Desse ponto de vista, o cinema verdade não é apenas uma prática a ser desenvolvida no Brasil,como também a ser estimulada, renovada e aprofundada na medida em que os realizadores brasileiros, que começaram a trabalhar com as técnicas de cinema verdade, começam justamente a partir de lições dadas e das técnicas disponíveis, a desenvolver e aprofundar cada vez mais o sentido desse cinema.” 40

“Um diretor que acredita na realidade, que pretende filmar um fato – falo de cinema de ficção – no local em que se passou a verdadeira ação, com ou sem aotres, mas dentro de uma cenografia viva, captando ou não esse som, mas captando o som fundamental desse lugar, o som que mais representa, e as cores e os elementos, está fazendo um filme de verdade. Ë um diretor que acredita na realidade e não na imagem, que não vai para o estúdio fazer  uma imagem forjada, num cenário forjado, acrescentando na imagem dados de alienação, porque todos esse dados estetizantes são dados de alienação. Creio que tal colocação deva ser feita. O debate deve chegar ao problema da realidade.” 41-42

“Cinema só é importante quanto autoral, um cinema que reflita sobre a realidade, que pense, que aja sobre a realidade. Um filme pode ser real, sendo puramente informativo, puramente fenomenológico, na medida em que vê essa realidade, informe sobre ela, a discuta, e faça agitação política em torno dela. Aí é que o cinema é autoral, porque um autor pode ser puramente crítico, um outro, puramente político e prático” 42-43

“O cinema verdade é divulgado sobretudo pela TV. A Tv é hoje um meio de comunicação muito mais eficiente que o cinema. Temos inclusive de perder esse bloqueio que temos em relação a TV. Se ela é um meio de comunicação, tem-se que ir à TV, por que o cinema fica sendo um convenção de sala escura. Tem que se reconhecer a evolução dos tempos e atingir todo o meio de comunicação válido.” 43

“Creio que a simples entrevista, a simples câmera na mào, o simples corte fora de continuidade, se não realiza uma idéia, NÃO TEM SENTIDO” 43

“Esse cinema em som direto tem que ser realizado com uma técnica perfeita. Com som e fotografia ruins, com montagem confusa não é um filme realizado, é um filme que se frustra nessa perspectiva. O método, unido ao aprimoramento técnico, que não é aprimoramento formal – o aprimoramento formal é uma conseqüência desse método de analisar a realidade – é muito mais importante que o detalhe pitoresco, a investigação arbitrária.” 43

“Somente nos países subdesenvolvidos o Novo Cinema, isto é, o Cinema de Autor (o cinema como conhecimento e não divertimento; o cinema como linguagens e não como espetáculos; o cinema como método e não como ilustração; o cinema como revelação e não como descrição do óbvio, etc.) pode, desertado de tradições industriais e culturais mergulhar rumo ao desconhecido, exercitando a sua impotência até ganhar estatura de linguagem que redescobre o mundo.” 45

“O cinema de economia e técnica subdesenvolvidas não terá de ser culturalmente subdesenvolvido. Ação política é uma atitude intelectual e uma prática superior numa sociedade condicionada à inferioridade.” 53

“Os cineastas independentes devem produzir filmes capazes de provocar no público um choque capaz de transformar sua educação moral e estética realizada pelo cinema americano. Esta revolução não é obra de um filme, mas de toda uma produção internacional permanentemente revolucionária.”

“A técnica do cinema passado e atual do mundo desenvolvido me interessa, na medida em que eu possa ‘instrumentalizá-la’ assim como o cinema americano foi ‘instrumentalizado’ por alguns cineastas europeus. O que é esta instrumentalização? Aplicar, como método, determinadas chaves da técnica cinematográfica, pedras de toques gerais que, na evolução da técnica, transcendem ao espírito individual de cada autor e se implantem no vocabulário estético do cinema: se filmo um ‘cangaceiro’ no deserto, está implícita uma determinada decupage/montage fundada pelo western, fundação essa mais própria do western do que de Ford ou Hawks.” 76

“A maior parte dos filmes de jovens autores sofre, hoje em dia, deste ‘mal de Godard’. Somente um sofrimento direto do real e uma crítica dialética permanente pode ultrapassar o nível da imitação mitológica da técnica cinematográfica, intrumentalizando os jogos em expressões progressivas. Filmes brasileiros como Vidas Secas, A falecida ou Os Fuzis são exemplos de como cineastas colonizados podem instrumentalizar a técnica do cinema desenvolvido e promover uma expressão internacional” 77

“A atitude da maioria dos cineastas em relação à sua realidade degenera num tipo de cinema caligráfico, acadêmico que, nitidamente, denuncia um espírito contemplativo ou demagógico.” 77

“O cinema é uma colocação internacional e as contingências nacionais não justificam, em qualquer nível, um anulamento da expressão. Se no caso do cinema tricontinental a estética vem antes da técnica é justamente porque a estética tem mais a ver com ideologia do que com a técnica. Os mitos técnicos da zoom, do direct, da câmera a la main, da couleur, etc. são apenas instrumentos. O Verbo é ideológico e hoje em dia não existem mais fronteiras geográficas.” 77

“Enquanto se discute muito o problema da comunicação, o Cinema Novo discute o problema da criação. Irreconciliáveis a criação e o cinema? A maioria dos observadores responde que o cinema é uma arte de comunicação e se fecha aí. Criar se opõe, para estes observadores, a se comunicar. Do zero, como Lumiére, o cinema novo recomeça a cada filme, balbuciando um alfabeto brutal que significa tragicamente ‘civilização subdesenvolvida’.” 101

“NOVO aqui não quer dizer PERFEITO pois o conceito de perfeição foi herdado de culturas colonizadoras que fixaram um conceito de PERFEIÇÃO segundo os interesses de um IDEAL político. A verdadeira Arte Moderna, aquela que é ética-esteticamente revolucionária, se opõe, pela linguagem, a uma linguagem dominadora.” 101-102

“O problema não é, porém, como falam, entre o que é nacional e o que é universal. O problema é criar de suas próprias insuficiências e fazer destas qualidades as bases móveis de um pensamento em progresso. Aí estará um estilo internacional de arte, vanguarda portanto. Assim, o único fator estimulado para o desenvolvimento de estilos cinematográficos no Terceiro Mundo será a criação, que começa na tática da produção, se faz na liberdade dialética e se afirma na estratégia e tática de distribuição” 118

“O tropicalismo, a antropofagia e seu desenvolvimento são a coisa mais importante hoje na cultura brasileira.” 118

“Primeiro se descobriu, se bem que em forma bastante esquemática, por que no Brasil as Ciências Sociais são primitivas, o subdesenvolvimento econômico; depois veio a idéia de que o subdesenvolvimento era integral. O cinema brasileiro partiu da constatação desta totalidade, de seu conhecimento e da consciência da necessidade de superá-la de maneira também total, em sentido estético, filosófico, econômico: superar o subdesenvolvimento com os meios do subdesenvolvimento. O tropicalismo, a descoberta antropofágica, foi uma revelação: provocou consciência, uma atitude diante da cultura colonial que não é uma rejeição à cultura ocidental como era no início (e era loucura, por que não temos metodologia): aceitamos a ricezione (recepção) integral, a ingestão dos métodos fundamentais de uma cultura completa e complexa mas também a transformação mediante os nosso succhi (sucos, substâncias) e através da utilização e elaboração da política correta. É a partir deste momento que nasce uma procura estética nova, e é um fato recente.” 119

“Tropicalismo é aceitação, ascensão do subdesenvolvimento, por isso existe um cinema antes e depois do tropicalismo.” 119

“Esta relação antropofágica é de liberdade.” 119

“Com o sistema imperialista não se pode fazer concorrência, mas se faz um filme que chega diretamente ao inconsciente coletivo, à disposição mais verdadeira e profunda de um povo, então se pode até vencer.” 119

“É uma procura estética política que se move debaixo do signo de individualização do inconsciente coletivo, e para isso existe o aproveitamento de elementos típicos da cultura popular utilizados criticamente.” 120

“Nós somos um povo ligado historicamente à saga, à épica. Nós temos uma grande tradição filosófica; e é um mal. Mas seria um mal maior uma filosofia de importação que não corresponde à história. Por isto a antropofagia é mais importante.” 120

“Falar de mito e linguagem é fundamental. É o centro  do nosso problema. Se tendemos para uma revolução global, total, a linguagem deve ser compreendida no sentido marxista, como expressão da consciência.” 121

“O cinema do futuro é Ideogramático. É uma difícil pesquisa sobre os signos. Para isto não basta uma ciência mas é necessário um processo de conhecimento e autoconhecimento que investe toda a existência e sua integração com a realidade. O mito é o ideograma primário e nos serve, temos necessidade dele para conhecermo-nos e conhecer. A mitologia, qualquer mitologia, é ideogramática e as formas fundamentais de expressão cultural artística a elas se referem continuamente. Depois poderemos desenvolver outras coisas, mas, este é um passo fundamental. O surrealismo para os povos latino-americanos é o tropicalismo.” 121

“O Cinema Ideogramático quer dizer isto: forma desenvolvida e aprofundada da consciência, a própria consciência, em relação direta com a construção das condições revolucionárias.” 122

“Existe um cinema da violência e do subdesenvolvimento, cinema de uma cultura da fome: nasce da resistência à violência da opressão e gera uma outra violência, revolucionária.” 122

“Mesmo no Brasil existe cinema e filme. Eu, no meu trabalho, tenho sido sempre mais atento no cinema brasileiro que nos filmes brasileiros. Os meus são filmes feitos para participar da construção do cinema brasileiro, em sentido maior.” 123

“Eu sempre me interessei por um cinema épico e por isto sempre me interessei também por estas formas populares de representação. Depois me dei conta das semelhanças – claro, indiretas – que existiam entre este tipo de estruturas teatrais e musicais populares e o trabalho de Brecht. Aí está: o meu cinema nasce desta tradição a que pertenço, e do cinema épico.” 124

“… a racionalização política e individual, o irracional do filmar que virá depois racional na montagem, para revirar irracional na montagem do som.” 124

“Estou contra toda teoria, mas isso é complexo” 141

“Cinema não é poesia, literatura ou pintura: é uma atividade industrial sob qualquer regime, capitalista ou socialista” 143

“O cinema da América Latina tem que desenvolver-se, fazer filmes de consumo, conquistar o público, enfrentar o cinema americano numa competição direta. Fazer obras polêmicas, de arte, de política, de tudo. É este um processo muito complexo que não pode ser visto isoladamente. O que acontece é que os jovens cineastas independentes combtaem a indústria, fazem películas que pretendem ser testemunhos sobre suas vidas, o que é um fenômeno literário que não tem interesse. O cinema é uma artenova que tem de ser conceituada também em termos do que interessa expor. Há assuntos que são ótimos para poesia ou diário literário, mas não para o cinema. Eu não quero saber a reflexão do cineasta argentino sobre sua amante; pode escrever um livro, se quiser, rodar um filme em 16mm. Mas o que acontece é que um cineasta jovem consegue dinheiro, faz um filme em 35mm, imitado geralmente de Godard e depois não é exibido, e se o é fracassa.” 143

“O cinema é uma arte que tem de comunicar-se, se isso não ocorre não faz sentido fazê-lo: fica como produto tecnológico do século XX destinado a ser absorvido pela TV, coisa velha que nem sequer encontra sala de projeção. O cineasta moderno é aquele que pode comunicar os problemas mais complexos e mais profundos através de uma linguagem que seja compreendida.” 145

“O caminho do cinema são todos os caminhos” 148

“… me disse que deveria começar a usar som direto, porque nos filmes, assim como a imagem é captada no real, o som também deve sê-lo. Por isso fiz O Dragào com som direto e foi pra mim uma experiência enorme, pois a gente se liberta do roteiro escrito, do diálogo predeterminado, e então o diretor pode criar um personagem independente, isto é, controla o personagem, mas este se manifesta por si mesmo. Não é naturalismo, nada disso.  É controle do diretor, conseguindo maior participação do ator, já que o som direto os obriga a ser mais criativos.” 150

“Agora não se trata de dizer: ‘Vou usar som direto’, e logo fazer um filme como a maioria dos de cinema verdade, em que há um tipo que fala e fala e a gente não entende nada. Isso não serve: um som direto tem que ser ouvido, assim como a fotografia, que se vê. A imagem desenfocada, a não ser que trate de experiência estética, não funciona. Tudo tem de ser muito cuidado, a não ser que o diretor queira o contrário, mais isso já é problema de visão pessoal. O que não pode fazer é dizer que queria imagens fora de foco para justificar terem saído assim. Para fazer um filme é preciso conhecer certas coisas.” 150

“Acredito, inclusive, que não existe nenhum conflito entre cinema e TV. Temos de levar em conta isso: o fato de O Encouraçado Potemkim ter passado na TV não desmerece em nada o filme, pelo contrário. Quando Vidas Secas, de Nelson, foi projetado para a TV do Brasil é que o filme se realizou. Porque no Rio dois milhões de pessoas viram o filme e, ainda que não soubessem que era de Nelson, que era do cinema Novo, nada, o viram, e é o que importa. Há que acabar com o ritual cinematográfico. O cinema tem que existir hoje além da informação, da polêmica e da discussão. Nos países subdesenvolvidos, uma forma de resolver o problema da distribuição é fazer que os filmes não vistos sejam lançados pela TV. Porque não vamos passar a vida inteira lutando contra ela, e passarão anos e anos antes de se poder estabelecer uma cadeia de exibição.” 156

“O assunto é outro: é aproveitar a tecnologia o melhor possível para conseguir a maior comunicação possível.” 157

“O cinema é uma arte internacional, e um cineasta moderno deve poder fazer filmes em qualquer lugar. O cinema é um conjunto de signos visuais que é necessário aprender a manipular para abordar qualquer tipo de realidade. Conta com instrumentação muito diversa: sociologia, antropologia, literatura, poesia, economia, matérias sobre as quais o cineasta pode informar-se e finalmente agregar a sua própria inspiração, que é componente poética individual de cada autor. Sem esse componente o cinema não seria arte.” 158-159

“A forma como se resolvem as sequências, em sua mise-en-scène, esse é o problema do diretor. Pessoal. A mim interessa o cinema épico, faço-o quando me sinto melhor, ou seja, na cidade ou no campo. Sendo o cinema testemunho e ao mesmo tempo comunicação, não pode ter o componenete neurótico do cineasta colocado como fator preponderante. O cinema épico, de meu ponto de vista me favorece mais o poder de comunicar-me (emprego o conceito em seu sentido moderno, o de McLuhan – o meio é a mensagem) Comunicação de estruturas por vias visuais, auditivas, por vias estruturais. Esse é o problema. A mim o gênero épico – não o gênero, e sim estrutura e profusão épica – me permite maior comunicação.” 159

“A lingüística é hoje em dia uma ciência importantíssima para entender no cinema. Por exemplo, diz-se que um diretor faz filmes ‘a Antonioni’ ou ‘a Godard’; na verdade não faz nem um nem outro: como não tem um domínio maduro de sua lingüística, se submete, se coloniza, deixa-se absorver por outra linguagem. Fica então impossibilitado de atender à sua própria realidade, porque limita seu campo de pensamento àquela linguagem predeterminada.”

“O processo de criação cinematográfica é igual ao processo lingüístico. E algo arbitrário como são as palavras, que de um para outro idioma mudam arbitrariamente de significado. Ainda que façamos um exame de estrutura de cada linguagem, encontraremos um processo de eleição desses significantes e sua evolução em cada povo. No cinema está-se muito no campo de uma estrutura complexa que abarca organização de montagem, de pensamento mais do que de cenários, porque a capacidade dos planos cinematográficos – a mise-en-scène – composição da câmera e lente, é um posição limitada como a da composição musical: com todas as variações de lentes, alguém não tem nem quinze movimentos disponíveis de câmera e é forçoso limitar-se a esse alfabeto mais ou menos determinado como em música. Agora, o que o cineasta precisa é de articulação das estruturas e, para isto, entendê-las, examinar as estruturas sociais, dramáticas, etc., dos complexos do filme e demais componentes. A isso tudo soma-se a motivação poética.” 160

“Se alguém procura fazer um filme um filme no Peru sobre os indígenas, e vai com idéias preconcebidas filmar de acordo com uma linguagem que se aprendeu ou assimilou de outro diretor, fracassará. Mas ao contrário, se alguém não procura copiar, se começa a estudar realmente como isso funciona por dentro, logo se encontram elementos motivadores. As posições de câmera quando faço um roteiro, nunca as escrevo; faço uma análise dos personagens: sociológico, visual, de tudo, e as posições de câmera vão nascer quando estou filmando. As vezes um plano dura quatro minutos, mas eu não digo ‘corta aqui porque vou tirar o resto’; nada disso. Deixo primeiro o filme bruto, sem tocá-lo, depois vou pra sala de montagem e, com o material que se tiver, mais os novos elementos que vêm criados pelo som, vou selecionando. Mas sempre em função da estrutura pensada, ou rompendo a pensada e organizando outra. É um processo dialético estrutural.” 161

“… filmes Descolonizados são aqueles que se recusam a imitar os modelos norte-americanos e buscam refazer o cinema nacional a partir de nossas verdadeiras raízes culturais. Exemplo: Macunaíma, sucesso de crítica e público. Isto é CONQUISTAR o público. Filmes Colonizados são aqueles que utilizam as fórmulas pornográficas e violentas do cinema estrangeiro. Isso é EXPLORAR o público.” 200

“O cineasta do Terceiro Mundo não deve ter medo de ser ‘primitivo’. Será ingênuo se insistir em imitar a cultura dominadora. Também será ingênuo se se fizer patrioteiro. Deve ser antropofágico, fazer de maneira que o povo colonizado pela estética comercial/popular (Hollywood), pela estética populista/demagógica (Moscou), pela estética burguesa/artística (Europa) possa ver e compreender a estética revolucionária/popular que é o único objetivo que justifica a criação tricontinental. Mas, também é necessário criar essa estética.” 206

“O povo produz a cultura popular. Um cinema nacional é a montagem dos sons-imagens produzidos pelo povo. O povo tem a capacidade de reconhecer seus próprios sons-imagens se se ousa dizer que seus sons-imagens são nossos próprios sons-imagens.” 207

“O cinema brasileiro precisa de crítica capaz de fazer uma análise histórica dos filmes, caindo fora do caretíssimo é bom, é ruim, é acadêmico, é vanguardista…” 213

“O cinema brasileiro tem um público educado contra ele.” 214

“Não confundir o tropicalismo musical com a variante tropicalista do Cinema Novo. Ruy Guerra é de esquerda e Caetano é de direita.” 214

“O udigrúdi é um aborto restaurador do formalismo decadente dos amantes de Anastacya. O primeiro e único filme underground 68 é Câncer, made by Glauber Rocha.” 214

“É preciso uma revolução cultural no cinema, a tomada do cinema pelos intelectuais de vanguarda ligados às massas, para transformar o cinema numa poderosa máquina cultural e limpar o cinema de toda essa cambada de comerciantes, picaretas, vigaristas, pseudoatores, pseudorrealizadores.” 241

“A teoria cinematográfica está no ponto crítico, no ponto zero, e como as pessoas encarregadas do trabalho cultural dos vários partidos políticos também não se debruçam a fundo sobre essa questão, permitem esse liberalismo reformista dentro do cinema. O resultado é que o monstro continua devorando a alma das pessoas, e esse processo não se pode deixar que se repita. Esta é, na verdade, a luta dos cineastas revolucionários do Terceiro Mundo. Superar essas contradições e partir para um Cinema Novo que é a única forma de fazer que o cinema se salva. O cinema morre, por causa disso tudo, e por causa do autodestrutivismo do Godard e do reformismo, que são os dois modelos básicos. Falta uma terceira via, que só pode surgir com o rigor teórico, a reformulação profunda do cinema e de uma atuação dos produtores, dos cineastas e dos críticos, revoluc ionária, para combater o velho cinema e impor o novo.”  243

“Isso que acontece ao cinema é produto das contradições entre as diversas concessões que os cineastas podem fazer em cima de uma arte materialista dialética, ou seja, de origem marxista. Nesta sentido, eu não creio no simples produto de uma fantasia criativa; quero dizer, uma volta postulada, uma análise materialista histórico-dialética da realidade de um tema, se esta prática é verdadeiramente dialética, o produto estético, ou seja, produto artístico, aquele que provoca a sensação, o conhecimento ou a modificação da consciência, é a coisa mais importante que se pode fazer.” 267 268

“Queríamos, e eu particularmente quero, desenvolver o que se chama de cinema didático-épico como refutação do psicologismo e do moralismo. Procurávamos assim fazer um cinema anti-moralístico porquanto revolucionário. Procurávamos colocar em foco as contradições de tema e as relações entre os personagens sem romantismo revolucionário e sem oportunismo revolucionário. O Cinema Novo nunca foi ligado a um partido ou a uma organização política; tratava-se de um grupo  no qual muitos diretores e intelectuais se constituíam eles mesmos em uma movimento de prática política. Sabendo bem que no Brasil não existia nenhuma tradição cinematográfica, necessitava criar tudo desde o princípio.” 268

“Essa é a minha posição: isto é, acredito que a crise no cinema advém desse baixo nível teórico e por isso os filmes são idealistas, retóricos, moralistas e não têm produzido nenhum impacto de transformação no público.” 269

“…para nós o cinema é um meio de materialização e não um fetiche.”269

“A primeira exigência do meu cinema é de reconhecer a cultura tradicional como cultura na qual os elementos revolucionários não são expressos.” 269

“O filme que chega numa grande sala tem maiores possibilidades de ser visto e discutido. Os modernos meios de discussão são fundamentais para o sentido do produto ideológico, que se modifica quando o filme vem a ser visto numa sala pequena. Os meus filme, como todos do Cinema Novo, foram vistas por camadas socais de público. O produto revolucionário deve ser para as grandes salas, mas o filme deve ser radical também do ponto de vista ideológico e formal. Por isso sou contra a fórmula que faz filmes idealistas com temas políticos, usando no caso a estrutura e meios do cinema americano, os dramas psicológicos, o ator estereotipado, montagem de efeito, etc., todas essas técnicas usadas para difundir uma idéia de esquerda, resultam falsas porque a idéia de esquerda se torna de direita. Não existe diferença entre a idéia e a forma: a linguagem é o resultado e o produto dialético das contradições.” 270

“O público deve ser conquistado democraticamente, mas nunca desfrutado. O filme deve ser democrático para um público proletário. Isso implica numa nova consciência de montagem, de exposição, de interpretação de diálogos… É fácil demais falar ao público através de uma linguagem convencional, que é antidialética.” 271

“No que me concerne, quando filme, certamente não faço economia de fantasia e de imaginação, mas procuro todavia fazer uma cinema estruturado e guiado de um pensamento que deve ser claro, não ambíguo, isto é, nos meus filmes as situações políticas SAP esclarecidas desde as primeiras sequências, de modo que o espectador possa ser liberado desses fantasmas e colocar-se livremente defronte o filme.”271

“Procuro aprofundar a análise dialética da história, deixo que os atores liberem suas energias, essa liberação das energias dos atores promete um produto estético diferente e coincide automaticamente com a liberação das estruturas audiovisuais.” 272

“Um filme é somente a materialização audiovisual de idéias. Sob muitos aspectos, pelo contrário, o cinema é subdesenvolvido em respeito à literatura: sem contar o desenvolvimento técnico, não existem idéias novas, são coisas muito vazias que não oferecem nem um boa informação.”272

“…não existe diferença entre a máquina de escrever e a cinematográfica, como é claro desde Walter Benjamin. Existe uma máquina que escreve letras e outra que naturaliza imagens; as letras ou as imagens são produto da tua imaginação, Mas hoje o cinema é uma aventura bastante difícil e muito arriscada.”272

Proust e os Signos – Gilles Deleuze

“Assim, a tarefa do aprendiza é compreender por que alguém é recebido em determinado mundo e por que alguém deixa de sê-lo; a que signos obedecem esses mundos e quem são legisladores e seus papas.” 5

“O signo mundano não remete a alguma coisa, ele a ‘substitui’, pretende valer por seus sentido. Antecipa ação e pensamento, anula pensamento e ação, e se declara suficiente.” 6

“Apaixonar-se é individualizar alguém pelos signos que traz consigo ou emite. É tornar-se sensível a esses signos, apreendê-los. É possível que a amizade se nutra da observação e de conversa, mas o amor nasce e se alimenta de uma interpretação silenciosa. O ser amado aparece como um signo, uma ‘alma’: exprime um mundo possível, desconhecido de nós. O amado implica, envolve, aprisiona um mundo, que é preciso decifrar, isto é, interpretar. Trata-se mesmo de uma pluralidade de mundos; o pluralismo do amor não diz respeito apenas à multiplicidade das almas ou dos mundos contidos em cada um deles. Amar é procurar explicar, desenvolver esses mundos desconhecidos que permanecem envolvidos no amado.” 7

“Não podemos interpretar os signos de um ser amado sem desembocar mundos que se formaram sem nós, que se formaram com outras pessoas, onde não somos, de início, senão um objeto como os outros.” 7-8

“O amado nos emite signos de preferência; mas como esses signos são os mesmos  que aqueles que exprimem mundos de que não fazemos parte, cada preferência que nós usufruímos delineia a imagem do mundo possível onde outros seriam ou são preferidos.” 8

“Os signos amorosos não são como os signos mundanos: não são signos vazios, que substituem o pensamento e a ação; são signos mentirosos que não podem dirigir-se a nós senão escondendo o que exprimem, isto é, a origem dos mundos desconhecidos, das ações e dos pensamentos desconhecidos que lhe dão sentido.” 9

“Uma qualidade sensível nos proporciona uma estranha alegria, ao mesmo tempo que nos transmite uma espécie de imperativo. Uma vez experimentada, a qualidade não aparece mais como uma propriedade do objeto que a possui no momento, mas como o signo de um objeto completamente diferente, que devemos tentar decifrar através de um esforço sempre sujeito ao fracasso.” 10-11

“No princípio, uma intensa alegria, de tal modo que estes signos já se distinguem dos precedentes por seu efeito imediato. Depois, uma espécie de sentimento de obrigação, necessidade de um trabalho do pensamento: procurar o sentimento do signo.”11

São signos verídicos, que imediatamente nos dão uma sensação de alegria incomum, signos plenos, afirmativos e alegres. São signos materiais. Não é apenas sua origem , mas a sua explicação, seu desenvolvimento, que permanece material. Sentimos perfeitamente que Blabec, Veneza… não surgem como produto de uma associação de idéias, mas em pessoa e essência.” 12

“o sentido material não é nada sem uma essência ideal que ele encarna. O erro é acreditar que os hieróglifos representam ‘apenas objetos materiais’. O que permita agora ao intérprete ir mais além é que, nesse meio-tempo, o problema da Arte foi colocado e resolvido. Ora, o mundo da Arte é o último mundo dos signos; e esses signos, como que desmaterializados, encontram seu sentido numa essência ideal. Desde então, o mundo revelado da Arte reage sobre todos os outros, principalmente sobre os signos sensíveis; ele os integra, dá-lhes o colorido de um sentido estético e penetra no que eles ainda tinham de opaco. Compreendemos então que os signos sensíveis já remetiam a uma essência ideal que se encarnava no seu sentido material. Mas sem a Arte nunca poderíamos compreendê-los, nem ultrapassar o nível de interpretação que correspondia à análise da Madeleine. É por esta razão que todos os signos convergem para a arte; todos os aprendizados, pelas mais diversas vias, são aprendizados inconscientes da própria arte. No nível mais profundo, o essencial está nos signos da arte.”13

“A filosofia atinge apenas verdades abstratas que não comprometem, nem perturbam. ‘As idéias formadas pela inteligência pura só possuindo uma verdade lógica, uma verdade possível, sua seleção torna-se arbitrária’. Ela são gratuitas porque nascidas da inteligência, que somente lhes confere uma possibilidade, e não de um encontro ou de uma violência, que lhes garantiria autenticidade. As idéias de inteligência só valem por sua significação explícita, portanto convencional. Um dos temas em que Proust mais insiste é esse: a verdade nunca é produto de uma boa vontade prévia, mas o resultado de uma violência sobre o pensamento. As significações explícitas e convencionais nunca são profundas, somente é profundo o sentido, tal como aparece encoberto e implícito num signo exterior. 15

“O acaso dos encontros, a pressão das coações são os dois temas fundamentais de Proust. Pois é precisamente o signo que é objeto de um encontro e é ele que exerce sobre nós a violência. O acaso do encontro é que garante a necessidade daquilo que é pensado.” 15

“O que quer dizer aquele que diz ‘eu quero a verdade’? Ele só quer ser coagido e forçado. Só a quer sob o império de um encontro, em relação a uma determinado signo. Ele quer interpretar, decifrar, traduzir encontrar o sentido do signo.” 15

“O tempo perdido não é apenas o tempo que passa, alterando os seres e anulando o que passou; é também o tempo que se perde (por que, ao invés de trabalharmos e sermos artistas, perdemos tempo na vida mundana e nos amores?). E o tempo redescoberto é, antes de tudo, um tempo que redescobrimos no âmago do tempo perdido e que nos revela a imagem da eternidade; mas é também um tempo original absoluto, verdadeira eternidade que se afirma na arte.” 16

“Em arte ou literatura, quando a inteligência intervém, é sempre depois, nunca antes. ‘A impressão é para o escritor o mesmo que a experimentação é para o sábio, com a diferença de ser neste anterior e naquele posterior o trabalho de inteligência’. Em primeiro lugar, é preciso sentir o efeito violento de um signo, e que o pensamento seja como que forçado a procurar o sentido do signo.” 22

“Mas no caso do tempo que se perde e do tempo perdido, é a inteligência, e apenas ela, que é capaz de tornar possível o esforço do pensamento, ou de interpretar o signo; é ela que o encontra, contanto que venha ‘depois’. Dentre todas as formas de pensamento, só a inteligência extrai as verdades dessa ordem.” 22

“Graças a inteligência, descobrimos então o que não podíamos saber no início: que, quando pensávamos perder tempo, já fazíamos o aprendizado dos signos.” 23

“O signos mundanos implicam principalmente um tempo que se perde; os signos do amor envolvem particularmente o tempo perdido. Os signos sensíveis muitas vezes nos fazem redescobrir o tempo, restituindo-o no meio do tempo perdido. Finalmente, os signos da arte nos trazem um tempo redescoberto, tempo original absoluto que compreende todos os outros.” 23

“Pensamos que o próprio  ‘objeto’ traz o segredo do signo que emite e sobre ele nos fixamos, dele nos ocupamos para decifrar o signo. Por comodismo, chamemos objetivismo essa tendência que nos é natural ou pelo menos habitual.” 26

“Confundimos o significado do signo com o objeto que ele designa.” 26

“Em seus primeiros amores, ele faz o ‘objeto’ se beneficiar de tudo o que ele próprio sente: o que lhe parece único em determinada pessoa parece-lhe também pertencer a essa pessoa. Tanto que os primeiro amores são orientados para a confissão, que é justamente a forma amorosa de homenagem ao objeto.” 27

“Pois a percepção acredita que a realidade deva ser vista, observada, mas a inteligência acredita que ela deve ser dita e formulada.” 28

“Ao mesmo tempo ele aprende que a confissão não é o essencial do amor e que não é necessário, nem desejável, confessar: estaremos perdidos, toda a nossa liberdade estará perdida, se enriquecermos o objeto com signos e com as significações que não lhe pertencem.” 30

“É decepcionante, por natureza, uma literatura que interpreta os signos relacionando-os com objetos designáveis (observação e descrição),  que se cerca de garantias pseudo-objetivas do testemunho e da comunicação (conversa, pesquisa), que confunde o sentido com significações inteligíveis, explícitas e formuladas (grandes temas).” 31

“Cada linha de aprendizado passa por esses dois momentos: a decepção provocada por uma tentativa de interpretação objetiva e a tentativa de remediar essa decepção por uma associação subjetiva, em que reconstruímos conjuntos associativos. (…) o signo é sem dúvida mais profundo do que o sujeito que o interpreta, mas ainda se liga a esse sujeito, se encarna pela metade em uma série de associações subjetivas.” 34

“É apenas no nível das artes que as essências são reveladas. Mas, uma vez manifestadas na obra de arte, elas reagem sobre todos os outros campos: aprendemos que elas já se haviam encarnado, já estavam em todas as espécies de signos, em todos os tipos de aprendizado.” 36

“Nisto consiste a superioridade da arte sobre a vida”todos os signos que encontramos na vida ainda são signos materiais e seu sentido, estando sempre em outra coisa, não é inteiramente espiritual.” 39

“O que é uma essência, tal como é revelada na obra de arte? É uma diferença, a Diferença última e absoluta. É ela que constitui o ser, que nos faz concebê-lo. Porque só a arte, no que diz respeito à manifestação das essências, é capaz de nos dar o que procurávamos em vão na vida.” 39

“Cada sujeito exprime o mundo de um certo ponto de vista. Mas o ponto de vista é a própria diferença, a diferença interna e absoluta. Cada sujeito exprime, pois, um mundo absolutamente diferente e, sem dúvida, o mundo expresso não existe fora do sujeito que o exprime (o que chamamos de mundo exterior é apenas a projeção ilusória, o limite uniformizante de todos esses mundos expressos).  Mas o mundo expresso não se confunde com o sujeito: dele se distingue exatamente como a essência se distingue da existência e inclusive de sua própria existência. Ele não existe fora do sujeito que o exprime, mas é expresso como a essência, não do próprio sujeito, mas do Ser, ou da região do Ser que se revela ao sujeito. Razão pela qual cada essência é uma pátria, uma país; ela não se reduz a um estado psicológico, nem a subjetividade psicológica, nem mesmo a uma forma qualquer de subjetividade superior. A essência é a qualidade última no âmago do sujeito, mas essa qualidade é mais profunda que o sujeito, é de outra ordem: ‘Qualidade desconhecida de uma mundo único”. Não é o sujeito que explica a essência, é, antes, a essência que se implica, se envolve, se enrola no sujeito. Mais ainda: enrolando-se sobre si mesma ela constitui a subjetividade. Não são os indivíduos que constituem o mundo, mas os mundos envolvidos , as essências, que constituem os indivíduos: ‘Esses mundos que são os indivíduos e que sem arte jamais conheceríamos’. A essência não é apenas arte individual, é individualizante.” 40-41

“Talvez as essências tenham, elas próprias, se aprisionado,  se envolvido nas almas que elas individualizam. Não existem fora desse cativeiro, mas não se separam da ‘pátria desconhecida’ com que elas se envolvem em nós. São nosso ‘reféns’: morrem se morremos, mas se são eternas, de algum modo somos também imortais. Elas tornam a morte menos provável; a única prova, a única chance é estética.” 41-42

“Por essa razão, podemos dizer com todo o rigor que só a obra de arte é nos faz redescobrir o tempo: a obra de arte é o ‘único meio de redescobrir o tempo perdido’. Ela porta os signos mais importantes, cujo sentido está contido numa complicação primordial, verdadeira eternidade, tempo original e absoluto.” 44

“O verdadeiro tema da de uma obra não é o assunto tratado, sujeito consciente e voluntário que se confunde com aquilo que as palavras designam, mas os temais inconscientes, os arquétipos involuntários, dos quais as palavras, como as cores e os sons, tiram seu sentido e a sua vida. A arte é uma verdadeira transmutação da matéria. Nela a matéria se espiritualiza, os meios físicos se dematerializam, para refratar a essência, isto é, a qualidade de uma mundo original. Esse tratamento da matéria é o ‘estilo’.” 45

“Isso significa que o estilo é basicamente metáfora. Mas a metáfora é essencialmente metamorfose e indica como os dois objetos permutam suas determinações, e até mesmo a palavra que os designa, no novo meio que lhes confere a qualidade comum.” 45

“O estilo não é o homem, é a própria essência.”46

“É que a essência é em si mesma a diferença, não tendo entretanto, o poder de diversificar e de diversificar-se, sem a capacidade de se repetir, id6entica a si mesma. Que poderíamos fazer da essência, que é diferença última, senão repeti-la, já que ela não pode ser substituída, nada podendo ocupar-lhe o lugar. Por essa razão, uma grande música deve ser tocada muitas vezes; um poema, aprendido de cor e recitado. A diferença e a repetição só se opõem aparentemente e não existe um grande artista cuja obra não nos faça dizer: ‘a mesma e no entanto outra’.” 46

“Na verdade, diferença e repetição são as duas potências da essência, inseparáveis e correlatas.” 47

“Na arte, a matéria se torna espiritualizada e os meios desmaterializados. A obra de arte é, pois, um mundo de signos que são imateriais e nada têm de opaco, pelo menos para olho  ou ouvido artistas. Em segundo lugar, o sentido desses signos é uma essência que se afirma em toda a sua potência. Em terceiro lugar, o signo e o sentido, e essência e a matéria transmutada se confundem ou se unem numa adequação perfeita. Identidade de um signo como estilo e de um sentido como essência: esta é a característica da obra de arte.” 47

“A essência é sempre uma essência artista. Mas, uma vez descoberta,  ela não se encarna apenas nas matérias espiritualizadas, nos signos imateriais da obra de arte. Ela também se encarna nos outros domínios, que serão, desde então, integrados naquela obra.” 48

“As reminiscências são metáforas da vida; as metáforas são reminiscências da arte. Ambas, com efeito, têm algo em comum: determinam uma relação entre dois objetos inteiramente diferentes, ‘para subtrair às contingências do tempo’. Mas só a arte realiza plenamente o que a vida apenas esboçou. As reminiscências, na memória involuntária, são ainda vida: arte no nível da vida, consequentemente metáforas ruins. Ao contrário, a arte em sua essência, a arte superior a vida, não se baseia na memória involuntária, nem mesmo na imaginação e nas figuras inconscientes. Os signos da arte se explicam pelo pensamento puro como faculdade das essências. Dos signos sensíveis em geral, quer se dirijam a memória ou mesmo a imaginação, devemos dizer ora que vêm antes da arte e que a ela nos conduzem, ora que vêm depois da arte e que dela captam apenas os reflexos mais próximos.”52

LA ESTRUCTURA, EL SIGNO Y EL JUEGO EN EL DISCURSO DE LAS CIENCIAS HUMANAS

Conferência realizada por Jaques Derrida em 1966, na Universidade Johns Hopkins.

Quizás se ha producido en la historia del concepto de estructura algo que se podría llamar un «acontecimiento» si esta palabra no llevase consigo una carga de sentido que la exigencia estructural -o estructuralista- tiene precisamente como función reducir o someter a sospecha. Digamos no obstante un «acontecimiento» y tomemos esa palabra con precauciones entre comillas. ¿Cuál sería, pues, ese acontecimiento? Tendría la forma exterior de una ruptura y de un redoblamiento.

Sería fácil mostrar que el concepto de estructura e incluso la palabra estructura tienen la edad de la episteme, es decir, al mismo tiempo de la ciencia y de la filosofía occidentales, y que hunden sus raíces en el suelo del lenguaje ordinario, al fondo del cual va la episteme a recogerlas para traerlas hacia sí en un desplazamiento metafórico. Sin embargo, hasta el acontecimiento al que quisiera referirme, la estructura, o más bien la estructuralidad de la estructura, aunque siempre haya estado funcionando, se ha encontrado siempre neutralizada, reducida: mediante un gesto consistente en darle un centro, en referirla a un punto de presencia, a un origen fijo. Este centro tenía como función no sólo la de orientar y equilibrar, organizar la estructura -efectivamente, no se puede pensar una estructura desorganizada- sino, sobre todo, la de hacer que el principio de organización de la estructura limitase lo que podríamos llamar el juego de la estructura. Indudablemente el centro de una estructura, al orientar y organizar la coherencia del sistema, permite el juego de los elementos en el interior de la forma total. Y todavía hoy una estructura privada de todo centro representa lo impensable mismo.

Sin embargo el centro cierra también el juego que él mismo abre y hace posible. En cuanto centro, es el punto donde ya no es posible la sustitución de los contenidos, de los elementos, de los términos. En el centro, la permutación o la transformación de los elementos (que pueden ser, por otra parte, estructuras comprendidas en una estructura) está prohibida. Por lo menos ha permanecido siempre prohibida (y empleo esta expresión a propósito). Así, pues, siempre se ha pensado que el centro, que por definición es único, constituía dentro de una estructura justo aquello que, rigiendo la estructura, escapa a la estructuralidad. Justo por eso, para un pensamiento clásico de la estructura, del centro puede decirse, paradójicamente, que está dentro de la estructura y fuera de la estructura. Está en el centro de la totalidad y sin embargo, como el centro no forma parte de ella, la totalidad tiene su centro en otro lugar. El centro no es el centro. El concepto de estructura centrada -aunque representa la coherencia misma, la condición de la episteme como filosofía o como ciencia- es contradictoriamente coherente. Y como siempre, la coherencia en la contradicción expresa la fuerza de un deseo. El concepto de estructura centrada es, efectivamente, el concepto de un juego fundado, constituido a partir de una inmovilidad fundadora y de una certeza tranquilizadora, que por su parte se sustrae al juego. A partir de esa certidumbre se puede dominar la angustia, que surge siempre de una determinada manera de estar implicado en el juego, de estar cogido en el juego, de existir como estando desde el principio dentro del juego. A partir, pues, de lo que llamamos centro, y que, como puede estar igualmente dentro que fuera, recibe indiferentemente los nombres de origen o de fin, de arkhé o de telos, las repeticiones, las sustituciones, las transformaciones, las permutaciones quedan siempre cogidas en una historia del sentido -es decir, una historia sin más- cuyo origen siempre puede despertarse, o anticipar su fin, en la forma de la presencia. Por esta razón, podría decirse quizás que el movimiento de toda arqueología, como el de toda escatología, es cómplice de esa reducción de la estructuralidad de la estructura e intenta siempre pensar esta última a partir de una presencia plena y fuera de juego.

Si esto es así, toda la historia del concepto de estructura, antes de la ruptura de la que hablábamos, debe pensarse como una serie de sustituciones de centro a centro, un encadenamiento de determinaciones del centro. El centro recibe, sucesivamente y de una manera regulada, formas o nombres diferentes. La historia de la metafísica, como la historia de Occidente, sería la historia de esas metáforas y de esas metonimias. Su forma matriz sería -y se me perdonará aquí que sea tan poco demostrativo y tan elíptico, pero es para llegar más rápidamente a mi tema principal- la determinación del ser como presencia en todos los sentidos de esa palabra. Se podría mostrar que todos los nombres del fundamento, del principio o del centro han designado siempre lo invariante de una presencia (eidos, arché, telos, energeia, ousía [esencia, existencia, sustancia, sujeto], aletheia, trascendentalidad, consciencia, Dios, hombre, etc.).

El acontecimiento de ruptura, la irrupción a la que aludía yo al principio, se habría producido, quizás, en que la estructuralidad de la estructura ha tenido que empezar a ser pensada, es decir, repetida, y por eso decía yo que esta irrupción era repetición, en todos los sentidos de la palabra. Desde ese momento ha tenido que pensarse la ley que regía de alguna manera el deseo del centro en la constitución de la estructura, y el proceso de la significación que disponía sus desplazamientos y sus sustituciones bajo esta ley de la presencia central; pero de una presencia central que no ha sido nunca ella misma, que ya desde siempre ha estado deportada fuera de sí en su sustituto. El sustituto no sustituye a nada que de alguna manera le haya pre-existido. A partir de ahí, indudablemente se ha tenido que empezar a pensar que no había centro, que el centro no podía pensarse en la forma de un ente-presente, que el centro no tenía lugar natural, que no era un lugar fijo sino una función, una especie de no-lugar en el que se representaban sustituciones de signos hasta el infinito. Este es entonces el momento en que el lenguaje invade el campo problemático universal; este es entonces el momento en que, en ausencia de centro o de origen, todo se convierte en discurso -a condición de entenderse acerca de esta palabra-, es decir, un sistema en el que el significado central, originario o trascendental no está nunca absolutamente presente fuera de un sistema de diferencias. La ausencia de significado trascendental extiende hasta el infinito el campo y el juego de la significación.

¿Dónde y cómo se produce este descentramiento como pensamiento de la estructuralidad de la estructura? Para designar esta producción, sería algo ingenuo referirse a un acontecimiento, a una doctrina o al nombre de un autor. Esta producción forma parte, sin duda, de la totalidad de una época, la nuestra, pero ya desde siempre empezó a anunciarse y a trabajar. Si se quisiera, sin embargo, a título indicativo, escoger algunos «nombres propios» y evocar a los autores de los discursos en los que se ha llegado más cerca de la formulación más radical de esa producción, sin duda habría que citar la crítica nietzscheana de la metafísica, de los conceptos de ser y de verdad, que vienen a ser sustituidos por los conceptos de juego, de interpretación y de signo (de signo sin verdad presente); la crítica freudiana de la presencia a sí, es decir, de la consciencia, del sujeto, de la identidad consigo, de la proximidad o de la propiedad de sí; y, más radicalmente, la destrucción heideggeriana de la metafísica, de la onto-teología, de la determinación del ser como presencia. Ahora bien, todos estos discursos destructores y todos sus análogos están atrapados en una especie de círculo. Este círculo es completamente peculiar, y describe la forma de la relación entre la historia de la metafísica y la destrucción de la historia de la metafísica: no tiene ningún sentido prescindir de los conceptos de la metafísica para hacer estremecer a la metafísica; no disponemos de ningún lenguaje -de ninguna sintaxis y de ningún léxico- que sea ajeno a esta historia; no podemos enunciar ninguna proposición destructiva que no haya tenido ya que deslizarse en la forma, en la lógica y los postulados implícitos de aquello mismo que aquélla querría cuestionar. Por tomar un ejemplo entre tantos otros: es con la ayuda del concepto de signo como se hace estremecer la metafísica de la presencia. Pero a partir del momento en que lo que se pretende mostrar así es, como acabo de sugerir, que no había significado trascendental o privilegiado, y que el campo o el juego de significación no tenía ya, a partir de ahí, límite alguno, habría que -pero es justo eso lo que no se puede hacer- rechazar incluso el concepto y la palabra signo. Pues la significación «signo» se ha comprendido y determinado siempre, en su sentido, como signo-de, significante que remite a un significado, significante diferente de su significado. Si se borra la diferencia radical entre significante y significado, es la palabra misma «significante» la que habría que abandonar como concepto metafísico. Cuando Lévi‑Strauss dice en el prefacio a Lo crudo y lo cocido que ha «pretendido trascender la oposición de lo sensible y lo inteligible situándose de entrada en el plano de los signos», la necesidad, la fuerza y la legitimidad de su gesto no pueden hacernos olvidar que el concepto de signo no puede por sí mismo superar esa oposición de lo sensible y lo inteligible. Está determinado por esa oposición: de parte a parte y a través de la totalidad de su historia. El concepto de signo sólo ha podido vivir de esa oposición y de su sistema. Pero no podemos deshacernos del concepto de signo, no podemos renunciar a esta complicidad metafísica sin renunciar al mismo tiempo al trabajo crítico que dirigimos contra ella, sin correr el riesgo de borrar la diferencia dentro de la identidad consigo mismo de un significado que reduce en sí su significante o, lo que es lo mismo, expulsando a éste simplemente fuera de sí. Pues hay dos maneras heterogéneas de borrar la diferencia entre el significante y el significado: una, la clásica, consiste en reducir o en derivar el significante, es decir, finalmente en someter el signo al pensamiento; otra, la que dirigimos aquí contra la anterior, consiste en poner en cuestión el sistema en el que funcionaba la reducción anterior: y en primer lugar, la oposición de lo sensible y lo inteligible. Pues la paradoja está en que la reducción metafísica del signo tenía necesidad de la oposición que ella misma reducía. La oposición forma sistema con la reducción. Y lo que decimos aquí sobre el signo puede extenderse a todos los conceptos y a todas las frases de la metafísica, en particular al discurso sobre la «estructura». Pero hay muchas maneras de estar atrapados en este círculo. Son todas más o menos ingenuas, más o menos empíricas, más o menos sistemáticas, están más o menos cerca de la formulación o incluso la formalización de ese círculo. Son esas diferencias las que explican la multiplicidad de los discursos destructores y el desacuerdo entre quienes los sostienen. Es en los conceptos heredados de la metafísica donde, por ejemplo, han operado Nietzsche, Freud y Heidegger. Ahora bien, como estos conceptos no son elementos, no son átomos, como están cogidos en una sintaxis y un sistema, cada préstamo concreto arrastra hacia él toda la metafísica. Es eso lo que permite, entonces, a esos destructores destruirse recíprocamente, por ejemplo, a Heidegger, considerar a Nietzsche, con tanta lucidez y rigor como mala fe y desconocimiento, como el último metafísico, el último «platónico». Podría uno dedicarse a ese tipo de ejercicio a propósito del propio Heidegger, de Freud o de algunos otros. Y actualmente ningún ejercicio está más difundido.

¿Qué pasa ahora con ese esquema formal, cuando nos volvemos hacia lo que se llama las «ciencias humanas»? Una entre ellas ocupa quizás aquí un lugar privilegiado. Es la etnología. Puede considerarse, efectivamente, que la etnología sólo ha podido nacer como ciencia en el momento en que ha podido efectuarse un descentramiento: en el momento en que la cultura europea -y por consiguiente la historia de la metafísica y de sus conceptos- ha sido dislocada, expulsada de su lugar, teniendo entonces que dejar de considerarse como cultura de referencia. Ese momento no es en primer lugar un momento del discurso filosófico o científico, es también un momento político, económico, técnico, etc. Se puede decir con toda seguridad que no hay nada fortuito en el hecho de que la crítica del etnocentrismo, condición de la etnología, sea sistemáticamente e históricamente contemporánea de la destrucción de la historia de la metafísica. Ambas pertenecen a una sola y misma época.

Ahora bien, la etnología -como toda ciencia- se produce en el elemento del discurso. Y aquélla es en primer lugar una ciencia europea, que utiliza, aunque sea a regañadientes, los conceptos de la tradición. Por consiguiente, lo quiera o no, y eso no depende de una decisión del etnólogo, éste acoge en su discurso las premisas del etnocentrismo en el momento mismo en que lo denuncia. Esta necesidad es irreductible, no es una contingencia histórica; habría que meditar sobre todas sus implicaciones. Pero si nadie puede escapar a esa necesidad, si nadie es, pues, responsable de ceder a ella, por poco que sea, eso no quiere decir que todas las maneras de ceder a ella tengan la misma pertinencia. La cualidad y la fecundidad de un discurso se miden quizás por el rigor crítico con el que se piense esa relación con la historia de la metafísica y con los conceptos heredados. De lo que ahí se trata es de una relación crítica con el lenguaje de las ciencias humanas y de una responsabilidad crítica del discurso. Se trata de plantear expresamente y sistemáticamente el problema del estatuto de un discurso que toma de una herencia los recursos necesarios para la desconstrucción de esa herencia misma. Problemas de economía y de estrategia.

Si ahora consideramos a título de ejemplo los textos de Claude Lévi-Strauss, no es sólo por el privilegio que actualmente se le atribuye a la etnología entre las ciencias humanas, ni siquiera porque se trate de un pensamiento que pesa fuertemente en la coyuntura teórica contemporánea. Es sobre todo porque en el trabajo de Lévi-Strauss se ha declarado una cierta elección, y se ha elaborado una cierta doctrina de manera, precisamente, más o menos explícita, en cuanto a esa crítica del lenguaje y en cuanto a ese lenguaje crítico en las ciencias humanas.

Para seguir ese movimiento en el texto de Lévi-Strauss, escogemos, como un hilo conductor entre otros, la oposición naturaleza-cultura. Pese a todas sus renovaciones y sus disfraces, esa oposición es congénita de la filosofía. Es incluso más antigua que Platón. Tiene por lo menos la edad de la sofística. A partir de la oposición physis/nomos, physis/téchne , aquélla ha sido traída hasta nosotros a través de toda una cadena histórica que opone la «naturaleza» a la ley, a la institución, al arte, a la técnica, pero también a la libertad, a lo arbitrario, a la historia, a la sociedad, al espíritu, etc. Ahora bien, desde el inicio de su investigación y desde su primer libro (Las estructuras elementales del parentesco) Lévi-Strauss ha experimentado al mismo tiempo la necesidad de utilizar esa oposición y la imposibilidad de prestarle crédito. En Las estructuras… parte de este axioma o de esta definición: pertenece a la naturaleza lo que es universal y espontáneo, y que no depende de ninguna cultura particular ni de ninguna norma determinada. Pertenece en cambio a la cultura lo que depende de un sistema de normas que regulan la sociedad y que pueden, en consecuencia, variar de una estructura social a otra. Estas dos definiciones son de tipo tradicional. Ahora bien, desde las primeras páginas de Las estructuras, Lévi-Strauss, que ha empezado prestando crédito a esos conceptos, se encuentra con lo que llama un escándalo, es decir, algo que no tolera ya la oposición naturaleza-cultura tal como ha sido recibida, y que parece requerir a la vez los predicados de la naturaleza y los de la cultura. Este escándalo es la prohibición del incesto. La prohibición del incesto es universal; en ese sentido se la podría llamar natural; -pero es también una prohibición, un sistema de normas y de proscripciones- y en ese sentido se la podría llamar cultural. «Supongamos, pues, que todo lo que es universal en el hombre depende del orden de la naturaleza y se caracteriza por la espontaneidad, que todo lo que está sometido a una norma pertenece a la cultura y presenta los atributos de lo relativo y lo particular. Nos vemos entonces confrontados con un hecho o más bien con un conjunto de hechos que, a la luz de las definiciones anteriores, no distan mucho de aparecer como un escándalo: pues la prohibición del incesto presenta, sin el menor equívoco, e indisolublemente reunidos, los dos caracteres en los que hemos reconocido los atributos contradictorios de dos órdenes excluyentes: aquella prohibición constituye una regla, pero una regla que, caso único entre todas las reglas sociales, posee al mismo tiempo un carácter de universalidad» (p. 9).

Evidentemente sólo hay escándalo en el interior de un sistema de conceptos que preste crédito a la diferencia entre naturaleza y cultura. Al iniciar su obra con el factum de la prohibición del incesto, Lévi-Strauss se instala, pues, en el punto en que esa diferencia, que se ha dado siempre por obvia, se encuentra borrada o puesta en cuestión. Pues desde el momento en que la prohibición del incesto no se deja ya pensar dentro de la oposición naturaleza/cultura, ya no se puede decir que sea un hecho escandaloso, un núcleo de opacidad en el interior de una red de significaciones transparentes; no es un escándalo con que uno se encuentre, o en el que se caiga dentro del campo de los conceptos tradicionales; es lo que escapa a esos conceptos y ciertamente los precede y probablemente como su condición de posibilidad. Se podría decir quizás que toda la conceptualidad filosófica que forma sistema con la oposición naturaleza/cultura se ha hecho para dejar en lo impensado lo que la hace posible, a saber, el origen de la prohibición del incesto.

Evoco demasiado rápidamente este ejemplo, que es sólo un ejemplo entre tantos otros, pero que permite ya poner de manifiesto que el lenguaje lleva en sí mismo la necesidad de su propia crítica. Ahora bien, esta crítica puede llevarse a cabo de acuerdo con dos vías y dos «estilos». En el momento en que se hacen sentir los límites de la oposición naturaleza/cultura, se puede querer someter a cuestión sistemática y rigurosamente la historia de estos conceptos. Es un primer gesto. Un cuestionamiento de ese tipo, sistemático e histórico, no sería ni un gesto filológico ni un gesto filosófico en el sentido clásico de estas palabras. Inquietarse por los conceptos fundadores de toda la historia de 1a filosofía, des-constituirlos, no es hacer profesión de filólogo o de historiador clásico de la filosofía. Es, sin duda, y a pesar de las apariencias, la manera más audaz de esbozar un paso fuera de la filosofía. La salida «fuera de la filosofía» es mucho más difícil de pensar de lo que generalmente imaginan aquellos que creen haberla llevado a cabo desde hace tiempo con una elegante desenvoltura, y que en general están hundidos en la metafísica por todo el cuerpo del discurso que pretenden haber desprendido de ella.

La otra elección -y creo que es la que corresponde más al estilo de Lévi-Strauss- consistiría, para evitar lo que pudiera tener de esterilizante el primer gesto, dentro del orden del descubrimiento empírico, en conservar, denunciando aquí y allá sus límites, todos esos viejos conceptos: como instrumentos que pueden servir todavía. No se les presta ya ningún valor de verdad, ni ninguna significación rigurosa, se estaría dispuesto a abandonarlos ocasionalmente si parecen más cómodos otros instrumentos. Mientras tanto, se explota su eficacia relativa y se los utiliza para destruir la antigua máquina a la que aquellos pertenecen y de la que ellos mismos son piezas. Es así como se critica el lenguaje de las ciencias humanas. Lévi-Strauss piensa así poder separar el método de la verdad, los instrumentos del método y las significaciones objetivas enfocadas por medio de éste. Casi se podría decir que esa es la primera afirmación de Lévi-Strauss; en todo caso, son las primeras palabras de Las estructuras…: «Se empieza a comprender que la distinción entre estado de naturaleza y estado de sociedad (hoy preferiríamos decir: estado de naturaleza y estado de cultura), a falta de una significación histórica aceptable, presenta un valor que justifica plenamente su utilización por parte de la sociología moderna, como un instrumento de método».

Lévi‑Strauss se mantendrá siempre fiel a esa doble intención: conservar como instrumento aquello cuyo valor de verdad critica.

Por una parte, efectivamente, seguirá discutiendo el valor de la oposición naturaleza/cultura. Más de trece años después de Las estructuras…, El pensamiento salvaje se hace eco fielmente del texto que acabo de leer: «La oposición entre naturaleza y cultura, en la que hemos insistido en otro tiempo, nos parece hoy que ofrece sobre todo un valor metodológico». Y este valor metodológico no está afectado por el no-valor ontológico, cabría decir si no se desconfiase aquí de esa noción: «No bastaría con haber reabsorbido unas humanidades particulares en una humanidad general; esta primera empresa es el punto de partida de otras… que incumben a las ciencias exactas y naturales: reintegrar la cultura en la naturaleza, y finalmente, la vida en el conjunto de sus condiciones físico-químicas» (p. 327).

Por otra parte, siempre en El pensamiento salvaje, presenta Lévi-Strauss bajo el nombre de «bricolage» lo que se podría llamar el discurso de este método. El «bricoleur» es aquel que utiliza «los medios de a bordo», es decir, los instrumentos que encuentra a su disposición alrededor suyo, que están ya ahí, que no habían sido concebidos especialmente con vistas a la operación para la que se hace que sirvan, y a la que se los intenta adaptar por medio de tanteos, no dudando en cambiarlos cada vez que parezca necesario hacerlo, o en ensayar con varios a la vez, incluso si su origen y su forma son heterogéneos, etc. Hay, pues, una crítica del lenguaje en la forma del «bricolage» e incluso se ha podido decir que el «bricolage» era el lenguaje crítico mismo, singularmente el de la crítica literaria: pienso aquí en el texto de G. Genette, Estructuralismo y crítica literaria, publicado en homenaje a Lévi-Strauss en L’Arc, y donde se dice que el análisis del «bricolage» podía «ser aplicado casi palabra por palabra» a la crítica, y más especialmente a «la crítica literaria» (Recogido en Figures, ed. du Seuil, p. 145).

Si se llama «bricolage» a la necesidad de tomar prestados los propios conceptos del texto de una herencia más o menos coherente o arruinada, se debe decir que todo discurso es «bricoleur». E1 ingeniero, que Lévi‑Strauss opone al «bricoleur», tendría, por su parte, que construir la totalidad de su lenguaje, sintaxis y léxico. En ese sentido el ingeniero es un mito: un sujeto que sería el origen absoluto de su propio discurso y que lo construiría «en todas sus piezas» sería el creador del verbo, el verbo mismo. La idea de un ingeniero que hubiese roto con todo «bricolage» es, pues, una idea teológica; y como Lévi‑Strauss nos dice en otro lugar que el «bricolage» es mitopoético, todo permite apostar que el ingeniero es un mito producido por el «bricoleur». Desde el momento en que se deja de creer en un ingeniero de ese tipo y en un discurso que rompa con la recepción histórica, desde el momento en que se admite que todo discurso finito está sujeto a un cierto «bricolage», entonces, es la idea misma de «bricolage» la que se ve amenazada, se descompone la diferencia dentro de la que aquélla adquiría sentido.

Lo cual hace que se ponga de manifiesto el segundo hilo que tendría que guiarnos dentro de lo que aquí se está tramando.

La actividad del «bricolage», Lévi-Strauss la describe no sólo como actividad intelectual sino como actividad mitopoética. Se puede leer en El pensamiento salvaje (p. 26): «Del mismo modo que el “bricolage” en el orden técnico, la reflexión mítica puede alcanzar, en el orden intelectual, resultados brillantes e imprevistos. Recíprocamente, se ha advertido con frecuencia el carácter mitopoético del “bricolage”».

Ahora bien, el notable esfuerzo de Lévi-Strauss no está sólo en proponer, especialmente en sus investigaciones más actuales, una ciencia estructural de los mitos y de la actividad mitológica. Su esfuerzo se manifiesta también, y yo diría casi que en primer lugar, en el estatuto que le atribuye entonces a su propio discurso sobre los mitos, a lo que llama él sus «mitológicas». Es el momento en que el mito reflexiona sobre sí y se critica a sí mismo. Y ese momento, ese período crítico interesa evidentemente a todos los lenguajes que se distribuyen el campo de las ciencias humanas. ¿Qué dice Lévi-Strauss de sus «mitológicas»? Aquí es donde vuelve a encontrarse la virtud mitopoética del «bricolage». En efecto, lo que se muestra más seductor en esta búsqueda crítica de un nuevo estatuto del discurso es el abandono declarado de toda referencia a un centro, a un sujeto, a una referencia privilegiada, a un origen o a una arquía absoluta. Se podría seguir el tema de ese descentramiento a través de toda la Obertura de su último libro sobre Lo crudo y lo cocido. Me limito a señalar ahí algunos puntos.

1. En primer lugar, Lévi-Strauss reconoce que el mito bororo que utiliza aquí como «mito de referencia» no merece ese nombre ni ese tratamiento, que esa es una apelación engañosa y una práctica abusiva. Ese mito no merece, al igual que ningún otro, su privilegio referencial: «De hecho, el mito bororo, que de ahora en adelante será designado con el nombre de “mito de referencia”, no es, como vamos a intentar mostrar, nada más que una transformación, impulsada con más o menos fuerza, de otros mitos que provienen o de la misma sociedad o de sociedades próximas o alejadas. En consecuencia, hubiera sido legítimo escoger como punto de partida cualquier otro representante del grupo. El interés del mito de referencia no depende, desde este punto de vista, de su carácter típico, sino más bien de su posición irregular en el seno de un grupo» (página 10).

2. No hay unidad o fuente absoluta del mito. El foco o la fuente son siempre sombras o virtualidades inaprehensibles, inactualizables y, en primer término, inexistentes. Todo empieza con la estructura, la configuración o la relación. El discurso sobre esa estructura a-céntrica que es el mito no puede tener a su vez él mismo ni sujeto ni centro absolutos. Para no dejar escapar la forma y el movimiento del mito, tiene que evitar esa violencia que consistiría en centrar un lenguaje que describe una estructura a-céntrica. Así pues, hay que renunciar aquí al discurso científico o filosófico, a la episteme, que tiene como exigencia absoluta, que es la exigencia absoluta de remontarse a la fuente, al centro, al fundamento, al principio, etc. En contraposición al discurso epistémico, el discurso estructural sobre los mitos, el discurso mito-lógico debe ser él mismo mitomorfo. Debe tener la forma de aquello de lo que habla. Es eso lo que dice Lévi-Strauss en Lo crudo y lo cocido, del que quisiera ahora leer una extensa y hermosa página:

«Efectivamente, el estudio de los mitos plantea un problema metodológico por la circunstancia de no poder conformarse al principio cartesiano de dividir la dificultad en tantas partes cuantas se requiera para resolverla. No existe, en el análisis mítico, un verdadero término, no existe unidad secreta alguna que se pueda aprehender al cabo del trabajo de descomposición. Los temas se desdoblan hasta el infinito. Cuando cree uno que los ha desenredado unos de otros y que los mantiene separados, es sólo para constatar que vuelven a soldarse, en respuesta a solicitaciones de afinidades imprevistas. Por consiguiente, la unidad del mito es sólo tendencial y proyectiva, no refleja nunca un estado o un momento del mito. Fenómeno imaginario implicado por el esfuerzo de interpretación, su papel es el de dar una forma sintética al mito, e impedir que se disuelva en la confusión de los contrarios. Se podría decir, pues, que la ciencia de los mitos es una anaclástica, tomando este antiguo término en el sentido amplio autorizado por la etimología, y que admite en su definición el estudio de los rayos reflejados junto con el de los rayos rotos. Pero, a diferencia de la reflexión filosófica, que pretende remontarse hasta su fuente, las reflexiones de las que se trata aquí conciernen a rayos privados de cualquier foco que no sea virtual… Al querer imitar el movimiento espontáneo del pensamiento mítico, nuestra empresa, también ella demasiado breve y demasiado larga, ha debido plegarse a sus exigencias y respetar su ritmo. Así, este libro sobre los mitos es, a su manera, un mito.» Afirmación que se repite un poco más adelante (p. 20): «Como los mitos mismos, por su parte descansan en códigos de segundo orden (dado que los códigos de primer orden son aquellos en los que consiste el lenguaje), este libro ofrecería entonces el esbozo de un código de tercer orden, destinado a asegurar la traducibilidad recíproca de varios mitos. Por ese motivo no sería equivocado considerarlo un mito: de alguna manera, el mito de la mitología». Es por medio de esa ausencia de todo centro real y fijo del discurso mítico o mitológico como se justificaría el modelo musical que ha escogido Lévi-Strauss para la composición de su libro. La ausencia de centro es aquí la ausencia de sujeto y la ausencia de autor: «El mito y la obra musical aparecen así como directores de orquesta cuyos oyentes son los silenciosos ejecutantes. Si se pregunta dónde se encuentra el foco real de la obra, habrá que responder que su determinación es imposible. La música y la mitología confrontan al hombre con objetos virtuales, de los que tan sólo su sombra es actual… los mitos no tienen autores… » (p. 25).

Es, pues, aquí donde el «bricolage» etnográfico asume deliberadamente su función mitopoética. Pero al mismo tiempo, aquél hace aparecer como mitológico, es decir, como una ilusión histórica, la exigencia filosófica o epistemológica del centro.

Sin embargo, aunque se admita la necesidad del gesto de Lévi-Strauss, sus riesgos no pueden ignorarse. Si la mito-lógica es mito-mórfica, ¿vienen a resultar lo mismo todos los discursos sobre los mitos? ¿Habrá que abandonar toda exigencia epistemológica que permita distinguir entre diversas calidades de discursos acerca del mito? Cuestión clásica, pero inevitable. A eso no se puede responder -y creo que Lévi-Strauss no responde a eso- hasta que no se haya planteado expresamente el problema de las relaciones entre el filosofema o el teorema por una parte, y el mitema o el mito-poema por otra. Lo cual no es un asunto menor. Si no se plantea expresamente ese problema, nos condenamos a transformar la pretendida transgresión de la filosofía en una falta desapercibida en el interior del campo filosófico. El empirismo sería el género del que estas faltas continuarían siendo las especies. Los conceptos trans-filosóficos se transformarían en ingenuidades filosóficas. Podría mostrarse este riesgo en muchos ejemplos, en los conceptos de signo, de historia, de verdad, etc. Lo que quiero subrayar es sólo que el paso más allá de la filosofía no consiste en pasar la página de la filosofía (lo cual equivale en casi todos los casos a filosofar mal), sino en continuar leyendo de una cierta manera a los filósofos. El riesgo del que hablo lo asume siempre Lévi-Strauss, y es ese el precio mismo de su esfuerzo. He dicho que el empirismo era la forma matricial de todas las faltas que amenazan a un discurso que sigue pretendiéndose científico, particularmente en Lévi-Strauss. Ahora bien, si se quisiese plantear a fondo el problema del empirismo y del «bricolage», se abocaría sin duda muy rápidamente a proposiciones absolutamente contradictorias en cuanto al estatuto del discurso en la etnología estructural. Por una parte, el estructuralismo se ofrece, justificadamente, como la crítica misma del empirismo. Pero al mismo tiempo no hay libro o estudio de Lévi-Strauss que no se proponga como un ensayo empírico que otras informaciones podrán en cualquier caso llegar a completar o a refutar. Los esquemas estructurales se proponen siempre como hipótesis que proceden de una cantidad finita de información y a las que se somete a la prueba de la experiencia. Numerosos textos podrían demostrar este doble postulado. Volvámonos de nuevo hacia la Obertura en Lo crudo y lo cocido, donde aparece realmente que si ese postulado es doble es porque se trata aquí de un lenguaje sobre el lenguaje. «Las críticas que nos reprochasen no haber procedido a un inventario exhaustivo de los mitos sudamericanos antes de analizarlos, cometerían un grave contrasentido acerca de la naturaleza y el papel de estos documentos. El conjunto de los mitos de una población pertenece al orden del discurso. A menos que la población se extinga físicamente o moralmente, este conjunto no es nunca un conjunto cerrado. Valdría lo mismo, pues, reprocharle a un lingüista que escriba la gramática de una lengua sin haber registrado la totalidad de los actos de habla que se han pronunciado desde que existe esa lengua, y sin conocer los intercambios verbales que tendrán lugar durante el tiempo en que aquélla exista. La experiencia prueba que un número irrisorio de frases… le permite al lingüista elaborar una gramática de la lengua que estudia. E incluso una gramática parcial, o un esbozo de gramática, representan adquisiciones preciosas si se trata de lenguas desconocidas. La sintaxis, para manifestarse, no espera a que haya podido inventariarse una serie teóricamente ilimitada de acontecimientos, puesto que aquélla consiste en el cuerpo de reglas que presiden el engendramiento de esos acontecimientos. Ahora bien, es realmente de una sintaxis de la mitología sudamericana de lo que hemos pretendido hacer el esbozo. Si nuevos textos llegan a enriquecer el discurso mítico, esa será la ocasión para controlar o modificar la manera como se han formulado ciertas leyes gramaticales, para renunciar a algunas de ellas, y para descubrir otras nuevas. Pero en ningún caso se nos podrá oponer la exigencia de un discurso mítico total. Pues se acaba de ver que esa exigencia no tiene sentido» (pp. 15 y 16). A la totalización se la define, pues, tan pronto como inútil, tan pronto como imposible.

Eso depende, sin duda, de que hay dos maneras de pensar el límite de la totalización. Y, una vez más, yo diría que esas dos determinaciones coexisten de manera no-expresa en el discurso de Lévi‑Strauss. La totalización puede juzgarse imposible en el sentido clásico: se evoca entonces el esfuerzo empírico de un sujeto o de un discurso finito que se sofoca en vano en pos de una riqueza infinita que no podrá dominar jamás. Hay demasiadas cosas, y más de lo que puede decirse. Pero se puede determinar de otra manera la no-totalización: no ya bajo el concepto de finitud como asignación a la empiricidad sino bajo el concepto de juego. Si la totalización ya no tiene entonces sentido, no es porque la infinitud de un campo no pueda cubrirse por medio de una mirada o de un discurso finitos, sino porque la naturaleza del campo -a saber, el lenguaje, y un lenguaje finito- excluye la totalización: este campo es, en efecto, el de un juego, es decir, de sustituciones infinitas en la clausura de un conjunto finito. Ese campo tan sólo permite tales sustituciones infinitas porque es finito, es decir, porque en lugar de ser un campo inagotable, como en la hipótesis clásica, en lugar de ser demasiado grande, le falta algo, a saber, un centro que detenga y funde el juego de las sustituciones. Se podría decir, sirviéndose rigurosamente de esa palabra cuya significación escandalosa se borra siempre en francés, que ese movimiento del juego, permitido por la falta, por la ausencia de centro o de origen, es el movimiento de la suplementariedad. No se puede determinar el centro y agotar la totalización puesto que el signo que reemplaza al centro, que lo suple, que ocupa su lugar en su ausencia, ese signo se añade, viene por añadidura, como suplemento. El movimiento de la significación añade algo, es lo que hace que haya siempre «más», pero esa adición es flotante porque viene a ejercer una función vicaria, a suplir una falta por el lado del significado. Aunque Lévi-Strauss no se sirve de la palabra suplementario subrayando como yo hago aquí las dos direcciones de sentido que en ella se conjuntan de forma extraña, no es casual que se sirva por dos veces de esa palabra en su Introducción a la obra de Mauss, en el momento en que habla de la «sobreabundancia de significante con respecto a los significados sobre los que aquélla puede establecerse»: «En su esfuerzo por comprender el mundo, el hombre dispone, pues, siempre, de un exceso de significación (que reparte entre las cosas según leyes del pensamiento simbólico que corresponde estudiar a los etnólogos y a los lingüistas). Esta distribución de una ración suplementaria -si cabe expresarse así- es absolutamente necesaria para que, en conjunto, el significante disponible y el significado señalado se mantengan entre ellos en la relación de complementariedad que es la condición misma del pensamiento simbólico». (Sin duda podría mostrarse que esta ración suplementaria de significación es el origen de la ratio misma.) La palabra reaparece un poco más adelante, después de que Lévi-Strauss haya hablado de «ese significante flotante que es la servidumbre de todo pensamiento finito»: «En otros términos, e inspirándonos en el precepto de Mauss de que todos los fenómenos sociales pueden asimilarse al lenguaje, vemos en el mana, el wakan, el oranda, y otras nociones del mismo tipo, la expresión consciente de una función semántica, cuyo papel es permitir el ejercicio del pensamiento simbólico a pesar de la contradicción propia de éste. Así se explican las antinomias aparentemente insolubles, ligadas a esa noción… Fuerza y acción, cualidad y estado, sustantivo y adjetivo y verbo a la vez; abstracta y concreta, omnipresente y localizada. Y efectivamente, el mana es todo eso a la vez; pero precisamente, ¿no será, justo porque no es nada de todo eso, una simple forma o, más exactamente, símbolo en estado puro, capaz, en consecuencia, de cargarse de cualquier contenido simbólico? En ese sistema de símbolos que constituye toda cosmología, aquél sería simplemente un valor simbólico cero, es decir, un signo que marca la necesidad de un contenido simbólico suplementario [el subrayado es nuestro] sobre aquel que soporta ya el significado, pero que puede ser un valor cualquiera con la condición de que siga formando parte de la reserva disponible y que no sea, como dicen los fonólogos, un término de grupo». (Nota: «Los lingüistas han llegado ya a formular hipótesis de ese tipo. Así: “Un fonema cero se opone a todos los demás fonemas del francés en que no comporta ningún carácter diferencial y ningún valor fonético constante. Pero en cambio el fonema cero tiene como función propia oponerse a la ausencia de fonema” (Jakobson y Lotz). Casi podría decirse de modo semejante, y esquematizando la concepción que se ha propuesto aquí, que la función de las nociones de tipo mana es oponerse a la ausencia de significación sin comportar por sí misma ninguna significación particular».)

La sobreabundancia del significante, su carácter suplementario, depende, pues, de una finitud, es decir, de una falta que debe ser suplida.

Se comprende entonces por qué el concepto de juego es importante en Lévi-Strauss. Las referencias a todo tipo de juego, especialmente en la ruleta, son muy frecuentes, en particular en sus Conversaciones, Raza e historia, El pensamiento salvaje. Pero esa referencia al juego se encuentra siempre condicionada por una tensión.

Tensión con la historia, en primer lugar. Problema clásico, y en torno al cual se han ejercitado las objeciones. Indicaré sólo lo que me parece que es la formalidad del problema: al reducir la historia, Lévi-Strauss ha hecho justicia con un concepto que ha sido siempre cómplice de una metafísica teleológica y escatológica, es decir, paradójicamente, de esa filosofía de la presencia a la que se ha creído poder oponer la historia. La temática de la historicidad, aunque parece que se ha introducido bastante tarde en la filosofía, ha sido requerida en ésta siempre por medio de la determinación del ser como presencia. Con o sin etimología, y a pesar del antagonismo clásico que opone esas significaciones en todo el pensamiento clásico, se podría mostrar que el concepto de episteme ha reclamado siempre el de istoria, en la medida en que la historia es siempre la unidad de un devenir, como tradición de la verdad o desarrollo de la ciencia orientado hacia la apropiación de la verdad en la presencia y en la presencia a sí, hacia el saber en la consciencia de sí. La historia se ha pensado siempre como el movimiento de una reasunción de la historia, como derivación entre dos presencias. Pero si bien es legítimo sospechar de ese concepto de historia, al reducirlo sin plantear expresamente el problema que estoy señalando aquí, se corre el riesgo de recaer en un ahistoricismo de forma clásica, es decir, en un momento determinado de la historia de la metafísica. Tal me parece que es la formalidad algebraica del problema. Más concretamente, en el trabajo de Lévi-Strauss, hay que reconocer que el respeto de la estructuralidad, de la originalidad interna de la estructura, obliga a neutralizar el tiempo y la historia. Por ejemplo, la aparición de una nueva estructura, de un sistema original, se produce siempre -y es esa la condición misma de su especificidad estructural- por medio de una ruptura con su pasado, su origen y su causa. Así, no se puede describir la propiedad de la organización estructural a no ser dejando de tener en cuenta, en el momento mismo de esa descripción, sus condiciones pasadas: omitiendo plantear el problema del paso de una estructura a otra, poniendo entre paréntesis la historia. En ese momento «estructuralista», los conceptos de azar y de discontinuidad son indispensables. Y de hecho Lévi-Strauss apela frecuentemente a ellos, como por ejemplo para esa estructura de las estructuras que es el lenguaje, del que se dice en la Introducción a la obra de Mauss que «sólo ha podido nacer todo de una vez»: «Cualesquiera que hayan sido el momento y las circunstancias de su aparición en la escala de la vida animal, el lenguaje sólo ha podido nacer todo de una vez. Las cosas no han podido ponerse a significar progresivamente. A continuación de una transformación cuyo estudio no depende de las ciencias sociales, sino de la biología y de la psicología, se ha efectuado un paso desde un estado en que nada tenía un sentido a otro en que todo lo poseía». Lo cual no le impide a Lévi-Strauss reconocer la lentitud, la maduración, la labor continua de las transformaciones fácticas, la historia (por ejemplo en Raza e historia). Pero, de acuerdo con un gesto que fue también el de Rousseau o de Husserl, debe «apartar todos los hechos» en el momento en que pretende volver a aprehender la especificidad esencial de una estructura. Al igual que Rousseau, tiene que pensar siempre el origen de una estructura nueva sobre la base del modelo de la catástrofe -trastorno de la naturaleza en la naturaleza, interrupción natural del encadenamiento natural, separación de la naturaleza.

Tensión del juego con la historia, tensión también del juego con la presencia. El juego es el rompimiento de la presencia. La presencia de un elemento es siempre una referencia significante y sustitutiva inscrita en un sistema de diferencias y el movimiento de una cadena. El juego es siempre juego de ausencia y de presencia, pero si se lo quiere pensar radicalmente, hay que pensarlo antes de la alternativa de la presencia y de la ausencia; hay que pensar el ser como presencia o ausencia a partir de la posibilidad del juego, y no a la inversa. Pero si bien Lévi-Strauss ha hecho aparecer, mejor que ningún otro, el juego de la repetición y la repetición del juego, no menos se percibe en él una especie de ética de la presencia, de nostalgia del origen, de la inocencia arcaica y natural, de una pureza de la presencia y de la presencia a sí en la palabra; ética, nostalgia e incluso remordimiento, que a menudo presenta como la motivación del proyecto etnológico cuando se vuelve hacia sociedades arcaicas, es decir, a sus ojos, ejemplares. Esos textos son muy conocidos.

En cuanto que se enfoca hacia la presencia, perdida o imposible, del origen ausente, esta temática estructuralista de la inmediatez rota es, pues, la cara triste, negativa, nostálgica, culpable, rousseauniana, del pensamiento del juego, del que la otra cara sería la afirmación nietzscheana, la afirmación gozosa del juego del mundo y de la inocencia del devenir, la afirmación de un mundo de signos sin falta, sin verdad, sin origen, que se ofrece a una interpretación activa. Esta afirmación determina entonces el no-centro de otra manera que como pérdida del centro. Y juega sin seguridad. Pues hay un juego seguro: el que se limita a la sustitución de piezas dadas y existentes, presentes. En el azar absoluto, la afirmación se entrega también a la indeterminación genética, a la aventura seminal de la huella.

Hay, pues, dos interpretaciones de la interpretación, de la estructura, del signo y del juego. Una pretende descifrar, sueña con descifrar una verdad o un origen que se sustraigan al juego y al orden del signo, y que vive como un exilio la necesidad de la interpretación. La otra, que no está ya vuelta hacia el origen, afirma el juego e intenta pasar más allá del hombre y del humanismo, dado que el nombre del hombre es el nombre de ese ser que, a través de la historia de la metafísica o de la onto-teología, es decir, del conjunto de su historia, ha soñado con la presencia plena, el fundamento tranquilizador, el origen y el final del juego. Esta segunda interpretación de la interpretación, cuyo camino nos ha señalado Nietzsche, no busca en la etnografía, como pretendía Lévi-Strauss, de quien cito aquí una vez más la Introducción a la obra de Mauss, «la inspiración de un nuevo humanismo».

Se podría advertir en más de un signo, actualmente, que esas dos interpretaciones de la interpretación -que son absolutamente inconciliables incluso si las vivimos simultáneamente y las conciliamos en una oscura economía- se reparten el campo de lo que se llama, de manera tan problemática, las ciencias humanas.

Por mi parte, y aunque esas dos interpretaciones deben acusar su diferencia y agudizar su irreductibilidad, no creo que actualmente haya que escoger. En primer lugar porque con todo esto nos situamos en una región -digamos todavía, provisionalmente, de la historicidad- donde la categoría de «elección» parece realmente ligera. Y después, porque hay que intentar pensar en primer lugar el suelo común, y la diferancia de esta diferencia irreductible. Y porque se produce aquí un tipo de cuestión, digamos todavía histórica, ante la que apenas podemos actualmente hacer otra cosa que entrever su concepción, su formación, su gestación, su trabajo. Y digo estas palabras con la mirada puesta, por cierto, en las operaciones del parto; pero también en aquellos que, en una sociedad de la que no me excluyo, desvían sus ojos ante lo todavía innombrable, que se anuncia, y que sólo puede hacerlo, como resulta necesario cada vez que tiene lugar un nacimiento, bajo la especie de la no-especie, bajo la forma informe, muda, infante y terrorífica de la monstruosidad.

Jacques Derrida

Apresentação do novo Portal Capes

Estão abertas as inscrições para a APRESENTAÇÃO DO NOVO PORTAL DE PERIÓDICOS CAPES para  professores, pesquisadores, bibliotecários, alunos de pós-graduação e graduação da UFRGS. Estão disponíveis duas turmas e as vagas são limitadas a 40 pessoas por turma, respeitada a ordem de inscrição.

As apresentações ocorrerão no dia 13 de abril , terça-feira  uma turma no turno da manhã (das 09:00 às 12:00 horas) e outra no turno da tarde(das 14:00 às 17:00 horas), no Laboratório de Informática da Escola de Administração, situado na rua Washington Luis, 855, 2º andar.  As  apresentações serão ministradas por representante da Capes.

A inscrição deve ser realizada, exclusivamente pela internet, no site do Portal de Periódicos <http://novo.periodicos.capes.gov.br/> . Para realizar a inscrição é necessário ser usuário cadastrado no Portal. Quem ainda não se cadastrou clique aqui <http://novo.periodicos.capes.gov.br/?option=com_plogin>  e cadastre-se. Após, entre novamente no Portal e identifique-se com o login e senha cadastrados. Clique na aba Suporte e após clique em Treinamentos <http://novo.periodicos.capes.gov.br/index.php?option=com_ptreinaments&mn=72&smn=82> . Em Filtrar Treinamentos selecione o mês de abril  e clique no botão Filtrar,  na lista de treinamentos escolha a turma de sua preferência  e clique no botão Solicitar Inscrição.

A Capes fornece certificado de participação.

Conferência com Eric Landowski

O GEARTE convida para a Conferência “Regimes de Interação e Sentido na Educação” do Prof. Dr. Eric Landowski (CNRS,Paris)   e sessão de autógrafos, no dia 26 de março, às 14h, no Auditório da Faculdade de Arquitetura da UFRGS. Inscrições pelo e-mail gearte.ufrgs@gmail.com

Eric Landowski é diretor de pesquisa no Centre National de la  Recherche Scientifique (CNRS), em Paris. Atua como pesquisador no Centre de Recherches Politiques de Sciences Po (CEVIPOF). Integra, como professor visitante, o Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da PUCSP. Dirige, desde 1994, o Centro de Pesquisas Sociossemióticas (CPS). Co-edita, desde a sua criação, a revista Actes Sémiotiques (hoje, Nouveaux Actes Sémiotiques). É membro de vários conselhos editoriais; no Brasil, das revistas Galáxia e Significação. Seus livros mais recentes, publicados em português, são: Presenças do Outro e A Sociedade Refletida: Ensaios de Sociossemiótica.

NÖTH, Winfried; SANTAELLA, Lúcia. Imagem: Cognição, Semiótica, Mídia. São Paulo: Iluminuras, 1998.

(…) o que se apresenta na passagem da imagem cinematográfica à videográfica até a infográfica é uma gradativa transformação que, partindo de corpos em movimento no tempo, vem atingir o movimento que ocorre na dimensão do tempo. Ou melhor, com a infografia, o tempo na imagem parece estar cada vez mais se aproximando do tempo audível, o tempo sonoro ou musical, tempo que não se confunde com atributos espaciais, no sentido de que é um fenômeno puramente temporal, não dependendo de componentes nem de dimensões espaciais, tal como ocorre na música (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p.78).

“(…) a chave semiótica da computação gráfica não está só na imagem, mas nas ligações indissolúveis da imagem computacional com a forma de engendramento que é constitutiva da sintaxe sonora (…) A questão do tempo como passagem, sucessividade, evanescência, não pertence à lógica da visualidade, mas sim à lógica da narrativa, que é eminentemente verbal, e muito mais especialmente à lógica da música, que se constitui no território onde o tempo reina soberano.” ((NÖTH, SANTAELLA, 1998, p.89).

Arlindo Machado (MACHADO, Arlindo. A imagem eletrônica: problemas de representação. Face 2(1): 69-81) afirma: “por existir apenas no tempo real e presente, a imagem eletrônica é pura duração, pura dromosfera, inscrição da velocidade, guardando, portanto, um parentesco muito maior com a música, estética por excelência da duração, do que com as artes plásticas ou visuais.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p.90)

“Não se trata de demonstrar as semelhanças existentes entre a imagem eletrônica e o som eletrônico, isto é, as analogias entre os programas de som e de imagem sintéticas (…). Ao contrário, o que buscamos (…) (é) penetrar nas entranhas constitutivas e estruturais da computação gráfica como processo de signos.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 90).

C. S. Peirce chegou a insinuar que a tendência de todas as ciências é aumentar gradualmente seu nível de abstração até se saturarem na matemática (…).Do mesmo modo, parece haver uma tendência atual, em todas as linguagens, ,de caminharem para um modo de estruturação, para uma morfogênese semelhante à da música, que sempre foi, aliás, no seu movimento de puras relações, a mais matemática dentre todas as linguagens.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 909).

“(…) o que se tem hoje (…) é uma dissolução de fronteiras entre visualidade e sonoridade, dissolução que se exacerba a um ponto tal que, no universo digital do som e da imagem, não há mais diferenças em seus modos de formar, mas só nos seus modos de aparição, isto é, na maneira como se apresentam para os sentidos. (…) ambos dependem de programas, de valores numéricos, e de procedimentos específicos, algoritmos de simulação do som ou da imagem, para serem transmitidos nos terminais específicos de efeito sensível para o olho ou para o ouvido.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 91)

“Quando se menciona a música das formas no cinema e no vídeo, isso não tem por referência a trilha sonora, mas sim o movimento das próprias imagens, quer dizer, o movimento plástico no tempo” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 93)

“Enquanto na imagem fixa o máximo que se pode ter é a representação do tempo, no cinema tem-se a ilusão do tempo. No vídeo, entretanto, entramos no universo das imagens em movimento-tempo real, quando começam a se ampliar enormemente as possibilidades de manipulação temporal das imagens. Mas é só com o computador que o tempo passou a ser introjetado dentro da imagem em si mesma, imagem que, finalmente, adquire o poder de se comportar exatamente como o som  na sua natureza de puro tempo e para o qual caberia com justeza, do mesmo modo que sempre coube ao som, a caracterização de “pluralidade de devires imediatos”, com que Pierre Levy (1993: 127) nomeia a dinâmica cronológica do pólo informático-mediático em contraste com o pólo da escrita, de um lado, e o pólo da oralidade primária, de outro.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 93)

“O que na imagem é anamorfose, manipulação da sua integridade formal, constitui-se justamente na sua conversão morfológica a algo que se assemelha à natureza constitutiva do som, que só se estrutura na medida mesma em que são geradas interferências nos seus parâmetros e valores de intensidade, altura, duração e timbre”. (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 94)

“É só com os recursos da pós-produção, entretanto, quando as imagens analógicas passam por processamento digital […] que a imagem irá finalmente encontrar seu ponto de maior coincidência com o morfogênese do som.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 95)

“Embora analogias com a música já possam começar a ser encontradas em quaisquer linguagens plásticas não-figurativas (foi Goethe quem chamou a arquitetura de música congelada), é só na computação gráfica que, finalmente, a imagem passa a se comportar quase que exatamente à maneira das texturas, figurações, gestos, adensamentos e rarefações, enfim, mutaçãoes ou evoluções no tempo que são próprias dos campos sonoros.

É em razão disso que as imagens pós-fotográficas são justamente aquelas que se libertaram do trinômio olho-mediação-registro, saltando para um novo trinômio inaugurado pela imagem gerada por computador: cérebro-programa-expressão sensível, servindo este novo trinômio como modelo para caracterizar tanto a música quanto a imagem.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 95)

“A música […] porque só pode por fatalidade passar, evanescer, soar e desaparecer, é, tal como a vida, devir irremediável”. Assim como a imagem eletrônica que, “quanto mais […] se desprende de qualquer tipo de referencialidade, promessa e nostalgia de um registro do mundo, mais se aproxima da natureza dos campos sonoros.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 95)

“As imagens digitais […] mesmo quando buscam imitar a realidade visível, não são mais figuras de registro, mas simulações, produzidas pelo cérebro e mediadas por programas numéricos. É em razão disso que é na simulação de processos dinâmicos puramente hipotéticos que esse tipo de imagem atinge o limite mais otipizado de seu potencial” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 96)

“Já que tais signos abstratos (ou plásticos) aparecem em todas as imagens, enquanto os signos icônicos (ou figurativos) só existem como signos na pintura figurativa, não é o nível icônico do signo, mas sim o abstrato que tem um lugar fundamental na semiótica da pintura.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p.142)

Aristóteles postulou 10 e Kant 12 categorias ontológicas. Peirce postulou apenas 3 categorias universais.

“Apesar de os signos pertencerem à categoria da terceiridade, já que eles unem um primeiro, a saber, o veículo do signo (representâmen), a um segundo, o objeto representado no signo, em um terceiro, a consciência interpretativa, os aspectos da primeiridade e da secundidade podem, em certos casos, predominar, de maneiras distintas, no signo.“ (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 143)

“Prototipo da imagen icônica não é a pintura figurativa, mas sim a não-figurativa, a abstrata. Protótipo da imagem indexical são a fotografia e a pintura realista, e protótipo da imagem simbólica é a pintura codificada iconológica ou iconograficamente.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 144)

“O ícone, de acordo com Peirce, é definido como um signo que possuiu caráter sígnico simplesmente devido às qualidades (de primeiridade) materiais próprias a ele” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 144) (quali-signo icônico)

Quali-signo icônico: um perceptum “sem referência pode ainda ser interpretado como signo ou […] um signo sem objeto não representa um paradoxo semiótico?” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 145). Para Peirce não há contradição porque pode haver a auto-representatividade do signo: um signo pode ser signo de sim mesmo. (eis uma possibilidade hipotética a q Peirce denomina Signo Degenerado, em oposição ao Signo genuíno).

Hipoícones: imagens figurativas, diagramas e metáforas.

Quali-signo icônico: signo degenerado que refere-se a si próprio. (ex: pintura monocromática: nega relação referencial, o observador precisa abrir mão da ilusão da referência, concentrando-se na materialidade do signo, na primeiridade. Imagens aleatórias tb configuram exemplo. )

Sin-signo icônico = ícone cujo veículo do signo é singular ou individual (ex: marca do pintor em sua pintura – action painting – Jackson Pollock – vestígios do meio, dos instrumentos e da mão. Outro exemplo: objet trouvé, como urinoir de Duchamp, ao retirar do contexto, percebem-se as marcas da escolha, da seleção)

Legi-signo icônico: veívulo do signo é definido por uma regularidade (qualidade como regularidade: simetria, harmonia, tensão, contraste, oposição, forma geométrica ou complementaridade cromática. Ex: construtivismo. Mondrian)

Quali, sin e legi-signos icônicos demonstram como pode haver uma semiótica sem uma semântica!

“Se a secundidade é uma relação existencial, o índice é genuíno. Se a secundidade é uma referência, o índice é degenerado (CP 2.283)”. (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 148)

Nem todas as fotografias são indexicais no mesmo grau. Há aquelas que tendem à primeiridade, ao quali-signo, como aquelas artísticas, de padrões estruturais abstratos. “Embora tais fotos estejam intimamente ligadas aos quali-signos da pintura abstrata, é suficiente saber que se trata, no caso, de fotos para se chegar à conclusão de que são sin-signos. Em vez de funcionarem de maneira dicente como fotos identificadoras, essas fotos são meros signos remáticos e pertencem, assim, do ponto de vista da sua relação com o interpretante, à categoria da primeiridade.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 150). Há outras que tendem à terceiridade, como aquelas científicas e as fotografias de propaganda, onde o fotógrafo até pode apr4sentar algo individual, mas seu objetivo é generalizar.

“Imagens se tornam símbolos quando o significado de seus elementos só pode ser entendido com a ajuda do código de uma convenção cultural” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 150). Imagem simbólica. “O protótipo da imagem simbólica degenerada em relação à secundidade é a pintura surrealista”. (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 153) = só podem ser codificadas a partir do sistema de leis da interpretação dos sonhos psicanalítico (causas psicobiológicas ou neurofisiológicas). “Os símbolos do sonho são, assim, estruturas indexicais da psiqueô”. (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 153). A terceiridade simbólica degenerada em relação à primeiridade é a pintura simbolista, na medida em que os signos mantêm uma relação de similaridade com os objetos.

Para Lúcia Santaella há três paradigmas no processo evolutivo de produção da imagem: o pré-fotográfico (imagens produzidas artesanalmente), o fotográfico (imagens produzidas por conexão dinâmica e captação física de fragmentos do mundo: foto, vídeo, cinema, holografia) e o pós-fotográfico (imagens sintéticas ou infográficas, inteiramente calculadas por computação) (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 157)

“[…] toda mudança no modo de se produzir imagens provoca inevitavelmente mudanças no modo como percebemos o mundo e, mais ainda, na imagem que temos do mundo. […] Não se quer com isso advogar um materialismo nu e cru, visto que as próprias mudanças materiais ou instrumentais são provocadas por necessidades que nem sempre são materiais, especialmente quando se trata de um processo de produção de linguagem, seja esta verbal, visual ou sonora. Neste caso, há uma espécie de força interior ao signo para produzir determinações no seu processo evolutivo, em uma espécie de tentetiva ininterrupta e inatingível de toda e qualquer linguagem para superar seus limites.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 158)

Para Peirce, “o objeto de uma representação pode ser qualquer coisa existente, perceptível, apenas imaginável, ou mesmo não siscetível de ser imaginada (CP2.232)”. (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 159)

“no caso da simulação a imagem também é uma representação, ou melhor, é friuto de uma série de representações.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 160) (ex: equações algébricas – traduzidas em pontos de luz na tela = representação de modelo; imagem sensível na tela = tipo de representação indicial da relação ponto a ponto do valor numérico com o pixel; imagem na tela é uma das representações icônicas possíveis do modelo que a gerou).

Paul Virilio em La machine de vision, apresenta 3 regimes de máquinas de visão: 1. era da lógica formal da imagem (pintura, gravura, arquitetura), 2. era da lógica dialética (foto, cinema, vídeo), 3. era da lógica paradoxal (infografia, videografia, holografia. (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 161)

A imagen sintética é “completamente independente de qualquer objeto existente em qualquer espaço real” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 162)

“[…] trata-se, antes de tudo, de determinar o modo como as imagens são materialmente produzidas, com que materiais, instrumentos, técnicas, meios e mídias. […] nenhum processo de signo pode dispensar a existência de meios de produção, armazenamento e transmissão, pois são esses meios que tornam possível a existência mesma dos signos […]”(NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 162)

No paradigma pré-fotográfico encontram-se os processos artesanais de criação da imagem, no fotográfico, os processos automáticos de captação da imagem e, no pós-fotográfico, os processos matemáticos de geração da imagem. (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 163)

Questões observadas: (1) meios de armazenamento da imagem, (2) papel do agente produtor, (3) natureza das imagens em si mesmas, (4) as imagens e o mundo, (5) meios de transmissão, (6) papel do receptor. (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 163)

“A característica básica do modo de produção artesanal está na realidade matérica das imagens, quer dizer, na proeminência com que a fisicalidade dos suportes, substâncias e instrumentos utilizados impõe sua presença.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 163). “Nessa imagem instauradora [monádica], fundem-se, num gesto indissociável, o sujeito que a cria, o objeto criado e a fonte da criação.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 164)

“A grande modificação que se dá na passagem do paradigma pré-fotográfico ao fotográfico está no advento de um processo de produção eminentemente diádico que a fotografia inaugurou” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 164)

“[…] no paradigma fotográfico o suporte é um fenômeno químico ou eletromagnético preparado para o impacto, pronto para reagir ao menor estímulo da luz.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 165)

“O negativo, captação da luz é, paradoxalmente, pura sombra, rastro escuro à espera da luz que só será restituída na revelação. A imagem revelada, por seu turno, é sempre um duplo, emanação direta e física do objeto, seu traço, fragmento e vestígio do real, sua marca e prova, mas o que ela revela, sobretudo, é a diferença, o hiato, a separação irredutível entre o real, reservatório infinito e inesgotável de todas as coisas, e o seu duplo, pedaço eternizado de um acontecimento que, ao ser fixado, indiciará sua própria morte. No instante mesmo em que éfeita a tomada, o objeto desaparece para sempre.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 165)

“[…] no pós-fotográfico o processo de produção é eminentemente triádico […] O suporte das imagens sintéticas não é mais matérico como na produção artesanal, nem físico-químico e maquínico como na morfogênese ótica, mas resulta do casamento entre um computador e uma tela de vídeo, mediados ambos por uma série de operações abstratas, modelos, programas, cálculos.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 166)

O computador, apesar de também ser uma máquina, é uma máquina de tipo diferente da máquina fotográfica que atua sobre uma realidade física: é uma máquina especial que age sobre “um substrato simbólico: a informação. Na nova ordem visual, […] o agente da produção não é mais um artista […] nem é um sujeito que age sobre o real, […] mas […] um programador cuja inteligência visual se realiza na interação e complementaridade com os poderes da inteligência artificial.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 166)

“Antes de ser uma imagem visualizável, a imagem infográfica é uma realidade numérica […] A imagem numérica é uma imagem em perpétua metamorfose, oscilando entre a imagem que se atualiza no vídeo e a imagem virtual ou conjunto infinito de imagens potenciais calculáveis pelo computador.”  (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 166)

“Embora as imagens que a tela permite visualizar sejam altamente icônicas […] tudo que se passa por trás da tela é radicalmente abstrato.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 167)

Imagem sintética: “em primeiro lugar, o programador constrói um modelo de um objeto numa matriz de números, algoritmos ou instruções de um programa para os cálculos a serem efetuados pelo computador; em segundo lugar, a matriz numérica deve ser transformada de acordo com outros modelos de visualização ou algoritmos de simulação da imagem (Machado, Arlindo. Fotografia em mutação. Nicolau ano VII, no.  49: 14-15, 1993); então, o computador traduzirá essa matriz em pontos elementares ou pixels para tornar o objeto visível numa tela de vídeo.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 167). Há uma conexão indicial entre o número no algoritmo e o pixel na tela.

“O que preexiste ao pixel? Um programa, linguagem e números. O que está implícito no programa? Um modelo. O ponto de partida da imagem sintética já é uma abstração, não existindo a presença do real empírico em nenhum momento do processo.  […] As duas palavras de ordem das imagens sintéticas são assim as palavras modelo e simulação.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 167)

Arlindo Machado (Máquina e imaginário. O desafio das poéticas tecnológicas. São Paulo: Edusp, 1993) afirma que “A moderna ciência da computação denomina modelo um sistema matemático que procura colocar em operação propriedaes de um sistema representado. O modelo é, portanto, uma representação formal – e, como tal, passível de ser manipulado, transformado e recomposto em combinações infinitas – que visa funcionar como a réplica computacional da estrutura, do comportamento ou das propriedades de um fenômeno real ou imaginário. A simulação, por sua vez, consiste basicamente numa ‘experimentação simbólica’ do modelo.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 167)

“A contribuição inestimável do computador está em seu poder de colocar os modelos à prova, sem necessitar submetê-los a experiências reais. […] O que muda com o computador é a possibilidade de fazer experiências que não se realizam no espaço e tempo reais sobre objetos reais, mas por meio de cálculos, de procedimentos formalizados e executados de uma maneira indefinidamente reiterável.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 168)

MEIOS DE PRODUÇÃO
PRÉ-FOTOGRÁFICO FOTOGRÁFICO PÓS-FOTOGRÁFICO
expressão da visão via mão Autonomia da visão via próteses óticas Derivação da visão via matriz numérica
Processos artesanais de criação da imagem Processos automáticos de captação da imagem Processos matemáticos de geração da imagem
Suporte matérico Suporte químico ou eletromagnético Computador e vídeo

Modelos, programas

Instrumentos

Extensões da mão

Técnicas óticas de formação da imagem Números e pixels
Processo monádico Processo diádico Processo triádico
Fusão: sujeito, objeto e fonte Colisão ótica Modelos e instruções

Modelos de visualização

Pixels na tela

Imagem incompleta,

inacabada

Imagem corte, fixada para sempre Virtualidade e simulação

(NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 168)

“[…] o meio de armazenamento nas imagens artesanais coincide exatamente com esse suporte. […] No paradigma fotográfico […] A imagem passou […] a ganhar em eternidade o que perdeu em unicidade, pois um negativo é passível de ser revelado, ser reproduzido a qualquer momento. […] No caso das imagens pós-fotográficas […] entramos, na infografia, dentro do universo do disponível (Plaza, 1994), um universo que sofre muito pouco as restrições do tempo e do espaço.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 169).

MEIOS DE ARMAZENAMENTO
PRÉ-FOTOGRÁFICO FOTOGRÁFICO PÓS-FOTOGRÁFICO
suporte único negativo e fitas magnéticas memória do computador
perecível reprodutível disponível

(NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 170)

“Enquanto as imagens artesanais resultam de um gesto idílico, […] as imagens fotográficas decorrem de uma espécie de rapto, roubo do real […]. As imagens de síntese […] resultam da necessidade de agir sobre or eal, necessidade esta atingida pela mediação de interações lógicas e abstratas com o computador.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 170)

PAPEL DO AGENTE PRODUTOR
PRÉ-FOTOGRÁFICO FOTOGRÁFICO PÓS-FOTOGRÁFICO
Imaginação para a figuração Percepção e prontidão Cálculo e modelização
Gesto idílico Rapto Agir sobre o real
Olhar do sujeito Olhar da câmera e ponto de vista do sujeito Olhar de todos e de ninguém
Sujeito criador

Demiurgo

Sujeito pulsional

Movente

Sujeito manipulador

ubíquo

(NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 171)

As imagens artesanais são “a copia de uma aparência imaginarizada, funcionando como meio de ligação da natureza à imaginação de um sujeito. […] as imagens no paradigma fotográfico, menos do que representações, são reproduções por captação e reflexo. […] e no paradigma pós-fotográfico são simulações por modelização.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 171)

NATUREZA DA IMAGEM
PRÉ-FOTOGRÁFICO FOTOGRÁFICO PÓS-FOTOGRÁFICO
figurar o visível e o invisível Registrar o visível Visualizar o modelizável
Figuração por imitação Capturar por conexão Simular por variações de parâmetro
Imagem espelho Imagem documento Imagem matriz
Cópia de uma aparência imaginarizada Registro do confronto entre sujeito e mundo Substrato simbólico e experimento

(NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 172)

“a imagem pré-fotográfica funciona como uma metáfora, janela para o mundo. […] embora seja eminentemente monádica […], o efeito final desse tipo de imagem é, ao fim e ao cabo, simbólico. Imagem fantasmática, ela visa ao ocultamento da separação intransponível entre imagem e mundo. […] o paradigma fotográfico funciona como metonímia […] nesse tipo de imagem o ícone reina soberano. […] o paradigma pós-fotográfico funciona sob o signo das metamorfoses, porta de entrada para um mundo virtual. […] Embora circule inteiramente dentro das abstrações simbólicas, a imagem sintética, visualisável nas telas de vídeo, produz um efeito icônico tão proemuinente quanto é proeminente a iconicidade na música.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 172-3)

IMAGEM E MUNDO
PRÉ-FOTOGRÁFICO FOTOGRÁFICO PÓS-FOTOGRÁFICO
Aparência e miragem Duplo e emanação simulação
Metáfora metonímia metamorfose
Janela para o mundo Biunívoca virtual
Ideal de simetria Ideal de conexão Ideal de autonomia
Modelo imaginário e icônico Modelo físico Modelo simbólico
Evocativa Sombra ascética
Símbolo Índice ícone

(NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 174)

O modo de distribuição da imagem pós-fotográfica, “naquilo que tem de mais específico – a interatividade -, desloca essa imagem da esfera da comunicação para a esfera da comutação (Couchot, 1988: 130). Ao se afastar da lógica das mídias de massa, essa imagem faz sentido por contato, por contaminação, em lugar de projeção.”  (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 174)

PAPEL DE RECEPTOR
PRÉ-FOTOGRÁFICO FOTOGRÁFICO PÓS-FOTOGRÁFICO
contemplação Observação interação
Nostalgia Reconhecimento imersão
Aura Identificação navegação

(NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 175)

“[…] pode-se afirmar que o paradigma pré-fotográfico é o universo do perene, da duração, repouso e espessura do tempo. O fotográfico é o universo do instantâneo, do lapso e interrupção no fluxo do tempo. O pós-fotográfico é o universo evanescente, em devir, universo do tempo puro, manipulável, reversível, reiniciável em qualquer tempo.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 175)

“[…] as imagens videográficas não se soltaram do fotográfico porque são ainda imagens por projeção, implicando sempre e preexistência de um objeto real cujo rastro fica capturado na imagem.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 176)

Para que a holografia passasse do pré-fotográfico para o fotográfico seria necessário que “tivesse se desprendido da servidão ao objeto preexistente, o que ela não fez inteiramente”. (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 177). Entretanto, seu modo de armazenamento já evidencia características pós-fotográficas. “ Mais prudente seria, pois, considerar a holografia numa zona intersticial entre o fotográfico e o pós-fotográfico.”.  (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 178)

“[…] o percurso da arte moderna, que se estendeu, pelo menos, de Cézanne a Mondrian, no seu objetivo progressivamente perseguido de ruptura da dependência da imagem aos objetos do mundo, fez a transição do paradigma fotográfico ao pós-fotográfico.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 178)

O cubismo foi “a primeira escola artística a estabelecer a independência da pintura em relação ao que era imediatamente visível” (SZAMOSI apud NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 180-1). Os Cubistas “avançaram suas investigações sobre a desestruturação do código figurativista até o limite de debilitar o poder denotativo dos signos pictóricos, reduzindo-os a traços elementares que obliteram a referencialidade das figuras.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 181)

“[…] o movimento artístico que mais fundamentalmente rejeitou nossa confiança na experiência sensorial direta – e que […] foi análogo à matemática pura no reino das ciências – foi a arte abstrata […]”, que abriu “o caminho para uma arte conceitual no lugar de uma arte visual […]” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 181)

“O enfoque matemático na arte contemporânea não são as matemáticas em si mesmas, e dificilmente faz uso do que conhecemos por matemáticas exatas. É sobretudo o emprego dos processos de pensamento lógico na expressão plástica dos ritmos e das expressões” (MAX BILL apud MENNA apud NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 182)

“[…] podemos ver que, quando os artistas da arte moderna [Melevich, Braque, Duchamp, Magritte] obstinada e progressivamente buscaram a independência da imagem dos objetos do mundo, eles estavam radiografando o futuro.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 183)

O problema da mistura de paradigmas e da hibridização das artes (p. 183 a 186)

“[…] o significado da palavra síntese, nas imagens de síntese, pode certamente apresentar duas acepções: de um lado, a idéia de modelagem e síntese numérica, de outro, a idéia de síntese dos três paradigmas. De fato, o que caracteriza o paradigma pós-fotográfico é sua capacidade de absorver e transformar os paradigmas anteriores. Não há hoje imagem que fique à margem das malhas numéricas.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 186)

Os 3 paradigmas da imagem: (1) pré-fotográfico, (2) fotográfico, (3) pós-fotográfico.

Para cada paradigma, há 4 níveis de que depende todo e qualquer tipo de processo sígnico ou de linguagem: (1) meios de produção, (2) meios de conservação ou armazenamento, (3) meios de exposição, transmissão ou difusão, (4) meios e modos de recepção (percepção, contemplação, observação, fruição ou interação)

Os 3 registros psicanalíticos: imaginário, real, simbólico (Lacan)

Imaginário/pré-fotográfico; real/fotográfico; simbólico/pós-fotográfico.

(NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 187)

Tem sido muito discutida a transposição do discurso psicanalítico para fora de seu próprio campo: o do inconsciente ou do sujeito inconsciente (Lacan). Entretanto, “Lacan literalmente afirmou que esses três registros […] são os registros essenciais da realidade humana, chamando-os também de categorias conceituais, com o que ele parece ter fornecido um argumento para a postulação de uma universalidade desses registros. […] Numa outra passagem […] Lacan (apud Balat 1988) citou C. S. Peirce, dizendo que é dentro da mesma visão da lógica relacional e triádica peirceana que seus registros se definem” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 188)

“O imaginário é, sem dúvida, o registro que mais proximamente se localiza dos problemas da imagem. Esse é basicamente o registro psíquico correspondente ao ego (ao eu) do sujeito, cujo investimento libidinal foi denominado por Freud de narcisismo. ‘O eu é como Narciso: ama a si mesmo, ama a imagem de si mesmo […] que ele vê no outro” (QUNINET apud NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 189)

Ver Introdução ao narcisismo, de Freud, qdo afirma que o eu é construído, e q não há unidade compatível ao eu do indivíduo, e o estágio do espelho, de Lacan, qdo desenvolve esta perspectiva, referindo-se ao interesse lúdico q a criança entre 6 e 18 meses desenvolve por sua imagem especular (a criança nesta fase é prematura, desamparada, sua imagem é ao mesmo tempo completa e sua e de outro –  problema do déficit. (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 190)

“Na procura de si mesma, a consciência crê se encontrar no espelho das criaturas e se perde no que não é ela. Tal situação é fundamentalmente mítica, uma metáfora da condição humana que está sempre em busca de uma completude repetidamente lograda, capturada incansavelmente em miragens que encenam um sentido onde o sentido está sempre em falta.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 190)

“[…] As analogias da imagem pré-fotográfica com o imaginário estão […] expressas […] na relação, quer idílica, quer conflituosa, que a imagem artesanal mantém com a natureza do corpo. […] essa imagem implica a co-presença do corpo […] e do objeto ou coisa a ser projetada em uma superfície através da imaginação do artista. Entre o espelho e a miragem, ela é sempre fruto de um olhar transfigurador, capaz de projetar uma imagem de mundo: algo disperso que se configura numa unidade ideal, numa totalidade unificada.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 190)

“Trata-se […] de uma imagem ilusionista, na sua pretensão de completude, e inteiramente mítica, na sua suspensão do tempo […] uma imagem constitutiva de […] produzida por um sujeito individual e proposta para contemplação […] visto que é próprio do eu se projetar nas imagens em que se espelha.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 190)

“[…] o real lacaniano […] emerge como aquilo que do imaginário inevitavelmente sobra como resto e que o simbólico é impotente para capturar. […] [Então,] como se efetua para o ser falante a adequação do mundo imaginário com o mundo real na economia psíquica? Ora, é exatamente esse entrechoque entre o imaginário e o real que o paradigma fotográfico inaugurou. […] Há um descompasso, uma defasagem entre o ritmo do mundo, matéria vertente do vivido, e a capacidade do registro. A febre da vida não cabe em imagens. Sob as vestes da imagem, algo cai. Esse algo é o real, que resiste na sua irredutibilidade” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 190)

O simbólico é o lugar do código da linguagem, da ordem e da lei, é onde fala a cultura (Outro X outro; Outro = está sempre já aí, linguagem, biblioteca total de Borges; outro = relação imaginária do eu e do outro, relação recíproca, simétrica ao eu imaginário)

O grande Outro, na imagem pós-fotográfica, é “numérica, simbólica por excelência, a dimensão de exterioridade do grande Outro põe em cena a posição excêntrica do sujeito” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 190)

“A questão da verdade ou mentira nas imagens tem um aspecto semântico, um sintático e um pragmático. De um ponto de vista semântico, uma imagem verdadeira deve ser aquela que corresponde aos fatos que representa. De um ponto de vista sintático, deve ser aquela que representa um objeto e transmite um predicado sobre este. Do ponto de vista pragmático, deve haver uma intenção de iludir por parte do emissor da mensagem pictórica.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 197)

“A diferença entre uma verdadeira simulação ilusória, uma genuína mentira visual e uma mera brincadeira está na dimensão pragmática da mensagem fotográfica.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 200)

“Na língua, somente sentenças, e não palavras individuais, podem ser verdadeiras ou falsas” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 200)

Rema: equivalente semiótico das palavras

Dicente: equivalente geral de proposições

Perspectiva logocêntrica: “O argumento da incompletude contextual foi primeiramente apresentado por Gombrich (1960:58-9). Em sua visão, as imagens sozinhas nunca podem funcionar como afirmações verdadeiras ou falsas. Somente quando uma imagem vem acompanhada de um título ou um rótulo, a resultante mensagem texto-imagem pode transmitir uma proposição verdadeira ou falsa.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 201).

Jerry Fodor discute a possibilidade de as imagens desempenharem o papel das palavras na língua natural, para se contrapor a tal perspectiva aludindo o princípio da não-segmentabilidade. “Ele conclui que tal linguagem pictorial não poderia existir porque a linearização dos argumentos e predicados impediriam tais palavras pictóricas de serem interpretadas como um todo proposicional.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 202)

“Em sua busca de um equivalente pictórico para as proposições verbais, Fodor comete o erro de projetar a linearidade da linguagem no domínio visual, onde, ao contrário, a simultaneidade é o princípio estrutural que relaciona os elementos remáticos em questão.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 202)

“[…] a manipulação sintática mais evidente de fotografias foi a de Mathias Wähner. As inserções do auto-retrato do fotógrafo na foto de outras celebridades tinham por objetivo falsificar uma proposição visual, inserindo um falso argumento junto com o predicado de contigüidade espacial.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 204)

Gombrich e Fodor usam o argumento da vagueza dicente para dizer que “as mensagens pictóricas são tão ambíguas, vagas e polissêmicas que elas não servem para provar qualquer verdade ou falsidade.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 204)

Exemplo: o gato está no capacho.

“Sempre que signos possam ser usados para asseverar a verdade, também podem ser usados para enganar. […] tanto as mensagens verbais quanto as pictóricas devem ser interpretadas dentro de seu contexto mais amplo.”

“Sebeok (1986), por exemplo, mostrou que mentir não está, de maneira alguma, restrito à semiose verbal, uma vez que isto acontece mesmo entre os animais, e a semiótica das imagens tem feito avanços ao investigar imagens como um sistema de signos autônomo em relação à linguagem verbal.” (NÖTH, SANTAELLA, 1998, p. 208)

WISNIK, 1999 – O SOM E O SENTIDO

O campo modal, tal como é entendido aqui, abrange toda a vasta gama das tradições pré-modernas: as músicas dos povos africanos, dos indianos, chineses, japoneses, árabes, indonésios, indígenas das Américas, entre outras culturas. Ele inclui também a tradição grega antiga (que só conhecemos na teoria) e o canto gregoriano, que se constituem, ambos, em estágios modais da música do ocidente.

O tonal abrange o arco histórico que vai do desenvolvimento da polifonia medieval ao atonalismo (formação, fastígio e dispersão do sistema tonal na música chamada “erudita”, da Europa), e tem seu mo- [9-10] mento forte entre Bach e Wagner (ou Mahler), do barroco ao romantismo tardio, passando pelo estilo clássico.

O serial compreende as formas radicais da música de vanguarda no século XX, representadas por Schoenberg e Webern, e pelos seus desdobramentos que levam à música eletrônica, formas essas que serão comparadas, por contraste, com as tendências recentes à música repetitiva, também chamada minimalista. (Wisnik, 1999:9-10)

[…] gravitamos, segundo Carpeux, em torno da evolução tonal européia, e nisso consistiria necessariamente para nós a (história da) música. Convencido, como Spengler e Toynbee, de que “a música, assim como a entendemos, é um fenômeno específico da civilização”, e de que “em nenhuma outra civilização produziu fenômeno comparável à polifonia de Bach”, Carpeaux omitiu coerentemente o capítulo costumeiro sobre músicas modais “étnicas”, e começa a sua história pelas melodias diatônicas (e terminantemente ocidentais) do canto gregoriano, porque elas são a base sobre a qual se constitui o tonalismo. (Wisnik, 1999:10)

Assistimos hoje, ao que tudo indica, ao fim do grande arco evolutivo da música ocidental, que vem do cantochão à polifonia, passando através do tonalismo e indo se dispersar no atonalismo, no serialismo e na música eletrônica. Esse arco evolutivo, que compreende o grande ciclo de uma música voltada para o parâmetro das alturas melódicas (em determinado pulso, dominante nas músicas modais), é um traço singularizador da música ocidental. É possível que esse ciclo tenha se consumado na metade do século XX e que estejamos vivendo o intermezzo de um grande deslocamento de parâmetros, em que o pulso volta a ter uma atuação decisiva (as músicas populares, o jazz, o rock e o minimalismo dão sinais dessa direção). (Wisnik, 1999:11)

[…] a música fala ao mesmo tempo ao horizonte da sociedade e ao vértice subjetivo de cada um, sem se deixar reduzir às outras linguagens. Esse limiar está fora e dentro da história. A música ensaia e antecipa aquelas transformações que estão se dando, que vão se dar, ou que deveriam se dar, na sociedade. (Wisnik, 1999:13)

Assim como o corpo admite ritmos somáticos (a exemplo do sanguíneo) e ritmos psíquicos (como as ondas cerebrais), que operam em diferentes faixas de onda, as freqüências sonoras se apresentam basicamente em duas grandes dimensões: as durações e as alturas (durações rítmicas, alturas melódico-harmônicas).

O Bater de um tambor é antes de mais nada um pulso rítmico. Ele emite freqüências que percebemos como recortes de tempo, onde inscreve suas recorrências e suas variações. Mas se as freqüências rítmicas foram tocadas por um instrumento capaz de acelerá-las muito, a partir de certa de dez ciclos por segundo, elas vão mudando de caráter e passam a um outro patamar, o da altura melódica. A partir de um certo limiar de freqüência (em torno de quinze ciclos por segundo, mas estabilizando-se só em cem e disparando em direção ao agudo até a faixa audível de cerca de 15 mil hertz), o ritmo “vira” melodia. (Wisnik, 1999:20)[MBC1]

Nesse campo, pelo mesmo enlace corporal que já comentei a propósito do andamento rítmico, o som grave (como o próprio nome sugere) tende a ser associado ao peso da matéria, com os objetos mais presos à terra pela lei da gravidade, e que emitem vibrações mais lentas, em oposição à ligeireza leve e lépida do agudo (o ligeiro, como no francês léger, está associado à leveza).

A partir de certa altura os sons agudos vão progressivamente saindo da nossa faixa de percepção: a sua afinação soa distorcida, e eles vão perdendo intensidade até desaparecer para nós, embora sejam escutáveis (por um cão, por exemplo). (Wisnik, 1999:21)

A tradutibilidade subjacente entre durações por um outro dado extremamente intrigante que envolve a relação entre as duas: aquele ponto de inflexão que as separa, entre dez e quinze vibrações por segundo, no limiar oscilante entre as figuras rítmicas e a altura melódica, coincide muito aproximadamente com a faixa vibratória do chamado ritmo alfa. O ritmo alfa (situado entre oito e treze hertz) é uma freqüência cerebral que, ao que tudo indica, funciona para a nossa percepção como uma onda portadora de ondas, uma espécie de fundo condutor (desaparece no sono profundo e é recoberto por outros ritmos quando a nossa atenção está solicitada, mas é particularmente marcado no eletroencefalograma – quando os olhos estão fechados mas em vigília, ou quando olhamos sem fixar o olhar).

Segundo Alain Daniélou, em sua Sémantique musicale, “o ritmo alfa parece ser de fato a base que determina o valor do tempo relativo e conseqüentemente todas as relações do ser vivo com o seu ambiente”. Segundo essa interpretação, ele seria o fator constante e subjacente, padrão vibratório que “condiciona todas as percepções”, funcionando como um sinal de sincronização que comandaria o andamento da nossa sensação de tempo. (Quando árvores em série na beira da estrada, por exemplo, em sincronia com a velocidade do carro, entram nessa faixa, de freqüência, causam forte interferência sobre a atenção do motorista, podendo provocar acidente). (Wisnik, 1999:22)

O som do mar: durações oscilantes entre a pulsação e a inconstância, num movimento ilimitado; alturas em todas as freqüências, das mais graves às mais agudas, formando o que se chama um ruído branco. [N.R.: O ruído no qual todas as freqüências audíveis têm iguais chances de aparecer a cada momento é dito “branco” por analogia com o espectro contínuo e uniforme da cor; o ruído da turbina de um jato, ou de uma emissão de rádio a válvula fora da estação com o aparelho ligado no máximo volume, por exemplo.] (Wisnik, 1999:27)

Há mais essa peculiaridade que interessa ao entendimento dos sentidos culturais do som: ele é um objeto diferenciado entre os objetos concretos que povoam o nosso imaginário porque, por mais nítido que possa ser, é invisível e impalpável. O senso comum identifica a materialidade dos corpos físicos pela visão e pelo tato. Estamos acostumados a basear a realidade nestes sentidos. A música, sendo uma ordem que se constrói de sons, em perpétua aparição e desaparição, escapa à esfera tangível e se presta à identificação com uma outra ordem do real: isso faz com que se tenha atribuído a ela, nas mais diferentes culturas, as próprias propriedades do espírito. O som tem um poder mediador, hermético: é o elo comunicante do mundo material com o mundo espiritual e invisível. O seu valor de uso mágico reside exatamente nisto: os sons organizados nos informam sobre a estrutura oculta da matéria no que ela tem de animado. (Não há como negar que há nisso um modo de conhecimento e de sondagem de camadas sutis da realidade). (Wisnik, 1999:28)[MBC2]

Entre os objetos físicos, o som é o que mais se [28-29] presta à criação de metafísicas. As mais diferentes concepções do mundo, do cosmos, que pensam harmonia entre o visível e o invisível, entre o que se apresenta e o que permanece oculto, se constituem e se organizam através da música. (Wisnik, 1999:28-29)

Está indicado aí, nesse quadro mítico, que as músicas modais são músicas que procuram o som puro sabendo que ele está sempre vivamente permeado de ruído. Os deuses são ruidosos. A natureza sonora [39-40] do mundo, que não perde nunca o pé do pulso, se faz dessa mescla em que mora o núcleo do sacrifício, isto é, da ritualidade do som. (Wisnik, 1999:39-40)

Stravinski, na Sagração da primavera (1913), introduziu agregados de acordes, quase-clusters que funcionam como ruído, impulsões ruidosas, percussão operando numa métrica irregular que volta a questionar a linha perdida na tradição do Ocidente: a base produtiva do pulso. (A matéria sonora liberada por Stravinski pode ser pensada hoje como processo primário daquilo que tornará depois a base do rock, da qual ele faz uma espécie de prefiguração descontínua e assimétrica.) A Sagração, estrutura sonora provocando polêmica e pancadaria na platéia, ruído gerando ruído, desloca o lugar do silêncio, que sai da moldura e vai para o fundo, onde se recusa a responder à pergunta sobre a natureza do código musical (depois da dispersão do código tonal). A introdução do ruído atua ambivalentemente como acréscimo de carga informativa das mensagens e acelerador entrópico dos códigos (o que realimenta entropicamente as mensagens). está inaugurado o mundo moderno, com tudo aquilo que ele já contém de crise de proliferação pós-moderna. (Wisnik, 1999:44)[MBC3]

A incapacidade para introduzir diferenciação seria a síndrome dessa terminalidade. A negatividade da arte como recusa do social (como aquela recusa à consolação que Adorno viu na música de Schoenberg, expondo a angústia contemporânea) iria tomando assim, irreversivelmente, o caráter de uma natureza declinante do social.

Essa situação terminal (ligada a uma antropologia do ruído) teria seu correspondente numa psicossociologia defensiva da escuta (o ouvinte se fecha numa concha de som onde se embala só com o gênero de sua preferência, seja o jazz, o sambão, o rock, a música ligeira ou a experimental, numa redoma refratária a qualquer diferença, a qualquer deslocamento de seu código de adoção, o que significa não-escuta). A escuta indiscrimindada de qualquer diferença, a qualquer coisa também é não-escuta. Cumprir-se-ia, assim, em toda escala, no circuito vicioso e fechado da música de mercado, aquele fetichismo da música e a regressão da audição previstos por Adorno. O minimalismo seria o estilo estético desse eu mínimo (fechado defensivamente numa câmara de som repetitivo). (Wisnik, 1999:54)

[…] Sagração da primavera é estrutura profunda daquela música de ritmos e timbres, de ruído pulsante que o rock vai mostrar como estrutura de superfície (portada pela evidência de suas cadências harmônicas e seu compasso quartenário). (Wisnik, 1999:57)

As terças (maior e menor dó-mi, mi-sol) trabalham como o fator 5 (4/5 e 5/6) e incluem, segundo uma certa visão de semântica musical, cores afetivas e sentimentais no campo das alturas (no sistema tonal são o diferenciador de modo maior e menor, e suas cores mais “luminosas” ou “sombrias”, “alegres” ou “tristes”). Até aqui temos então, na série dos primeiros harmônicos, aqueles intervalos que a tradição tonal consagra como consonância: juntos, eles fazem o acorde perfeito maior (dó-mi-sol-dó).

Todos os outros intervalos são numericamente mais complexos, [64-65] mais difíceis para a percepção e a afinação. As sétimas (dó-si ou dó-si bemol), por exemplo, que serão intervalos importantes como tensionadores, contém pulsos internos cuja defasagem é mais pronunciada, resistindo mais à redução a uma pulsação básica (como se lutasse contra a redução ao período do som fundamental, que a oitava e a quinta aceitam com muito maior facilidade).

O trítono (ou quarta aumentada, intervalo de três tons que temos por exemplo entre o fá e o si ou o dó e o fá sustenido) é baseado numa relação numérica de 32/45. Divide a oitava ao meio, e é igual à sua própria inversão: projeta com isso uma forte instabilidade.[MBC4] Foi evitado na música medieval como o próprio diabolus in musica.

A segunda menor (dó-dó sustenido) é um intervalo estratégico: baseado na relação de 15/16, está perto dos menores intervalos relevantes para a diferenciação auditiva. Como é produto da defasagem entre dois pulsos muito próximos, quinze e dezesseis ciclos, a arritmia dissonante que ele produz soa como um erro que quer ser corrigido por igualamento, uma distorção que quer ser ajustada, uma diferença que quer ser reduzida, uma tensão da sensível, isto é, a nota tensa que desliza no espaço de um semitom (a segunda menor) e encontra repouso. Ou então desliza meio tom e cria conflito: ele é deslocador por excelência. A segunda menor põe em cena o glissando, a atração, a sedução.

Com isso já temos elementos para vizualizar a música das alturas como uma multiplicidade de acontecimentos, de movimentos relativamente estáveis e instáveis, entremeando suas diferenças como um trabalho de forças.

(Wisnik, 1999:64-65)

Talvez porque em seu estado primário e indiferenciado o campo das alturas seja tão fluido, uma longa tradição ligue simbolicamente a música ao mar, e alguns mitos gregos formulem de maneira eloqüente o caráter oceânico do som: Arion, prisioneiro de marinheiros que querem atirá-o às águas, pede para entoar o seu próprio canto fúnebre, acompanhado da sua lira, e em seguida se lança por conta própria ao oceano, onde os golfinhos, delfins de Apolo, atraídos pela música, o salvam: Dionísio, preso nas mesmas condições, transforma os piratas em golfinhos, condenados para sempre a salvar os náufragos. Essas são, na verdade, duas versões de um mesmo mito, que se pode parafrasear assim: o músico é capaz de dominar as forças informas do inconsciente, fazendo-as atuarem a seu favor; a música é um rito de passagem em que o sujeito se lança à morte (escolhendo por um artifício onírico, diria Freud, aquilo que não tem escolha) e renasce nela. (Wisnik, 1999:72)

Nas sociedades pré-modernas, um modo não é apenas um conjunto de notas mas uma estrutura de recorrência sonora ritualizada por um uso. As notas reunidas na escala são fetichizadas como talismãs dotados de certos poderes psicossomáticos, ou, em outros termos, como manifestação de uma eficácia simbólica (dada pela possibilidade de detonarem diferentes disposições afetivas: sensuais, bélicas, contemplativas, eufóricas ou outras). Esse direcionamento pragmático do modo (que se consuma no seu uso sacrificial ou solenizador) já está geralmente codificado pela cultura, onde seu poder de atuação sobre o corpo e a mente é compreendido por uma rede metafórica maior, fazendo parte de uma escala geral de correspondências, em que o modo pode estar relacionado, por exemplo, com um deus, uma estação do ano, uma cor um animal, um astro.

Um exemplo acabado de interpretação da escala musical como modelo cosmológico e político é dado pela concepção tradicional chinesa da escala pentatônica. Segundo um tratado cerimonial clássico, a nota kong (fá) representa o príncipe; chang (sol) os ministros; kio (lá) o povo; tché (dó) os negócios e yu (ré) os objetos.

(Wisnik, 1999:75)

A produção da música tradicional indiana liga-se a uma experiência do tempo produzido como pulso e desdobrado através de princípios ou escalas de recorrência cósmica que a música procura captar, afinado-se por elas. A sensação do tempo é dada pela afinação corporal e espiritual com uma série de ciclos micro e macrocósmicos integrados, codificados em cadeias analógicas. […] O metro “é ordem, mas não medida. Pois o tempo, para o indiano, não é um conceito de quantidade, mas um fator de qualidade, relativo à disposição psíquica do homem e isento de mediação racional por relógio ou metrônomo” [N.R.: “Cf o excelente verbete sobre música indiana, de Hans Jochin KOELREUTTER e Maria José CARNEIRO, na Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.”]. (Wisnik, 1999:91)

Segundo Steve Reich, o interesse pela música eletrônica, marcante nos anos 60, dissolveu-se nos anos 70 em nome de “um interesse pela música mundial”, despontando a “música-não-ocidental” (vale dizer, a tradição modal) como “a mais importante fonte de inspiração para os compositores ocidentais à procura de idéias novas” [N.R.: Steve REICH, Écrits et entretiens sur la musique (Paris, Christian Bourgois Éditeur) p. 86.]. (Wisnik, 1999:97)

O rock é a superfície de um tempo que se tornou polirrítmico. Progresso, regressão, retorno, migração, liquidação, vários mitos do tempo dançam simultaneamente no imaginário e no gestuário contemporâneos, numa sobreposição acelerada de fases e defasagens. (Wisnik, 1999:98)

A passagem do modal ao tonal acompanha aquela transição secular do mundo feudal ao capitalista e participa, assim, da própria constituição da idéia moderna de história com progresso. A formação gradativa do tonalismo remonta medieval e se consolida passo a passo ao longo dos séculos XVI, XVII e XVII (quando se pode dizer que o sistema está constituído). Na segunda metade do século XVIII e começo do século XIX, à época do estilo clássico que vai de Haydn a Beethoven, o tonalismo vigora em seu ponto de máximo equilíbrio balanceado (no contexto da música “erudita”), passando em seguida por uma espécie de saturação e adensamento, que o levam à desagregação afirmada programaticamente nas primeiras décadas do século XX. Nesse arco histórico, que inclui a afirmação e a negação do sistema, a linguagem musical contracanta, à maneira polifônica, com aquilo que se costuma entender, em seu sentido mais amplo, por modernidade. (Wisnik, 1999:113)

Dito aqui de maneira apenas introdutória, a música tonal se funda sobre um movimento cadencial: definida uma área tonal (dada por uma nota tônica que se impõe sobre as demais notas da escala, polarizando-as), levanta-se a negação da dominante, abrindo a contradição que o discurso tratará de resolver em seu desenvolvimento. Mas a grande novidade que a tonalidade traz ao movimento de tensão e repouso (que, em alguma medida, está presente em toda música) é a trama cerrada que ela lhe empresta, envolvendo nele todos os sons da escala numa rede de acordes, isto é, de encadeamentos harmônicos. Tensão e repouso não se encontram somente na frase melódica (horizontal) mas na estrutura harmônica (vertical). Além disso, a tônica é negada dialeticamente por uma dominante que poderá, por modulação, constituir-se por sua vez de uma nova tônica. Os lugares são intercambiáveis e o discurso tonal vive dessa economia de trocas em que cada nota pode ocupar diferentes posições e mudar de função ao longo da seqüência.

[…]

Olhando panoramicamente, o tonal é o mundo onde se prepara, se constitui, se magnifica, se problematiza e se dissolve a grande diacronia: o tempo concebido em seu caráter antes de mais nada evolutivo. É o mundo da dialética, da história, do romance. Olhado internamente, o discurso tonal é também o discurso progressivo, “narrativo”, subordinante, baseado na expansão do movimento cadencial, no desdobramento seqüencial, no princípio do desenvolvimento. (Wisnik, 1999:114)

A grande história da tonalidade é, assim, a história da modernidade em suas duas acentuações: a constituição de uma linguagem capaz de representar o mundo através da profundidade e do movimento, da perspectiva e da trama dialética, assim como a consciência crítica que questiona os fundamentos dessa mesma linguagem e que põe em xeque a representação que ela constrói e seus expedientes. Esse movimento pode ser acompanhado ao longo da sua brilhante história, que é sem dúvida um dos pontos mais altos daquilo que chamamos Ocidente. (Wisnik, 1999:115)

Lévi-Strauss sustenta que a música e o mito são simétricos, como se fossem duas imagens espelhadas, correspondentes e complementares. É preciso situar um pouco o quadro teórico em que se dá essa comparação, para que ela se torne inteligível. Mas é necessário situar [161-162] também o momento histórico preciso em que essa simetria vigora, e posso adiantar que esse momento é, para Lévi-Strauss, o do nascimento do tonalismo e da invenção da fuga. Com a música tonal, o discurso musical incorpora a estrutura da narrativa mítica. (Wisnik, 1999:161-162)

“Na verdade, foi só quando o pensamento mitológico, não digo se dissipou ou desapareceu, mas passou para o segundo plano no pensamento ocidental da Renascença e do século XVII, que começaram a aparecer as primeiras novelas, em vez de histórias ainda elaboradas segundo o modelo da mitologia. E foi precisamente por essa época que testemunhamos o aparecimento dos grandes estilos musicais, característicos do século XVII e, principalmente, dos séculos XVIII e XIX.” [LÉVI-STRAUSS, “Mito e música”, em Mito e significado, p. 68.] (Wisnik, 1999:162)

“Foi preciso que o mito morresse enquanto tal, para que sua forma se liberasse dele como a alma deixando o corpo e fosse pedir à música o meio de uma re-encarnação.” [LÉVI-STRAUSS, “Mito e música”, em Mito e significado, p. 69.] Esse meio só foi possível graças ao caráter discursivo e progressivo de que se investia a música tonal, graças, agora, de sustentar, com recurso ao puro som, estruturas de cunho “narrativo”. (Wisnik, 1999:162)

A mutação que está implicada no surgimento do tonalismo, no entanto, leva a música a perder as suas antigas funções rituais, remetidas agora ao âmbito da contemplação estética, no contexto exclusivo da representação (o teatro de concerto será a câmara de som e silêncio adequada a esse novo estado de ritualidade em suspensão). É nesse momento que a linguagem musical, sem ter propriamente uma função ritual (suspensa no teatro da representação) e sem ser narrada por um mito, se investe internamente de estruturas míticas, “encarna” o mito na estrutura sonora, e o seu mito é o da crise e da reparação da ordem questionada e recomposta. (Wisnik, 1999:163)

“[…] a música, por um lado, e a mitologia, por outro, têm origem na linguagem, mas […] ambas as formas se desenvolveram separadamente e em diferentes direções: a música destaca os aspectos do som já presentes na linguagem, enquanto a mitologia sublima o aspecto do sentido, o aspecto do significado, que também está profundamente presente na linguagem”. [LÉVI-STRAUSS, L’homme nu, p. 578-80.] (Wisnik, 1999:164)

Na sua especularidade complementar, o mito é uma narrativa em que a imbricação do sucessivo e do simultâneo é uma narrativa em que a imbricação cristalina e partitural, e a música (tonal) é uma estrutura sonora em que a trama discursiva dos elementos ganha um direcionamento mítico.

Com efeito, se acompanhamos as análises estruturais de mitos feitas por Lévi-Strauss, entendemos melhor o porquê da equivalência simétrica com a música: os mitos não são para ele conteúdos narrativos, simplesmente, mas cristalizações semânticas feitas de paralelismos contrapontísticos, de ressonâncias harmônicas que se oferecem a uma leitura a um tempo linear e simultânea. Os elementos de uma narrativa mítica não são lidos simplesmente como um fio “melódico”, sucessivo e linear, mas agrupados em acordes e inscritos em planos contrapontísticos, donde se extraem correspondências e paralelismos. Como na música, o que importa não está apenas na horizontalidade da sucessão, mas na verticalidade do simultâneo.[MBC5] (Wisnik, 1999:164)

Chegamos assim ao exemplo da fuga. Há mitos em que contracantam duas espécies ou grupos de personagens (que podem ser qualificados, simplificadoramente, como “bons” e “maus”).

A história inventariada pelo mito é a de um grupo que tenta escapar ou fugir de outro grupo de personagens. Trata-se então de uma perseguição de um grupo pelo outro, chegando às vezes o grupo A a alcançar o grupo B, distanciando-se depois novamente o grupo B – tudo como na fuga. Tem-se o que se chama em francês ‘le sujet e la réponse’. A antítese ou antifonia continua pela história afora, até ambos os grupo esta- [165-166] rem quase misturados e confundidos – um equivalente à stretta da fuga; finalmente, a solução ou clímax deste conflito surge pela conjugação dos dois princípios que se tinham oposto durante todo o mito. Pode ser um conflito entre os poderes de cima e os poderes de baixo, o céu e a terra, ou o sol e os poderes subterrâneos, e assim sucessivamente. A solução mítica de conjugação é muito semelhante em estrutura aos acordes que resolvem e põem fim à peça musical, porque também eles oferecem uma conjugação de extremos que se juntam por um e última vez. [LÉVI-STRAUSS, “Mito e música”, pp. 72-73] [MBC6]

A afinidade entre o mito e a música permite entender a idéia lévi-straussiana de que, em determinado momento, estruturas que se realizavam na esfera do mito tomam de assalto, por assim dizer, a esfera da música, e essas estruturas, como a fuga, resultavam justamente daquele longo processo de simultaneanização do sucessivo que foi empreendido durante séculos na linguagem musical. (Wisnik, 1999:165-166)

Assim, no período tonal, “tudo se passa como se a música e a literatura dividissem entre si a herança do mito”, ficando uma com os personagens e a ação, e a outra com o tecido relacional através do qual se encadeiam os motivos. [LÉVI-STRAUSS, L’homme nu, p. 573.] (Wisnik, 1999:166)

Sob o domínio da tonalidade, música e literatura são artes que se procuram, como se quisessem suprir a falta de um signo total sobre o qual se deslocam num movimento sem fim. A consciência moderna vive no entanto desse dualismo entre o significante e o significado, que ela reproduz em toda a parte, ao mesmo tempo em que busca superá-lo. O mito torna-se ele mesmo um mito: o da significação total. Entre a reposição da divisão que as afasta, e a superação desta, a música e a literatura se concebem como partes complementares ou cindidas de [166-167] uma linguagem una, perseguida ou evocada pela poesia, pela prosa poética, pela ópera, pela canção. (Wisnik, 1999:166-167)

Pode-se aquilatar a afinidade radical entre a teoria de Lévi-strauss e a estrutura da fuga quando ele diz que a música e a mitologia são, “se assim se pode dizer, duas irmãs geradas pela linguagem que seguiram caminhos diferentes, escolhendo cada uma a sua direção – como na mitologia, em que um personagem vai para o norte, enquanto o outro se dirige para o sul, e nunca mais se encontram”. [N.R.: LÉVI-STRAUSS, “Mito e música”, p. 76] O antropólogo, que queria ser músico, vislumbrou nessa imagem, segundo confessa, a possibilidade de compor a polifonia das vozes, não com sons, mas com significados, não como músico, mas como orquestrador de mitos. (Wisnik, 1999:168)

Ao final dessa alquimia estrutural a música vem a ser, assim entendida, uma combinação singular de som e sentido, na qual o termo quase dispensado seria a própria língua. (Wisnik, 1999:269)

A estrutura mítica da sonata, por sua vez, contrasta com a da fuga. A sonata é uma forma que advém do abandono da polifonia e das defasagens. Nela, a sucessão não está a serviço da simultaneidade (polifônica), mas a simultaneidade (harmônica) é que está a serviço da sucessão, realizada no esquema habitual em que um primeiro tema dá um desenvolvimento integrado que conduz è reexposição do segundo tema, com coda (final). A sincronia aqui se expressa necessariamente na diacronia, no destino dos motivos, nas suas transformações evolutivas, na grande fase. (Wisnik, 1999:169)

Pode-se dizer que esse mito é o da luta amorosa (o que está indicado no costume de apontar os dois temas em jogo ora como antagonistas, ora como complementares, da ordem do masculino e do feminino). Luta que trabalha com a instalação de uma tensão a partir de um campo harmônico dado, desenvolvida através do desdobramento dos motivos e das modulações, e reparada através do “reconhecimento” dos motivos iniciais que retornam ao seu lugar de partida. Pode-se também pensar essa luta, ou esse amor, em suas afirmações e negações, como um processo interno ao espírito, sua biografia sinfonizada, paralela ao romance mas também à filosofia. Isso é possível porque a música trabalha, como dizia Hegel, na objetivação sonora em que a subjetividade se reconhece e se supera, com a concordância, a oposição e a mediação dos sons (vejam-se aí os passos da dialética), “o que torna possíveis a progressão destes e a passagem recíproca de uns aos outros”. [HEGEL, Estética, p. 233.] (Wisnik, 1999:169)

O aprofundamento dessa contradição envolve a instabilização do sistema, com a transição permanente e a relativização do centro tonal. Nisso também a tonalidade em desenvolvimento na sonata é ocidental: pensamente evolutivo e negador, progride questionando os seus próprios fundamentos. (Wisnik, 1999:170)

Lévi-Strauss diz que Bach é um músico do código, Beethoven da mensagem, e Wagner do mito. Os músicos do código “explicitam e comentam em suas mensagens as regras de um discurso musical”; os músicos da mensagem “narram” e os do mito “codificam suas mensagens a partir de elementos que são já da ordem da narrativa”. [LÉVI-STRAUSS, Lecru e le cuit, p. 38.] Em Bach temos a expressão sincrônica do sistema, no momento em que se fecha o circuito entre a harmonia e a polifonia. Em Beethoven, a mobilização das energias potenciais do sistema que avança questionando o princípio do progresso, numa negação que guarda intacto o seu fundamento heróico. Em Wagner, que escreveu algumas das mais impressionantemente belas entre as músicas, a grandeza e derrocada de uma arte total concebida como aniquilação onde, como disse dele Adorno, o imperialista decadente tem o mérito de sonhar a sua própria catástrofe. [ADORNO, Essai sur Wagner (Paris, Gallimard, 1975), p. 209.] (Wisnik, 1999:170)

O sistema de doze sons criado por Schoenberg em 1923, depois de um período atonal que derivava do aprofundamento das contradições do tonalismo, se apresenta como a decorrência implacável e ao mesmo tempo a antítese do sistema tonal. Ele rejeita cerradamente o princípio tonal, isto é, o movimento cadencial de tensão e repouso.[MBC7]

Ao pensar o sistema de composição por séries, com o qual Schoenberg buscava uma espécie de descentralização do campo sonoro, igua- [173-174] lando a função estrutural atribuída a todas as notas da escala cromática, desembocaremos num problema crucial da música contemporânea, que é o da repetição. Nesse ponto, impõe-se uma contraposição entre os dois estilos extremos que marcam as duas metades do século: o dodecafonismo e o minimalismo. Essas duas tendências projetam da maneira mais completa, na sua diferença sintomática, a cisão manifesta na música contemporânea entre um lado que recusa a repetição e um outro onde se trabalha sobre a repetição exaustiva. A série dodecafônica foge à recorrência melódica, harmônica, rítmica, através de uma organização simultaneísta de todos os materiais sonoros, de natureza polifônica, e descentrada: o minimalismo é uma música francamente iterativa, baseada na repetição de motivos melódicos e pulsos rítmicos que passam por processos de fase e defasagem. (Wisnik, 1999:173-174)

Enquanto isso o minimalismo, que surge nos Estados Unidos nos anos 60, e de certa forma na sombra ou no declínio do serialismo, se caracteriza pela mais rebarbativa apresentação da repetitividade: arpe- [174-175] jos articulaos em tempos variados. como cadências congeladas, são típicos de Philip Glass[MBC8] ; motivos melódicos aparentemente simplórios e repetidos com acréscimo gradual de novos elementos são a marca de Steve Reich. (Wisnik, 1999:174-175)

A música minimalista, por sua vez, se relacionaria aparentemente com um outro traço do não-tempo inconsciente: a compulsão à repetição, cujo retorno em ostinato “esvazia” o tempo. Uma teria seu correlato objetivo na experiência urbano-industrial da simultaneidade, da fragmentação e da montagem, técnicas de choque fundantes da arte das vanguardas, e outra no caráter serial-repetição da repetição em larga escala, com proliferação generalizada dos simulacros. (Wisnik, 1999:175)

Schoenberg registra que o novo estilo atonal, guiado sobretudo por “fortes impulsos expressivos”, não se habilitava a produzir obras longas (a não ser quando um texto funcionasse como elemento unificador) por causa de uma espécie de debilidade estrutural que resultava da falta de articulações discursivas. “A abstenção em face dos meios tradicionais torna impossível projetar grandes formas, pois elas não podem existir sem uma articulação precisa.” Independentemente dessa inaptidão estrutural para o discurso extenso, que Schoenberg pretendia superar, a fase atonal contém invenções inusitadas de timbres e entoações […]. (Wisnik, 1999:177)

Daí também a curta duração de suas peças: é sabido que a obra completa, do opus 1 ao 31, cabe em quatro LPs, e muitas de suas peças mais importantes duram em torno de um minuto, ou menos que isso. O lugar delas não é mais, como foi em toda a história do desenvolvimento tonal, a expansão temporal, mas a inscrição num não-lugar numa singularidade que corresponderia à implosão luminosa de um buraco negro. (Wisnik, 1999:184)

Como essa empreitada se faz na direção de um aguçamento do princípio da polifonia descentrada que estava na música serial, o resultado é o de texturas marcadas, antes de mais nada, pela mais completa descontinuidade. A fragmentação do espaço sonoro e dissolução do horizonte repetitivo correspondem ao “fracionamento do tempo musical numa seqüência de presentes sucessivos de duração variável”, que pedem do ouvinte uma concentração máxima de atenção sobre o aqui e o agora de cada “momento”, uma atenção radicalmente instantânea a não linear. Em contrapartida a essa descontinuidade básica, a música de Stockhausen é movida, ao mesmo tempo, por um desejo de unidade, pelo demônio da analogia, pela permeabilidade entre espaço e tempo, em uma palavra, pelo desejo de totalidade, que se traduz no seu fôlego mítico e dá ao compositor aquele caráter algo demiúrgico que o singulariza entre os contemporâneos. (Wisnik, 1999:192)

Outro sinal importante do acelerado descentramento do espaço sonoro praticado sob as bases de um racionalismo estrito é a obra de Xenakis. Ela se compõe de nebulosas de som resultantes da transposição computadorizada, em termos probabilísticos (ou “estocásticos”), de estruturas matemáticas. Xenakis pensava na precedência da fórmula numérica, atemporal, sobre a sua atualização real temporalizada (como uma espécie de novo pitagorismo onde a música remete ao fundo oculto de um universo ordenado numericamente). O seu pitagorismo é regido evidentemente não pela tetrakys (o equilíbrio perfeito dado pela oitava e a quinta) mas, ao contrário, pela pulverização estocástica.

A música de vanguarda da metade do século é marcada portanto pelo princípio de descontinuidade radical que permeia também seus materiais ruidísticos: ultracromatismo, microtons, glissandi (deslizamento do tom sem subdivisão cromática), clusters (aglomeração de notas vizinhas formando ruídos), nebulosas de feixes probabilísticos, músicas aleatórias, e indeterminadas. (Wisnik, 1999:193)

É nesse lugar (a “crise das alturas” que afeta a música européia, não só quanto a suas alternativas técnicas e estilísticas, mas na sua tradicional justificação progressiva) que surge o minimalismo americano. A música “repetitiva”, além do caráter quase excêntrico da sua insistência maquínica, que impressiona à primeira escuta, tem que ser ouvida como uma música que abdica da construção melódico-harmônica para focalizar o pulso. (Wisnik, 1999:194)

Pode-se pensar que a crítica de Adorno à “restauração” promovida por Stravinski seja condenação prévia (muito avant la lettre, evidentemente) ao pós-moderno. A sua técnica tem a ver antecipadamente, como já foi dito, com o rock (sua afirmação do pulso e um certo tom Heavy) e com o pastiche (o estilo de segundo grau, que ele pratica dos anos 20 até o início dos anos 50). (Wisnik, 1999:194)

As primeiras manifestações minimalistas datam do começo dos anos 60, e parecem derivar de algumas conseqüências cagianas num clima já de pop art (o que favorece duplamente o abandono da arte como discurso da subjetividade). (Wisnik, 1999:195)

Mas em Philip Glass e Steve Reich é que estão as soluções interessantes. Glass trabalha com materiais de natureza tonal, arpejos submetidos a um “processo de progressão aditiva”, superpostos e combinados em movimentos contrários, paralelos, que se subdividem em recortes rítmicos e produzem texturas estáticas, em vez de progredirem cadencialmente. Esse estranhamento cool do tonal serve por outro lado à criação de climas teatrais extáticos, algumas vezes magníficos. (Glass [197-198] tende ao mito e à ópera, embora não tenha encontrado, me parece, soluções para o canto à altura de algumas de suas peças instrumentais.) (Wisnik, 1999:197-198)

É visível a cisão entre a música de “alto repertório” composta hoje ou recentemente e a música de mercado. Não é só que elas atuem em faixas sociais diferentes, e que falem a massas de público completamente desiguais, mas é que elas vão em direção a experiências de tempo opostas. A música de concerto contemporânea explorou conscientemente dimensões do tempo que contestam a escuta linear, negam a repetição e questionam o pulso rítmico. A massa das músicas de massa marca o pulso rítmico, a repetição e apela à escuta linear. (Wisnik, 1999:209)

Vivemos hoje a sensação da atomização regressiva, o retorno de tudo contra tudo como o verdadeiro apocalipse do mundo repetitivo. Acontece que a música tem uma vocação antiga para ensaiar no seu próprio campo as possibilidades de transformação que estão latentes na história. Por uma ironia a todas as desesperanças deste tempo, essas possibilidades são enormes. (Wisnik, 1999:213)

O rock é a centelha que espalha, no campo das músicas dançantes, a novidade do pulso-ruído. A intensidade e o timbre hiperbolizados estouram a retícula das elementares cadências tonais da base (a harmonia é rasgada pelas sonoridades da voz e da guitarra, golpeada pela bateria e soterrada sob os decibéis do conjunto). De Little Richard a Jimi Hendrix, de Rolling Stones a Prince, o rock percorre todas as refrações da sua “dialética” e entra, com o jazz e a música “contemporânea” de concerto, em loop – num processo circular de autocitação e autonegação, em reverberação simultaneizada com a sua própria história. (Wisnik, 1999:216)

O mercado pós-moderno é baseado em ciclos rápidos de posição e reposição da história dos gêneros, a liquidação dos estoques da loja ocidental, a queima dos estilos. Lyotard disse que a moda é o classicismo de uma época sem permanência, sem verdade. Se as linguagens perderam a tônica, a moda dá o tom. (Wisnik, 1999:216)