Aumont, O Olho Interminável – 2004

Talvez, ao contrário dos ciclos que, de tempos em tempos, esforçam-se na direção de pensar o específico fílmico, tentando afinar com uma terminologia distinta aquilo que é exclusivo do cinema, encontremos nos últimos anos um esforço de pensar não o que o separa, mas o que o une às demais manifestações do seu tempo. Ou, na melhor hipótese, pensar o que o separa como cinema, tendo no entanto bem presente aquilo que o une ao seu quadro particular de tradições culturais e artísticas extra-cinematográficas. (Aumont, 2004:10)

Os efeitos de realidade, às vezes esquecemos de dizer, são também efeitos quantitativos, e é este, eminentemente, o caso na vista de Lumière. O que encanta o espectador é também o fato de lhe mostrarem um número tão grande de figurantes a um só tempo e, sobretudo, de maneira não repetitiva. (…) as pessoas ficam encantadas ao descobrir, na décima vez que vêem o filme, um gesto, uma mímica que até então havia escapado: a cada instante acontece alguma coisa, e quantas se quiser, ou quase. (…) Tal efeito quantitativo tornou-se difícil de ser apreciado: ficamos saturados e insensíveis. (Aumont, 2004:33)

Segundo aspecto dos efeitos de realidade, mais importante ainda, como veremos: sua qualidade. (…) Como se, nas vistas Lumière, o ar, a água, a luz se tornassem palpáveis, infinitamente presentes. (Aumont, 2004: 34)

Nessa pesquisa, três traços são salientados, como questões relacionadas à pintura:

–         o impalpável: a luz não pode ser tocada, ela é a “matéria” visual por excelência, pura.

–         o irrepresentável: (…) Irrepresentável, o fenômeno atmosférico suscita ainda mais, dir-se-ia, a obstinação teórica

–         o fugidio, enfim, o infinitamente lábil, e portanto, em profundidade, a irritante questão do tempo. (Aumont, 2004:35)

É tudo isso que o cinematógrafo vira de cabeça para baixo, que ele ultrapassa definitivamente com seus efeitos de realidade, inocentes, e inocentemente perfeitos. A atmosfera continua aí impalpável, e, se se quiser, irrepresentável; mas não deixa de estar presente no cintilar das folhas (agitadas pelo vento, pelo ar, concluem infalivelmente os críticos: é mesmo o vento que eles querem ver).

Mas sobretudo, é claro, o fugidio é enfim fixado, e sem labor. É de acordo com o trabalho pictórico que se mede o melhor do milagre do cinematógrafo: ele substitui, com efeito, as centenas de folhas duramente pintadas, uma por uma, em Theodoro Rousseau, pelo aparecimento imediato de todas as folhas. E, além do mais, elas se mexem… (Aumont, 2004:36)

Todo mundo ruminou, em algum momento, o velho lugar-comum sobre a foto, atingindo uma exatidão mimética tão perfeita que destrona a pintura e, ao mesmo tempo, libera para ela a via rumo à abstração. Não é uma parte nesse processo que reivindico para o cinematógrafo: ele chega um pouco tarde, a revolução fotográfica está feita – ao menos desde 1860 – com o instantâneo. É antes, a reivindicação para o cinema, se não, realmente, para Lumière, de um lugar no interior da problemática dos pintores. Lumière enfim contemporâneo, ligeiramente atrasado talvez, da pintura: o cinema será sempre o esse “pequeno último”, mas o que a história das folhas que se mexem assegura é que ele faz mesmo parte da banda. (Aumont, 2004:37)

A borda é, em geral, voltaremos a dizer, o que limita a imagem, o que a contém, no duplo sentido da palavra; e o toque de gênio aqui é ter, ao contrário, deixado a imagem transbordar: a locomotiva, os figurantes transgridem esse limite (o transgridem, quer dizer, não o abolem). É em boa parte graças a essa atividade nas bordas da imagem que o espaço parece se transformar incessantemente (como havia observado Sadoul, mas se prendendo de modo por demais exclusivo às modificações internas ao campo): como se, de certo modo, as bordas se tornassem operadores ativos dessa transformação progressiva.

Enfim, o enquadramento institui uma relação entre a posição da câmera e a do objeto; ele estabelece uma superfície de contato imaginário entre essas duas zonas, a do filmado, a do que filmar. (Aumont, 2004:39)

O quadro é, antes de tudo, limite de um campo, no sentido pleno que o cinema nascente não tardaria em conferir à palavra. O quadro centraliza a representação, focaliza-a sobre um bloco de espaço-tempo onde se concentra o imaginário, ele é a reserva desse imaginário. Acessoriamente (acessoriamente de meu ponto de vista; para os narratólogos de toda espécie, é o aspecto principal), ele é o reino da ficção e, aqui, da ficcionalização do real.

Corolariamente, o quadro é o que institui um fora-de-campo, outra reserva ficcional onde o filme vai buscar, se for o caso, determinados efeitos necessários a um novo impulso. Se o campo é a dimensão e a medida espaciais do enquadramento, o fora-de-campo é sua medida temporal, e não apenas de maneira figurada: é no tempo que se manifestam os efeitos do fora-de-campo. O fora-de-campo como lugar do potencial, do virtual, mas também do desaparecimento e do esvaecimento: lugar do futuro e do passado, bem antes de ser o presente. (Aumont, 2004:40)

Eu tentei apenas apreender em que Lumière podia ser “o último grande pintor impressionista da época”, e minha resposta a essa questão consiste agora em duas idéias. Em primeiro lugar, Lumière encontra e, voleens nolens, trabalha dois problemas que pertencem de pleno direito à reflexão pictórica, e à pintura simplesmente. Esses dois problemas – o dos efeitos de realidade, o do quadro – estão ligados, e particularmente no momento em que Lumière se apropria deles, à questão mais geral da liberação do olhar no século XIX. (Aumont, 2004:44)

Se a natureza está presente, e de modo abundante, na pintura do Renascimento e da idade clássica, ela é sempre uma natureza organizada, arrumada, aprontada e tem sempre em vista um sentido a exprimir. Dizendo de um modo brutal, há sempre, sob a representação da natureza, um texto, mais ou menos próximo, mais ou menos explícito, mas que explica sempre o quadro e lhe dá seu verdadeiro valor. (Aumont, 2004:50)

No início do século XIX, o centro de gravidade se deslocou, do objeto ou da cena pintados ao olhar sobre eles, depois ao portador desse olhar, o espectador, às vezes redobrado materialmente no quadro. Correlativamente, a mediação textual desapareceu: o quadro pretende ser revelação, deslumbramento, comunhão – ao menos cumplicidade. Convocado, interpelado sob todas as suas formas e por todos os meios – inclusive, voltaremos a isso, os do enquadramento e da mise em scène – o espectador é enfim reconhecido como sujeito que olha. (Aumont, 2004:60)

A fascinação do plano longo sempre repousou mais ou menos sobre a esperança de que, nessa coincidência prolongada do tempo do filme com o tempo real (e o tempo do espectador), algo de um contato com real acabe advindo. Por isso o plano longo é, a princípio, destinado a valorizar o não-é-grande-coisa e o quase-nada. (Aumont, 2004:66)

(…) filmar em plano longo não significa se entregar ao acaso, e sim, ao contrário, fazer passar todo o cálculo para a mise em scène e para a filmagem. (Aumont, 2004:66)

(…) apesar das diferenças materiais, sobretudo o abismo estético que os separa, há entre o plano longo e o panorama essa convivência: eles dão ao olhar a ilusão de sua liberdade, quando na verdade eles o prendem de modo mais radical em um mundo finito, um universo fechado de possíveis. (Aumont, 2004:67)

Se para ele [Bazin], o plano longo revela alguma coisa da realidade, é porque houve antes do filme, no momento em que ele se fazia, uma coincidência efetiva entre o tempo da câmera e o da realidade. (Aumont, 2004:67)

O cinema, uma máquina simbólica de produzir ponto de vista. (…) o filme não podia permitir ao espectador ocupar outro ponto de vista além desse vantage point que ele lhe tinha preparado. (Aumont, 2004:77)

O olhar, no presente momento, se imobilizou, ou desmobilizou. Adote a televisão os pontos de vista que quiser, só suscitará a ausência de olhar. O olho,  aliás, só é um instrumento atual por sua capacidade de ler imagens esquemáticas, sintetizadas, hipersignificantes, e de lê-las rápido, sob risco de “morte” – como nos jogos de vídeo e outras simulações. TGP e TGE já não interessam. O trem também se tornou TGV. [TGE (très grand éloignement), isto é, plano muito afastado; TGP (très grand proximité), isto é, plano muito próximo.] (Aumont, 2004:77)

Gombrich (…): há, a cada instante do acontecimento, elementos significativos em determinada parte do espaço onde se desenrola esse acontecimento, mas as diferentes partes não são atingidas simultaneamente, não são significativas ao mesmo tempo. (Aumont, 2004:81)

Não se pode juntar a instantaneidade e a pregnância, a autenticidade do acontecimento e sua carga significante senão à custa de uma trapaça. Dito de outro modo, simplesmente, o sentido não ocorre no real. (Aumont, 2004:82)

O tempo ocular é, evidentemente, o da exploração pelo olho da superfície da imagem. Todo mundo sabe que uma imagem se olha por meio de um percurso, de uma série de movimentos, rápidos e de fraca amplitude, do globo ocular, de uma série de movimentos destinados a levar, sucessivamente, diante da fóvea (a minúscula zona retiniana de grande clareza ótica) as diferentes partes da imagem. O inglês tem, para esse recurso, uma palavra evocativa, scanning, a mesma que foi retomada, por metáfora, para designar o rastreamento eletrônico da superfície da tela de vídeo. O olho, portanto, rastreia a imagem, mas de modo irregular, fazendo um trajeto quebrado e sem simetrias. Inúmeras experiências, todas concordantes, descrevem esse scanning como um emaranhado de linhas, dentes de serrote entremeados. (Aumont, 2004:85)

O fotógrafo é esse ser, indubitavelmente novo no século XIX, que opera o encontro, a fixação do instante, com seus acasos. Se há revelação para ele, isso só acontece posteriormente, quando ele já se tornou novamente espectador. (Aumont, 2004:90)

O cinema por construção é tudo exceto uma arte do instantâneo: por mais breve e imóvel que seja um plano, ele jamais será a condensação de um momento único, mas sempre a impressão de uma certa duração. (Aumont, 2004:100)

Esquecer a montagem em seu conceito teórico tradicional significará, portanto, em primeiro lugar: permanecer no visível, nos saltos, nas embreagens, em geral, nos momentos de mudança brusca, de maneira totalmente independente da noção de plano, aqui sem pertinência. Como se passa de uma coisa a outra em um filme? Em primeiro lugar, à custa do que se deve chamar de um pequeno trauma visual. (Aumont, 2004:103)

(…) a montagem, a mudança de plano, a mudança brusca, em geral, no cinema, foi uma das maiores violências jamais feitas à percepção “natural”. Nada em nosso ambiente modifica todas as suas características de modo tão total e brutal quanto a imagem fílmica, e nada nos espetáculos preexistentes ao cinema havia preparado para tal brutalidade. (…) Ao mesmo tempo, está claro que não são tanto os olhos que são feridos, e sim o espírito que se sente agredido: os olhos são de uma infinita agilidade, só precisam de uma minúscula fração de segundo para se adaptar a quase qualquer coisa. (Aumont, 2004:103)

O intervalo é a distância visual mantida entre dois planos. (Aumont, 2004:104)

E a montagem é, sem dúvida, uma construção do ponto de vista do olho humano, ela deixa de ser uma do ponto de vista de outro olho, é a pura visão de um olho não humano, de um olho que estaria nas coisas. (Deleuze apud Aumont, 2004:105)

Os historiadores do cinema nos explicam muito bem que, tudo bem considerado, o falso-raccord griffithiano não é senão a primeira pedra do pesado edifício do continuity editing. Tal idéia é, sem dúvida, verdadeira, e está verificada. Ela põe, em todo caso, água em um moinho, salientando, indiretamente, que essa montagem “em continuidade” aperfeiçoada pelo cinema clássico hollywoodiano, dá testemunho menos de medo do buraco, como pensava Bazin, do que do medo do pleno-demais; ou ainda que é mais fácil, mental e visualmente, preencher um buraco do que suprimir um pleno demais. (Aumont, 2004:107)

[As três funções do quadro]

[1 – Quadro-Objeto] (…) o quadro-objeto tem sempre esse valor: ele rodeia a obra, fabrica um entorno para ela. Ao mesmo tempo, sob a forma, a um só tempo banal e emblemática, da moldura dourada ou esculpida, ele está ligado à mobilização da imagem: a seu devir-móvel, a seu devir-objeto, precisamente e até mesmo objeto comercializável. (Aumont, 2004:112)

[2 – Quadro-Limite] Uma vez desfeito o enquadramento da pintura, aparece a borda da tela, o limite material da imagem: o quadro-limite. Limite físico, esse quadro é também e sobretudo limite visual da imagem; ele regula suas dimensões e proporções; rege também o que chamamos de composição. (Aumont, 2004:113)

(…) o quadro é um operador de reflexividade, que permite à tela se enunciar como tela e como discurso. (…) uma tela pintada, até mesmo um quadro-limite, não fala. Dizer que ela profere o ser-tela, o ser-discurso da tela, quer, portanto, assinalar o seguinte: o sentido, todos os sentidos possíveis de um quadro estão, a um só tempo, contidos na própria tela, e devem ser lidos a partir de seu lado de fora, o lado de fora mais radical possível, aquele onde nada mais da imagem existe. (…) Simetricamente, esse sentido não está aí por acaso: ele foi posto aí por um produtor, que, ele também, não está, nunca está na imagem, ainda que delegue a ela, às vezes, sua efígie ou seu fantasma. Dito de outro modo: [3 – Fora-de-Quadro] a tela pintada, como enunciado e como significação, se produz e se lê a partir de um espaço que não é o da ficção, mas um espaço discursivo, um fora-de-quadro. Tal operação, a instituição de um fora-de-quadro, é incontornável pela imagem figurativa, (…) mesmo se suas modalidades, é pouco dizê-lo, variam enormemente. É ela que, em última instância, se identifica com a função do quadro-limite. (…) Uma imagem, talvez não seja supérfluo dizê-lo após Lacan, é, a um só tempo, gato por lebre, a ótica e o imaginário. Ela é feita para que nós nos percamos nela – sabendo, ou mais raramente, sem o saber -, e a produção de imagens em nossa cultura “oculocentristra” não é senão o casamento do objetivo com o subjetivo, a indistinção de ambos. Fazer uma imagem é, portanto, sempre apresentar o equivalente de um certo campo – campo visual e campo fantasmático, e os dois a um só tempo, indivisivelmente. (O equivalente apenas: o campo visual tem muitos caracteres diferentes da imagem, a começar por sua variabilidade, da qual até mesmo a imagem do filme só mostra uma aproximação, como vimos. Sem falar no campo da fantasia.) O quadro, portanto: os limites desse campo, suas bordas, antes porém, pois elas não pertencem ao campo, as bordas daquilo que, do campo, nos é dado ver. Dito de outra maneira, do campo, tampouco, o quadro faz parte: ele é, sempre, um operador, operador de uma certa vista (a pintura, com efeito, dá a ver, e, inseparavelmente, enclausura o olhar, faz não ver) [4 – Quadro-Janela] Abertura sobre a vista e o imaginário, esse quadro merece receber um nome que crie ficção: eu o chamarei, evidentemente, de quadro-janela. (Aumont, 2004:113-114)

Dos acessórios da representação cinematográfica, nenhum, na verdade, encarna de maneira convincente o conjunto das funções que se pode atribuir ao enquadramento da tela pintada. Não é, no entanto, que tais funções deixem de existir, e de modo intenso, no cinema; o espetáculo cinematográfico, vimos, é estranho, seu dispositivo, comovente e significativo. Por isso é no interior desse dispositivo, ou seja, já, de uma construção abstrata, que se deve procurar o equivalente do quadro-objeto.

Eu estaria sobretudo tentado a ressaltar aqui o papel do escuro na sessão cinematográfica. Em primeiro lugar, é o escuro em torno da imagem que, literalmente, a torna visível. (Aumont, 2004:118)

Foi a propósito do cinema que a troca do campo e fora-de-campo, a irredutível oposição entre fora-de-campo e fora-de-quadro, e até mesmo, mais recente, a difícil relação entre fora-de-quadro e “no-quadro”, foram evidenciadas, definidas, estudadas, em inúmeros exemplos que ilustram as diversas figuras da quadrilha. Foi a partir do filme que se aprendeu, por exemplo, que o fora-de-campo pode ser a simples continuação do campo, responder a ele e confirmá-lo, mas que ele pode também transformá-lo, e até mesmo enfraquecê-lo. Dessa duplicidade do fora-de-campo como “figura da ausência” (Marc Vernet), cuja leitura supõe a reconstituição quase policial de uma intriga, foi sobretudo o cinema que tirou proveito. (Aumont, 2004:119-120)

(…) o quadro-limite rege apenas o interior, a superfície que ele delimita; para além do quadro-limite, não há nada que possa se relacionar com esse interior, nem em termos ficcionais – essa é a função da “janela” -, nem em termos visuais em geral, plásticos, por exemplo. As telas abstratas de Mondrian, com a tensão visual que provocam nos limites do quadro, justamente, e, além disso, a nudez deliberada de seu enquadramento, puxam o olho, foi muitas vezes observado, para fora do quadro-limite; mas esse fora não tem nenhuma estrutura espacial que seja pensável a partir da organização plástica da tela. (Aumont, 2004:120-121)

Resumindo: o que procuro fazer aparecer é, antes de tudo, que não há dois tipos de quadro, o pictórico e o fílmico, que seriam de naturezas diferentes, um, quadro (moldura) verdadeiro, o outro, simples máscara. Há funções do quadro, mais ou menos universais – não pretendo ter esgotado a lista -, diversamente atualizadas a partir de pressupostos estilísticos, eles próprios historicamente variáveis. (Aumont, 2004:123)

O cinema clássico hollywoodiano retoma, portanto, adaptando-o, um princípio bastante antigo: o da centralização, cujas variantes em pintura e no cinema seriam numerosas. A pintura usou muito a tática que consiste em fazer do centro do quadro um centro de simetria, ou seja, esvaziá-lo para equilibrar as figuras em torno dele. (Aumont, 2004:125)

De fato, a centralização do cinema clássico, na medida em que é apenas a tradução visível da centralização narrativa, é lábil e móvel. Ela coincide notadamente com a prática do reenquadramento e do movimento de acompanhamento, que visam manter a centralização na duração. (Aumont, 2004:126)

Quanto aos modernos, teríamos a indecisão da escolha. Encontraremos aí, sobretudo, interessantes variantes sobre o mesmo princípio diretor: o da centralização, tal como essa designação enfática do centro por um ou vários acessórios, que poderíamos chamar de “sobreenquadramento”. (Aumont, 2004:126)

O desenquadramento, em suma, seria “o contrário” da centralização: ele definiria o estilo não-clássico por excelência, e, por que não, um cinema menos apanhado na ilusão diegética. (Aumont, 2004:130)

(…) no cinema do desenquadramento, o centro da imagem, antes esvaziado, ou seja, devemos enfim precisá-lo, esvaziado de qualquer personagem, esvaziado da figura humana, e somente dela, se encontra em seguida, ao menos potencialmente, preenchido novamente pelo jogo de outro desenquadramento, que suprime o primeiro desenquadramento. (Aumont, 2004:130)

Vamos nos entender: não procuro, de modo algum, sugerir que o desenquadramento não existe ou não é interessante. Ao contrário. Simplesmente, tal como defini retomando Bonitzer, ele continua a fazer referência, em parte, à centralização, continua a ser seu “avesso cúmplice”, como se dizia outrora. (…) O cinema que só excluísse as personagens do centro, para melhor trazê-las de volta a ela, não faria, justamente, outra coisa que descentralizar, que excentralizar; ele permaneceria exatamente na lógica da centralização, como se pode dizer que as extraordinárias excentralizações de Tintoretto não atacam em nada a centralização da representação, melhor, elas a reforçam. (Aumont, 2004:130-131)

(…) o segundo traço da definição que, por si só, me parece carregar o essencial, e talvez fosse preciso citar apenas ele. O que faz do desenquadramento algo diferente de uma descentralização, o que permite fundar sobre ele uma estética é que ele transforma o equilíbrio clássico entre as funções do quadro: é menos a hipotética e sempre frágil presença das personagens na borda do quadro do que o caráter ativo, resoluto, marcado dessa borda que conta, ou seja, a ênfase dada ao quadro como limite e, sobretudo, como operador teórico. (Aumont, 2004:131)

Afastando o quadro fílmico de seu valor de janela, o desenquadramento realiza o paradoxo de separar o filme de seu fora-de-campo. Essa anulação do fora-de-campo é difícil obter em pintura, como bem mostram as personagens, cortadas pelo quadro, das telas de Degas, e por isso o desenquadramento é um efeito essencialmente fílmico. (Aumont, 2004:133)

(…) o cinema elimina sempre a excentralização, e, em pintura, ele nunca é absoluto; resta alguma coisa, no mais das vezes alguma coisa importante, no centro da tela. Nessa representação centrada, em que os efeitos estilísticos provêm do trabalho do fora-de-campo e das variantes composicionais, pintura e cinema estão em pé de igualdade. (Aumont, 2004:133)

(…) desenquadramento é, provavelmente, o ponto sensível onde uma diferença – não digo, evidentemente, uma oposição – apareceria entre as duas artes, pois indicaria que a imagem fílmica pode desempenhar mais o efeito de borda, de corte. (Aumont, 2004:133-134)

Estritamente falando, todo fora-de-campo é sempre imaginário, como também o campo.

Estou esquematizando, sem dúvida, pois os efeitos de crença nunca são, afinal, tão brutais, nem tão marcados, e o espectador, até mesmo do filme mais cativante, sabe que está no cinema; mas o filme, falo do filme ficção, brinca sempre com a borda do quadro como com o fogo. (Aumont, 2004:135)

Foi para o cinema que foi forjada a palavra enquadramento, é no cinema que ela ganha seu verdadeiro sentido, o sentido de uma atividade do quadro que funda, também, o desenquadramento. Cineastas, os que dão uma importância decisiva à filmagem, sempre souberam: o quadro se define tanto pelo que ele contém quanto pelo que exclui. (Aumont, 2004:136)

A narrativa é esse ponto crucial em que a pintura e o cinema parecem irremediavelmente separados, menos pelo movimento – que a pintura, vimos, pode sempre imitar – do que pelo tempo. O que é, com efeito, uma narrativa? Essencialmente o emprego das duas noções de acontecimento e de causalidade. (Aumont, 2004:139)

(…) o espaço não é um percepto, como são o movimento ou a luz, ele não é visto diretamente, e sim construído, a partir de percepções visuais, como também cinésicas e táteis.

Ver espaço seria, portanto, necessariamente interpretar, à custa de uma construção já complexa, um certo número de informações visuais. (Aumont, 2004:142)

(…) no real como no quadro, a persepctiva linear, com o eventual auxílio da perspectiva “atmosférica”, permite perceber a profundidade. (…) a perspectiva artificialis, de Brunelleschi e de Alberti, não era a descoberta de uma lei natural, e sim uma invenção puramente artificial. (Aumont, 2004:142-143)

A percepção do espaço, representado repousa, acabamos de ver, sobre a aceitação de algumas convenções: aquelas ligadas à perspectiva, inclusive seu corolário “atmosférico”, mas também o uso eventual de linha para representar os contornos dos objetos. Ou então a pressuposição de que a luz, salvo fonte visível na imagem, vem sempre do alto. Ou a codificação, mais localizada historicamente, dos contrastes de cores. Ora, todas essa convenções são eminentemente aceitáveis porque todas elas derivam de uma sistematização do real visível que já se opera na percepção “natural”. (Aumont, 2004:145-146)

(…) o efeito de real global depende bem mais das convenções e das expectativas relativas ao realismo, do que da perfeição intrínseca dos efeitos de realidade parciais. (Aumont, 2004:146)

No teatro, com efeito, e apesar de sua mutação há um século, há sempre instituição de um lugar e de um tempo teatrais, separados simbolicamente do espaço-tempo do espectador: há sempre uma ribalta, mesmo que apenas “na cabeça”. Mas e em pintura? E no cinema? (Aumont, 2004:159)

[Mourlet] (…) a mise en scène é um ordenamento do real, já que o cinema “não é obrigado, como as outras artes, a deformar o real para expressá-lo”. Portanto, a mise en scène¸ concebida como alma do cinema, expressa o real, mas imediatamente. Correlativamente, toda a arte do cineasta se reduz a deixar se desenrolar justamente um gesto em um espaço, pois esse acordo é também a lei do mundo real. (Aumont, 2004:162)

A mise en scène de cinema é o que não se pode ver. Tratamento dos corpos no espaço, sem gesticulação. Questão de centro, de relações: encarnada em uma deiscência, como quer a “mizancadre” eisensteiniana (…)(Aumont, 2004:163)

O que é a luz no filme? (…) enumerarei mais precisamente o que me parece ter sido os empregos, ou, se se quiser, as funções da luz na representação. Encontro três, grosso modo, na ordem de seu aparecimento histórico:

1-     Uma função simbólica: ela liga a presença da luz na imagem a um sentido. Princípio banal, mas que, no caso da luz, toca sempre o sobrenatural, o sobre-humano, a graça e a transcendência. (…)

2-     Uma função dramática, ligada à organização do espaço, mais precisamente à estruturação desse espaço como cênico. Os meios de ação da luz são aí quase inumeráveis, e não há razão para não inventar novos continuamente. Ela pode, banhando o conjunto da cena, indicar sua profundidade, salientar e mesmo definir o lugar das figuras. (…)

3-     Enfim, uma função atmosférica, que não passa, talvez, de um longínquo bastardo da função simbólica, lá onde esta torna-se fraca demais, já não responde a uma codificação forte, facilmente compreensível. (…) O efeito atmosférico é o mais banal, talvez, para nós, dos efeitos de luz: o cartão-postal, estampas, a televisão hoje, todos os meios mais maciços de reprodução e de representação se apoderam dele, à porfia. Assim que o retoma nessa banalidade, o cinema, dir-se-ia, o empobrece mais, faz dele um efeito barato. No entanto, foi também através desse efeito que passou, indiscutivelmente, um dos empréstimos mais conscientes tomados pelo cinema. (Aumont, 2004:172-175)

(…) seria certamente proveitoso, e que eu saiba isso não foi feito, considerar o paralelismo entre a história da luz em pintura e a história das concepções da própria luz. (Aumont, 2004:177)

(…) o essencial é que a luz, sem ser totalmente desprovida de sua ressonância simbólica, eventualmente mística, tornou-se um fenômeno natural, observável, reprodutível e moldulável para todos os fins úteis. (Aumont, 2004:177)

O importante é a tendência maciça a não mais considerar a luz em si mesma como um fluido misterioso, mas em sua relação com os objetos. (Aumont, 2004:177)

A história do espaço se duplica por uma história da luz, que a reescreve. (Aumont, 2004:177)

A história do cinema, mais breve, foi menos hesitante, disseram: este procurou logo controlar juntas as três funções da luz. Nisso ele foi, a um só tempo, ajudado e prejudicado por sua técnica: superiormente armado para a produção dos efeitos de realidade, do encontro entre luz e objetos, ele o é claramente menos para figurar as fontes luminosas. Durante muito tempo, por exemplo, a película “suporta” mal os contrastes demasiadamente acentuados. Mas essa mesma dificuldade criou uma tentação constante e, em alguns, uma obsessão. (Aumont, 2004:178)

É na relação com a luz que se percebe melhor o paradoxo plástico do cinema: vítima de sua tecnicidade, ele apreende bem demais a luz, sem trabalho, para saber, de saída, trabalhá-la. Fazer da luz um material plástico é, em pintura, uma necessidade: o pintor mais naturalista não pode esgotar seu tratamento da luz em efeitos de realidade; é no filme, uma decisão deliberada e difícil. (Aumont, 2004:179-181)

Partimos do material, e começar falando da luz é, apesar de tudo, revelar uma escolha, a do cinema, já que a luz pictórica é sempre a idéia de uma luz. Só que o que é primordial em pintura não é evidentemente a luz, e sim a cor. (…) a cor tem, ao menos, três espécies de efeitos e de valores pensáveis: um efeito simbólico, um efeito fisiológico, um efeito psicológico. É a soma, a dialética dos três, que fascina Klee, Kandinsky. (Aumont, 2004:181)

A cor é uma música, idéia repisada em Moholy-Nagy, mas também em Kandinsky ou Einsenstein ou Scriabin. (…) ela remete, em última análise, às tentativas desesperadas da grande tradição pitagórica de estabelecer paralelismos perfeitos entre todos os nossos sentidos, “correspondências”, para encontrar uma unidade “sinestésica” para nossas sensações. Não obstante, as “ondas” sonoras têm, como as “ondas” luminosas, semelhança apenas longinquamente matemática – quando muito -, e a única base desse paralelo é, no fundo, a experiência psicofisiológica, a convicção de que música e cor produzem efeitos comparáveis em nossa sensibilidade. Ora, se é possível, a rigor, evocar determinadas passagens da música para a cor – experiência que a droga banalizou -, é antes a passagem inversa, da cor para uma formalização musical, que interessa artistas plásticos e teóricos, que esperam assim fundir a subjetividade da experiência das cores em uma notação que parece mais rigorosa. (Aumont, 2004:182)

O cinema trata a cor com um bloco, toda a imagem é atingida, a um só tempo, por cada camada de cor primária. Assim, ele não pode, ou não facilmente, destacar um pequeno pedaço de cor do conjunto da cena. Já a tela, até mesmo a mais representativa, pode sempre se dar ao luxo suplementar de trabalhar, de definir localmente a cor – de abstraí-la, o quanto for preciso, da cena representada. (Aumont, 2004:187)

(…) a luz só pode afastar o cinema da pintura: ela ainda está por demais em conexão com as origens fotográficas do cinema, evoca sempre, por demais, uma natureza do filme. Além disso, vimos, ela é, com freqüência, mais dramática do que realmente pictórica; ela designa, é ativa, faz sentido. A cor, bem menos natural – o filme deve se aplicar nela -, não faz sentido: no máximo o recebe em consignação. (Aumont, 2004:191)

(…) há, houve várias concepções da expressão arte – ao menos três principais, conforme ela seja atribuída à própria obra, ao artista-ator ao espectador leitor -, mas todas repousam sobre a confiança dada à possibilidade de tradução, de transmissão, de sentido bem determinado, por um processo simples e mais ou menos transparente. E são, evidentemente, tais concepções que por seu simplismo e seu reducionismo foram alvo de inúmeras críticas, no interior de visadas extremamente diversas, há uns vinte anos ao menos.

Sobre esse ponto, como sobre outros, mencionamos alguns por alto, na França, o estruturalismo, e sobretudo o que se chama, às vezes, atualmente, de “pós-estruturalismo”, foi o mais radical. A crítica das noções de signo ou de expressão, enquanto elas comprovariam a crença em um significado último que residiria no signo ou que fundaria a expressão, é essencial aos primeiros trabalhos de Derrida, de Kristeva, que sempre denunciaram os ranços metafísicos idealistas acarretados por essas noções. (Aumont, 2004:201-202)

Paralelamente, porém, e ainda sem esperança de encontro, outra reflexão crítica era engajada, na mesma época, mas em outra parte, sobre pressupostos bem diferentes, notadamente os da filosofia analítica. Já citei Goodman, seria preciso ao menos acrescentar Richard Wollheim, que, em Art and its Objects, retoma, detalhadamente, o problema da expressão, para negar, a um só tempo, que esta possa estar contida no dado, no objeto artístico, e que a obra possa adquirir sua expressividade por causa de um certo estado do espectador ou do produtor. Mais do que sua argumentação na matéria, inteiramente situada em terreno lógico, mas que a sua densidade torna impossível de resumir, me interessa aqui o fato de sua abordagem ser determinada por um projeto positivo: a definição, não menos, da arte e de sua função (da arte em geral). O que é a arte? Essencialmente diz Wollheim, uma experiência, uma espécie particular de experiência, que não se parece com nenhuma outra, que tem suas regras, seus ritmos, seus efeitos subjetivos, suas convenções e seu aprendizado. Em suma, uma espécie de linguagem (ele também não gosta da noção de signo), propõe uma outra: a arte, diz ele, é uma “forma de vida”. Tal expressão, retomada tal e qual a de Wittgenstein, pode também ser criticada: ele pode parecer, notadamente, querer ressuscitar, bem inutilmente, a velha idéia da “organicidade” da obra de arte, e de fato Wollheim não coloca em questão a noção de obra como totalidade e como unidade. Mas sobre o ponto que nos ocupa, acho a metáfora sugestiva. A expressividade artística torna-se aí não mais algo ligado a conteúdos, a significados, mas ao próprio trabalho de forma. (Aumont, 2004:202-203)

(…) a expressão, longe de se concebida como vontade ou como determinismo, se caracteriza por dois traços. Ela ocorre na forma enquanto esta transborda a “simples” representação e trabalha por conta própria; ela não é nem fixa nem dada, mas sempre, historicamente, contextualizada, e, portanto eminentemente variável. (Aumont, 2004:203-204)

Não há expressão que não envelheça ou não murche; não há expressividade que não seja susceptível de se alterar, de degenerar em bizarrice ou em decorativismo. Ao mesmo tempo, e para cada época, relativamente a cada estilo, a expressividade potencial de toda forma será, provavelmente, tanto mais atualizada quanto mais estiver afastada do realismo. (Aumont, 2004:204-205)

Mas seria preciso também aprender a não mais reduzir a expressão unicamente ao “expressionismo”, mesmo que ele fosse um simples exemplo: a expressividade está alojada na forma, não no estilo; (Aumont, 2004:205)

(…) eu resumiria de bom grado assim: a forma, no sentido de “convenção formal”, resultado de uma norma estilística explícita ou não, torna-se expressiva desde que ultrapasse o que é estritamente necessário à representação realista, ela própria convencionalmente definida. Mas nesse movimento de ultrapassagem, a forma nutrida demais (trophê), pode chegar a exibir aquilo de que é feita, o material, o meio: trava de todas as artes representativas, o momento em que, precisamente, se perde o objeto representado, a própria representação, em que a forma se torna tão presente que nada mais concorre com ela. (Aumont, 2004:207)

A pintura é um mundo, um universo, a tela é viva, sua vitalidade se manifesta no jogo dos ritmos, dos tons, na presença, assegurada, se preciso for, até o excesso, do material, e também, às vezes, como justamente na arte informal, na inscrição visível do gesto de pintar, do vestígio pulsional. (Aumont, 2004:208)

Isso significa que o desejo de informe é coisa rara no cinema, onde reina, ao contrário, no mais das vezes, a obsessão da forma controlada. (Aumont, 2004:209)

A palavra “informal” nunca foi, aliás, utilizada no cinema, e se, no rastro de Lyotard, tentou-se aclimatar aí a noção da a-forma, isso sempre foi à custa dessas mesmas dificuldades. A a-forma, o surgimento de alguma coisa que não é ainda “secundarizada”, que crie acontecimento, onde encontrá-la? Nunca no cinema inteiro, nunca sequer na escala de todo um filme, mas apenas em momentos particulares, frações de tempo ou frações de extensão, onde ocorre algo que o “grão-mestre das imagens” não havia previsto. Momentos de surgimento, a plasticidade é sua marca; a cor, a violência de certo preto-e-branco, é seu  veículo privilegiado, e sobretudo a cor em movimento, aquela que parece se soltar dos objetos para se tornar aventura singular. (Aumont, 2004:209)

O que cria acontecimento no cinema, de fato, não é provavelmente localizável fora do sentido, está sempre comprometido com ele. Ou, para continuar nos termos de Lyotard, o figural nunca está aí separado do discursivo, a força registrada no discurso, a plasticidade e o desejo que o trabalham do interior só chegam a nós através do discurso. A figura aparece aqui, portanto, como a própria alma de toda poética do filme, mas a figura nascente, aquela que ainda não está absorvida na retórica, nem tampouco, é mais difícil, tomada em uma vontade de texto, de sistema. (Aumont, 2004:210)

Deformação, aliás, distorção, quer dizer, evidentemente, que a relacionamos com uma objetividade imaginária, com um ideal da reprodução fiel, e também com um absoluto da visão, que não poderia deixar de ser seu modelo, e que  a deformação obliteraria. A deformação (a deformação em geral) não passa de uma distância tolerável em relação a uma forma, e, no mais das vezes, em relação a uma norma, explícita ou não, da forma: para além da deformação não há mais forma alguma. É, portanto, o limite atribuído a esta que define aquela, o limite convencional da forma socialmente aceitável que marca o início dessa transgressão que a deformação sempre é.

É, portanto, a própria forma que está em questão, e o que obriga a considerar a deformação é, no fundo, a relação entre forma representativa (ou forma representada) e forma vista. (Aumont, 2004:213)

(…) a deformação (…) é relativa, sempre passível de absorção quando o estilo “deformado” torna-se admitido, e até mesmo dominante: o limite dessa relatividade, o ponto além do qual a deformação não pode mais virar forma, é a reconhecibilidade e, portanto, sempre, mais ou menos, a referência à forma vista, a suposição de uma certa presença da visão na representação. (Aumont, 2004:213-14)

(…) a “forma” vista, por definição, não é deformável, já que não é de ordem fenomenal, e sim de ordem abstrata, já que é a visão, e que, de fato, mal é uma forma. Gibson, assim, declara cruamente que os invariantes perceptivos que, para ele, constituem o próprio objeto da visão, são formless, sem forma. (Aumont, 2004:214)

(…) se a deformação é mesmo o princípio nodal da expressividade, ela é o que faz explodir a radical diferença, que o debate sobre o expressionismo já nos tinha assinalado, entre a expressão pictórica e a expressão fílmica. (Aumont, 2004:215)

(…) o que faltará sempre ao apelo são os cineastas-“grafistas”, os da linha e da superfície: a imagem de filme, decididamente, não é um grafismo. (Aumont, 2004:216)

O que importa em Passion é que aí são mostrados, não quadros, mas quadros se fazendo, e se desfazendo. Por intermédio de uma pessoa delegada, a personagem de Jerzy, Godard refaz telas célebres, as explora, desmonta e monta, as leva a seu limite e tenta variantes, as combina entre si e as simplifica. Em suma, ele as faz trabalhar, as põe em questão. O conjunto de tais operações poderia, comodamente, ser designado com uma palavra: é uma cinematização, um devir cinema da pintura. “Cinematização” e não cinetização: devir do cinema, e não simplesmente um vago devir movimento. Exatamente no sentido em que Eisenstein propunha chamar “cinematismo” a retroação conceitual e analítica do cinema sobre as artes tradicionais (sobretudo a pintura e a literatura). (Aumont, 2004:218)

Logicamente, o que Passion põe em jogo é, portanto, a mise em scène, e a luz: ou seja, o que, vimos, pode ligar o cinema à pintura, à custa de uma lealdade comum com o teatro. (Aumont, 2004:218)

[Godard] (…) não há solução alguma de continuidade entre certos empregos da inserção ou do falso raccord em Pierrot le fou, e esta fórmula provocante de 1979: “O quadro é quando se começa o plano e quando o cortamos”. Mesmo fazendo uma análise minuciosa, e supondo, sensatamente, que “quadro” substitui “plano”, ao menos em parte, resta uma idéia, indefinida, mas sugestiva, do quadro como quadro temporal, que exclui todo pensamento do quadro como janela, como limite ou como composição, em prol de uma concepção do enquadramento como gesto unitário, atribuído ao mestre, cuja arte ele revelaria. (Aumont, 2004:223)

(…) a pintura, tal como é pensada e praticada em Pierrot le fou¸ tem um tempo, o do toque/enquadramento, e um material, um corpo significante, a cor; ela não tem, propriamente falando, espaço, ela não trabalha para organizar um espaço profundo. Esses dois traços, o enquadramento como gesto criador e, em suma, a cor como sistema, tendem, ao contrário, a evocar, mais do que qualquer fantasia de espaço cavo, a fantasia da superfície viva, da articulação quase orgânica de um espaço “virtual” que teria suas próprias leis. (Aumont, 2004:224)

(…) a invasão desse espaço pela luz, o sentimento de que o espaço não é um receptáculo cavo, mas um meio. Sobre a própria tela aparecem, então, meios dessa invasão, o tremor do pincel, a matéria do pigmento e a da tela, o gesto, enfim, de pintar. Nessas histórias, fantasmáticas, idealistas, tudo o que se quiser, Velázquez marca o momento em que a pintura começa a querer pintar o ar. (Aumont, 2004:225)

(…) um grande conhecedor de Velázquez, Ortega y Gasset: (…) Entre o olho e os corpos é interposto o objeto mais imediato: o espaço cavo, o ar. (Aumont, 2004:225)

“Método do entre”? Talvez. Mas o que, dessa vez, me parece designar, e não de modo tão obscuro, afinal, o texto de Elie Faure na abertura de Pierrot le fou é o problema, pictórico, se for um, da representação do invisível, do impalpável. Figurar o ar, a atmosfera, e falamos um pouco disto, a luz, dar conta desses fluidos misteriosos. (Aumont, 2004:226)

(…) uma verdade essencial sobre o objeto – (…) O que importa é fazer o filme seguir seu próprio sentido, o de uma preocupação reconhecida e consciente do visual em todos os seus estados, coisas e “entre-as-coisas”. (Aumont, 2004:226)

“Mas não é qualquer segmento de terra que é paisagem. A natureza objetiva, a natureza natural não o é. A paisagem é uma fisionomia, um rosto, que de repente em um ponto de uma região nos olha, como acontece com linhas emaranhadas de um trompe-l’oeil. Um rosto da região com uma expressão totalmente certa, embora indefinível, com um sentido distinto embora inapreensível. Um rosto que parece ter uma profunda relação emocional com o homem. Um rosto que quer dizer o homem.” (Béla Balázs  apud Aumont, 2004:227)

Dividido entre seu lado Rossellini e seu lado Welles, Godard proclama que o cinema é “piamente” realista, mas quer, em seus filmes, que o mundo fale, e fale visivelmente. Seu cinema é uma arte da paisagem, não do espaço; aliás, a paisagem não é o espaço, e sim uma qualidade do espaço. (Aumont, 2004:230)

“Não se sabe mais filmar, não se sabe mais olhar”, se queixa o artista de 1985 (é, entre outros motivos, culpa da televisão, que nos ensina a dar as costas às imagens, como o demonstra, maliciosamente, o Scénario du film “Passion”). Todo o empreendimento de Godard, há dez anos ao menos, é, portanto, também um novo aprendizado do olhar: como, pouco a pouco, olhar melhor, para em seguida deixar ver. É assim que leio, por meu lado, uma boa parte do que se fez nas séries televisivas de Godard e Miéville, e especialmente, em France Tour Détour Deux Enfants. (Aumont, 2004:230)

(…) à medida que os cineastas, dentre os mais refletidos, aprendem a conjugar o pensamento do cinema com o da pintura, aparece, de modo cada vez mais claro, a impossibilidade de praticar o cinema como pintura, de fazer pintura em um filme. (Aumont, 2004:241)

O que ensina a busca da pintura no cinema é, justamente, entre outras coisas, que este não contém aquela, mas a cinde, a explode e a radicaliza. (Aumont, 2004:243)

AUMONT, 2003 – DICIONÁRIO TEÓRICO E CRÍTICO DE CINEMA

(Aumont, 2003)

 

Câmera

A comparação da câmera com um olho deriva de idéias antigas, já ditas a propósito da fotografia, o olho e o aparelho de tomada de cenas considerados intermutáveis porquanto ocupam o mesmo ponto de vista. Todavia, na base dessa equivalência metafórica, foram propostas teorias opostas do cinema:

1. Para os “realistas” (Bazin, Kracauer, Pudovkin, Lindgren), a câmera é um olho pelo fato de, de maneira “objetiva”, registrar o mundo pró-fílmico sem transformá-lo; há, porém, importantes diferenças nas concepções da relação entre esse olho e o olho do espectador: para Bazin, o olho-câmera deve ser o menos intervencionista possível, a fim de reservar ao espectador toda a liberdade de intervenção; para Pudovkin, Lindgren e muitos outros (Jost, por exemplo), o cinema é, antes, a arte de guiar o olho do espectador pelo olho da câmera. [40]

2. Para os “formalistas”, a câmera é, de saída, identificada com o olhar, com um olho cheio de intenções. Para Burch, por exemplo (1960, 1979), a câmera é uma fonte de efeitos estilísticos e formais; Bordwell (1981), em suas análises de filmes de Dreyer, faz da câmera um dos focos da construção de um estilo.

3. Um ponto mais adiante, a câmera-olhar torna-se um instrumento privilegiado do “olhar sobre o mundo”, que é a direção em sua concepção mais radical (Mourlet, Bellour). Estamos bem próximos da metáfora da caméra-stylo (câmera-caneta).

Câmera, olhar, ideologia

Essas abordagens consideravam a câmera instrumento da visão fílmica ou “pós-fílmica” (Branigan 1984) em relação à maneira pela qual o filme representa a realidade. Outras abordagens teóricas consideraram a câmera representante quase alegórica da visão em geral, e de sua função em geral em nossa cultura.

É o alcance da reflexão sobre o dispositivo cinematográfico (Baudry), fundada sobre a instituição de um sujeito espectador “que tudo vê” (Metz), ou seja, a um só tempo onividente e que só vê, restrito à sua pulsão escópica. O olho genérico, nessa descrição do dispositivo, é encarnado pela câmera, mas também pelo projetor, visto como “olho atrás da cabeça” (Green).

Juntamente com isso, foi questionado o valor ideológico desse dispositivo, especialmente a função simbólica e ideológica da câmera. Em seu ponto mais acirrado, o debate se cristalizou entre duas teses opostas:

  • a câmera é o instrumento puramente científico, que obedece de maneira ideologicamente neutra às leis da ótica (Lebel);
  • a câmera é o instrumento de uma reprodução indefinida do sujeito centrado da ideologia burguesa, sendo que a maneira pela qual ela representa o mundo é o término da história da representação ocidental (“burguesa”): centralização perspectiva, ilusionismo etc. (Pleynet, Comolli).

Pode-se reter, geralmente, que a câmera tem um estatuto de símbolo: ela é “um nome para a maneira como olhamos e como conhecemos a um dado momento” (Branigan). (Aumont, 2003:40-41)

Contínuo (e Descontínuo)

Nossa experiência entrega-nos o mundo como composto de objetos distintos, em um receptáculo espaço-temporal onde, ao contrário, é difícil distinguir as partes e, sobretudo, localizar as fronteiras (entre um ponto do espaço e o ponto vizinho, entre um momento e o momento seguinte). Nossa atividade de simbolização (linguagem, imagens – filmes inclusive), em compensação, está fundada de modo bastante unilateral, na pressuposição do descontínuo, do individualizável, do isolável. Não existe campo de significação não estruturado, mas sempre redes, relações entre unidades “discretas”, e o exemplo mais flagrante é o da linguagem. O sentido surge da mudança, e, para fazê-lo aparecer, é preciso introduzir uma diferença – uma descontinuidade.

O cinema, mídia temporal, está fadado ao contínuo; mas ele repousa, duplamente, na produção de uma descontinuidade (entre fotogramas sucessivos na película, entre planos na montagem). A questão, do ponto de vista teórico, é, portanto, a das formas que essa relação entre contínuo e descontínuo tomou. Podem-se opor, por exemplo, segundo essa pertinência, uma forma de passagem de plano a plano tendo em vista a continuidade – o raccord –, e uma forma, ao contrário, que visa à manutenção da descontinuidade – o intervalo. No interior de um mesmo plano, poderemos opor o regime do plano prolongado (insistindo na continuidade) a certos planos abruptos, visando produzir um efeito de descontínuo. O cinema experimental trabalhou sistematicamente ambos extremos (ver Sleep ou Empire, de Wahrol, para o plano muito longo, e os filmes fotogrâmico de Sharits ou Kubelka – levando o descontínuo até seus limites). (Aumont, 2003:61)

 

Corte seco

Chama-se de corte seco a passagem de um plano a outro por uma simples colagem, sem que o raccord seja marcado por um efeito de ritmo ou por uma trucagem. Christian Metz salienta, em seu modelo de “grande sintagmática”, que se o corte seco intervém no interior de um segmento autônomo (uma seqüência de dois planos), ele não tem valor de pontuação; mas tem esse valor quando está situado entre dois segmentos. Quando não comporta efeito ótico materializado, como uma fusão, por exemplo, ele é qualificado de “pontuação branca”. (Aumont, 2003:66)

Direto

A expressão apareceu no início da década de 1960 e substituiu rapidamente a expressão “cinema-verdade”, ambígua demais e até mesmo confusa.

O direto é, de início, uma técnica de filmagem. O termo remete ao processo de gravação da imagem e mais especificamente ainda à gravação do som. Ele se opõe assim, duplamente, ao cinema de ficção tradicional: as imagens são aí gravadas sem “ensaios”, segundo o princípio da improvisação máxima; além disso, o som do cinema direto é sempre aquele que foi gravado simultaneamente à imagem, já que o direto exclui, por princípio, toda pós-sincronização dos diálogos e dos ruídos.

[…]

Em termos estéticos, o direto, a princípio, renovou totalmente a escritura dos filmes documentários […]. Enfim, o direto permitiu redescobrir as funções da montagem, como princípio de agenciamento e de seleção, pois essa técnica acarreta a impressão de uma grande quantidade de película. (Aumont, 2003:81)

Duração

Por oposição a “tempo”, a palavra implica a idéia de um início e de um fim, e entre os dois, de uma sucessão percebida imediatamente pelo espírito, que não coincide, necessariamente, com o tempo crônico (a medida do tempo).

No cinema, o tempo crônico é o da projeção em 24 imagens por segundo. A duração, sempre sentida subjetivamente pelo espectador, é determinada pela relação entre o tempo do desenvolvimento fílmico (tempo da narrativa, em Jean Ricardou, tempo télico (écranique) e filmográfico, em Étienne Souriau) e o tempo dos acontecimentos contados (tempo da história, em Ricardou, tempo diegético, em Souriau).

Assim, podem-se distinguir vários tipos de duração fílmica:

  • o sumário, ou resumido: a duração da narrativa (a do filme, em torno de uma hora e meia) é inferior à duração da história (um mês, um ano, uma vida, um século etc.);
  • a dilatação: é a figura inversa. A duração da narrativa é superior à da história. É raro esse tipo intervir em toda a duração de um filme, mas ele é bem freqüente em certas seqüências: alongamento do suspense no fim de um filme policial, de uma perseguição em um filme de horror; ou então [89] a pausa descritiva e atenta, como a que Sergio Leone põe em cena no início de Era uma vez no Oeste/C’era uma volta il west (1969), as cenas de sexo em um filme pornográfico. A dilatação é característica do cinema moderno;
  • a equivalência: o tempo da narrativa e o da história são praticamente iguais. O caso é raro em um filme inteiro como em Festim diabólico/Rope, de Hitchcock (1943), ou em Cléo de 5 à 7, de Varda (1962). Ele é bem freqüente, além disso, já que concerne a todas as cenas dialogadas sem elipse;
  • a elipse: o tempo da narrativa é igual a zero, o da história é indefinido. O espectador acha-se projetado alguns segundos ou vários séculos para frente ou para trás.

(Aumont, 2003:89-90)

Efeito phi

O espetáculo cinematográfico propõe imagens projetadas sobre uma tela, dotadas de um movimento aparente; ora, a fonte dessas imagens [93] em movimento está nas imagens fixas, impressas na película que passa no projetor e são projetadas uma após a outra. Há aí um paradoxo, pois não é fácil compreender como uma sucessão de imagens fixas projetadas uma após a outra pode dar a impressão de uma imagem única e dotada de movimento.

Foi muitas vezes dito que esse fenômeno era decorrente de uma propriedade das zonas mais exteriores de nosso aparelho perceptivo (no caso, a “persistência retiniana”). Não é o que acontece, evidentemente – a persistência momentânea das imagens sobre a retina não poderia dotá-las de movimento, mas somente misturar umas com as outras. É uma propriedade inata de nossa percepção que está em jogo, mas em estágios cerebrais. Os leves deslocamentos de uma imagem à imagem seguinte, dos estímulos visuais, excitam as células do córtex visual, que “interpretam” essas diferenças como movimento, e o efeito produzido em tais células por elas do efeito que um movimento real produz. Os psicólogos gestaltistas identificaram, desde a década de 1910, diversas variantes desse efeito de percepção de um movimento aparente e batizaram-no com letras gregas. Admite-se, geralmente, que o cinema tem relação com o efeito Φ (phi). (Aumont, 2003:93-94)

Elipse

A narratologia do cinema retomou sem modificações essa noção da teoria da literatura. Fala-se de elipse cada vez que uma narrativa omite [96] certos acontecimentos pertencentes história contada, “saltando” assim de um acontecimento a outro, exigindo do espectador que ele preencha mentalmente o intervalo entre os dois e restitua os elos que faltam.

Noël Burch (1969) propôs distinguir as elipses breves e mensuráveis e as elipses indefinidas, a primeira atuando em relação a uma continuidade espacial local virtual, a segunda presente no “roteiro” e acompanhada, no mais das vezes, de indicações por cartões como “Quinze dias mais tarde” (Luis Buñuel e Salvador Dali zombam disso em Un Chien Andalou e em L’âge d’or). (Aumont, 2003:96-97)

Enquadramento

A noção de quadro (moldura) era familiar à pintura, e a fotografia a havia prolongado, notadamente tornando manifesta a relação entre o quadro do instantâneo e o olhar (do fotógrafo) que a foto traduz. Mas as palavras “enquadrar” e “enquadramento” apareceram com o cinema, para designar o conjunto do processo, mental e material, pelo qual se chega a uma imagem que contém um certo campo visto e um certo ângulo. […] [98]

O enquadramento no cinema clássico é quase sempre uma operação de centralização, por vezes reforçada por técnicas de sobreenquadramento, e chegando a freqüentes reenquadramentos (pequenos movimentos de câmera destinados a manter o sujeito no centro do quadro). Inversamente, existem estilos fundados na recusa da centralização, em uma descentralização ativa e voluntária, ou, de modo mais radical, um desenquadramento (Bonitzer). (Aumont, 2003:98-99)

Especular, Especularidade

Inicialmente, a ciência especular é aquela que ensina a fazer espelhos (de speculum). O espelho estendeu seus poderes para bem além das [107] simples qualidades de reflexão que o definem, como mostram a magia, a literatura, a psicanálise, e todas as artes de representação.

[…]

Segundo Baudry, (1970), a tela nos remete ao espelho de nossa infância, no qual vimos um corpo (o nosso) se refletir e nos reconhecemos nos traços de Outro. A tela remete a uma espécie de imagem especular do eu espectatorial, sem ser, propriamente falando, um espelho refletor. (Aumont, 2003:107-108)

Falso-raccord

Na linguagem dos técnicos, o falso-raccord é uma articulação mal realizada ou mal concebida (insuficientemente contínua). Do ponto de vista estético, trata-se, antes, de uma mudança de plano que escapa à lógica da transparência que atua na articulação.

[…]

O falso-raccord é, entretanto, um raccord, pelo fato de ele assegurar uma continuidade mínima da narrativa: ele não impede a compreensão correta da história contada, e só é “falso” na visão de uma “veracidade” convencional, a de uma certa continuidade do visível. [116]

Em uma perspectiva mais abstrata, Gilles Deleuze (1983) propôs ver no falso-raccord um princípio que assegura a preeminência do todo sobre suas partes (ao contrário do raccord “verdadeiro”) e também o lugar do “aberto, que escapa aos conjuntos e a suas partes”. Com isso, o falso-raccord é para ele um instante de atualização, no filme, das virtualidades ou das potencialidades do fora-de-quadro. (Aumont, 2003:116-117)

Imagem

Existem imagens de várias espécies, que se dirigem, notadamente, a nossos diversos sentidos (imagens visuais, auditivas, táteis, olfativas, etc), ou seja, no final das contas, que correspondem a uma certa sensação acompanhada de idéias – o que foi, por vezes, designado como “imagem mental”. A imagem pode ser produzida seja por um fenômeno natural (reflexo, sombra, visão através de um corpo transparente etc.), seja por um gesto humano intencional. Isso significa que ela tem uma existência multiforme, e, que, notadamente, seu vínculo com a noção de representação, a fortiori com a de analogia, é bem variável (existem, na arte do século XX, muitas imagens não representativas: o que se chama de “pintura abstrata”).

A imagem cinematográfica é plana, enquadrada, o que a assemelha às imagens da pintura e da fotografia. Como essas imagens, ela possui uma “dupla realidade perceptiva”: é percebida, a um só tempo, como bidimensional e tridimensional. Pode-se até mesmo sustentar que, sem a percepção da realidade bidimensional – a da superfície da imagem – seria difícil, e até mesmo impossível, perceber corretamente a “realidade” tridimensional (a profundidade representada) […].

Uma imagem pode ser utilizada, principalmente (Arnheim 1969):

  • como signo, se figura um conteúdo cujos caracteres ela não reflete visualmente (exemplo: os sinais de trânsito); uma imagem reduz-se tanto [160] mais a um signo quanto menos ela o representa;
  • como representação, quando figura coisas concretas (“de um nível de abstração inferior ao das próprias coisas”, Arnheim); ela é, desse ponto de vista, a um só tempo, substituto analógico da realidade e forma convencional, pois a representação é um fenômeno codificado socioculturalmente;
  • como símbolo, quando figura coisas abstratas (“de um nível de abstração mais elevado do que aquele do próprio símbolo”); ela serve, então, para figurar o desconhecido, o invisível, o impossível, do mesmo modo que as abstrações metafísicas ou morais, sociais ou políticas. O valor simbólico de uma imagem é definido, pragmaticamente, pela aceitabilidade social dos símbolos representados.

Os suportes técnicos da imagem não pararam de evoluir, como seus papéis sociais. O cinema foi inventado no momento em que a propagação e a reprodução da imagem fotográfica, o aparecimento de novas formas de espetáculo (como o panorama) e de novos meios de transporte rápidos (a estrada de ferro, o automóvel) transformaram as relações com a realidade visível. A imagem cinematográfica é marcada por isso em sua relação com o tempo e sua credibilidade “documentária”.

(Aumont, 2003:160-161)

Imagem-ação

Em Gilles Deleuze, (1983), designa uma das modalidades da imagem-movimento, que corresponde à figuração da força ou do ato. Ela caracteriza o Realismo, documentário ou o fantástico, e Deleuze distingue duas variedades dela, uma, fundada na “grande forma”, “vai da situação à ação”, ao passo que a outra, fundada na “pequena forma”, vai “da ação à situação, para uma nova ação”: ao passo que a primeira vai “da situação como englobante à ação como duelo”, a segunda “vai de uma ação, de um comportamento ou de um habitus a uma situação parcialmente desvendada”.

(Aumont, 2003:161)

Imagem-afecção

Em Gilles Deleuze (1983), designa uma das modalidades da imagem-movimento, que corresponde à figuração da qualidade ou da potência. Ela é, antes de tudo, definida [161] como ligada ao rosto em primeiro plano, que pode ser “intensivo” ou “reflexivo”, conforme ele chegue a produzir uma nova qualidade, ou permaneça “sob o domínio de um pensamento fixo e terrível, mas imutável e sem devir”. À imagem-afecção está ligado, notadamente, o cinema de Sternberg, de Bergman e, em parte, o de Eisenstein.

(Aumont, 2003:161-162)

Imagem mental

A “imagem mental” é, em psicologia, uma representação que tem um conteúdo análogo ao de uma percepção, mas que é decorrente de um processo psíquico e não do estímulo de um órgão sensorial; ela é puramente subjetiva. É, no mais das vezes, visual, podendo ser também auditiva, motora e até mesmo gustativa (as “madeleines” de Proust) ou olfativa. A imaginação é etimologicamente a faculdade de produzir imagens mentais. Estas podem ser bem precisas e podem se apresentar sem qualquer emoção; Jean Paul Sartre (1940) coloca a imagem mental como um fato de introspecção.

A representação da imagem mental aparece desde as origens do cinema: elas têm, então, o estatuto de lembrança, de narrativa onírica (as adaptações das Aventuras do barão de Münchhausen ou da Lenda de Rip Van Winckle etc.). A imagem mental desempenhou um papel decisivo na estética do cinema “impressionista” francês: “O plano psicológico, o primeiro plano, como o chamamos, é o próprio pensamento da personagem projetado na tela. É a sua alma, sua emoção, seus desejos… A vida interior, tornada perceptível pelas imagens, e, com o movimento, toda a arte do cinema…. O cinema tem, maravilhosamente, os instrumentos para expressar tais manifestações de nosso pensamento, de nosso coração, de nossa memória” (Dulac 1924) [DULAC, Germaine “Lês procedes expressifs du cinématographe”. Écrits sur le cinema.].

A imagem mental é, igualmente, uma categoria deleuziana, que completa, como terceiro elemento, a imagem-afecção e a imagem-ação: “Quando falamos de imagem mental, queremos dizer outra coisa: é a imagem que toma por objetos de pensamento objetos que têm uma existência própria fora da percepção. É uma imagem que toma por objeto relações, atos simbólicos, sentimentos intelectuais” (1983). (Aumont, 2003:162).

Imagem-movimento

A imagem cinematográfica aparece, de saída, como radicalmente nova, pois ela está em movimento; é essa idéia de uma imagem fundamentalmente diferente das outras imagens, porque ela possui uma qualidade que a diferencia (ela não se contenta em acrescentar o movimento à imagem), que inspirou as primeiras teorizações do cinema, de Münsterberg à filmologia.

Repartindo dessa constatação que a imagem cinematográfica é capaz de “automovimento”, Gilles Deleuze (1983) propôs fazer da imagem-movimento encarnada no plano (definido como “corte móvel da duração”) uma das duas grandes modalidades do cinema, com a imagem-tempo. Deleuze distingue diversas variedades de imagem-movimento, que são encontradas, segundo distribuições variáveis, nas diversas tendências do cinema clássico; assim, a noção de imagem-movimento tem valor não apenas teórico, mas histórico (ela caracteriza uma época do cinema). (Aumont, 2003:163)

Imagem-percepção

Para Gilles Deleuze (1983), é uma das modalidades da imagem-movimento que corresponde à figuração da coisa. Ele faz a distinção (de modo bastante clássico) entre percepção subjetiva e objetiva, mas para notar que “a sina constante da imagem-percepção no cinema [é] a de nos fazer passar de um de seus pólos a outro” [DELEUZE, Gilles. L’image-mouvement. 1983, Paris: Éditions de Minuit]; ele se aplica então a descrever, do modo mais concreto possível, os estados da imagem-percepção, tendo em vista que eles escapam ao nominalismo da oposição entre subjetivo e objetivo. (Aumont, 2003:163)

Imagem-pulsão

Para Gilles Deleuze (1983), é uma das modalidades da imagem-movimento que corresponde à figuração da energia. Ele a situa “entre” a imagem-ação (aquela dos meios determinados e dos comportamentos) e a imagem-afecção (aquela de espaços quaisquer e dos afetos); “entre os dois, encontramos uma dupla estranha: Mundo originário-Pulsões elementares” [DELEUZE, Gilles. L’image-mouvement. 1983, Paris: Éditions de Minuit]. Ela caracteriza, para ele, o naturalismo (de Stroheim a Buñuel), mas também o cinema de “violência originária” (Visconti, Ray, Losey) – uma hipótese que foi discutida sobretudo por Luc Moullet. (Aumont, 2003:163)

Imagem-tempo

Neologismo proposto por Gilles Deleuze (1985) para designar a imagem fílmica do Pós-Classicismo (a partir de Ozu, do Neo-Realismo, de Welles ou da Nouvelle Vague). Para Deleuze, essa nova imagem traduz uma crise, uma “ruptura dos vínculos sensório-motores” [DELEUZE, Gilles. L’image-temps. 1985, Paris: Éditions de Minuit], ao mesmo tempo que a preocupação de explorar, diretamente, o tempo, para além do movimento unicamente, que antes definira a imagem de filme.

A classificação feita por Deleuze é menos rígida do que a feita a propósito da “imagem-movimento”. Mais exatamente, classificações feitas com base em vários pontos de vista cruzam-se, sem criar um quadro simples. Uma noção importante é a da imagem-cristal (“coalescência” de uma imagem atual e de uma imagem virtual), que dá conta do caráter essencial do cinema do pós-guerra: o presente não é o único tempo do cinema (e, correlativamente, o tempo não é mais representado como uma cronologia: ele é, de certa forma, dado a ver). (Aumont, 2003:164)

Imaginário

No sentido corrente, o imaginário é o campo (e o produto) da imaginação, entendida como faculdade criativa. A palavra, praticamente, é então empregada como sinônimo de “fictício”, “inventado” e oposta a real. Nesse sentido, a diegese de uma obra de ficção é um mundo imaginário.

A palavra ganhou um sentido mais técnico na teoria lacaniana, que inspirou, por muito tempo, a reflexão sobre o dispositivo cinematográfico. Para Jaques Lacan, o sujeito é um efeito do simbólico, ele mesmo concebido como um sistema de significantes, cujo sentido só se adquire em suas relações mútuas. A relação entre o sujeito e o simbólico efetua-se por intermédio de formações imaginárias:

  • “figuras do outro imaginário nas relações de agressão erótica onde elas são realizadas”, ou seja, os objetos de desejo do sujeito;
  • identificações “desde o Urbid [imagem primitiva] especular até a identificação paterna do ideal do eu”.

A palavra “imaginário” remete também, para Lacan, “1º) à relação do sujeito com suas identificações formadoras; 2º) à relação do sujeito com o real, cuja característica é ser ilusória”.

O cinema é constituído de significantes imaginários, “ele suprime em massa a percepção, mas para [164] jogá-la logo depois em sua própria ausência, que é, entretanto, o único significante presente” (Metz 1975) [METZ, Christian. “Le significant imaginaire” e “Le film de fiction et son spectateur”. Comunications, n° 25.]. A teoria lacaniana liga, estritamente, imaginário e identificação; a primeira identificação, a do sujeito com sua própria imagem no espelho, é o que constitui, para ele, o registro imaginário. Foi no modelo dessa identificação primária, em que a vista desempenha um papel importante, que foi proposta a noção de identificação cinematográfica primária (Baudry), na base da qual se tornam possíveis as identificações secundárias (com personagens, com situações etc.). Dessa forma, o imaginário designa, portanto, a instância que define e regula a relação metapsicológica do espectador com o dispositivo. (Aumont, 2003:164-165)

Olhar

O olhar distingue-se da visão pelo fato de emanar do sujeito que percebe, de maneira ativa e mais ou menos deliberada; a vista é assim o resultado do olhar. Uma definição mais precisa supõe a adoção de um modelo do sujeito e de seu psiquismo.

As psicologias cognitivas definem o olhar como um ato sensório-informativo consciente e voluntário, entrando na estratégia de conhecimento e de comportamento do sujeito em seu ambiente. Essa abordagem torna parcialmente fácil a comparação entre olhar do espectador e “olhar” da câmera, já que este último, manifestado por um ponto de vista, uma distância, um enquadramento, eventualmente um movimento, uma profundidade de campo etc., é calculado, voluntário, deliberado. É, portanto, essa concepção que está, de modo mais ou menos implícito, no fundamento de noções como o “observador invisível” (Pudovkin) ou o espectador “onividente” (Souriau Metz). As abordagens cognitivas mais recentes (Bordwell 1985) têm tendência a fazer economia dessa metáfora do “olhar da câmera”, para descrever de modo mais analítico os elementos do enquadramento, diretamente relacionados com a atividade de olhar do espectador.

As teorias de inspiração psicanalítica insistem, por seu lado, na relação entre olhar e desejo. Nesse sentido, o espectador é pego em um jogo instersubjetivo complexo, que implica, de um lado, o dispositivo espectatorial, como máquina de “bloquear” a visão, de fazer “não-ver-tudo” (Bonitzer 1976), e cuja função de censura é tão importante quanto a função de habilitação; de outro lado, [215] os olhares trocados no interior da diegese, e em cujo jogo o espectador se encontra envolvido (Browne 1975; Bellour 1969,1978); enfim, os olhares dirigidos da tela para a sala, seja em uma troca simbólico-imaginária como a “sutura” (Oudart 1969), seja no modo ainda mais direto do “olhar para a câmera”. Esta figura é freqüentemente considerada uma perversão da linguagem clássica, da enunciação transparente que a caracteriza, e da situação “normal” do espectador que olha; Vernet (1988) a ligou às “figuras da ausência”, que atravessam o discurso fílmico deixando aflorar o irrepresentável.

A abordagem psicanalítica, em suas diversas variantes, é ainda a mais trabalhada em duas grandes direções:

  • o estudo dos olhares figurados na tela, e da maneira pela qual eles implicam o do espectador; as teorias feministas salientaram com freqüência, notadamente, a dissimetria entre personagens masculinos, dotados do poder de olhar, e personagens femininos, feitos para serem olhados(as)o importante quanto a funçnçtivo complexo, que implica, de um lado, o dispositivo espectatorial;
  • o estudo do olhar do espectador, como satisfação parcial de seu voyeurismo inato (de sua “pulsão escópica”), é também um ponto forte das teorias feministas, que salientaram a diferença no jogo do olhar espectatorial entre um sujeito masculino voyeur por estrutura e um sujeito feminino clivado entre voyeurismo espectatorial e situação-de-ser-visto (“to-be-looked-at-ness”, Mulvey 1975)

(Aumont, 2003:215-216)

 

Raccord

[…] é no cinema mais industrial, o de Hollywood na época clássica, que é aperfeiçoada a prática do raccord, ou seja, de um tipo de montagem na qual as mudanças de planos são, tanto quanto possível, apagadas como tais, de maneira que o espectador possa concentrar toda sua atenção na continuidade da narrativa visual.

É, portanto, antes, uma noção empírica, pouco utilizada pelos teóricos, mesmo aqueles que defendem o cinema da transparência […]. Existem desse ponto de vista alguns grandes tipos de raccord, que só têm em comum a preocupação com a preservação de uma certa continuidade (mas nem sempre a mesma): espacial (caso do raccord no eixo); plástico (raccord sobre um movimento); diegético (raccord sobre um gesto), por exemplo. (Aumont, 2003:251)

Realidade, Real

O cinema não modificou o sentido (complexo, historicamente estratificado) desses termos usuais, mas, no âmbito de certas teorias de inspiração lacaniana (Oudart 1971; Bonitzer 1976), a distinção entre os dois, que na língua corrente é bastante fraca, foi, por vezes, acentuada. Designa-se então por “real”, em conformidade com o primeiro sentido da palavra em francês, a um só tempo, “o que existe por si mesmo” e “o que é relativo às coisas”. A realidade, em compensação, corresponde à experiência vivida que o sujeito desse real tem; ela está inteiramente no campo do imaginário. (É lógico, portanto, falar, a propósito do cinema, de “impressão de realidade” e não de impressão de real.) (Aumont, 2003:252)

Reflexividade

1. Termo de origem matemática, que designa a propriedade de uma relação reflexiva. Ele foi retomado pela teoria do cinema para designar “o efeito espelho” provocado pelo olhar do ator (e/ou da personagem) para a câmera. O “olhar para a câmera” pode ser interpretado como uma espécie de mensagem direta da personagem ao espectador, já que um olha o outro “nos olhos”. Entretanto, diferentemente das mensagens de linguagem, faladas ou escritas, este é reflexivo: ele provoca um efeito espelho de um gênero particular que pode ser interpretado como o equivalente de uma marca enunciativa (Casetti 1987; Vernet 1988).

2. O termo é utilizado em um sentido mais amplo, quando o filme mostra o dispositivo (reflexividade cinematográfica) ou produz efeitos de espelho (reflexividade fílmica). Esta pode, por sua vez, remeter a outros filmes ou se auto-refletir.

A reflexividade é, portanto, o aspecto mais especificamente visual de questões mais gerais como o “filme no filme”, o “cinema no cinema” e o procedimento da construção em abismo. (Aumont, 2003:254)

Salto

Raccord entre dois planos quase idênticos, entre os quais a distância espaço-temporal é muito fraca.

Foi a prática do documentário, e notadamente da reportagem televisiva, que levou à utilização dessa forma (o jump cut anglo-saxão), que consiste em montar dois planos que são, na verdade, fragmentos da mesma tomada de cena, eliminando uma parte dessa tomada e conservando o que vem logo antes e logo depois. O efeito visual é tocante, sobretudo no caso freqüente em que o objeto está centrado em uma ou várias personagens estáticas: tem-se a impressão de que a personagem “salta” de repente, de maneira mais ou menos acentuada. Esse tipo de raccord foi introduzido espetacularmente no filme de ficção por A bout de souflle (Acossado), de Jean-Luc Godard, em 1959; ele é considerado um dos elementos estilísticos dos “novos cinemas” da década de 1960. (Aumont, 2003:264)

Tempo

O filme “é a única experiência em que o tempo me é dado como uma percepção” (Scheffer 1999) [SCHEFFER, Jean-Louis. Images mobiles. 1999, POL]; ver um filme é ver o tempo passar. São poucas, portanto, as reflexões teóricas sobre o cinema que não abordam, ao menos indiretamente a relação entre cinema e tempo; é, notadamente, o caso de todas as teorias da narrativa. Um estudo mais direto refere-se a três tipos principais, conforme o aspecto retido da própria noção de tempo. (Aumont, 2003:287)

 

O tempo como medida

É a maneira mais formal de considerar o tempo fílmico, e ela leva, no mais das vezes, a observar as discrepâncias entre o tempo fílmico e o tempo real (tempo da narrativa fílmica/tempo da história, por exemplo). Os teóricos do cinema mudo frisaram com freqüência as possibilidades expressivas oferecidas pela aceleração ou pela câmera lenta (Epstein, Vertov). Outro caso particular, o da reversão do tempo fílmico, foi freqüentemente considerado também, por causa de seu próprio fascínio, mas, em termos de medida do tempo, ele não diz nada além do acelerado e da câmera lenta: o tempo do filme não é o da realidade (Arnheim 1932; Rinieri 1953). (Aumont, 2003:287)

O tempo como experiência

Nossa experiência do tempo em geral é complexa. Existem certos “relógios biológicos”, que regulam certos ritmos fisiológicos, mas nossa apreensão do tempo resulta da percepção de seqüências de acontecimentos, que foram, por vezes, considerados a única realidade material, “o tempo” procedendo, em geral, da construção simbólica da “instrumentação” mental (Nobert Elias).

A psicologia empírica distingue quatro grandes modos de experiência temporal: o presente, fundado na memória imediata e na apreensão dos intervalos temporais breves; a duração, experiência normal do tempo que passa, implicando a memória a longo prazo; a perspectiva temporal, ou “experiência do futuro”, determinada social e culturalmente; [287] enfim, a diferenciação entre simultaneidade e sucessão. O cinema faz eco a esses quatro modos, para os quais ele inventou formas originais (por exemplo, o plano prolongado ou a mistura das imagens), e as teorias do cinema retomam mais ou menos essas categorizações, insistindo no tempo vivido (Mitry). A maioria salienta o caráter de realidade do tempo fílmico – tempo físico da projeção – como principal fator de diferenciação entre cinema, romance, e teatro; além disso, o filme narrativo modela o tempo, impondo-lhe um ritmo, transformando-o pela montagem, em geral pela utilização de uma “linguagem” cinematográfica: o tempo do filme de ficção é “a sugestão de um tempo fictício, que compreende fragmentos de duração do real” (Laffay 1964) [LAFFAY, Albert. Logique du cinéma. 1964, Masson.]. Neste último sentido, o tempo do filme é comparável ao tempo do romance, e os estudos de teoria literária (Bahktin, Poulet) podem, em parte, ser transpostos para sua produção. (Aumont, 2003:287-288)

O tempo como categoria

Com o espaço e a causalidade, o tempo está entre as categorias fundamentais do entendimento na filosofia kantiana, que continua a dominar as abordagens habituais dessa questão. Todavia, a reflexão sobre o cinema aprofundou pouco essa idéia; a exceção mais notável é a de Jean Epstein, que formulou a tese de que o cinema cria uma a percepção inteiramente original do tempo e, até mesmo, de que ele produz um tempo sui generis, diferente do tempo humano (Epstein 1946).

Em terreno frontalmente conceitual, a reflexão partiu, no mais das vezes, de Bergson e de sua reflexão sobre o tempo vivido e a duração. As teorias Bergsonianas, retomadas quase sem modificações por Gilbert Cohen Séat (1946), são encontradas, indiretamente, em André Bazin, para quem, por exemplo, o cinema é apto a construir equivalentes da relação colocada por Bergson entre a duração vivida e a memória (é a lição que ele tira do Mystère Picasso, de Henri-Georges Clouzot (1956), que revela, mostrando-a, a duração contida no quadro terminado, ou seja, o tempo de sua criação).

A perspectiva bergsoniana foi retomada, ampliada e aprofundada por Gilles Deleuze (1983), que retoma o modelo de uma relação entre o espaço, o tempo e o movimento, e faz dele o princípio de uma ampla tipologia crítica da imagem fílmica, distinguindo entre imagem-movimento e imagem-tempo. Deleuze reflete, de modo mais particular, sobre a duração e seu “corte móvel” pela imagem-movimento, ela própria constituída pela integração de “cortes imóveis”, segundo “instantes quaisquer” eqüidistantes (os fotogramas), e sobre o devir-visível do tempo no cinema contemporâneo (encontran- [288] do o fundamental da observação de Jean Louis Schefer).

(Aumont, 2003:288-289)

Ensaio sobre o cinema do simulacro – André Parente

“ (…) grande parte dos nosso consagrados cineastas de outrora não são hoje senão produtores de filmes, homens de negócios e interesses espúrios, capazes de, a exemplo de grande parte de nosso empresariado, fazer uma política qualquer para salvar suas empresas e seus projetos, em detrimento de uma verdadeira política para o cinema brasileiro. Quem age assim, está inviabilizando duplamente o cinema: em primeiro lugar, porque essa política imdediatista e arrivista, no sentido mais amplo da palavra, é uma sentença de morte do cinema a médio e longo prazo; em segundo lugar, porque o cinema não se confunde com os filmes, e é justamente por isso que o cinema tem um papel estratégico – na refelxão sobre a questão da produção do novo, por exemplo – no campo do audiovisual.” (PARENTE, André. Ensaios sobre o cinema do simulacro. RJ: Pazulin, 1998)

“ O principal problema do nosso cinema deve-se à forma como ele pode, ou não, se inserir, como produto no campo do audiovisual, notadamente no mercado da imagem eletrônica (televisão e home-video). A razão é simples: não se pode mais pensar o cinema independente de sua inscrição no domínio do audiovisual, e isso, em qualquer lugar do mundo. “(PARENTE, André. Ensaios sobre o cinema do simulacro. RJ: Pazulin, 1998)

“Quando Godard recebeu o prêmio Cezar pelo conjunto de sua obra, fez uma declaração que é esclarecedora a esse respeito: ´Agradeço aos profissionais da profissão (lema do Cezar), mas, eu sinto muito ter que dizer , não sou um profissional, não faço filmes, faço cinema´.”(PARENTE, André. Ensaios sobre o cinema do simulacro. RJ: Pazulin, 1998)

“ O cinema não pára de ressuscitar a televisão, enquanto a televisão não pára de assassinar o cinema.” (PARENTE, André. Ensaios sobre o cinema do simulacro. RJ: Pazulin, 1998)

“ Todos nós sabemos que nem o cinema nem a televisão surgiram para atender a uma necessidade de criação ou comunicação. As diversas ´ linguagens ´  audiovisuais foram inventadas, ao longo deste século, como forma de afirmações de visões de mundo, em função de vontades, estéticas, éticas, políticas.” (PARENTE, André. Ensaios sobre o cinema do simulacro. RJ: Pazulin, 1998)

“Se a modernidade desses movimentos nasce da crise da representação, é precisamente porque o que surge com ela, em primeiro plano, é a questão da possibilidade, ou melhor, da necessidade de produção do novo. O novo é o que escapa à representação do mundo, como dado, como cópia. O novo significa a emergência da imaginação no mundo da razão, e, conseqüentemente, implica uma liberação dos modelos disciplinares.” (PARENTE, André. Ensaios sobre o cinema do simulacro. RJ: Pazulin, 1998)

“ O que nos interessa hoje é um audiovisual da criação que remeta à afirmação do real enquanto novo, um cinema que rompa com os modelos da representação e os antigos ideais de verdade da indústria. No entanto, não basta boa vontade e prazer em criar, produzir, comunicar, mesmo que essa boa vontade e prazer tragam consigo idéias e imagens justas porque bonitas (pós-moderno) ou bonitas porque justas (pré-moderno). As imagens do cineasta e as palavras do cineasta necessitam da necessidade, da marca da necessidade. E essa necessidade, que faz das idéias, das imagens e dos signos algo de novo, depende cada vez mais de um espaço crítico. O espaço crítico é o operador necessário que faz do moderno não um signo vazio, um significante sem referente social, mas um agenciamento coletivo. Lembremos que, para Paul Klee, o povo é que continua a faltar no projeto moderno. No entanto, devemos evocar artistas como Guimarães e Glauber, que souberam tão bem inventar, com suas obras, uma relação imanente com o povo: cada um, a seu modo, soube fazer do povo expressão de suas obras.” (PARENTE, André. Ensaios sobre o cinema do simulacro. RJ: Pazulin, 1998)

“Hoje, cada vez mais, o espaço crítico , que não se confunde com a crítica, é o espaço necessário para que a produção artística do novo seja como um porvir das novas linguagens.” (PARENTE, André. Ensaios sobre o cinema do simulacro. RJ: Pazulin, 1998)

Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma – Glauber Rocha

“Consideramos como o ínicio de uma revolução cultural no Brasil, o ano de1922. Naquele ano existiu forte movimento cultural de reação à cultura  acadêmica e oficial. Deste período, o expoente foi Oswald de Andrade. Seu trabalho cultural, sua obra, que é verdadeiramente genial, ele definiu como antropofágica, referindo-se à tradição dos índios canibais. Como esses comiam os homens brancos, ele dizia de haver comido toda a cultura brasileira e aquela colonial. Morreu com pouquíssimos textos publicados.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“O tropicalismo, a antropofagia e seu desenvolvimento são a coisa mais importante hoje na cultura brasileira.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“Primeiro se descobriu, se bem que em forma bastante esquemática, por que no Brasil as Ciências Sociais são primitivas, o subdesenvolvimento econômico; depois veio a idéia de que o subdesenvolvimento era integral. O cinema brasileiro partiu da constatação desta totalidade, de seu conhecimento e da consciência da necessidade de superá-la de maneira também total, em sentido estético, filosófico, econômico: superar o subdesenvolvimento com os meios do subdesenvolvimento. O tropicalismo, a descoberta antropofágica, foi uma revelação: provocou consciência, uma atitude diante da cultura colonial que não é uma rejeição à cultura ocidental como era no início (e era loucura, por que não temos metodologia): aceitamos a ricezione (recepção) integral, a ingestão dos métodos fundamentais de uma cultura completa e complexa mas também a transformação mediante os nosso succhi (sucos, substâncias) e através da utilização e elaboração da política correta. É a partir deste momento que nasce uma procura estética nova, e é um fato recente.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“Tropicalismo é aceitação, ascensão do subdesenvolvimento, por isso existe um cinema antes e depois do tropicalismo.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“Esta relação antropofágica é de liberdade.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“Com o sistema imperialista não se pode fazer concorrência, mas se faz um filme que chega diretamente ao inconsciente coletivo, à disposição mais verdadeira e profunda de um povo, então se pode até vencer.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“É uma procura estética política que se move debaixo do signo de individualização do inconsciente coletivo, e para isso existe o aproveitamento de elementos típicos da cultura popular utilizados criticamente.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“Nós somos um povo ligado historicamente à saga, à épica. Nós temos uma grande tradição filosófica; e é um mal. Mas seria um mal maior uma filosofia de importação que não corresponde à história. Por isto a antropofagia é mais importante.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“Tínhamos de construir as estruturas e descobrir os cineastas. Isto foi feito. Agora existe uma mudança de tática, com um trabalho enorme para difundir as possibilidades do cinema.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“Falar de mito e linguagem é fundamental. É o centro  do nosso problema. Se tendemos para uma revolução global, total, a linguagem deve ser compreendida no sentido marxista, como expressão da consciência.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“Para nós o problema é de mais imediata compreensão, porque o analfabetismo leva a um tipo de percepção complexa e nós queremos desenvolver nosso cinema em uma dialética histórica permanente com a situação em movimento.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“O cinema do futuro é Ideogramático. É uma difícil pesquisa sobre os signos. Para isto não basta uma ciência mas é necessário um processo de conhecimento e autoconhecimento que investe toda a existência e sua integração com a realidade. O mito é o ideograma primário e nos serve, temos necessidade dele para conhecermo-nos e conhecer. A mitologia, qualquer mitologia, é ideogramática e as formas fundamentais de expressão cultural artística a elas se referem continuamente. Depois poderemos desenvolver outras coisas, mas, este é um passo fundamental. O surrealismo para os povos latino-americanos é o tropicalismo.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“O nosso não é o surrealismo do sonho, mas da realidade. Buñuel é um surrealista e seus filmes mexicanos são os primeiros filmes tropicalistas e antropofágicos.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“A função histórica do surrealismo no mundo hispano-americano oprimido foi aquela de ser instrumento para o pensamento em direção de uma libertação anárquica, a única possível. Hoje utilizada dialeticamente, em sentido profundamente político, em direção do esclarecimento e da agitação.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“O Cinema Ideogramático quer dizer isto: forma desenvolvida e aprofundada da consciência, a própria consciência, em relação direta com a construção das condições revolucionárias.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“A excelente crítica de Bazin formou apenas Godard – embora Truffaut pudesse ser um grande cineasta se fizesse psicoanálise.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

A Extetyka do Sonho – Glauber Rocha

em: http://memoriasdosubdesenvolvimento.blogspot.com/2007/06/esttica-do-sonho-manifesto-de-glauber_16.html

 

“O sentimento de colaboração humana renova e revela uma nova categoria de indivíduo, mas é necessário para isso que a velha cultura seja revolucionada.”

“Nenhuma estatística pode informar a dimensão da pobreza. A pobreza é a carga autodestrutiva máxima de cada homem.”

“Na medida que a desrazão planeja a revolução, a razão planeja a repressão.” “O sonho é o único direito que não se pode proibir.”

“O Povo é o mito da burguesia.”

“A revolução é a anti-razão que comunica as tensões e rebeliões do mais irracional de todos os fenômenos que é a pobreza.”

“A revolução, como possessão do homem que lança sua vida rumo a uma idéia, é o mais alto astral do misticismo.”

“As revoluções se fazem na imprevisibilidade da prática histórica que é a cabala do encontro das forças irracionais das massas pobres.”

“A revolução é uma mágica porque é o imprevisto dentro da razão dominadora.”

“A cultura popular será sempre uma manifestação relativa quando apenas inspiradora de uma arte criada por artistas ainda sufocados pela razão burguesa.”

“A cultura popular não é o que se chama tecnicamente de folclore, mas a linguagem popular de permanente rebelião histórica.”

A imagem-tempo – Gilles Deleuze

“Em suma, se houvesse um cinema político moderno, seria sobre a seguinte base: o povo já não existe, ou ainda não existe… o povo está faltando.” (DELEUZE, Gilles. A Imagem-Tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990, p. 258-259)

“É preciso que a arte, particularmente a arte cinematográfica, participe dessa tarefa: não dirigir-se a um povo suposto, já presente, mas contribuir para a invenção de um povo.”(DELEUZE, Gilles. A Imagem-Tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990, p. 259)

“Há uma segunda diferença entre o cinema político clássico e o moderno, que se refere à relação político-privado.” (DELEUZE, Gilles. A Imagem-Tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990, p.260)

“É desse modo que a obra de Glauber Rocha, os mitos do povo, o profetismo e o banditismo, são o avesso arcaico da violência capitalista, como se o povo voltasse e duplicasse contra si mesmo, numa necessidade de adoração, a violência que sofre da outra parte (Deus e o Diabo na Terra do sol). A tomada de consciência é desqualificada, seja porque se dá num vazio, como no caso do intelectual, seja porque está comprimida num vão, como em Antônio das Mortes, capaz tão-somente de captar a justaposição das duas violências e a continuação de uma na outra.”(DELEUZE, Gilles. A Imagem-Tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990, p. 261)

“O que resta então? O maior cinema de ‘agitação’ que se fez um dia: a agitação não decorre mais de uma tomada de consciência, mas consiste em fazer tudo entrar em transe, o povo e seus senhores, e a própria câmera, em levar tudo à aberração, tanto para pôr em contato as violência quanto para fazer o negócio privado entrar no político e vice-versa (Terra em transe). Daí o aspecto tão particular que a crítica do mito assume, em Glauber Rocha: não é analisar o mito para decobrir seu sentido ou estrutura arcaica, mas sim referir o mito arcaico ao estado das pulsões numa sociedade perfeitamente atual – fome, sede, sexualidade, potência, morte, adoração.”(DELEUZE, Gilles. A Imagem-Tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990, p. 261)

“Extrair do mito um atual vivido, que designa ao mesmo tempo a impossibilidade de viver, pode fazer-se de outras maneiras, mas não deixa de constituir o novo objeto do cinema político: fazer entrar em transe, em crise.” (DELEUZE, Gilles. A Imagem-Tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990, p. 261)

“Tudo se passa como se o cinema político moderno não se constituísse mais sobre uma possibilidade de evolução e de revolução, como o cinema clássico, mas sobre impossibilidades, a maneira de Kafka: intolerável.” (DELEUZE, Gilles. A Imagem-Tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990, p. 261-262)

“Se o povo falta, se já não há consciência, evolução, revolução, é o próprio esquema da reversão que se revela impossível. Não haverá mais conquista do poder pelo proletariado ou por um povo único e unificado.” (DELEUZE, Gilles. A Imagem-Tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990, p. 262)

“O que soou a morte da conscientização foi, justamente, a tomada de consciência de que não havia povo, mas sempre vários povos, uma infinidade de povos que faltava unir, ou que não se devia unir, para que o problema mudasse. É por aí que o cinema do Terceiro Mundo é um cinema de minorias, pois o povo só existe enquanto minoria, por isso ele falta. É nas minorias que o assunto privado é, imediatamente, político.” (DELEUZE, Gilles. A Imagem-Tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990, p. 262)

“Por quê?, é a questão do dentro, a questão do eu: pois, se o povo falta, se ele se estilhaça em minorias, sou eu que sou primeiro um povo, o povo de meus átomos.” (DELEUZE, Gilles. A Imagem-Tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990, p. 263)

“Muitos filmes do Terceiro Mundo invocam a memória. Não é uma memória psicológica como faculdade de evocar lembranças, nem mesmo uma memória coletiva como a de um povo existente. É, vimos, a estranha faculdade que põe em contato imediato o fora e o dentro, o assunto do povo e o assunto privado, o povo que falta e o eu que se ausenta, uma membrana, um duplo devir.” (DELEUZE, Gilles. A Imagem-Tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990, p. 263)

“Esse eu no entanto, não é o eu do intelectual do Terceiro Mundo, muitas vezes retratado por Glauber Rocha, e que deve romper com o papel de colonizado, mas será que só pode faze-lo passando para o lado do colonizador, ainda que apenas esteticamente, devido as suas influências artísticas? Kafka indicava uma outra via, uma via estreita entre os dois riscos: precisamente porque os “grandes talentos”ou as individualidades superiores não são abundantes nas literaturas menores, o autor não tem condições de produzir enunciados individuais, que seriam como que histórias inventadas; mas também porque falta o povo, o autor está em condições de produzir eninciados coletivos, que são como que os germes do povo por vir, e cujo alcance político é imediato e inevitável. Por mais que o autor esteja à margem ou separado de sua comunidade, mais ou menos analfabeta, essa condição ainda mais o capacita a exprimir forçar potenciais e, em sua solidão, ser um autêntico agente coletivo, um fermento coletivo, um catalisador.”(DELEUZE, Gilles. A Imagem-Tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990, p. 264)

“O diretor de cinema se vê perante um povo duplamente colonizado, do ponto de vista da cultura: colonizado por histórias vindas de outros lugares, mas também por seus próprios mitos, que se tornaram entidades impessoais a serviço do colonizador. O autor portanto, não deve se fazer etnólogo do povo, tampouco inventar ele próprio uma ficção que ainda seria história privada: pois qualquer ficção pessoa, como qualquer mito impessoal, está do lado dos ‘senhores’. É assim que vemos Glauber Rocha destruir de dentro os mitos. Resta ao autor a possibilidade de se dar ‘intercessores’, isto é, de tomar personagens reais e não fictícias, mas colocando-as em condição de ‘ficcionar’ por si próprias, de ‘criar lendas’, ‘fabular’. O autor dá um passo rumo a suas personagens, mas as personagens dão um passo rumo ao autor: duplo devir. A fabulação não é um mito impessoal, mas também não é ficção pessoal: é uma palavra em ato, um ato de fala pelo qual a personagem nunca pára de atravessar a fronteira que separa seu assunto privado da política, e produz ela própria enunciados coletivos.” (DELEUZE, Gilles. A Imagem-Tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990, p. 264)

“(…) a fabulação que serve de base a fala viva, que garante sua liberdade e circulação, e lhe dá valor de enunciado coletivo, para apô-la aos mitos do colonizador islâmico. Não era esta operação que Glauber Rocha fazia sobre os mitos do Brasil? Sua crítica interna começava desgarrando, por baixo do mito, um atual vivido que seria como o intolerável, o que não pode ser vivido, a impossibilidade de viver agora ‘nessa’sociedade (Deus e o diabo na terra do sol); depois passava a arrancar do invivível um ato de fala que não pudesse ser calado, um ato de fabulação que não seria uma volta ao mito, mas uma produção de enunciados coletivos capazes de elevar a miséria a uma estranha positividade, a invenção de um povo (Antônio das mortes, O leão de sete cabeças, Cabeças cortadas). O transe, o fazer entrar em transe é um transição, passagem ou devir: é ele que torna possível o ato de fala, através da ideologia do colonizador, dos mitos do colonizado, dos discursos do intelectual. O autor faz entrar em transe as partes, para contribuir à invenção de seu povo, que é o único capacitado a constituir o conjunto. Mas as partes não são extamente reais em Glauber, porém recompostas.”(DELEUZE, Gilles. A Imagem-Tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990, p. 264)

“Não um mito de um povo passado, mas a fabulação do povo por vir. É preciso que o ato de fala se crie como uma língua estrangeira numa língua dominante, precisamente para exprimir uma impossibilidade de viver sob a dominação. É a personagem real que sai de seu estado privado, ao mesmo tempo que o autor deixa seu estado abstrato, para formar a dois, ou com mais, os enunciados.”(DELEUZE, Gilles. A Imagem-Tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990, p. 266)

Transe, crença e povo – Ivana Bentes

“Do cinema de Glauber Rocha à filosofia de Gilles Deleuze, foi possível pensar um sistema de retroalimentação, onde um conceito não reaparece em outro campo sem modificar-se ou desdobrar-se. Mais do que superposições ou aplicações, segui alguns desses desdobramentos tendo como ponto de partida um certo gosto dos autores pelo paradoxo, pela imanência radical.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p.107 )

“Três noções se impõem, entradas privilegiadas nesse hipertexto complexo que é uma obra, rede acentrada de múltiplos pontos de acesso. Transe, Crença e Povo são conceitos que aparecem no cinema de Glauber, de Barravento à Idade da Terra. Um cinema que parte do modelo dialético do verdadeiro e chega à radicalidade de um plano de imanência, campo de desterritorializações e devir.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p.107 )

“Fazer entrar em transe ou em crise seria a primeira figura do pensamento e do cinema moderno. O transe é transição, passagem, devir e possessão. Para entrar em crise ou em transe, é preciso se deixar atravessar, possuir, por um outro.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p. 108)

“No cinema de Glauber, acompanhamos a crise da Terra, do homem, das formações sociais. Num primeiro momento, essa crise nasce de uma dialética do verdadeiro, onde a diferença torna-se oposição e contradição.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p. 108)

“O que importa no pensamento dialético é o trabalho do negativo. Entretanto, dividir em dois – a alteridade como outro do mesmo – ou multiplicar não basta para chegarmos ao plano de imanência, a diferença pura, ao devir-transe. Glauber começa trabalhando com dualidades, natureza e cultura, misticismo e marxismo, geografia e história. A passagem da natureza à cultura é encenada em Barravento, a partir de três estágios: a convivência entre mitológico e racional, a expulsão desse mitológico e seu retorno desmesurado e incontrolável de forma destruidora ou positiva. A dialética será abandonada no decorrer de seus filmes. Glauber vai desfazer os dualismos de dentro até chegar ao fluxo desestruturante, Terra em Transe, e `suprema liberdade em filmes como Di ou Idade da Terra.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p. 108)

“Crise e Transe são as condições de um pensamento e de um cinema diferenciais, que nascem distendendo, rompendo e entravando o esquema da ação e reação. Desqualificando as verdades e valores eternos, para produzir novos encadeamentos e reencadeamentos de conceitos e imagens.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p.108 )

“Trata-se de uma pedagogia da crise que se dá quando o cinema moderno vem destituir as verdades motoras do cinema narrativo clássico e pensar o tempo como operador de disjunções. De um lado, percepção-significação-ação, o esquema bergsoniano que caracteriza tanto o peensamento quanto, segundo Deleuze, o cinema da tradição. Esquema que será destituído por algo como a relação percepção-hesitação-problematização. Como se fossemos colocados diante de situações que não podem mais se prolongar em ações. O cinema e o pensamento modernos nascem dessa crise diante do que é ‘terrível demais, belo demais, intolerável’. Algo que excede nossa capacidade sonsório-motora de reação: uma beleza ou dor fortes demais. Em vez de um pensamento ou de um cinema que tolera e suporta praticamente qualquer coisa, Deleuze propõe esse confronto com o impensável, pensar o que escapa ao pensamento, a vida.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p.109 )

“Fazer da violência, do transe e da fome uma estética ou um pensamento. Eis o que significa instaurar um plano de imanência, no dito de Deleuze, é a necessidade de ‘ultrapassar a experiência, não em direção às condições a priori de toda experiência possível, mas em vista das condições concretas de toda a experiência real’. Nos primeiros filmes de Glauber, essa máxima significa transformar beatos, vaqueiros, matadores de alguel em agentes da revolução. Para Glauber, a violência é ‘um amor de ação e transformação’.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p.111 )

“A violência não é um simples sintoma, é um desejo de transformação, é a ‘mais nobre manifestação cultural da fome.’ O marxismo de Glauber tem algo de sádico e histérico. Para explodir, a revolução tem que ser precedida por um crime, um massacre.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p.111 )

“O negativo se nega em nome de um devir. Negação como qualidade da vontade de potência ou como reação. Como em Nietzsche, o niilismo, a vontade de nada e o nada de vontade anunciam a morte do homem em nome de um devir infra ou sobre-humano.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p. 112)

“Todos pertencem à Terra, são manifestações da sua cólera, seu transe.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p. 112)

“A crise e o transe operam essa desestruturação. E a crença de um acordo originário entre homem e mundo que não mais se sustenta (é horrível demais ou belo demais). É essa perda do mundo que é condição do pensamento moderno.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p.112 )

“Deleuze diz: ‘O fato moderno é que já não acreditamos nesse mundo. Nem mesmo nos acontecimento que nos acontecem – amor e morte – como se nos dissessem respeito apenas pela metade’. É o vínculo do homem com o mundo que se rompeu. Por isso, é o vínculo que deve se tornar objeto de crença, ele é o impossível que só pode ser restituído pela crença. Crença neste mundo aqui, não em outro mundo.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p.112 )

“O homem está no mundo como numa situação ótica e sonora pura. Vê, sente e não sabe mais como agir. Torna-se vidente. A Crença substitui a ação, diz Deleuze. ‘Somente a crença no mundo pode religar o homem com o que ele vê e ouve. Restituir-nos a crença no mundo, eis o poder do cinema e do pensamento moderno. Cristãos e ateus em nossa universal esquizofrenia, precisamos de razões para crer nesse mundo’.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p. 112-113)

“Acreditar no mundo, diz Deleuze, significa principalmente suscitar acontecimentos, mesmo pequenos, que escapem ao controle, engendrar novos espaços-tempos, mesmo de superfície ou de volume reduzidos. Acreditar no mundo é criar mundos.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p.113 )

“Destituídos da terra, desterritorializados, destituídos dos ideais da religião, destituídos dos ideais da revolução, os personagens de Glauber vagam procurando uma nova terra, um novo corpo.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p.113 )

“A crença é um princípio de conversão e transmutação.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p.113 )

“O impossível é restituído por uma crença.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p.114 )

“Diante do intolerável e da miséria, saída pelo mito e pelo místico, pela revolta armada é uma estratégia, uma composição possível. Os desterritorializados encontram no corpo armado do cangaceiro, no santo guerrilheiro, na máquina de guerra do mercenário, no poder de aglutinação do místico, na força do escravo, a possibilidade de constituir um plano de imanência, uma Terra. Esse encontro, que tem como ponto de partida o mito e o místico, opera reinvenções, mais do que repetições. O mito e o sagrado em G;lauber, se dão como atualização. Deleuze dirá sobre esse cinema que ele vai ‘extrair do mito um atual vivido, que seria como o intolerável, o invivível, a impossibilidade de viver agora nesta sociedade. Trata-se em seguida de arrancar o invivível um ato de fala que não se poderia calar, um ato de fabulação que não seria um retorno ao mito, mas uma produção de enunciados coletivos capazes de elevar a miséria a uma estranha positividade, à invenção de um povo’.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p. 114)

“O Povo, que falta. ‘Os povos não preexistem. De certa maneira, o povo é o que falta’. Dá-me um povo! Eis o que falta a arte e ao pensamento, diz Deleuze, novos povoamentos. Um povo é uma minoria que não tem modelo, é um devir, um processo. O povo é sempre uma minoria criadora, povoamentos, inúmeros povos dentro de um mesmo território.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p.115 )

“O que nos interessa no cinema de Glauber e no pensamento de Deleuze, é a possibilidade de uma fabulação comum ao povo e à arte. ‘O artista não pode senão apelar para o um povo, ele tem a necessidade dele no mais profundo dee seu empreendimento. Mas quando um povo se cria, é pelos seus próprios meios, mas de maneira a reencontrar algo da arte ou de maneira que a arte encontre o que lhe faltava. Há uma fabulação comum ao povo e à arte’.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p.115 )

“A impossibilidade de se viver no intolerável de cada sociedade leva à produção de enunciados coletivos capazes de elevar esse intolerável a uma estranha positividade. Estética da fome, estética da violência, diria Glauber.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p.115 )

“Não supor um povo, mas contribuir para a sua invenção. ‘Tudo se passa como se o cinema político moderno não se constituísse mais de sobre uma possibilidade de uma evolução e de revolução como o cinema clássico, mas sobre impossibilidades’.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p.115 )

“A pedagogia da violência em Glauber traz um sentido ativo para a dor, um sentido externo, como em Nietzsche. ‘A dor não é argumento contra a vida, mas ao contrário um excitante da vida (…), um argumento em seu favor. Ver sofrer ou mesmo infligir o sofrimento é uma estrtura da vida como vida ativa’ (Deleuze). Pedagogia da dor e da violência em Glauber que é o primeiro momento da constituição de um povo, de fabulação.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p. 116)

“Não há mais sentido, só imagens. E é através das imagens que os novos marginalizados ferem e violentam o mundo que os rejeitou.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p.119 )

Da fome à falta de razão – Arnaldo Carrilho

“O ponto crucial, o essencial da vida e obra de Glauber identifica-se com esta militância: uma ação em favor da arte revolucionária.” ( CARRILHO, Arnaldo. O discurso (geo)político de Glauber. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: Papirus, 1996 p.236)

“No ritmo desordenado dessa trajetória artístico-filosófica, mesclam-se as destruições e as reconstruções, as antinomias e as ambigüidades; ela comporta tanto afirmação quanto ironia de si, tanto dúvida quanto imitação, e níveis metafísicos e existenciais.”

( CARRILHO, Arnaldo. O discurso (geo)político de Glauber. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: Papirus, 1996 p.236)

“Será sempre necessário apelar para o conjunto das opinioes da teoria política, da psicanálise, da antropologia, da lingüística, ao opinar sobre o fenômeno Glauber Rocha, pois sua lógica interna atrai curiosidades inter-disciplinares. As rupturas que ele causou, em níveis afetivos ideológicos e outros, nos diversos setores da intelligentsia, da opinião pública e da sociedade em seu tempo, representam, como um desafio, as bases de uma reflexão para toda tentativa de esclarecer nossas razoes de viver e sobreviver.”

( CARRILHO, Arnaldo. O discurso (geo)político de Glauber. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: Papirus, 1996 p.237)

“Glauber é produto cultural desse hiato histórico dos ‘anos JK’, durante os quais ele conserva sempre um radicalismo crítico de natureza subversiva.” ( CARRILHO, Arnaldo. O discurso (geo)político de Glauber. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: Papirus, 1996 p.237)

“A obra cinematográfica de Glauber apresenta inúmeras originalidades, sendo a maor o fato de ela representar a ilustração visual de seu pensamento. Conseguiu, mais do que qualquer outro cineasta do Terceiro Mundo, inscrever-se na lista muito restrita dos artistas mais revolucionários.” ( CARRILHO, Arnaldo. O discurso (geo)político de Glauber. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: Papirus, 1996 p.238)

“Na verdade, cada um dos seus filmes é um ato de provocação, inclusive em relação aos anteriores.” ( CARRILHO, Arnaldo. O discurso (geo)político de Glauber. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: Papirus, 1996 p.238)

“O importante é que Glauber foi um mestre na política da arte e que a realidade insuportável de sua morte obriga a reconsiderar, com mais atenção, todo o frágil equilíbrio cuja a tensão ele insistia em manter, como se ele próprio fosse campo de sua dialética.” ( CARRILHO, Arnaldo. O discurso (geo)político de Glauber. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: Papirus, 1996 p.239)

“Ele se indispôs com os bem pensantes a partir do momento em que entreviu uma luz tênue, imperceptível aos outros, indicando uma saída para o seu país. A atitude que ele preconizava era a da anti-ruptura. E, por esse discruso, foi imediatamente desprezados pelos intelectuais brasileiros e, em conseqüência, pelos europeus por… contra-alienação.” ( CARRILHO, Arnaldo. O discurso (geo)político de Glauber. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: Papirus, 1996 p.239)

“A especificidade do cinema novo derivaria de uma não compreensão recíproca entre as culturas civilizadas e primitivas, cuja origem, segundo ele, consistiria na ‘ilusória paixão pela verdade’, pertencente às primeiras, que qualifica de ‘mito infiltrado na retórica latina’. Em outros termos, a cultura dita civilizada, não teria os meios para analisar a verdade da arte brasileira, porque o mundo da opulência não conhece a violência e a fome. Assim, o ‘velho humanismo colonizador’ não poderia compreender que ‘esta violência é penetrada de um amor de ação e de transformação, ela não é um amor de complacência ou de contemplação. A partir de então, os únicos pontos de contato entre o cinema novo e o cinema mundial, se limitariam ‘a suas origens técnicas, industriais e artísticas’. Em suma, conclui, só um pensamento enfraquecido pela fome, em delírio, poderia explicar o Cinema Novo.” ( CARRILHO, Arnaldo. O discurso (geo)político de Glauber. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: Papirus, 1996 p.241)

“O importante nesse texto (Eztetyka do Sonho) é que, com ele, Glauber separe-se: a) da razão dominante os das tipologias norte-americanas, soviéticas, euro-ocidentais ou chinesas; b) do cinema ‘engajado’ de origem libertário-terceiro-mundista do tipo de La hora de los hornos; c) do próprio cinemanovismo sociestatizante. Aliás, ele abandonou a fome como motor exclusivo da história e o revolucionarismo extremado. Ele define a revolução nesse texto como o produto de uma iluminação mágica, de origem mística, e desemboca brutalmente no sonho, citando os delírios borgesianos como um dos exemplos do verdadeiro caminho da arte, o mais interessante para o mundo dos homens.” ( CARRILHO, Arnaldo. O discurso (geo)político de Glauber. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: Papirus, 1996 p.242-243)

“(…) a falta de razão era o centro da órbita na qual desabrochava a criação artístico-revolucionária.” ( CARRILHO, Arnaldo. O discurso (geo)político de Glauber. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: Papirus, 1996 p.243)

Aconteceu evidentemente um caso de descontinuidade foucaultiana. Aliás, em Terra em Transe, em si já cheio de descontinuidades, anunciava um tipo de montagem que, já experimentado em certos momentos de Deus e o Diabo, daria em seguida impulso a todos os seus outros filmes, a exceção de Dragão da maldade, para explodir finalmente em A idade da terra, que pode ser projetado a partir de qualquer momento do filme, podendo repetir as cenas e corta-las a vontade. (…) Glauber inicialmente chamou esse processo de ‘montagem de preciitações’ para depois rebatiza-lo de ‘montagem nuclear’.” ( CARRILHO, Arnaldo. O discurso (geo)político de Glauber. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: Papirus, 1996 p.243)

“(…) o engajamento de Glauber, é fundamentalmente uma questão de opção pelo cinema de poesia, no sentido pasoliniano da expressão. Os filmes de Glauber estruturam-se na vanguarda. Mas que vanguarda? Para tirar o rótulo do intelectualismo da esquerda burguesa, sua vanguarda era a do subdesenvolvimento. No entando, ele não a aplicava ao subdesenvolvimento como os modernistas de 1922, ou os arquitetos corbusierianos dos anos 30. A poesia de Glauber era formalmente estruturada pelo subdesenvolvimento – o delírio da fome – gerador da violência amorosa da ‘regeneração’, e, em seguida, pelo sonho libertador inspirado por uma carga mística.” ( CARRILHO, Arnaldo. O discurso (geo)político de Glauber. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: Papirus, 1996 p.243)

Eztetyka da Fome – Glauber Rocha

Foto-Glauber-Blog

Aqui, o fichamento do primeiro manifesto do Cinema Novo, escrito por Glauber Rocha em 1965. Nele, são apresentadas os principais ideais políticos e estéticos a serem explorados por Glauber ao longo de toda a sua filmografia.

“Assim, enquanto a América Latina lamenta suas misérias gerais, o interlocutor estrangeiro cultiva o sabor dessa miséria, não como sintoma trágico, mas apenas como dado formal em seu campo de interesse. Nem o latino comunica sua verdadeira miséria ao homem civilizado nem o homem civilizado compreende verdadeiramente a miséria do latino.” ( ROCHA, G., http://www.tempoglauber.com.br/t_estetica.html, acessado em 21/08/2009)

“A América Latina permanece colônia e o que diferencia o colonialismo de ontem do atual é apenas a forma mais aprimorada do colonizador.” ( ROCHA, G.,http://www.tempoglauber.com.br/t_estetica.html, acessado em 21/08/2009)

“Para o observador europeu, os processos de criação artística do mundo subdesenvolvido só o interessam na medida que satisfazem sua nostalgia do primitivismo, e este primitivismo se apresenta híbrido, disfarçado sob tardias heranças do mundo civilizado, mal compreendidas porque impostas pelo condicionamento colonialista.” ( ROCHA, G., http://www.tempoglauber.com.br/t_estetica.html, acessado em 21/08/2009)
 

“(…) nos vemos frustrados, apenas nos limites inferiores do colonizador: e se ele nos compreende, então, não é pela lucidez de nosso diálogo mas pelo humanitarismo que nossa informação lhe inspira. Mais uma vez o paternalismo é o método de compreensão para uma linguagem de lágrimas ou de sofrimento.” ( ROCHA, G., http://www.tempoglauber.com.br/t_estetica.html, acessado em 21/08/2009)
 

“A fome latina, por isto, não é somente um sintoma alarmante: é o nervo de sua própria sociedade. Aí reside a trágica originalidade do Cinema Novo diante do cinema mundial: nossa originalidade é a nossa fome e nossa maior miséria é que esta fome, sendo sentida, não é compreendida.” ( ROCHA, G., http://www.tempoglauber.com.br/t_estetica.html, acessado em 21/08/2009)

“(…) personagens comendo terra, personagens comendo raízes, personagens roubando para comer, personagens matando para comer, personagens fugindo para comer, personagens sujas, feias, descarnadas, morando em casas sujas, feias, escuras: foi esta galeria de famintos que identificou o Cinema Novo com o miserabilismo tão condenado pelo Governo, pela crítica a serviço dos interesses antinacionais pelos produtores e pelo público – este último não suportando as imagens da própria miséria. Este miserabilismo do Cinema Novo opõe-se à tendência do digestivo, preconizada pelo crítico-mor da Guanabara, Carlos Lacerda: filmes de gente rica, em casas bonitas, andando em carros de luxo: filmes alegres, cômicos, rápidos, sem mensagens, de objetivos puramente industriais.Estes são os filmes que se opõem à fome, como se, na estufa e nos apartamentos de luxo, os cineastas pudessem esconder a miséria moral de uma burguesia indefinida e frágil ou se mesmo os próprios materiais técnicos e cenográficos pudessem esconder a fome que está enraizada na própria incivilização.” ( ROCHA, G., http://www.tempoglauber.com.br/t_estetica.html, acessado em 21/08/2009)

“O que fez do Cinema Novo um fenômeno de importância internacional foi justamente seu alto nível de compromisso com a verdade; foi seu próprio miserabilismo, que, antes escrito pela literatura de 30, foi agora fotografado pelo cinema de 60; e, se antes era escrito como denúncia social, hoje passou a ser discutido como problema político.”

“Assim, somente uma cultura da fome, minando suas próprias estruturas, pode superar-se qualitativamente: a mais nobre manifestação cultural da fome é a violência. A mendicância, tradição que se implantou com a redentora piedade colonialista, tem sido uma das causadoras de mistificação política e de ufanista mentira cultural.” ( ROCHA, G., http://www.tempoglauber.com.br/t_estetica.html, acessado em 21/08/2009) 

“Nós compreendemos esta fome que o europeu e o brasileiro na maioria não entende. Para o europeu é um estranho surrealismo tropical. Para o brasileiro é uma vergonha nacional. Ele não come, mas tem vergonha de dizer isto; e, sobretudo, não sabe de onde vem esta fome. Sabemos nós – que fizemos estes filmes feios e tristes, estes filmes gritados e desesperados onde nem sempre a razão falou mais alto – que a fome não será curada pelos planejamentos de gabinete e que os remendos do tecnicolor não escondem mas agravam seus tumores.” ( ROCHA, G., http://www.tempoglauber.com.br/t_estetica.html, acessado em 21/08/2009)

“(…) os relatórios oficiais da fome pedem dinheiro aos países colonialistas com o fito de construir escolas sem criar professores, de construir casas sem dar trabalho, de ensinar ofício sem ensinar o analfabeto. A diplomacia pede, os economistas pedem, a política pede: o Cinema Novo, no campo internacional, nada pediu: impôs-se a violência de suas imagens e sons em vinte e dois festivais internacionais.
Pelo Cinema Novo: o comportamento exato de um faminto é a violência, e a violência de um faminto não é primitivismo.” ( ROCHA, G., http://www.tempoglauber.com.br/t_estetica.html, acessado em 21/08/2009)

“Do Cinema Novo: uma estética da violência antes de ser primitiva e revolucionária, eis aí o ponto inicial para que o colonizador compreenda a existência do colonizado: somente conscientizando sua possibilidade única, a violência, o colonizador pode compreender, pelo horror, a força da cultura que ele explora. Enquanto não ergue as armas o colonizado é um escravo: foi preciso um primeiro policial morto para o francês perceber um argelino.
De uma moral: essa violência, contudo, não está incorporada ao ódio, como também não diríamos que está ligada ao velho humanismo colonizador. O amor que esta violência encerra é tão brutal quanto a própria violência, porque não é um amor de complacência ou de contemplação mas um amor de ação e transformação.” ( ROCHA, G., http://www.tempoglauber.com.br/t_estetica.html, acessado em 21/08/2009)

“O Cinema Novo, por isto, não fez melodramas: as mulheres do Cinema Novo sempre foram seres em busca de uma saída possível para o amor, dada a impossibilidade de amar com fome.” ( ROCHA, G., http://www.tempoglauber.com.br/t_estetica.html, acessado em 21/08/2009)

“Já passou o tempo em que o Cinema Novo precisava explicar-se para existir: o Cinema Novo necessita processar-se para que se explique à medida que nossa realidade seja mais discernível à luz de pensamentos que não estejam debilitados ou delirantes pela fome.
O Cinema Novo não pode desenvolver-se efetivamente enquanto permanecer marginal ao processo econômico e cultural do continente latino-americano.” ( ROCHA, G., http://www.tempoglauber.com.br/t_estetica.html, acessado em 21/08/2009)

“Onde houver um cineasta, de qualquer idade ou de qualquer procedência, pronto a pôr seu cinema e sua profissão a serviço das causas importantes de seu tempo, aí haverá um germe do Cinema Novo. A definição é esta e por esta definição o Cinema Novo se marginaliza da indústria porque o compromisso do Cinema Industrial é com a mentira e com a exploração.”      ( ROCHA, G., http://www.tempoglauber.com.br/t_estetica.html, acessado em 21/08/2009)

“Não temos por isto maiores pontos de contato com o cinema mundial. O Cinema Novo é um projeto que se realiza na política da fome, e sofre, por isto mesmo, todas as fraquezas conseqüentes da sua existência. conseqüentes da sua existência.” ( ROCHA, G., http://www.tempoglauber.com.br/t_estetica.html, acessado em 21/08/2009)