Relações de Gênero, Violência e Práticas esportivas e de Lazer Considerada um problema de saúde pública, a violência impacta negativamente na saúde física e mental de mulheres submetidas a maus tratos. Atribuída às desigualdades de gênero, esse tipo de violência tem se intensificado em algumas comunidades, como é apontado por dados censitários e pelos “mapas da violência” (WAISELFISZ, 2015; FÓRUM BSP, 2023). A lei “Maria da Penha”, ao criar mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar, ressalta textualmente o compromisso em assegurar as condições para o exercício efetivo dos seus direitos, entre os quais estão: “o esporte e o Lazer” (BRASIL, 2006). Contudo, estudos como os de Silva, Borges e Amaral (2015) e Costa, Mascarenhas e Wiggers (2011) indicam que as políticas públicas de Esporte e Lazer, no Brasil, muitas vezes, têm priorizado, em detrimento das mulheres, jovens do sexo masculino pertencentes às áreas de vulnerabilidade social. De modo semelhante, Goellner (2011), Carmo (2000) e Marcelino (2000) têm apontado desigualdade de acesso e permanência de homens e mulheres aos equipamentos públicos e às práticas de esporte e lazer. Esse fenômeno, entretanto, não parece ser resultado exclusivo de políticas estatais, mas de um processo atravessado por marcadores de gênero cujos efeitos se manifestam na educação de sujeitos em diversas instâncias da sociedade. Neste sentido, estudos como os de Dornelles e Fraga (2009); Dornelles (2007), Uchoga e Altman (2016) apontam que a escola tem proporcionado diferentes modos de meninos e meninas vivenciam e se apropriam práticas corporais, bem como de espaços destinados às atividades de divertimento. Tais elementos, entretanto, parecem mais evidentes em regiões de alto índice de violência contra as mulheres, que, como sinalizam os estudos de Muller (2020), Cordeiro (2018), Steffen (2020) e Conceição (2022) apresentam um contexto cujos atravessamentos de gênero conduzem as meninas e mulheres para as instâncias da vida privada, enquanto aos homens se reserva o direito à esfera pública. Neste sentido, este projeto de pesquisa objetiva analisar as relações de gênero nas práticas corporais e de Lazer em regiões de alta incidência de denúncias de violência vivida por mulheres, a fim de produzir subsídios para elaboração de políticas para mulheres da região investigada. Metodologicamente este estudo toma a escola e os equipamentos públicos de Lazer (praças e parques) como “locus” privilegiado de produção do material empírico. Nestes contextos é possível investigar os atravessamentos de gênero nos processos de apropriação dos equipamentos de Lazer, bem como no acesso e permanência às práticas corporais por parte de distintas identidades (homens, meninos, mulheres e meninas cisgênero, assim como sujeitos transgênero e não binários). Estruturalmente, a metodologia está organizada em 3 Eixos: Eixo 1) Quantitativo: Identificação da região a ser investigada a partir da produção do mapa das denúncias de violência vivida por mulheres no município de Porto Alegre; Eixo 2) Qualitativo 1: Estudo sobre os atravessamentos de gênero nas práticas corporais e de Lazer. Este eixo está dividido em dois subeixos: a) Pesquisa Documental, cujo foco são as diretrizes para as possíveis políticas sociais de esporte e lazer para a região investigada; b) Apropriação da dinâmica social e compreensão/análise dos atravessamentos de gênero nas práticas corporais e de Lazer, cujas ferramentas de coleta de dados serão: “grupos focais”; ”entrevistas semiestruturadas” e “observações com registro em diário de campo”. A análise do material empírico se dará a partir de construção de categorias analíticas cujos procedimentos serão inspirados na Análise Temática (BRAUN, CLARKE, RANCE, 2014; MINAYO, 2010). Eixo 3) Ações junto à Comunidade: Estão previstos vínculos da pesquisa com o Ensino e Extensão, parcerias com as Escolas e Associações de Moradores, a fim de divulgar os resultados da pesquisa, bem como, pensar de modo conjunto em estratégias de enfrentamento ao problema. 

Relações de Gênero e Violência em Escola

Este projeto de pesquisa objetiva analisar os modos como as relações de gênero se estabelecem nas dinâmicas de escolas situadas em regiões de alto índice de violência vivida por mulheres do município de Novo Hamburgo – RS, cidade com maior taxa de Feminicídio Tentado e Consumado entre os dez municípios mais populosos do Rio Grande do Sul.

A formulação deste objetivo parte de dois pressupostos:

1) a incidência de violência contra as mulheres atinge de modos diferentes distintas regiões das cidades.

2) as características das comunidades atravessam e coproduzem as práticas, as condutas e as dinâmicas das escolas.

Metodologicamente este estudo de abordagem “Qualitativo-Quantitativa” tem seus procedimentos organizados em:

1º) Eixo quantitativo – Identificação das escolas a serem investigadas a partir da produção dos mapas da violência do município. Esse processo se dará por meio do registro dos endereços das ocorrências de violência contra as mulheres que subsidiarão a análise de Mapas de Kernel, produzidos por meio do Software de georreferenciamento ArcGIS;

2º) Eixo qualitativo – Estudo sobre as relações de Gênero na dinâmica das escolas cujos dados serão coletados por meio de observações de campo, entrevistas semiestruturadas e grupos focais. A análise do material empírico se dará por meio da categorização dos dados de acordo com os referenciais provenientes da Análise Temática (BRAUN, CLARKE, RANCE, 2014; MINAYO, 2010).

3º) Eixo de ações junto à Comunidade escolar – A partir dos esforços empreendidos na pesquisa, busca-se a compreensão das dinâmicas locais, a problematização e a construção de estratégias de enfrentamento às violências de gênero com a comunidade.