Guaracira Gouvêa – Homenagem
Por Rosa Maria Bueno Fischer (UFRGS)*

Desde o dia 16 de junho do ano passado, ficamos um pouco órfãos na ANPED, especialmente no nosso GT de Educação e Comunicação. Deixamos de conviver com nossa querida Guaracira. Figura inconfundível, Guaracira significou para nosso GT a convivência com alguém que exercia cotidianamente a multiplicidade do pensamento.
Pensar o tempo e os museus, discutir a relação entre cultura visual e ensino das ciências, pesquisar as mídias na formação docente – esses eram alguns de seus temas queridos. Guaracira investigava esses temas com a garra de alguém que exercitava cotidianamente a arte da conversação, da escuta e da luta política. Que falta ela nos faz, nestes anos tão terríveis para a ciência e a educação. Neste preciso momento, em nosso País.
Os mais antigos deste GT certamente recordam da presença de Guaracira nas intermináveis assembleias gerais da ANPED. Ela sempre tinha uma reivindicação especial, como incentivadora (e muitas vezes redatora) de moções em favor de novas possibilidades para o GT de Educação e Comunicação, e mais amplamente para todos os GTs. Imagino-a hoje, diante de tantos impasses, de tantos entraves para a pesquisa e a ciência.
Seu olhar atento para o ensino básico tinha as marcas da complexidade do pensamento. Questões sobre a vida cultural das comunidades, sobre os museus, sobre a teoria da imagem (no cruzamento com o ensino de ciências) ocupavam suas orientações (foram 32 dissertações de mestrado e 7 de doutorado), seus artigos, suas produções para livros.
Guaracira era um misto de doçura e garra, ternura e força. Em suma, ela era presença. Jamais ficávamos imunes à sua passagem. Nos últimos anos, o corpo um pouco frágil, Guaracira não deixou de atuar, de vir às reuniões da ANPED, de se fazer presente. Talvez uma das imagens que mais me comove, ao lembrar dela, era a de sua discreta entrada nas salas do nosso GT. Qualquer pessoa que apresentasse seu trabalho, por mais simples que fosse, merecia a atenção, as palavras e as indagações de Guaracira.
Tive o prazer de conviver brevemente com ela, nos inesquecíveis Colóquios de Pesquisa em Educação e Mídia, nas nossas parcerias entre a UFRGS e a UNIRIO. As mesas com Rosália Duarte e Adriana Hofmann permanecem vivas na minha memória. Ela me fazia os convites para participar, sempre com a simplicidade que lhe era peculiar; ao mesmo tempo, com um respeito inigualável ao pensamento do outro, àquele modo de pesquisar que nem sempre coincidia com o dela.
Conversávamos, por exemplo, sobre um tema que lhe era caro, as inúmeras confusões entre ciência, técnica e tecnologia – noções tão amplas, que ela trazia para o debate com sua voz em tom suave, seus cabelos encaracolados, seus olhos claros sempre atentos e curiosos, receptivos à alteridade.
Somos herdeiras de Guaracira. Herdeiras naquele sentido de que fala Jacques Derrida: nós nos apropriamos e recriamos o que lemos dela, sobre as relações entre ensino formal e não formal, sobre o trânsito entre nossas ocupações com a TV, os vídeos, as redes sociais, o cinema, a fotografia e a produção científica para a educação.
Um dos temas queridos de Guaracira era justamente o das mediações. Pois ela foi uma perfeita mediadora, uma batalhadora, uma mulher que se colocava no “entre”, como ponte, convocando, interpelando o outro para fazer-se melhor, desde que sua ação significasse fazer o outro também melhor.
Penso que Guaracira soube praticar o que viviam os filósofos antigos estudados por Michel Foucault. Estou falando na prática do cuidado consigo (que significa também o cuidado com a cidade, com os pares, com o social, com o que é da ordem do público, da pólis). Quer maior cuidado consigo e com o outro do que, mesmo com tantas limitações físicas, estar presente? Fazer-se presente? Isso, na filosofia antiga, tinha a ver com fazer de si mesmo uma obra de arte. Tinha a ver com o que Foucault chamou de “coragem da verdade”.
Numa sociedade em que, muitas vezes, a arte se fixa em objetos, em coisas, em artefatos, Guaracira esteve ocupada, sim, com todos esses elementos, mas foi além. Seus olhos miúdos, seus cabelos já brancos, sua voz em tom mais baixo eram um exemplo de dignidade. Ela mesma se fez arte, arte de si mesma.
Descobri há pouco tempo, quando fui preparar esta homenagem, que nós fomos orientadas pela mesma pesquisadora, a filósofa Zilah Xavier de Almeida Borges, no IESAE – Instituto de Estudos Avançados em Educação , da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro. Possivelmente tenhamos nos cruzado, sem o saber, nos corredores da FGV, no prédio rosa da Praia de Botafogo. Enquanto eu pesquisava o tema das mitologias da TV, pelo olhar de crianças e adolescentes de escolas públicas do Rio, Guaracira estudava o tema das pedagogias científicas. Era o início dos anos 1980.
Anos depois nos encontramos na ANPED e descobrimos novas afinidades. Afinidades na diferença – como convém a uma amizade, que acontece para além de um encontro de duas pessoas que se querem bem e são íntimas. Não tive exatamente esse privilégio. Mas aprendi a gostar daquela mulher e a perceber minha relação com ela a partir da diferença. Uma diferença que nos aproximava. E o que é a amizade, senão um encontro em que acolhemos o outro e, ao mesmo tempo, o interpelamos justamente na sua radical diferença? Encontros como esses fazem parte da constituição de nós mesmos como objetos de arte, como modos artistas de existência, para além das redes de saber e poder – mas atentos guerreiramente a essas redes e ao que nelas prolifera como desumanização e autoritarismo.
Faço aqui homenagem a quem nos deixou. Por paradoxal que pareça, invoco o tema da natalidade, de Hannah Arendt. Para a filósofa, o agir político, a participação nos assuntos humanos, isso pode e deve ser prazeroso, tanto quanto o nascimento de uma nova vida, a alegria de começar de novo. Guaracira, entrando cuidadosamente, silenciosa, discreta, nas salas de reuniões do nosso GT, significou para nós esse “amor mundi”, amor às coisas do mundo. Significou a delicadeza e o prazer de estarmos vivas, de nos fazermos presentes.
* Texto apresentado em sessão de homenagem organizada pelo GT16-Educação e Comunicação durante a 40ª Reunião Nacional da Anped.
