Lygia Fagundes Telles. Autora que versou sobre diversos temas ao longo dos seus mais de 80 anos de produção ininterrupta, deixando um legado com mais de 20 livros de contos e quatro romances. A bem da verdade, transitou com facilidade e maestria entre os mais diversos gêneros literários, mas foi no conto onde encontrou uma senda para seguir.
Faleceu no último domingo (3) deixando um legado ainda imensurável, e não só para a literatura propriamente dita, mas para os direitos humanos em amplo sentido. O Humanista, portanto, não poderia deixar de refletir sobre a obra da romancista, da contista… da mulher. A “dama da literatura brasileira”.
Considerada por muitos críticos como uma das maiores escritoras da história brasileira, a autora nasceu em 1918, um tempo em que a experiência feminina ainda estava restrita ao labor do lar – não havendo possibilidades fora da vida doméstica e familiar. Nesse sentido, a ocupante da cadeira 16 da ABL (Academia Brasileira de Letras) publicou pela primeira vez em 1938 – quando ainda adolescente – uma coletânea de contos no livro intitulado de Porão e Sobrado (1938), que pela própria decisão da autora não seria reeditado.
Poucas pessoas são capazes de terem seus nomes substituídos por antonomásias tão notáveis, Lygia foi uma delas, conhecida como a “dama da literatura brasileira”, a autora publica seu segundo livro e primeiro romance em 1954 – Ciranda de Pedra (1954). À frente de seu tempo a obra lança mão de temas como lesbianismo e suicídio, num livro que segundo Antonio Candido, crítico literário e já aposentado professor da Faculdade de Letras da USP, corresponde a um dos grandes marcos da trajetória da autora.
Foi na década seguinte, durante a ditadura militar, que Lygia publicou outros dois livros – Verão no Aquário (1964) e As Meninas (1973). Este último, foi laureado com o Prêmio Jabuti de 1973 e é tido como um dos grandes clássicos da ficção brasileira. A obra conta a história de três mulheres numa estrutura de monólogo e possui um caráter subversivo: pautando temas como a censura e tortura.
“Escrevi que toda minha vida convergia para ele e que era só dele que iria se irradiar de hoje em diante. Quero te dizer também que nós, as criaturas humanas, vivemos muito (ou deixamos de viver) em função das imaginações geradas pelo nosso medo. Imaginamos consequências, censuras, sofrimentos que talvez não venham nunca e assim fugimos ao que é mais vital, mais profundo, mais vivo. A verdade, meu querido, é que a vida, o mundo dobra-se sempre às nossas decisões. Não nos esqueçamos das cicatrizes feitas pela morte. Nossa plenitude, eis o que importa. Elaboremos em nós as forças que nos farão plenos e verdadeiros.”(As Meninas, página 69).
Seu último romance, “As Horas Nuas”, foi publicado em 1989; e sua última coletânea de contos publicada em 2012 – que recebeu o título de “Um Coração Ardente”. A dama da literatura brasileira, recebeu ainda outra alcunha em decorrência de seu estilo – dama das filigranas literárias – por conta das tessituras ou teares narrativos presentes em seus contos. Há que se notar ainda que se faz impossível falar de Lygia Fagundes Telles sem apontar o forte teor ativista de suas obras. Não somente em As Meninas e Ciranda de Pedra a autora aponta para esse tema, mas antes mesmo desses dois trabalhos, como em “A Confissão de Leontina” (1948), a escritora já apresentava a história de uma mulher que sofria diversas violações de direitos humanos.
Lygia Fagundes Telles recebeu ao longo de sua vida diversas premiações: foram três Prêmios Jabuti (1966, 1974 e 2001) e o Prêmio Camões (2005), maior láurea literária da Língua Portuguesa.



