No Século 20, as cidades brasileiras foram planejadas privilegiando veículos motorizados. Porém, mais recentemente, aumenta cada vez mais o número de pessoas que vêem na bicicleta o meio ideal para fazer o deslocamento pela cidade. O Humanista foi atualizar as condições para quem opta por esse modal de transporte ainda pouco utilizado frente ao seu potencial, e com pouco espaços para o uso, também considerando seu potencial.
Segundo pesquisa da Multiplicidade Mobilidade Urbana existe uma frota de 33 milhões de bicicletas no Brasil. Ao mesmo tempo em que aumenta a frota, as cidades precisam se adaptar ao meio de transporte. Em 2021, houve um aumento de 30% no número de acidentes envolvendo ciclistas no país, o que demonstra a necessidade de um repensamento do planejamento viário das grandes cidades.
Pelo mundo, diversas cidades estão planejando suas estruturas viárias para beneficiar pedestres e ciclistas e inibindo o transporte de veículos motorizados, como Copenhague, na Dinamarca, em que metade dos habitantes deslocam-se diariamente de bicicleta para ir trabalhar ou estudar, e Amsterdã, na Holanda, em que quase 60% dos moradores da cidade utilizam esse meio de transporte para se locomover no dia a dia.
As bicicletas são vistas por especialistas como um meio de transporte sustentável e uma alternativa ao trânsito caótico das grandes cidades. O professor da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) Julio Celso Borello Vargas, doutor em Engenharia de Transportes, explica as vantagens: “Evidências mostram que o modelo ‘uma pessoa, um automóvel’, que é fundamentalmente norte-americano, não é sustentável. O aumento do uso de bicicletas e a diminuição do uso do veículo individual traz benefícios para o meio ambiente e para a saúde das pessoas, além da economia”.
O professor ressalta também que lojas com espaço de acesso a ciclistas tendem a atrair mais clientes: “Em algumas ruas comerciais, se for possibilitado que o consumidor vá a pé ou de bicicleta, a tendência é que as vendas sejam maiores”.
Como é pedalar na Capital gaúcha
Hoje, Porto Alegre conta com 68 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas, com planejamento de chegar a 100 quilômetros até 2024. Porém, a estrutura ainda tem problemas. A graduanda em Nutrição, Alice de Carvalho Souza, vive na zona norte de Porto Alegre e enfrenta dificuldades com a bicicleta no seu dia a dia, “faz muita falta a existência de ciclovias nas grandes faixas, como a Assis Brasil e Sertório, isso dificulta muito o deslocamento”, conta a estudante.
O baixo número de vias para os ciclistas da zona norte fez com que a região tivesse, em 2021, o maior número de acidentes envolvendo bicicletas. Dos 253 casos, 76 ocorreram na zona norte.
A descontinuidade das faixas cicloviárias também é um entrave, “o ciclista transita na ciclofaixa da rua Lobo da Costa, mas depois que chega na avenida João Pessoa ele não sabe mais pra onde ir”, diz o professor Vargas.
O Secretário Municipal de Mobilidade Urbana de Porto Alegre, Adão de Castro Júnior, afirma que são pensadas soluções para o problema, “a intenção da gestão é promover a ligação dos pontos existentes e interligar as ciclovias com o sistema de transporte coletivo, fortalecendo o uso das bicicletas para deslocamento do cidadão ao trabalho, movimento que já vem acontecendo na cidade”, informa Júnior.
O psicólogo e músico Lucas Moreira, de 29 anos, mora no bairro Camaquã, em Porto Alegre, e trabalha em Canoas. Além de pedalar por lazer, ele também vai de bicicleta até a Estação Mercado do Trensurb, onde pega o metrô para o trabalho. No dia a dia pedalando, além da hostilidade do trânsito, ele enfrenta a falta de manutenção de diversos trechos,
“vejo muitos trechos da ciclovia da avenida Ipiranga como inadequados a nível de segurança, com pavimento extremamente irregular, falta de grade de proteção e alguns postes ao longo do trecho que diminuem o espaço de passagem para apenas uma bicicleta em ambos os sentidos, o que pode vir a ocasionar acidentes sérios”.
Entre janeiro de 2021 e março de 2022, a Prefeitura de Porto Alegre, por meio da Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana, concluiu mais de 10 quilômetros de ciclovias, as obras tiveram investimento de aproximadamente R$ 30 milhões entre contrapartidas de empresas e recursos próprios do município.
Na região central, a execução da implantação de algumas faixas gerou muitas reclamações entre os ciclistas da Capital. Na rua Lopo Gonçalves com a General Lima e Silva, na Cidade Baixa, a ciclofaixa instalada traz insegurança a ciclistas e motoristas, por estar localizada entre a área de estacionamento dos carros e a faixa de rodagem.
Além disso, a falta de prioridades do planejamento cicloviário faz os ciclistas questionarem as implantações recentes. “Estão sendo contemplados trechos aleatórios que começam do nada e terminam em lugar nenhum, não sendo essas vias e faixas implantadas em locais relevantes para a maior parte da população”, diz Lucas.
Julio critica a lentidão da prefeitura em investir nos espaços cicloviários, “não existe uma orientação profunda de mudar padrão de mobilidade, até porque a orientação principal da atual administração e da anterior, são vinculadas ao eleitorado da classe média motorizada. Então, as políticas de sustentabilidade e mobilidade acabam sendo tímidas e paliativas”.
O secretário afirma que, além de novos trechos cicloviários, está sendo planejada a instalação de novas estações e aumento da oferta de bicicletas compartilhadas na cidade. “A instalação das novas estações, a partir da habilitação das empresas candidatas, deve ocorrer até o final do ano. Estamos prevendo ainda licitar a implantação de bicicletários fechados nos terminais e estações do Trensurb, mediante um dos financiamentos que estamos apresentando projetos”, revela o secretário.
O futuro
Alice acredita que a bicicleta é o veículo do futuro, por ser menos poluente, além de prática para os usuários, mas cobra infraestrutura: “O ideal era ter ciclovias em todas as grandes vias, auxiliaria muito no trânsito pois a população teria a opção de se locomover de bicicleta.
As bicicletas são vistas como sinônimo de sustentabilidade. O pesquisador Julio Vargas acredita que o futuro da mobilidade urbana se baseia na multimodalidade: “Mesmo com carro elétrico. Existe um consenso no mundo de que tem que se reduzir a dependência do automóvel privado e individual, mas aí tem que ser oferecer outras opções”.
O secretário Castro Júnior ressalta o potencial cicloviário de Porto Alegre: “Existem diversas regiões que concentram comércios e serviços e isso possibilita que os deslocamentos sejam mais curtos. Esses fatores nos fazem acreditar que é possível fazer com que Porto Alegre seja uma cidade reconhecida por termos ótimas condições para se pedalar”, conclui.




