A madrugada de 27 de janeiro de 2013 virou uma noite sem fim. O incêndio da boate Kiss, em Santa Maria, região central do Rio Grande do Sul, deixou 242 pessoas mortas – a maioria muito jovens – e 636 sobreviventes. Uma das maiores tragédias da história do Brasil completa 10 anos nesta sexta-feira (27) sem que um único responsável tenha sido punido em definitivo. E é justamente a luta incessante de sobreviventes e familiares e amigos das vítimas por justiça o fio condutor da minissérie Todo dia a mesma noite, disponível na Netflix desde a última quarta (25). O Humanista assistiu e analisa a obra.
Inspirada no livro homônimo, de 2018, da jornalista Daniela Arbex, a minissérie de cinco episódios aborda a tragédia e seus desdobramentos. Escrita por Gustavo Lipsztein e dirigida por Júlia Rezende, que contou com a participação direta de Arbex, destaca a perspectiva dos pais das vítimas e dos sobreviventes sem sensacionalismo.
O incêndio é retratado apenas no primeiro episódio, funcionando como um ponto de partida da trama, que evita a representação do trauma de forma constante. A sensibilidade com que a tragédia é apresentada é um dos pontos positivos, evitando a armadilha de tornar a experiência em algo apelativo. Ainda que traga histórias e personagens reais, a opção foi por alterar os nomes das personagens retratadas, o que pode ser intepretado como um modo de preservar as vítimas.
A decisão de focar a narrativa nos familiares e sobreviventes é um acerto, permitindo ao público compreender um pouco (realmente pouco ao se considerar a dor imensurável causada pela tragédia) das dificuldades enfrentadas por essas pessoas. O trabalho dos atores, no geral, consegue emocionar, com Thelmo Fernandes (Sob Pressão), que interpreta o personagem Pedro, se sobressaindo em relação à média das atuações.
Mas a minissérie não deixa de ter problemas. O principal deles está ligado ao texto, especialmente nos diálogos: muitas vezes exacerbam os regionalismos e perdem a naturalidade. A decisão de não escalar atores gaúchos para a grande maioria dos papéis também pesa nesses momentos, mas é compreensível no ponto de vista de tentar distanciar a produção de quem viveu a tragédia na vida real.
Desde o anúncio de que “Todo dia a mesma noite” seria produzida com um roteiro de ficção – diferentemente da série documental Boate Kiss, a tragédia de Santa Maria (globoplay), que relembra jornalisticamente os fatos – surgiram críticas; seria apenas um meio de lucrar em cima da dor das vítimas. Para a autora do livro no qual a minissérie é inspirada, no entanto, em entrevista ao Splash, “não falar não é uma opção. Esquecer é negar a história. E que pai e que mãe quer que o seu filho seja esquecido? Pedir superação é uma total falta de empatia com a dor do outro”.
A AVTSM (Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria), principal organização de luta por justiça pelos direitos das vítimas, não se manifestou de forma contrária à produção, inclusive publicando fotos com membros da equipe em suas redes sociais. Ao longo de quase cinco horas (total dos cinco episódios), a minissérie cumpre sua principal função: expor a luta destes familiares e ser mais uma forma de clamar por justiça pelos 242 mortos e 636 sobreviventes. O texto que encerra a obra é certeiro ao evocar esse sentimento:
“O julgamento, marcado para 16 de março de 2020, foi adiado pelo início da pandemia da Covid-19 e só ocorreu em dezembro de 2021, quase nove anos depois do incêndio. O júri popular condenou os quatro réus a penas entre 19 e 22 anos de prisão. Nove meses depois, a 1ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul acolheu o recurso dos réus e anulou, por questões processuais, o julgamento de primeira instância. Por consequência, em janeiro de 2023, os réus estão em liberdade aguardando um novo julgamento. A data para um novo júri ainda não foi marcada. Uma década depois do incêndio, ninguém está preso. A Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria segue lutando para que todos os responsáveis não fiquem impunes. Por Memória Por Justiça Que Não Se Repita.”
*Lucas Vieira é editor de Audiovisual do Humanista.




