Meu Nome é Gal é uma imersão na singularidade de uma das maiores cantoras da música popular brasileira. Dirigido por Dandara Ferreira e Lô Politi, a cinebiografia narra o início da carreira de Gal Costa (1945-2022) entre 1966, quando chega ao Rio de Janeiro e se hospeda no Solar da Fossa, e 1971, marcado pelo show “FA-TAL – Gal a Todo Vapor”. A trama é ambientada no período de instauração e recrudescimento da ditadura militar (1964-1985) — um contexto histórico significativo para a evolução artística de Gal.
O Humanista assistiu e analisa a obra, destacando o protagonismo que Gal exerceu para uma geração de mulheres artistas que se inspiraram na sua coragem e rebeldia! Confira!
A todo o vapor
Gal é interpretada com sensibilidade pela atriz Sophie Charlotte, que expressa a transformação de uma jovem, tímida e insegura para a “Musa da Tropicália”. O longa destaca a importância das relações de Gal, especialmente os reencontros com seus amigos Dedé Gadelha (Camila Márdila), Caetano Veloso (Rodrigo Lelis), Gilberto Gil (Dan Ferreira) e Maria Bethânia (Dandara Ferreira), assim como outras figuras menos conhecidas publicamente, mas que foram essenciais para que Gal descobrisse a sua própria identidade. É o caso do produtor Guilherme Araújo (Luis Lobianco), que sugeriu à Maria da Graça Costa Penna Burgos, nome verdadeiro da cantora, aderir à persona artística Gal Costa.
Ainda que a artista tenha sido discreta em não politizar esse aspecto em vida, as roteiristas Lô Politi, Maíra Buhler e Mirna Nogueira cuidadosamente exploram a liberdade sexual de Gal por meio da inclusão de um romance com uma personagem fictícia chamada Lélia, vivida por Elen Clarice. No longa, todas as suas relações amorosas – tanto com homens quanto com mulheres – são tratadas com naturalidade, refletindo o movimento hippie incorporado pelo tropicalismo.


É a partir dessas relações que Gal vai se despindo de sua personalidade retraída e passa a se tornar um ícone da contracultura. Ao longo do filme, o regime autoritário contextualiza a postura mais combativa que Gal passa a adotar gradualmente. As decisões artísticas da cantora em meio ao clima sombrio de censura e repressão são simbolizadas por uma cena em que Gal reluta, de início, em cantar “Divino Maravilhoso”, canção composta por Caetano Veloso e Gilberto Gil, cujo refrão entoa: “É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte” por medo de uma possível perseguição.
É somente ao testemunhar seus amigos abrigando um rapaz que foi torturado pelos militares que Gal concorda em defender a música no IV Festival Internacional da Canção, tornando-a um hino de protesto. Em 1968, a prisão e o exílio de Caetano Veloso e Gilberto Gil fez com que Gal decidisse desafiar abertamente a ditadura com o mítico show “Fa-Tal – Gal a Todo Vapor”, realizado em 1971. Ao longo do arco narrativo, é possível acompanhar a transformação de uma jovem de 20 anos que começou timidamente cantando “Chega de Saudade” para se tornar uma artista que, por meio de sua voz inconfundível, adotou uma postura rebelde contra a ditadura militar.
Embora Gal tenha acompanhado o início das filmagens, infelizmente não pode assistir ao filme finalizado. A cantora morreu no dia 9 de novembro de 2022, aos 77 anos, cerca de um ano antes do lançamento de Meu Nome é Gal.



