Poucos meses antes do início das eleições municipais, o Rio Grande do Sul atravessou uma das maiores catástrofes climáticas de sua história. Na capital do Estado, a situação de calamidade bagunçou as pré-campanhas tanto do atual prefeito e candidato à reeleição, Sebastião Melo (MDB), quanto da oposição. A tendência é que eventos climáticos extremos se tornem uma pauta central no debate e nas estratégias de comunicação de todos que pleiteiam um lugar no executivo de Porto Alegre.
Buscando entender de que forma os acontecimentos recentes podem se traduzir em mudanças no posicionamento dos candidatos e nos rumos do processo eleitoral, o Humanista entrevistou Roberto Schmidt, cientista político, publicitário e especialista em comunicação pública e marketing eleitoral.
Schmidt avalia que, mesmo no contexto de críticas sofridas ao longo da gestão da crise causada pelas enchentes, o atual prefeito, Sebastião Melo (MDB), é favorito, ainda que apareça numericamente atrás da deputada federal Maria do Rosário (PT), principal oposicionista, em pesquisas de intenção de voto. Ela lidera com 30,2% em levantamento AtlasIntel publicado no início de julho, por exemplo; Melo aparece com 24,8% das intenções. Confira a entrevista!
Do ponto de vista de um governante, como deve ser a comunicação com a população em uma situação como a que vivemos?
A comunicação dentro das prefeituras não é uma coisa muito simples. Nem toda prefeitura tem uma Secretaria de Comunicação. Geralmente, é uma assessoria que fica colada no gabinete do prefeito. Isso quer dizer que ela não costuma ter a importância que deveria, principalmente em momentos de necessidades muito urgentes. O que acontece em alguns lugares são empresas terceirizadas. E aí até o prefeito acionar a terceirizada, a calamidade já está acontecendo. Existe um gap [lacuna], inclusive, de formação: nós não formamos especialistas preparados para lidar com a comunicação pública. Em um momento de pandemia, de enchente, de tragédia, a comunicação tem que ser muito clara, muito objetiva. Não é hora de fazer gracinha. Não é hora de inventar moda. Ela tem que privilegiar o tempo, o timing, muito antes de ser mais bonita ou mais feia. É preciso estar no tempo que a população necessita. Não tem roupa errada: agora é a informação que interessa. A gente tem que assumir postos na vanguarda, porque a gente tem uma importância fundamental nesses momentos.
É ano eleitoral e, aqui em Porto Alegre, nosso atual prefeito é um dos candidatos. Como tu avalias a adequação dele a esses princípios e de que forma isso pode afetar uma eventual reeleição?
A gente não tem comparativo, quase. O melhor é a Covid e são duas coisas com pouquíssimos precedentes na história da humanidade. Conversando com as prefeituras de outros lugares, eu percebo que o posicionamento geralmente é: “a gente não foi perfeito e sabemos disso”; “a gente assume que houveram problemas, mas que ao mesmo tempo lutamos o máximo que pudemos com as ferramentas que tínhamos”. E foi isso que realmente aconteceu em Porto Alegre. As ferramentas que eles tinham à disposição foram usadas. Se elas são suficientes ou não, é uma outra questão. Mas assim: Melo se comunicou bem. Ele esteve lá, querendo ou não. Por mais que o senso comum seja de que ele não está muito bem, as pesquisas mostram o contrário e ele tem uma chance de reeleição fantástica. Claro: alguns bairros têm mais problemas, mas a cidade é muito grande. Eu moro no bairro Floresta. Se eu subo a rua, eu estou no Moinhos de Vento, com senhoras tomando café na Padre Chagas. Se eu desço, tem a tragédia das pessoas saindo de barco no São Geraldo. Essa é a nossa Porto Alegre. Muitas coisas podiam ter sido evitadas. Tiveram muitos erros, mas também alguns acertos. E o mais importante é que a população sabe entender que é uma situação de exceção. Então eles sabem separar isso muito bem. Eu acho que a comunicação da prefeitura poderia ter sido melhor? Claro. Mas dentro das ferramentas que tinham, eles funcionaram bem. Na hora que precisou, eles se comunicaram de alguma forma, por mais que tenham tido muitas coisas estranhas [em referência a momentos críticos da comunicação pública, como nas controvérsias sobre o rompimento do dique do bairro Sarandi, avisos de evacuação depois que os bairros já estavam tomados pela água e outros percalços].
Em termos de campanha, de que forma o posicionamento tanto do Melo quanto da oposição tende a se alterar por conta de todo esse cenário?
Tudo muda. O Melo já esteve do outro lado, também. Ele competiu com o Marquezan, que enfrentou a Covid, e foi oposição. Da mesma forma que aquela eleição foi pautada sobre a Covid, a pauta dessa eleição vai ser a enchente, sem dúvidas, independente da cidade ter sido atingida ou não. Em um certo sentido, que bom que isso aconteceu agora, quando tudo ainda fica fresco na cabeça. Eu prefiro que tenha uma tragédia perto das eleições do que no primeiro ano de mandato. A grande questão é que eles vão ter que lidar com um eleitor muito emocional. O povo gaúcho perdeu a segurança do lar. Tu não perdeu o lar – tu perdeu a sensação de ter um canto protegido, essa proteção básica, de ter um quarto seguro. Quem for candidato da situação, então, têm duas opções para lidar com esse público: ou a pessoa foi muito bem e vai exaltar o que fez, ou ele foi mal e vai ter que dizer: “eu aprendi, eu sei como é e eu vou resolver”. Por outro lado, quem é oposição vai sempre poder bater mais: dizer que a pessoa não comunicou, que pessoas morreram, perderam casas, que nada foi resolvido. Então são dois discursos já prontos. Vira uma eleição particularmente muito sensível e cheia de nuances.
Eu acho que o Melo tem um desafio muito interessante. Ele está muito bem nas pesquisas e a tendência é que ele se dê bem, se conseguir seguir com isso. A gente tem por outro lado a Maria do Rosário (PT), que também chega muito bem, com uma coligação gigante de esquerda que pode dar mais peso para ela. Tendo ela seus problemas anteriores de rejeição, em uma eleição tão emocional, a rejeição pode ser ainda mais influente do que esperávamos. Nesses casos, a rejeição sempre fala mais alto, já que primeiro a gente sente e só depois racionaliza. O desafio dela é encontrar uma âncora racional para lidar com isso.
Toda essa situação, então, também abre espaço para a Juliana Brizola (PDT) – e também para todo mundo. A gente tinha, antes das enchentes, um copo que estava meio cheio. Era uma eleição polarizada: inclinando o copo para um lado ou para o outro, o resultado mudava de forma bastante clara. O que aconteceu foi que choveu dentro do copo e depois sacudiram ele. Virou uma bagunça e agora tem espaço para todo mundo. Ainda assim, e as pesquisas mostram isso – porque foi o mesmo que aconteceu com a Covid –, nas grandes cidades em que esse tipo de coisa acontece, quem tem a preferência costuma ser o governante. Porque, gostemos ou não, as pessoas tendem a perdoar e amenizar a questão.
De maneira um pouco mais pontual, quais estão sendo as estratégias tanto da Maria do Rosário, a principal ameaça para a reeleição, quanto da Juliana Brizola e de outros eventuais candidatos que precisam desbancar o Melo e lidar com essa tendência da população a perdoar?
A Maria do Rosário vai bater de frente. Ela precisa disso. Já a Juliana Brizola vem em uma situação mais confortável, porque ela não precisa fazer isso e pode bater nos dois. A campanha mais confortável, sem dúvidas, é a da Brizola. Ela só precisa sair dos 10, 12, e crescer. A Maria do Rosário e o Melo têm a pressão de ganhar. Ela, por um lado, tem o apoio do Lula, que pelo que eu estou vendo de pesquisas a população identifica que não se comportou adequadamente nesse caso das enchentes. Em paralelo, o Melo é muito associado ao Bolsonaro, então é bem possível que os dois fiquem nessa troca de chumbo.
Sobre isso, pesquisas indicam que as pessoas tendem a votar cada vez menos em candidatos indicados tanto por Bolsonaro quanto por Lula – a percepção geral é de que não vai ser nenhum dos dois que vai resolver os problemas do município que eu moro. Ou seja: as estratégias mais específicas podem variar bastante e isso tudo acaba dependendo muito de quem vai tocar cada campanha, mas a tendência é essa. O que eu espero é que as quatro ou cinco campanhas que nós temos sejam propositivas e respeitem o cidadão, respeitem o eleitor, respeitem as pessoas que perderam suas casas e respeitem a nossa inteligência: o eleitor sabe muito mais do que se imagina.




