Humanista

jornalismo e direitos humanos

Depois da chuva, o sol entre nuvens

No último editorial do semestre, propomos um balanço da dualidade entre os períodos que vivemos na redação do Humanista

No dia 11 de abril, uma quinta-feira, o editorial de abertura deste semestre do Humanista foi publicado. Naquele momento, apesar da falta de prática da maioria dos integrantes da redação, tudo parecia sob controle: tínhamos um cronograma a ser discutido semanalmente, uma equipe engajada à sua maneira e publicações programadas de segunda à sexta-feira. Equipe esta que, já no final da graduação, esperava um semestre como muitos outros; mas desta vez, com um toque a mais: o da ansiedade de iniciar o trabalho com base nas expectativas mantidas pelas redações anteriores. 

Esse foi o nosso objetivo ao longo do mês de abril. Enquanto nos adaptamos à rotina um tanto corrida de publicações diárias — cada um desempenhando a função escolhida —, aprendemos muito: na relação intrínseca entre repórter e o fazer jornalístico, colocamos em prática a proficiência em encontrar pautas, contatar fontes, checar fatos e redigir textos alinhados às premissas do Humanista. Para a equipe de edição, o desafio era outro: editar, resumir, estabelecer técnicas de SEO e encontrar as melhores maneiras de captar a atenção do leitor sem perder de vista o foco no conteúdo.

Para além de tudo o que é técnico, também entendemos que existem outras habilidades essenciais ao jornalista que só vêm com o tempo: como lidar com prazos, como superar os contratempos, qual é a melhor maneira de trabalhar de forma colaborativa, como liderar de forma eficaz, mas sem perder a empatia, como lidar com as próprias limitações e as dos colegas — e, junto a tudo isso, manter-se coeso com a própria realidade.

Nosso portal se mantém vivo por causa das trocas e das colaborações constantes que só quem estava nos bastidores pôde notar. O aprendizado, este também foi conjunto, tanto entre docentes, quanto entre discentes. Uma coparticipação que, apesar das intempéries, tem se mantido firme até depois da chuva. 

No dia 3 de maio, o Humanista, às pressas, publicou uma notícia um pouco mais breve das que temos o costume de divulgar. Na data, fizemos um balanço dos efeitos das chuvas que castigavam o Rio Grande do Sul. Naquele momento, já eram 39 vidas perdidas e 24.080 pessoas desalojadas, com 265 municípios afetados. Conversamos e decidimos, naquela sexta-feira, tentar manter o calendário de publicações e o cronograma previsto, mesmo que pudessem haver falhas provocadas pelas circunstâncias. 

Até então, não nos eram óbvias as proporções do desastre, que estava ainda longe de acabar. Na segunda-feira, dia 6, já não foi possível seguir com o planejado. A pausa abrupta durou mais de dois meses. Ainda hoje, 2.532 pessoas permanecem em abrigos no estado, e segundo o último boletim da Defesa Civil gaúcha, divulgado no dia 20 de agosto, 183 pessoas morreram e 27 permanecem desaparecidas. Foram 2.398.255 cidadãos afetados de diversas formas nos 478 municípios atingidos, uma devastação grande o suficiente para que o Governo Federal precisasse criar uma secretaria específica para lidar com seus efeitos — a Secretaria para Apoio à Reconstrução do Rio Grande do Sul.

Já fizemos uma reflexão profunda sobre as enchentes em nossa volta à ativa, no dia 16 de julho, e não iremos repetir os fatos já discutidos neste outro texto. Poucos deles tiveram avanços significativos, com as investigações sobre responsabilidades permanecendo em andamento, e promessas de auxílio ainda sem previsão de cumprimento, enquanto autoridades nacionais, estaduais e municipais trocam farpas. Nossa opinião permanece a mesma, e seguiremos engajados mesmo fora do Humanista. Aqui dentro, deixamos com a próxima redação a missão de seguir com as atualizações sobre a tragédia — que, apesar do fim da chuva, continua a assolar o nosso povo.

No Humanista, nossas publicações precisaram ser reduzidas de cinco para três vezes por semana. Além disso, algumas matérias precisaram ser enxutas, por conta das dificuldades de deslocamento e de encontrar, em meio ao caos, fontes disponíveis. Mesmo assim, buscamos ao máximo manter o compromisso com a qualidade e com o nosso objetivo central: dar foco às pautas de Direitos Humanos — e fomos bem-sucedidos na maior parte dos casos.

Também ficamos felizes em conseguir compartilhar esse momento de encerramento com todos os colegas que iniciaram o semestre na disciplina de Laboratório de Jornalismo Convergente, na qual é produzido nosso jornal-laboratório. Mesmo com adaptações de funções e prazos, aulas online e transtornos que afetam a cada um com intensidades e formas diferentes, todos os 13 estudantes de 2024/1 conseguiram permanecer na equipe neste segundo momento, assim como os dois professores e dois estagiários discentes.  Dadas as circunstâncias, essa é, por si só, uma conquista significativa, e agradecemos o esforço e dedicação de todos os colegas, especialmente aqueles que foram mais afetados.

Não faltou diversidade nos temas abordados pelo viés dos direitos humanos, que envolveram desde a despoluição do rio Guaíba até o festival de cinema Fantaspoa. Foto: Tábata Kolling

As enchentes, como não poderia deixar de ser, e sua ligação com as próximas eleições municipais, foram alguns dos temas que mais abordamos em nosso período no Humanista. A luta feminina por mais respeito e segurança também esteve mais de uma vez em nossas páginas a partir dos 18 anos da Lei Maria da Penha, assim como as Olimpíadas de Paris, ocorridas entre 26 de julho e 11 de agosto, e que levaram a discussões sobre políticas para o esporte no Brasil e a intersecção entre a competição esportiva e as tensões internacionais. Essas tensões e seus efeitos sobre o nosso país, assim como seu significado frente a tratados políticos internacionais, foram aprofundadas em explicações e entrevistas. 

O descompasso entre o salário mínimo e o preço da cesta básica, a possibilidade de aumento da licença paternidade, a ampliação do público da vacina contra o HPV e as dificuldades no acesso à saúde ocular também não ficaram de fora. O processo de despoluição realizado em Paris no Sena e sua viabilidade no rio (ou lago) Guaíba, que banha a capital e diversas cidades gaúchas, foi abordado, e também a programação e reabertura de espaços culturais na comemoração do Dia do Patrimônio Público. Se o semestre foi dividido, o principal ponto de contato entre os temas abordados em suas duas metades foram as mudanças climáticas: sua possível influência no aumento de casos de dengue em Porto Alegre e sua relação com o planejamento urbano foram discutidas em matérias de fôlego.

No mês de abril, o enfoque foi nos 10 anos do Marco Civil da Internet, que abordamos com uma reportagem especial, um episódio do #ConversaHumanista focado na Lei Geral de Proteção de Dados, e um editorial repercutindo essas informações. Também houve espaço para a cultura, com críticas sobre a exposição “Oliveira Silveira: Poeta, negro” e sobre a edição de 20 anos do Fantaspoa, mas sem deixar de lado reivindicações sociais, como o reconhecimento de vínculo trabalhista em plataformas de entrega, os pedidos de reestatização da CEEE, a greve de servidores técnico-administrativos da educação federal e propostas de maior criminalização ou descriminalização das drogas. 

Debates sobre os pedágios free flow implementados no Rio Grande do Sul e a manutenção das escolas cívico-militares no estado, assim como uma reportagem especial celebrando o mês de conscientização sobre o autismo e a posição de líder no ranking de capitais com mais casos de HIV mantida por Porto Alegre ganharam espaço nessa primeira parte.

As temáticas foram diversas, e fomos capazes de trazer novos episódios pertinentes do podcast #ConversaHumanista a cada duas sextas-feiras. Estivemos nas ruas, em protestos, escolas, cinemas, postos de saúde, centros culturais e nas casas de alguns dos entrevistados. Circular por esses ambientes, olhar e ouvir o que nem sempre é visto ou escutado nos trouxe novas perspectivas sobre a realidade em que vivemos, e esperamos ter conseguido passar essas experiências adiante por meio de nossos textos, fotos, áudios, vídeos e publicações nas redes sociais.

Lançamos como desafio para a próxima redação manter a periodicidade do nosso podcast, retomar as publicações diárias e trazer mais conteúdos multimídia às reportagens (um trabalho que iniciamos em abril, mas não conseguimos manter após as enchentes). Além das questões sobre as enchentes, mudanças e desastres climáticos e eleições, queremos ler no portal reflexões sobre acessibilidade, sob o recorte das medalhas que as Paraolimpíadas de Paris devem nos trazer.

Questões trabalhistas como a redução da jornada de trabalho, e sociais como a documentação e saúde de pessoas não-binárias também são sugestões de pautas que deixamos, por entendermos que estão conectadas com o propósito do Humanista: abordar temas, acontecimentos e conflitos contemporâneos à luz dos direitos humanos. Contem conosco para seguir como leitores e apoiadores do portal.

Agradecemos imensamente àqueles que nos acompanharam ao longo desse semestre atípico e nos deram forças para seguir neste projeto. Nas próximas semanas, e agora por um motivo feliz (as férias 😉), nossa frequência de publicações será reduzida. No final de setembro, os conteúdos voltam a ser diários, mas sob o olhar de uma nova redação. Até mais, com olhos atentos ao que é nosso por direito!

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1 comentário em “Depois da chuva, o sol entre nuvens”

  1. Parabéns pelo editorial, muito bom!! Fechando semestre dando um show de competência!

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