Uma rinoceronte para a Câmara Municipal de São Paulo. Em 1959, os eleitores da capital do estado “elegeram” o animal para uma cadeira de vereador com, aproximadamente, 100 mil votos. Na época, 1.200.000 eram aptos a votar na capital paulista. Mesmo com o TRE-SP (Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo) classificando os votos como nulos, estima-se que mais de 10% dos válidos foram para a rinoceronte. Cacareco foi a “candidata” que mais recebeu votos dos 450 concorrentes às 45 cadeiras da câmara, segundo a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.
O descontentamento com as instituições e a democracia associado a movimentos eleitorais bizarros, portanto, não é um fenômeno inédito, mas tem se intensificado ao longo do tempo. Na edição de 2023 do índice global Edelman Trust Barometer, assim como nas posteriores, o governo e a mídia foram considerados as instituições menos confiáveis pela população, com 46% e 42% dos entrevistados acreditando que são fontes de informações falsas ou errôneas, respectivamente. Por outro lado, empresas (48%) e organizações não-governamentais (51%) são vistas como fontes confiáveis. A pesquisa, que engloba 28 países, entrevistou um total de 32 mil pessoas.
A ideia de lançar a candidatura da rinoceronte, em 1959, em São Paulo, foi do jornalista Itaboraí Martins. Motivado pela falta de alternativas frente aos candidatos da época e pela má qualidade do debate eleitoral, ele propôs a candidatura como uma forma de protesto. Entretanto, a população aderiu ao movimento e algumas gráficas chegaram a produzir santinhos com o slogan: “Cansados de tanto sofrer e de levar peteleco, vamos agora responder votando no Cacareco”.
Com o sentido de público em xeque, cada vez mais pessoas deixam a iniciativa privada para adentrar na política. No cenário internacional, o presidente reeleito Donald Trump era empresário e apresentador de televisão antes de chegar à Casa Branca. Sem experiência política prévia, o republicano concorreu e ganhou a sua primeira eleição em 2016. Já em terras brasileiras, o principal expoente desse movimento é, atualmente, o influenciador digital e ex-coach Pablo Marçal, que ficou em terceiro lugar na disputa pela prefeitura de São Paulo em 2024. Ambos são os chamados candidatos outsiders. O Humanista foi atrás de explicações para esse fenômeno.
O paradoxo dos que vêm “de fora”
Segundo a tradução para o português do Cambridge Dictionary, a definição de outsider é “uma pessoa que não está envolvida com um determinado grupo de pessoas ou organização ou que não mora em um determinado lugar”. Na política, a lógica é quase a mesma: de acordo com o doutorando em Comunicação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Mateus da Cunha Santos, outsiders são pessoas que possuem uma carreira consolidada em outra área profissional e, em determinado momento, decidem se aventurar na política, não sendo necessariamente eleitas. “A gente pode ter um caso de alguém que trabalhou a vida inteira como empresário e aí entra determinado governo e ele é convidado para assumir uma secretaria, um ministério, por exemplo”, explica Santos.
Ainda conforme o pesquisador, a presença de outsiders na política sempre existiu. “Sempre vão ter pessoas que entram em cargos legislativos e que antes exerciam uma profissão”, acrescenta Santos. Todavia, o que torna esse debate um fenômeno emergente é a presença cada vez mais acentuada de pessoas famosas em candidaturas do executivo, como Donald Trump em 2016.
Os candidatos outsiders possuem uma característica em comum: a capitalização em cima do ser político. No Brasil, a estigmatização da política como algo ruim corroborou para a ascensão de candidaturas de outsiders. Segundo a pesquisadora do Laboratório de Pesquisa em Mídia, Discurso e Análise de Redes (MIDIARS), Taiane Volcan, os outsiders possuem uma posição paradoxal: ao mesmo tempo em que consideram a política um problema, também tentam adentrar essa vida. “Tem muito mais a ver com a narrativa de que a política é um problema porque é feita por políticos, mas é impossível fazer política sem políticos. Só que para tentar dizer que ‘eu sou a resposta para esse problema’, eles [outsiders] dizem ‘eu sou o novo’, ‘eu sou o de fora’, ‘eu não represento essa política que tu não gosta’”, explica Taiane.
Além da definição do que é ser um outsider na política, a pesquisa de Santos analisou, de 2001 a 2019, a quantidade de candidatos outsiders em 114 países — destes, 33 já tiveram outsiders nos cargos de presidente ou primeiro-ministro. O relatório também apurou as profissões exercidas pelos governantes antes de serem eleitos, com destaque para juristas (10) e empresários (9).
A eleição de empresários em cargos do executivo pode representar uma busca da população por soluções de administração pública e de crises econômicas. Conforme o índice Edelman Trust Barometer, as empresas são a única instituição vista como competente e ética. Por outro lado, o governo traz seus antônimos: antiético e incompetente. “Muitos empresários estão migrando para a política porque, se eu prosperei nos meus negócios, eu também consigo fazer isso [prosperar] nesse cargo em que eu vou me candidatar”, explica Taiane.
Em sabatina promovida por Marçal, o empresário questionou o candidato Guilherme Boulos (PSOL) sobre prosperidade, alegando como o psolista poderia acreditar em algo “que não vive”. Em resposta, Boulos defendeu que prosperidade “não é apenas os cifrões que as pessoas têm na conta bancária”. A live, realizada em 25 de outubro no canal oficial do empresário, superou 400 mil espectadores simultâneos.
O algoritmo e a cadeirada
As eleições de 2024 demonstraram a lógica dos candidatos outsiders. Taiane Volcan relata que muitos candidatos outsiders oriundos da internet filiam-se a partidos de Centro por não terem bandeiras muito fortes. “São partidos que se aliam à esquerda ou à direita, que flutuam bem, porque não têm ideologia própria”, explica. Em 63% das prefeituras brasileiras o pleito municipal foi vencido por partidos de centro. Dos 3.500 mil municípios conquistados pelo chamado “Centrão”, 887 serão administrados pelo PSD, 853 pelo MDB e 747 pelo PP, segundo dados disponibilizados pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
Um Congresso composto predominantemente por políticos vinculados ao Centrão reproduz uma tendência de esvaziamento da política, avalia a pesquisadora. “As pessoas não querem fazer o debate político, não querem participar da política de uma maneira mais efetiva. Elas querem eleger um não-político [outsider] para resolver os seus problemas”, argumenta. “Só que elas não estão resolvendo problemas, só estão simplesmente dando uma resposta fácil para elas mesmas. Para mim, até um processo de imaturidade que a gente tá vivendo enquanto sociedade.”
Além de um cenário de esvaziamento político, a ascensão de candidatos outsiders é um produto da plataformização da sociedade. Impulsionado pela pandemia, o marketing digital é um ambiente que não se resume meramente às vendas online de produtos; é, também, uma vitrine de mentorias, coachs e cursos de prosperidade e autoconhecimento.
A antropóloga e diretora do Digital Economy and Extreme Politics Lab (Laboratório de Economia Digital e Extremos da Política), Rosana Pinheiro-Machado, juntamente com pesquisadores da University College Dublin (UCD), liderou uma pesquisa sobre marketing digital — enquanto muitos escutaram pela primeira vez o nome de Pablo Marçal nas eleições de 2024, outros já o conheciam esse ecossistema.
O estudo, que será divulgado no final de 2024, acompanhou os 500 maiores influenciadores desse nicho do Brasil ao longo de dois anos, além de analisar o perfil de um milhão de pessoas que fizeram ou manifestaram interesse em fazer algum dos cursos dos chamados influencers. Conforme as análises obtidas, estima-se que 25 milhões de brasileiros utilizam o Instagram para vender algum produto.
A forma de fazer política se alterou. Se antigamente os políticos comiam pastel e tomavam caldo de cana nas feiras, hoje eles atuam na lógica da influência digital: um conteúdo visceral, mas esvaziado de propostas. Segundo Taiane, muitas vezes, o vídeo publicado não é o objeto, mas como vão chamar a atenção do eleitorado. “Vai ser uma linguagem mais agressiva, violenta, chula ou muito chocante […] Às vezes é bonito, às vezes é atrativo, mas não diz nada efetivamente sobre um processo eleitoral, como funciona a cidade ou as câmaras, por exemplo”, acrescenta ela.
Conteúdos mais chamativos geram mais cliques, que geram mais engajamento e convertem em capital para a plataforma. É assim que o algoritmo entende o tipo de discurso das campanhas eleitorais, entregando o post para um público maior.
Já habituado ao funcionamento das redes, o procedimento de Marçal para aumentar o seu engajamento foi por meio de cortes estratégicos de seus vídeos, tendo a cadeirada de José Luiz Datena como maior exemplo. Além disso, quando questionado sobre suas propostas de governo nas sabatinas em que comparecia, o outsider falava que todas estavam em suas redes sociais.
Conforme o Monitoramento das eleições municipais de SP 2024 nas mídias sociais, realizado pelo Núcleo de Estudos da Violência da USP (NEV-USP), Pablo Marçal é responsável por nove das dez publicações com maior engajamento no período analisado. “Estamos não só treinando as plataformas e os algoritmos em relação aos nossos padrões de consumo online, como também estamos treinando os políticos de que isso funciona mais”, explica a pesquisadora Taiane Volcan.





Ótima reportagem. O descontentamento com os nossos políticos é crescente.