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“Transfobia ambiental” se tornou mais evidente com desastre climático de 2024

Enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul demonstraram falta de preparo do setor público e da sociedade em geral para atender população LGBTQIAPN+ em meio a crises humanitárias

Quando ocorre um desastre, as populações mais vulneráveis socioeconomicamente são as mais atingidas. Entre elas, está a população LGBTQIAPN+,  especialmente as pessoas trans e travestis, comunidade da sigla mais afetada pela exclusão social, violência e discriminação no Brasil. Essa é uma das conclusões do Relatório “Quando a água toma tudo – Impactos das cheias no Rio Grande do Sul”, da Anistia Internacional Brasil. Segundo o documento, durante a emergência, houveram diversos relatos de pessoas trangênero vítimas de assédio, discriminação e negação de acesso digno aos abrigos –  o que levou muitos a optarem por ficarem nas ruas, por medo de sofrerem novas violações. 

Em resposta, iniciativas como o abrigo Renascer, específico para a comunidade LGBTQIAPN+,em Porto Alegre, o Ajuda Trans RS e outros projetos sociais surgiram buscando suprir uma lacuna na proteção social dessas pessoas naquele momento. Segundo Caio Tedesco, historiador integrante do projeto e homem trans, a experiência do Estado na enchente destacou o despreparo no acolhimento, que tem origens claras: o preconceito.

Para ele, a vulnerabilização da população transgênero foi construída historicamente,  perpetuando ao longo do tempo um cenário de exclusão do acesso à saúde, à moradia digna, ao trabalho e à assistência social.  “É mais comum que pessoas trans vivam em regiões afetadas por desastres climáticos, que tenham menos acesso a suporte, a condições de se proteger, de se cuidar. E durante os desastres, como as enchentes demonstraram, o próprio poder público pretere as pessoas trans no seu cuidado”, explica Caio.

O conceito de Transfobia Ambiental é novo no Brasil. Ele é derivado do termo Racismo Ambiental, criado na década de 1980, que destaca como populações negras e racializadas são afetadas desproporcionalmente em casos de desastres ambientais e climáticos. 

Segundo a antropóloga, integrante do projeto ClimaTrans e travesti Nina Acácio, no meio acadêmico o conceito está em disputa e começando a ser desenvolvido, mas é utilizado para pensar os desafios adicionais enfrentados pelas pessoas trans na emergência climática. “É um conceito que surge do movimento social e de uma articulação de pessoas que entendem que desastres ambientais e crises afetam pessoas de diferentes formas, e por que não [pensar como] pessoas trans também são afetadas por isso?” indica a antropóloga. “O termo é usado para pensar justamente a especificidade que é passar por questões relacionadas à crise climática a partir de uma corporalidade trans”.

A violência como ameaça constante

Segundo a pesquisa “Assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras”, 122 pessoas trans foram assassinadas no Brasil em 2024, sendo nosso país o que mais matou pessoas transgênero pelo 17º ano consecutivo, em números absolutos. De acordo com o documento da Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (ANTRA), a vítima mais jovem tinha apenas 15 anos. O perfil das vítimas revela uma realidade inaceitável: são majoritariamente jovens trans negras em vulnerabilidade econômica.

Fonte: Assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras (2025)
Fonte: Assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras (2025)

A pesquisa aborda o que é Transfobia Ambiental, destaca problemáticas no acolhimento de pessoas transgênero na tragédia no Rio Grande do Sul e deixa recomendações de ações e políticas a serem implementadas. Conforme o documento, os principais pontos de atenção quanto ao acolhimento de pessoas trans nas enchentes foram:

  • Vulnerabilidade aumentada;
  • Barreiras ao acesso a serviços, incluindo saúde, moradia e assistência social;
  • Transfobia ambiental;
  • Necessidades específicas, como acesso a medicamentos hormonais, itens de higiene apropriados e serviços de saúde mental;
  • Importância de espaços específicos para pessoas trans;

O relatório apresentou cinco recomendações para lidar com a questão, que podem ser conferidas na figura abaixo:

Fonte: Assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras (2025)

De acordo com a pesquisa, é notável que as tragédias climáticas ocorrem por interferências humanas na natureza, que colocam em perigo os seus povos e o meio ambiente. “As consequências dessas tragédias incluem perda de vidas, danos materiais, deslocamento forçado, desertos alimentares, insegurança alimentar, interrupção de serviços básicos e impactos na saúde mental das comunidades afetadas. E é nesse contexto que as pessoas trans enfrentam desafios adicionais devido à transfobia, que as torna mais vulneráveis a esses impactos”, explica o estudo.

Hospital de Campanha da Força Nacional do SUS, montado na ULBRA, em Canoas | Imagem: Rafa Neddermeyer / Agência Brasil

Iniciativas de enfrentamento

O Ajuda Trans foi uma ação social criada por Gustavo Deon e Luka Machado, duas pessoas trans não-binárias – Gustavo, transmasculino, e Luka, travesti. Artistas e produtores culturais, eles se mobilizaram para auxiliar as pessoas atingidas na emergência das enchentes, e perceberam a necessidade de um espaço de ajuda transcentrado (composto apenas de pessoas trans para fortalecer a sensação de pertencimento entre os acolhidos).

Caio Tedesco conta que o projeto iniciou através de um formulário nas redes sociais, onde posteriormente ele indicou estar disponível para participar. Juntos, os três montaram equipes, saíram do online para o presencial e conseguiram parcerias com outros coletivos e movimentos, como a Cozinha Solidária do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), #TransEnem, Trans Obra e outros. “Fomos ampliando e fazendo parcerias para podermos conectar pessoas trans que precisavam de ajuda com pessoas trans que queriam ajudar”, recorda Caio.

Na mobilização, conseguiram depósito para doações, contato para entregas, equipe de atendimento com assistentes sociais, psicólogos, médicos, entre outros profissionais trans que se mostraram disponíveis à iniciativa. “É um projeto que foi se espalhando de diversas formas, porque nós estávamos buscando preencher as lacunas do Estado, e de projetos privados, porque nós, pessoas trans, nunca éramos incluides de maneira visível”, afirma Caio.

Segundo ele, a iniciativa, que teve a duração de cerca de dois meses, atendeu 113 pessoas atingidas e suas famílias apenas nos dez primeiros dias. O Ajuda Trans RS recebeu pedidos de pessoas de várias cidades pelo Estado e procurou fazer o trabalho mais completo possível dentro das capacidades dos voluntários. “Foi uma ação temporária, mas o remanescente é uma rede de cuidado transcentrada que pode ser restabelecida e acionada quando necessário. Temos uma rede, temos afetos e uma coletividade de cuidado e apoio mútuo solidificada”, completa. 

Entre as demandas dos atingidos ouvidas pelo Ajuda Trans, estava a necessidade de abrigos específicos para a comunidade trans. Esse foi o objetivo de Gloria Crystal ao criar o Abrigo Renascer, único destinado à  comunidade no Rio Grande do Sul durante as enchentes, que funcionava em Porto Alegre. Travesti, artista e diretora do Departamento de Diversidade Sexual de Gênero da Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos do Estado, Glória indica a grande preocupação em proporcionar o acolhimento devido à população LGBTQIAPN+. “Nós tínhamos que fazer alguma coisa para essa população, que estava numa situação dentro de abrigos, podendo acontecer alguma violação de direito humano”, explica. 

Depois de conseguir um local, o Departamento começou a receber pedidos de busca de pessoas trans que estavam abrigadas pela Capital. “O nosso papel foi buscar essas pessoas, e quando a gente buscou essas pessoas, a preocupação era acolhê-las e fortalecer uma rede de proteção onde elas se sentissem bem”, conta Gloria. 

Além dos cuidados de atendimento de saúde e assistência social que foram oferecidos, a diretora indica que um dos diferenciais do Renascer foram as orientações dadas aos voluntários. “Houve um letramento para as pessoas, e os voluntários que estavam nos ajudando eram pessoas que moravam na comunidade onde a gente fez esse abrigo”.

Para Nina Acácio, a falta de conhecimento de voluntários sobre como atender pessoas transgênero foi uma das maiores dificuldades enfrentadas nos abrigos gaúchos. Durante as cheias, Nina foi coordenadora no Abrigo IPA, na região central de Porto Alegre. Ela conta que sua experiência foi majoritariamente positiva, o que considera ter sido raro naquele momento no Estado. 

Nina frisa que o abrigo estava inserido em um bairro de classe média alta, organizado e subsidiado por cinco empresas, e com muito mais recursos do que era comum. “Por exemplo, eu era uma das coordenadoras, não é todo abrigo que você tinha uma das coordenadoras de acolhimento, uma travesti. Eu estava lá o tempo inteiro, tínhamos equipe de horas, praticamente”, explica Nina. “Essa minha experiência foi um ponto fora da curva, porque a experiência da maioria das pessoas que trans em abrigos não foi essa. Foi de total descaso, foi de total violência, foi de total desumanização em alguns aspectos. Porque é isso, né? A figura da pessoa trans ainda está aliada a um ser que não é tão ser humano assim.”, lamenta.

A antropóloga diz que a equipe contou com atendimentos de saúde diversos, que ajudaram com violências pelas quais pessoas trans passaram por lá.“ Fui desrespeitada por algumas pessoas, por colegas de voluntariado que me chamavam pelos pronomes errados, gostavam de pontuar e demarcar a minha transexualidade quando não era necessário. Mas você tinha ali pessoas que estavam dispostas a entender as especificidades. Isso construiu um espaço que foi mais acolhedor que outros”, completa Nina.

O Ambulatório Trans Centro, serviço da Secretaria Municipal de Sáude, localizado no Centro de Saúde Santa Marta, reuni usuários que participam de grupo organizado pela equipe multidisciplinar de saúde do local | Imagem: Cristine Rochol/PMPA

Acesso à informação e perspectivas para o futuro 

A falta de informação dos voluntários e a lacuna na formação de profissionais de assistência se mostra relevante na experiência de quem esteve nos abrigos durante as enchentes no Rio Grande do Sul. Para Nina Acácio, é necessária a orientação e formação de profissionais de saúde e assistência social sobre como atender a população trans do Estado. “Mas como pensar formação continuada para voluntários? Precisamos falar sobre essas coisas. Sobre crise climática, sobre formas de agir em desastres socioambientais, mas também de formas de agir nas especificidades de entendimento de diferentes populações e de como elas são múltiplas”, pontua

Em meio à enchente, um cartaz sobre atendimento à pessoas LGBTQIAPN+ para ser distribuído nos abrigos foi produzido pelo Departamento de Atenção Primária e Políticas de Saúde (Dapps), por meio da Divisão de Equidades, e em parceria com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). 

Segundo a Coordenadora da Divisão de Políticas de Promoção da Equidade em Saúde, Gabriela Lorenzetti, o material foi pensado para ser compreendido de forma fácil pelos voluntários: “Os abrigos foram montados de forma rápida, emergencial, e muitas vezes as pessoas que estavam ali atendendo e trabalhando não tinham conhecimento e não foram capacitadas para isso.” 

Na Secretaria Estadual de Saúde (SES), Gabriela relata que a Divisão de Equidades fazia visitas em abrigos para registrar as principais demandas de diferentes populações, como quilombolas, pessoas em situação de rua e pessoas LGBTQIAPN+. Segundo ela, houve casos de conflitos entre as pessoas abrigadas, que não queriam estar no mesmo espaço de pessoas que fossem, de modo geral, diferentes delas. 

Quando uma parcela geral da população gaúcha foi colocada no mesmo espaço, comportamentos já característicos da sociedade brasileira, como homofobia, transfobia ou machismo também foram reproduzidos lá. “Havia questões como pessoas que precisavam sair à noite, às vezes até para trabalhar, porque viviam na prostituição. E nos abrigos elas não podiam sair em um determinado horário. Então, todas essas diferenças foram para dentro dos abrigos. E somavam-se os preconceitos. Se a pessoa é negra, se a pessoa é periférica, se a pessoa é LGBT, se a pessoa é trans”, detalha Gabriela.

O Centro de Saúde Santa Marta, onde funciona o principal Ambulatório Trans de Porto Alegre, foi inundado nas enchentes e passou quatro meses sem funcionamento. Sem acesso ao ambulatório, pessoas trans em acompanhamento de transição hormonal pelo SUS perderam seu acesso aos medicamentos. Essa foi uma das principais demandas percebidas pela Dapps, que apresentou um projeto de recurso emergencial para o Ministério da Saúde para a compra de hormônios e tentou doações de outros estados, sem sucesso. “Tentávamos buscar recursos de tudo que era modo, mas já vinham para a área da saúde do Governo Federal, para suprir outras necessidades. Então, às vezes, esses pedidos específicos acabam não sendo contemplados”, lamenta Gabriela. 

Cartaz da Daps para acolhimento de pessoas LGBTQIAPN+ | Fonte: SES/RS

Ao pensar como melhor preparar o Estado para atuação em abrigos temporários em virtude da emergência por desastres climáticos, a SES também disponibilizou um Guia Rápido de recomendações para profissionais da saúde.

Para Nina Acácio, é preciso garantir políticas públicas de combate às desigualdades ambientais e mudanças climáticas. Nesse sentido, o projeto ClimaTrans lançou, no início de 2025, o documentário intitulado Transidentidades e justiça climática: vivências de pessoas trans e travestis nas enchentes no RS, e lançará o livro Transfobia Ambiental: a exclusão veio antes da água, ainda esse ano. Segundo a antropóloga, há uma série de discriminações que excluem as pessoas trans e travestis de diversos âmbitos (como escolar, na política e no mercado de trabalho), e provocam a vulnerabilização dessa população. “[As pessoas trans] não se encerram só nos dados, elas não se encerram só no momento do desastre, elas têm especificidades sócio-históricas que de certa forma constroem a chegada delas até esses lugares. E isso é um debate mais amplo que a gente tem que ter como sociedade.” 

Após o desastre, o governo do Rio Grande do Sul regulamentou o Plano Rio Grande,  chamado de programa de Reconstrução, Adaptação e Resiliência Climática do Estado, instituído pela Lei nº 16.134, de 24 de maio de 2024. Nele, instituiu o Fundo do Plano Rio Grande (FUNRIGS), no qual é destacada a dedicação de recursos para, entre outros, 

c) as condições habitacionais, em especial da população carente diretamente atingida pelos eventos climáticos;

II - a realocação de populações afetadas pelos eventos climáticos;

III - a resiliência climática, em especial por meio de infraestrutura e estratégias sociais, econômicas e tecnológicas para eliminação ou mitigação da vulnerabilidade climática;

IV - a assistência às populações afetadas pelos eventos climáticos; e

V - a promoção do desenvolvimento econômico-sustentável do Estado, por meio de investimentos estratégicos capazes de criar infraestrutura econômica e estimular o desenvolvimento de um ambiente propício ao fortalecimento e à implementação de cadeias produtivas, de forma a incentivar o aumento da produtividade da economia estadual, o desenvolvimento regional, o incentivo à inovação e à sustentabilidade.

Também no Plano Rio Grande, o Decreto Nº 57.699, de 9 de julho de 2024  instituiu o Comitê Gestor de Monitoramento dos Centros Humanitários de Acolhimento (CHA), para o acompanhamento dos centros instalados nos municípios de Canoas e Porto Alegre. O comitê do decreto será composto, entre outros órgãos, pela Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos (SJCDH).

Essa é toda a informação de preparação para o acolhimento de pessoas LGBTQIAPN+ dentre os decretos  do Rio Grande do Sul no que se trata da prevenção da crise climática até a publicação desta reportagem. É esperado que, com o envolvimento da SJCDH, a população trans possa ser melhor acolhida no caso de uma emergência no RS (ou apenas na Região Metropolitana, dado a falta de informações sobre a acolhida em outras regiões). Esta é, no entanto, uma expectativa, e não uma promessa do Estado gaúcho.

Reportagem desenvolvida na disciplina Jornalismo e Meio Ambiente no semestre 2025/1, sob orientação da professora Dra. Eloísa Beling Loose. 

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