Humanista

jornalismo e direitos humanos

Quilombo Kédi disputa memória e território contra especulação imobiliária

Fundada há 110 anos no que hoje é área nobre de Porto Alegre, comunidade com posse coletiva reconhecida pela Fundação Palmares resiste a coações e demolições ilegais

A foto mostra um painel pintado na parede externa de uma casa trazendo o nome Quilombo Kédi, uma pessoa e flores. | Foto: Repórter Popular/reprodução
Moradores do Quilombo Kédi denunciam coação para aceitar indenização. Os acordos forçam as famílias a demolir as casas e, formalmente, renunciar à sua identidade quilombola | Imagem: Repórter Popular/reprodução

Em uma das áreas mais nobres de Porto Alegre, onde o urbanismo planejado ostenta condomínios de luxo e a vigilância privada é onipresente, resiste uma exceção que desafia a lógica do capital: o Quilombo Kédi. Localizado no encontro entre os bairros Boa Vista e Três Figueiras, o território é hoje o epicentro de um conflito que expõe as vísceras de uma disputa fundiária, racial e humanitária. O que está em jogo não é apenas a posse da terra, mas a memória de uma cidade que insiste em apagar suas raízes negras.

Para entender a gravidade do que ocorre no Kédi, é preciso olhar além das liminares judiciais. É necessário compreender como mecanismos institucionais, pressões psicológicas e interesses privados se entrelaçam em um fenômeno que especialistas e advogados classificam como uma das maiores violações de direitos em curso no Rio Grande do Sul.

O “acordo” que se fez sem a comunidade

A história recente do conflito no Kédi revela uma ironia cruel. O processo que hoje ameaça a existência da comunidade começou, em tese, para ajudá-la. Em 2013, o Ministério Público ingressou com uma ação civil pública exigindo que a Prefeitura de Porto Alegre garantisse saneamento básico e direitos fundamentais aos moradores. No entanto, o desfecho dessa ação foi, nas palavras da defesa, uma sentença de morte para o território.

“No início, o Ministério Público queria garantir o bem-estar daquelas pessoas (…) E num determinado momento, eles entendem que é melhor remover aquelas pessoas dali”, explica Arilson Jesus, quilombola da comunidade Vila Miloca e Membro da Rede Nacional de Advogadas e Advogados Quilombolas (RENAAQ), que atua na defesa da comunidade.

Essa mudança de diretriz não ocorreu de forma transparente. Segundo os advogados, se formou um “grande acordo” nos bastidores, envolvendo o Ministério Público, a Prefeitura, a Defensoria Pública e grandes empresas privadas. O objetivo: remover a comunidade para fomentar a construção de residenciais, que possuem coberturas avaliadas em até R$12 milhões. “Esse acordo não está em processo nenhum (…) as empresas privadas, elas nunca apareceram no processo”, diz Jesus.

O processo original correu à revelia da comunidade. As famílias, que já estavam no local há gerações, não foram consultadas enquanto o judiciário e o poder público decidiam o seu destino. Quando a sentença de remoção chegou à fase de cumprimento, a narrativa oficial já estava consolidada: a melhor “solução” para o Kédi era o fim do Kédi.

A fotografia mostra moradores do Quilombo Kédi reunidos sobre os escombros de uma casa demolida. |Foto: Alass Derivas / Deriva Jornalismo
Moradores do Quilombo Kédi posam para fotografia sobre os escombros de uma casa demolida |Imagem: Alass Derivas / Deriva Jornalismo

A narrativa de que a comunidade é um empecilho ao desenvolvimento ignora um fato histórico fundamental: foram os ancestrais daquelas famílias que ergueram o bairro que hoje os rejeita.

O advogado e ativista Onir Araújo, da Frente Quilombola do RS, traz à luz a profundidade histórica dessa presença: “A comunidade tem praticamente 110 anos de presença no que hoje se entende como o bairro Boa Vista, Três Figueiras. Eles [quilombolas], junto com os troncos da família Silva, participaram das obras de construção do próprio Colégio Anchieta, Colégio Farroupilha, Shopping Iguatemi, do próprio Country Club”, afirma Araújo.

O Kédi não é uma ocupação recente; é um remanescente da antiga colônia africana da região, que sofreu sucessivas remoções ao longo das décadas para dar lugar à expansão urbana. A região abrigava terreiros históricos, como o da Mãe Eva, e era um espaço de vivência comunitária e religiosa muito antes das torres de vidro serem erguidas. “O quadro hoje é um quadro em que a comunidade praticamente perdeu dois terços do seu território, é um verdadeiro esbulho“, reforça o advogado.

Apagar o Kédi é, portanto, apagar a mão de obra que construiu espaços para a elite de Porto Alegre. Onir relata que, durante as obras do Colégio Anchieta, Colégio Farroupilha, Shopping Iguatemi, do próprio Country Club, foi constatada a existência de uma escola segregada, destinada aos filhos dos trabalhadores quilombolas que erguiam o colégio dos estudantes ricos.

A tática da coação e o preço da Identidade

Diante da resistência das famílias em sair, a estratégia de remoção mudou de face. Se a força bruta policial direta chama muita atenção, a pressão econômica e psicológica atua de forma silenciosa e devastadora. A partir de 2023, e intensificando-se em 2024 e 2025, começou uma ofensiva baseada em acordos individuais financeiros.

“As pessoas estão vendendo a alteridade delas, a memória delas, por R$ 60 mil. [parte do valor total.] É isso que está acontecendo”, denuncia Onir Araújo, explicando que, para receber o valor integral de R$ 180 mil, algumas famílias precisam assinar documentos declarando, de forma irrevogável e irretratável, que não são quilombolas.

A descrição de Onir encontra eco no relato de Arilson Jesus, que aponta a existência de um ambiente constante de pressão e medo para forçar esses acordos. Segundo ele, lideranças e moradores são bombardeados diariamente com a ideia de que, caso não aceitem o dinheiro, ficarão sem qualquer garantia e terão suas casas demolidas de qualquer forma.

“Eles começam a coagir. Mesmo que as pessoas que estão sendo coagidas não percebam como coação, eu entendo – nós entendemos – que é coação, porque tu não tens liberdade de pensamento”, afirma o advogado.

De acordo com os entrevistados, a prefeitura de Porto Alegre passou a levar esses acordos individuais para o judiciário e juízes começaram a homologá-los, ignorando o contexto de pressão e a natureza coletiva do território quilombola. O resultado imediato foi a destruição: assim que um acordo era assinado, as casas eram demolidas, criando clareiras de escombros em meio aos que resistiam, aumentando a sensação de cerco e inevitabilidade.

O processo de “indenização” revelou-se, segundo as denúncias, um campo fértil para irregularidades e violência. Onir Araújo relata um esquema de “maquiagem” do território: pessoas que não moravam lá, ou que já haviam saído, retornaram para construir barracos precários e pleitear a indenização, muitas vezes atuando como agentes de intimidação contra as lideranças legítimas.

Mais grave ainda é a denúncia da presença de segurança privada atuando como milícia dentro do quilombo. Uma empresa de segurança privada é citada nominalmente pelos advogados como responsável por intimidar moradores e articular pressão psicológica, muitas vezes com a conivência ou omissão das forças policiais.

Onir narra um episódio de agressão física que sofreu dentro do território, perpetrada por um indivíduo trazido para “maquiar” a ocupação: “No dia em que um jagunço me agrediu fisicamente, o cara veio, tava com uma garrafa de cerveja debaixo do braço e quando eu voltei, ele me agrediu. Ficou evidente que estava se criando um teatro ali para uma coisa pior”.

O judiciário sob a lente racial

A defesa do Quilombo Kédi travou uma guerra processual para tentar barrar as demolições. O argumento central é a competência jurídica. Por se tratar de uma comunidade quilombola certificada pela Fundação Cultural Palmares em 2021, o território atrai interesse federal, envolvendo o INCRA e a União. Portanto, a justiça estadual não teria poder para decidir sobre a remoção; o caso deveria tramitar no âmbito federal. “Não tem discussão sobre a questão de ser quilombola ou não. A questão é: essa discussão jurídica precisa acontecer onde? Na justiça federal ou na justiça estadual?”.

Após sucessivas negativas, a defesa obteve uma vitória parcial, mas significativa. Ingressaram com uma ação possessória e indenizatória, uma estratégia inovadora, que busca não apenas defender a posse, mas exigir reparação imediata. O caso chegou ao Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), onde o desembargador Roger Raupp Rios – que tem uma trajetória, desde 1997, de discussão, inclusive acadêmica, sobre direito antidiscriminatório – concedeu uma liminar garantindo a posse coletiva e suspendendo as demolições.

Para Arilson Jesus, a decisão traz algo que raramente se vê no sistema de Justiça, a sensibilidade racial e compreensão da legislação quilombola:

— É muito importante destacar essa necessidade de um judiciário que esteja comprometido com as questões raciais do ponto de vista de defesa de direitos, e principalmente de um judiciário que atenda as demandas das comunidades quilombolas, que entenda essa legislação que tem sobre direitos quilombolas […] Esse desembargador dá uma decisão garantindo a posse coletiva da comunidade, que foi uma vitória em meio ao caos porque a comunidade está completamente destruída em vários sentidos.

Paralelamente, o Tribunal de Justiça do Estado, formou maioria para reconhecer que a competência para julgar a nulidade da sentença original é, de fato, da justiça federal. Embora um pedido de vista tenha adiado a conclusão, a tendência é que o processo saia da esfera estadual.

A fotografia mostra uma retroescavadeira derrubando uma casa no Quilombo Kédi. Foto: Alberto Terres/Mandato Reginete Bispo
Retroescavadeira derruba uma casa no Quilombo Kédi, em demolições consideradas ilegais pelos moradores | Imagem: Alberto Terres/Mandato Reginete Bispo

Para Arilson Jesus, que, além de advogado, é pesquisador de doutorado, o caso Kédi não é um acidente jurídico, mas o funcionamento padrão do Estado brasileiro. Ele define a situação como um reflexo da “necropolítica” – o poder de ditar quem pode viver e quem deve morrer (física ou socialmente). “O Estado é o maior violador de direitos. Essas questões só chegam ao Judiciário porque o Estado brasileiro tem dificuldade de reconhecer a identidade quilombola. Ele não titula a terra porque não reconhece essas pessoas”, critica.

Arilson ressalta que a elite de Porto Alegre convive tranquilamente com o massacre de uma comunidade em seu bairro mais nobre, naturalizando a “morte social” daquelas pessoas.

“Se a elite de Porto Alegre não se incomoda com uma comunidade que está sendo massacrada, então tem alguma coisa muito errada. […] Uma pessoa que compra uma cobertura de 12 milhões de reais e não se importa que aquele empreendimento está causando a morte – cultural e até biológica – dessas pessoas, tem alguma coisa muito errada”, pontua.

O desmonte do Kédi pode ser apenas o prenúncio de um cenário muito mais amplo em Porto Alegre, especialmente no contexto pós-enchente de 2024. Onir Araújo alerta que projetos de “regeneração” urbana e parcerias público-privadas estão desenhando um mapa de expulsão em massa. “Existe um projeto, a partir do eufemismo chamado de compra assistida e bônus moradia. No Sarandi, por exemplo, são 1.750 famílias que já foram removidas, é só a ponta do iceberg”.

Onir cita o projeto “Regenera Dilúvio“, que prevê torres espelhadas e barcos no arroio, mas cujo custo social pode ser a remoção de até 87 comunidades, incluindo os quilombos do Areal e da Família Fidelix. Nesse cenário, os quilombos urbanos funcionam como “escudos” de resistência contra a especulação imobiliária desenfreada e a degradação ambiental. O lídero comunitário argumenta que, onde há presença quilombola e indígena, há preservação ambiental – o oposto do que propõem as torres de concreto que impermeabilizam o solo. “Ali, onde estão saindo essas duas torres horríveis, ali tinha um lago, tinha o campo de futebol, era arborizado, ou seja, tinha espaço para a água se infiltrar no lençol freático e assim por diante. E o que vai estar acontecendo lá? Vai estar sendo impermeabilizado”, explica.

A luta pela dívida histórica e o futuro da cidade

Em meio aos escombros e aos processos judiciais, o que a comunidade Kédi realmente deseja? Para seus defensores, a vitória não é uma indenização financeira que apague a história.

Para Onir, uma vitória seria ver “as famílias auto-identificadas enquanto quilombolas no território, com as crianças indo para o Colégio Bahia felizes, a forma de acolhimento tradicional ali operando” – fundamentalmente, a titulação do território.

Para Arilson, a luta transcende a questão monetária, focando na reparação da dignidade e na conscientização sobre o real dano causado. O advogado e pesquisador questiona a passividade social diante da violência:

— Acharíamos um absurdo se todas as pessoas da comunidade quilombo Kédi que estão existindo fossem mortas, biologicamente falando. Mas ninguém se importa com a morte social dessas pessoas que acontece diariamente. […] Falta uma conscientização coletiva, principalmente das pessoas brancas, das pessoas que estão nesse lugar de privilégio e poder, que se sentem muito tranquilas para continuar no seu lugar quando não estão violando o direito desses povos que estão historicamente lutando pelo mínimo, pelo mínimo de dignidade, pelo mínimo de direito.

Hoje, o Quilombo Kédi permanece de pé, mas ferido. As famílias que resistem enfrentam não apenas uma construtora ou uma prefeitura, mas uma lógica de cidade que não foi desenhada para elas. A decisão do TRF4 deu um fôlego, uma pausa na destruição iminente, mas a pressão continua.

O desmonte do Kédi é, para a Frente Quilombola, a pior situação já enfrentada em anos de luta por território. Onir destaca que o caso é um sintoma de um sistema que falha em proteger o mínimo. “A quem os quilombolas vão correr para ser protegidos dos seus direitos? Se o próprio sistema acaba relativizando os direitos fundamentais. Muito grave está acontecendo, sabe? e nós da Frente Quilombola, nunca pegamos uma situação tranquila, envolvendo as coisas públicas e na defesa do território. Nunca. Mas essa está sendo a pior de todas”, conclui.

O horizonte de vitória para a comunidade é a reparação plena e o reconhecimento do direito fundamental ao território, sem a necessidade de negar a identidade. Onir Araújo ressalta que:

“A vitória do quilombo só vai ser plena quando, de conjunto, o nosso povo, as 6 mil comunidades quilombolas, a nossa população dispersa, tenha garantido os direitos que esse sistema vem vedando há 525 anos.”

Para Onir, a resistência quilombola e indígena não é apenas uma questão local ou racial, é uma perspectiva de futuro para toda a humanidade, baseada em outros valores.

“’Nós não temos como mais curar câncer com band-aid e aspirina. Esse sistema vai levar todos nós à morte.” 

A intensidade da violência institucional no Kédi, disfarçada de processo legal e pressões financeiras, leva a Frente Quilombola a traçar paralelos duros com cenários de conflito armado. A diferença, argumenta Onir, reside apenas no método: se em um lugar o apagamento é feito por bombas, no Quilombo Kédi ele é conduzido pela burocracia, pelo cinismo e pela caneta do poder público. 

“Aliás, a imagem do cenário lá [no quilombo] é similar, muito similar à situação em Gaza. Só que em Gaza, na Palestina ocupada. É a bomba de fósforo branco, são os drones, é o bombardeio, é o exército e tal. Aqui, é a caneta, é o cinismo, e até a bala, quando necessária.”

Enquanto os processos tramitam e as torres de luxo sobem ao redor, o Quilombo Kédi insiste em uma memória que se recusa a ser apagada para o “progresso” de Porto Alegre: eles existem, eles têm história, e eles não vão desaparecer em silêncio. A luta por sua permanência se confunde com o dever de casa da sociedade em universalizar a solidariedade e o respeito, e de reconhecer que a dignidade da comunidade quilombola é o pilar da dignidade da própria cidade.

Tribunal de Justiça Reconhece Posse Quilombola do Kédi

Em um desfecho judicial crucial para o Quilombo Kédi, o 2º Grupo Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS) reconheceu a posse quilombola da comunidade em 05 de dezembro de 2025. A decisão, tomada por unanimidade, honra o Fato Quilombola e se baseia em leis e tratados internacionais (como o artigo 68 do ADCT e a Convenção 169 da OIT).

O TJRS também determinou o envio do caso para o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), o foro competente para julgar a Ação Rescisória. Essa decisão na esfera estadual rescindiu o ato simulado que havia sido ajuizado entre a Prefeitura de Porto Alegre e o MPE, que a comunidade denunciou estar a serviço da Especulação Imobiliária.

Deixe um comentário

Page Reader Press Enter to Read Page Content Out Loud Press Enter to Pause or Restart Reading Page Content Out Loud Press Enter to Stop Reading Page Content Out Loud Screen Reader Support