Um levantamento realizado durante quatro semanas confirma que os brancos são a maioria entre os artistas que compõem o top 10 das duas principais paradas musicais do país. No Spotify Brasil, dois a cada três artistas são brancos (66,67%). Já no YouTube Brasil, quatro a cada dez cantores são brancos (43,24%). Além disso, a presença de artistas masculinos no topo é muito maior. No Spotify, nove a cada dez são homens (91,89%) e, no YouTube, o gênero masculino ainda predomina, com oito a cada dez artistas (85,2%).
Esses dados contrastam com o que aponta o Censo de 2022, realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), segundo o qual 51,5% do país é composto por mulheres e a maioria dos brasileiros, cerca de 45,3%, se considera parda. Essas informações revelam como a realidade cultural brasileira contrasta com os perfis de artistas que tomam seu lugar no topo dos charts.
Mesmo com uma riqueza de ritmos no território nacional – como axé, rap, samba, MPB e funk –, não se enxerga uma representação diversificada desses gêneros musicais no top 10 das plataformas. No cenário artístico atual, domina no Spotify Brasil o sertanejo e, no YouTube Brasil, o pagode. Cada um deles conta com, respectivamente, 43,75% e 28,57% das dez primeiras músicas.
O último dado coletado foi em relação às regiões de origem dos artistas mais ouvidos no país. No Spotify, sete a cada dez artistas são sudestinos (70,37%). No YouTube, a metade dos artistas são da região Sudeste (50%). Esse é o único dado nacional que corresponde ao padrão de escuta dos brasileiros, já que o Sudeste, habitado por cerca de 84,8 milhões de pessoas, é a região mais populosa do país.
Há uma hegemonia branca no top 10
Para a reportagem, foi realizado um levantamento a partir de dados coletados pelo site Chart Metric. Foram analisados o top 10 do top 50 semanal do Spotify Brasil e do YouTube Brasil durante as quatro semanas de outubro. Ressalta-se que o período de um mês não reflete o histórico de escuta anual dos brasileiros, que deve fornecer dados mais aprofundados. Além disso, embora exista a categoria de clipes musicais do YouTube no site Chart Metric, os cálculos consideram apenas as faixas. A base foi construída a partir dos seguintes dados: gênero dos artistas (considerando duplas ou grupos musicais como um artista só), regiões de onde vêm (considerando duplas ou grupos musicais como um artista só), gênero das músicas e, por fim, a etnia de cada um dos artistas (considerando cada um de forma individual)..
A primeira observação é a dominância de artistas brancos. Mesmo que estejam em menor parte na população brasileira, sendo o segundo maior grupo étnico do país, eles são maioria nas paradas musicais. Dentre os 36 artistas que circularam pelo topo das paradas (que variaram entre as duas plataformas), no Spotify, 66,67% deles são brancos. No YouTube, a diferença é menor, de 43,24%. A segunda colocação, em ambos os casos, pertence aos artistas negros (pretos ou pardos), que somam 27,02% no YouTube e 13,89% no Spotify.
Para Isabel Nogueira, doutora em Musicologia pela Universidade Autônoma de Madri e professora no Instituto de Artes da UFRGS, essa preferência dos brasileiros por artistas homens, principalmente brancos, é vista em todos os lugares da música: “Me parece uma reafirmação desses lugares de exclusão”, diz.
De acordo com a professora, o homem branco é visto, na perspectiva social, num local de neutralidade, que o permite falar para todas as pessoas e refletir todas as realidades. Além disso, a permanência de artistas masculinos brancos no topo das paradas está diretamente ligada ao investimento, que é drasticamente maior para essa faixa da população, quando comparado a artistas mulheres, negros ou trans.
A sub-representação dessa camada social passa a mensagem de que o topo das paradas não é um lugar para essas pessoas. “Quando a gente tem uma reiteração de algumas pessoas e alguns padrões, a gente vai reforçar as invisibilizações”, afirma Isabel.
A diferença entre a aceitação cultural da participação do homem branco e demais artistas na indústria musical está ligada a diversos preconceitos, como machismo e racismo. Nesse cenário, o objetivo social é reforçar nichos e visões de mundo, colocando algumas perspectivas e narrativas como mais importantes do que outras. Neste caso, o ponto de vista e, consequentemente, o espaço do homem branco, se torna predominante em relação aos dos demais.
Para cidadãos que se enxergam nesse local de invisibilização, a busca por financiamento externo, proveniente de empresas privadas, pode ser o único caminho possível para financiar a carreira artística. Dentre eles estão editais musicais, como o realizado pela Natura, que foi responsável por patrocinar mais de 600 projetos com cerca de R$ 200 milhões em 20 anos. Alguns artistas beneficiados pelo projeto foram Liniker e Emicida que, hoje, contam com amplo alcance nacional.


Mesmo mulheres sendo a maioria, homens dominam o topo
Dentre os 10 primeiros colocados no Spotify Brasil e YouTube Brasil durante quatro semanas, nove (91,89%) e oito a cada dez (85,2%) dos artistas, respectivamente, são homens. Esse número é muito superior ao índice de 48,5% de homens brasileiros, definido pelo Censo de 2022.
Essa discrepância na participação entre homens e mulheres no topo das paradas pode ser vista nas demais áreas musicais: conforme a quinta edição do relatório “Mulheres na Música”, realizado pelo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), elas receberam 8% do total distribuído em direitos autorais durante o ano de 2024. Ainda segundo o levantamento, entre as 100 músicas mais tocadas em shows nesse mesmo ano, apenas 16 têm participação feminina.
Outros estudos são mais otimistas, mas ainda assim comprovam a desigualdade de gênero na indústria musical. Uma pesquisa realizada pela USC Annenberg em 2024, em parceria com o Spotify, demonstrou que 37,7% dos artistas na Billboard Hot 100 Year-End Chart eram mulheres, o que representa um aumento percentual de 2,7% em relação a 2023. Porém, somente 6,5% dos produtores musicais no mundo são mulheres e menos de 3% delas se envolveram com as 800 músicas mais relevantes dos últimos 10 anos. Isso demonstra que a desigualdade de gênero na música não acontece apenas no Brasil: é um problema mundial.


Poucos gêneros musicais prevalecem
Em um país tão vasto e diverso, é comum que inúmeros gêneros musicais apareçam e se desenvolvam. Embora o Brasil seja rico em ritmos, a predominância do sertanejo é evidente: das 16 músicas que circularam pelo top 10 do Spotify Brasil, sete eram do sertanejo, o que representa 43,75%. A diferença entre os outros ritmos é grande: em segundo lugar, ficou o funk, com quatro colocações (25%), seguido do pagode, com dois (12,5%), e finalizados com o pop e o forró, com uma música cada (6,25%).
Por outro lado, no YouTube, esses números diferem. Das 14 músicas que dominaram o top 10 do YouTube Brasil (considerando faixas, não clipes), quatro eram pagode e três, funk, o que representa 28,57% e 21,43%, respectivamente. O sertanejo aparece somente na terceira colocação, empatado com o forró, com duas músicas no topo das paradas (14,2%). Por fim, o pop conquistou uma colocação em cada um dos charts. Já o trap e o K-pop também apareceram uma vez, mas somente no YouTube Brasil. Cada um desses últimos gêneros foi responsável por 7,14% das músicas.
Para Isabel, a prevalência do sertanejo no Spotify está relacionada aos maiores investimentos desse gênero musical, principalmente graças ao agronegócio e aos investimentos em shows, como a “Emenda Pix”, que permite a prefeitos usarem verbas federais sem precisar prestar contas. “O lugar que tem um investimento financeiro vai ter uma maior potencialidade”, afirma.
Esses recursos têm frequentemente financiado shows de pequenas cidades que, por vezes, passam por dificuldade em infraestrutura. Os cantores e duplas sertanejas tendem a ser as atrações principais dessas apresentações. Em 2022, por exemplo, a cidade de Mar Vermelho (AL), com 3.155 habitantes, investiu R$ 370 mil em um show do Luan Santana.
Uma pesquisa realizada pelo Núcleo de Dados do EM comprovou que, entre 2023 e 2025, 33 cidades mineiras sem hospital gastaram R$ 8,1 milhões em emendas Pix para pagar shows que, em sua maioria, contavam com grandes artistas sertanejos. Entre essas cidades, o maior gasto fica para Alpercata (MG), com R$ 860 mil, em um show que contava com a dupla Israel & Rodolffo.
De acordo com a Central das Emendas – site dedicado ao monitoramento e transparência das emendas parlamentares –, o valor em emendas Pix saiu de R$ 615,87 milhões para R$ 7,65 bilhões de 2020 a 2024. Somente neste último, foram R$ 3,4 bilhões.
Para Isabel, a maioria esmagadora do sertanejo no Spotify também serve para “confirmar o cânone”, já que a repetição desses perfis faz com que eles sejam vistos como a norma: “Isso se aplica principalmente no sertanejo, que também tem essa ideia de reafirmar padrões vigentes”, define. Afinal, embora a indústria criativa seja muito diversa, boa parte dos artistas, como mulheres, pessoas negras ou cantores de gêneros considerados periféricos, recebem ainda menos investimento.

Entre os artistas mais populares nas duas paradas estão nomes como Zé Felipe, cantor sertanejo que aparece uma vez no YouTube e no Spotify, e Menos é Mais, grupo de pagode que desponta duas vezes em ambos. Dentre outros cantores de sertanejo que são vistos em ambas as plataformas, estão Diego e Victor Hugo e Simone Mendes. Para fins de comparação entre os gêneros musicais, foi selecionada a semana do dia nove a 16 de outubro.


Sudestinos são a maioria
Foi observado que, em ambos os charts, cinco a cada dez artistas do top 10 são de origem sudestina. No Spotify Brasil, isso equivale a 51,85% e, no YouTube Brasil, 53,85%, demonstrando a hegemonia da região no cenário musical brasileiro. Esse é o único dado da pesquisa que reflete os números do Censo de 2022, já que, naquele ano, foi constatado que a região Sudeste é habitada por 41,8% da população nacional, sendo a mais populosa do país. Em segundo lugar, porém, os levantamentos diferem: no Spotify, a região Centro-Oeste fica com 22,21% de artistas e, no YouTube, o Nordeste fica com 21,98%.
Nos “charts” do YouTube, um dos artistas é de origem desconhecida; por isso, ele foi desconsiderado na contagem. Um destaque para ambas as paradas é que elas contaram com artistas estrangeiras no top 10, sendo elas Taylor Swift, que permaneceu por uma semana no Spotify Brasil, e o grupo feminino de K-pop HUNTR/X, que se manteve no top 10 do YouTube Brasil pelo mesmo período.


As diferenças entre os artistas que dominam as paradas e o perfil da maioria da população não aponta apenas uma incongruência, como também demonstra como a preferência musical por determinados perfis pode se tornar um reflexo de preconceitos enraizados na nossa sociedade. Afinal, o top 10 do Spotify e do YouTube Brasil são compostos, em sua maioria, por homens e pessoas brancas, apesar da maior parte do país ser composta por mulheres e pessoas negras (pretas ou pardas), o que evidencia como os nossos padrões de escuta podem reforçar hierarquias culturais.
É importante ressaltar, no entanto, que os algoritmos podem intensificar esses padrões, já que eles buscam recomendar artistas do mesmo gênero musical de preferência do usuário, o que leva as pessoas a ouvirem o que já estão habituadas. Um relatório lançado em 2024 pela Your Music Marketing, por exemplo, afirmou que 18% das músicas ouvidas no Spotify desde 2015 vieram de playlists algorítmicas. Isso significa que uma a cada cinco músicas ouvidas no Spotify foram recomendadas com base nos padrões de escuta dos usuários.
Por isso, para tornar as paradas um reflexo da diversidade que permeia o Brasil, é necessário desafiar nossos hábitos musicais cada vez mais. Conhecer artistas diferentes, tanto através de plataformas musicais quanto em shows, é um passo necessário para trazer maior visibilidade a parcelas da população que não são tão vistas quanto outras.
Reportagem originalmente produzida na disciplina Ciberjornalismo III do curso de Jornalismo da Fabico/UFRGS no semestre letivo 2025/2, sob a orientação do professor Marcelo Träsel.
