Em 90% dos casos de cânceres de pâncreas, a proteína RAS, presente em cada célula do corpo humano com a função de controlar crescimento, proliferação, diferenciação e sobrevivência celular, apresenta alterações que ocasionam um estado de ativação permanente. Durante décadas, essa mutação foi considerada um alvo impossível de ser alcançado por medicamentos. Porém, em abril deste ano, o cenário começou a mudar: a empresa americana Revolution Medicines divulgou os primeiros resultados de um estudo que quase dobrou a vida de pacientes com câncer de pâncreas metastático sem resposta à quimioterapia apenas com o tratamento de um comprimido ao dia, o Daraxonrasib.
Diante da novidade que animou a comunidade médica e pacientes que tratam esse tipo agressivo de câncer, o Humanista foi atrás de mais informações para entender seu impacto. Entenda!
Como o câncer de pâncreas é originado?
Dentro do nosso corpo, as células humanas podem sofrer mutações no gene RAS, fazendo com que a proteína fique permanentemente “ligada”. Isso ocasiona a divisão celular descontrolada, sendo uma das alterações genéticas mais comuns em diversos tipos de cânceres, como os de pulmão, pâncreas e tireóide. A proteína funciona como um interruptor: ativa o crescimento e a divisão celular quando necessário e, em seguida, é desligada. A alteração acontece quando esse elemento trava quando “está ligado”. Dentro da medicina, o RAS ficou conhecido como undruggable, que significa intratável, inalcançável ou impossível.
Em casos de câncer de pâncreas, isso ocorre quando há uma mutação no gene RAS, a proteína permanece em ativação, comandando a célula a crescer, multiplicar e invadir. Consequentemente, as células tumorais continuam se multiplicando de forma descontrolada.
Em particular, o câncer de pâncreas não tem sinais evidentes, nem sintomas precoces. Normalmente, quando a doença é diagnosticada, 80% dos casos estão em estágio avançado ou metastático. Nos Estados Unidos, cerca de 60 mil pessoas recebem o diagnóstico ao ano e, deste número, 50 mil acabam falecendo. Enquanto no Brasil, de 13 mil diagnósticos ao ano, 12 mil acabam em morte, segundo o Atlas da Mortalidade do Instituto Nacional de Câncer (INCA).
Quais são os tratamentos disponíveis?
Até então, a única alternativa para o tratamento do câncer de pâncreas era a quimioterapia intravenosa, a qual conseguia controlar a doença por um determinado tempo, estendendo alguns meses a perspectiva de vida dos pacientes. Porém, se a quimioterapia fosse insuficiente, poucas alternativas terapêuticas restavam.
Diante desse contexto, o medicamento Daraxonrasib foi avaliado em um ensaio clínico de Fase 3. O estudo RASolute 302 reuniu aproximadamente 500 pacientes separados em dois grupos: um recebeu o novo medicamento em comprimidos de uso diário, enquanto o outro seguiu o tratamento com a quimioterapia tradicional, administrada por via intravenosa.
Os resultados mostraram benefícios clínicos. A sobrevida mediana das pessoas que receberam o medicamento foi de 13,2 meses e, no grupo que continuou com a quimioterapia, foi de 6 a 7 meses. Os pesquisadores notaram que houve uma redução de aproximadamente 60% no risco de morte entre os pacientes que fizeram o tratamento com o Daraxonrasib em relação àqueles tratados apenas com a quimioterapia. O estudo alcançou todos os objetivos almejados pelos pesquisadores. Cerca de um terço dos pacientes apresentou redução do tumor e 80% tiveram alguma resposta ou estabilidade.
A droga também pode ser consumida via oral, ou seja, as pessoas podem tomar em casa, sem precisar se deslocar até o hospital para receber quimioterapia intravenosa. Os efeitos colaterais apresentados foram reações de pele, náuseas, fadiga e mucosite, que consiste em uma inflamação dolorosa com formação de úlceras no revestimento do sistema digestivo.
Ela já está disponível para uso?
Nos Estados Unidos, a aprovação da droga ainda está em análise, todavia, a Agência de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA) já deferiu ao Daraxonrasib o título de Breakthrough Therapy, que é uma classificação para os medicamentos que demonstram vantagem substancial aos tratamentos existentes. Além disso, foi selecionada para o programa National Priority Voucher do FDA, que possibilita adiantar a fila de análise de medicamentos que são considerados prioritários para a saúde pública no país.
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) precisa aprovar o uso da substância. No sistema privado, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) tem que publicar uma diretriz de utilização técnica para que os planos de saúde consigam cobrir com o tratamento. É um processo que exige cautela, mas que apresenta um futuro promissor.
