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Cozinha solidária do MTST oferece refeições e acolhimento em Porto Alegre

Mesmo com a diminuição da taxa de insegurança alimentar no RS, 1,7 milhão de pessoas no estado ainda não têm certeza do que vão comer na próxima refeição

Ao chegar no número 608 da Avenida Azenha, em Porto Alegre, vejo uma casa vermelha com um portão de garagem aberto entre diversos prédios comerciais. Ali, a  fachada já mostra que não é um estabelecimento comum, como uma assistência técnica de carros ou uma loja de parafusos e ferramentas: entre os desenhos de um garfo e uma colher está escrito “Cozinha Solidária da Azenha”. Além disso, há algumas mensagens escritas que me chamam atenção: “Almoço Grátis” e “Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome”. Essa casa serve, na sua garagem, com chão de brita, marmitas de graça para quem estiver precisando e é organizada pelo Movimento de Trabalhadores sem Teto (MTST). Além dela, outras três sedes estão espalhadas pela capital gaúcha: duas mais para a Zona Norte, a Cozinha Solidária Maristas e a Cozinha Solidária Beer Fir; a outra na Zona Sul, a Cozinha Solidária do Lami. Entre essas quatro cozinhas solidárias, cerca de 1.700 marmitas são servidas durante o horário de almoço entre segunda e sexta-feira. Só na cozinha da Azenha, por exemplo, a equipe do MTST se organiza para preparar cerca de 600 refeições todos os dias.

Lá, a cozinheira Lili, de 48 anos, chega às sete da manhã para começar a ajeitar as coisas: ela começa preparando o café que vai ser servido das nove da manhã até às onze e meia; é nesse momento que ela e os voluntários do movimento preparam o cardápio do dia, que varia de acordo com a disponibilidade dos alimentos na despensa. 

Com o café já passado e os pães prontos para serem servidos, Lili começa a recepcionar quem entra no espaço: “e aí, amiguinho, está com fome? Tem café e pão aqui para você”. Lili é baiana, mas trabalhou por muito tempo no MTST de Minas Gerais. Chegou no Rio Grande do Sul durante as enchentes que afetaram o estado durante 2024 à convite de que estavam se mobilizando para ajudar as pessoas em maior vulnerabilidade. No meio disso, se apaixonou por um gaúcho e não voltou mais para as terras mineiras: “me perguntavam quanto tempo eu ia ficar e eu sempre disse que não sei, talvez só mais uma semana – quando a próxima van for pra lá. Daí, eu fui aprendendo a gostar daqui…

Fundado em 1997, o Movimento de Trabalhadores Sem Teto (MTST) tem  caráter social-político-popular para defender o direito à moradia nas cidades | Imagem: Gabriel Ximendes Ortega/Humanista

Luiza e Bruno* estão sentados juntos embaixo de um telhado de amianto se protegendo da chuva, em frente a uma arte que diz “Quem não pode com a formiga, não atiça o formigueiro!”. Bruna frequenta  a cozinha solidária desde janeiro de 2026 e começou a almoçar ali por uma indicação de uma colega do Albergue Dias da Cruz. Lucas, por outro lado, conheceu o espaço mais recentemente,  em setembro. 

“Conheci através de um outro peregrino, né? É que eu ficava lá para o lado do Centro, daí,  quando comecei a ir pra Zona Leste, comecei a vir pra esse lado, daí o cara me perguntou se eu não queria ir para o albergue. Agora, eu nem desço mais para o bandejão, fico uns dias ali e almoço aqui”
Bruno, 32 anos
Frequentador da cozinha solidária

Luiza já usou outros serviços prestados pela cozinha além do almoço: “venho aqui direto para tomar um café com pão e já peguei umas roupas no brechó deles, também.” Além de servir comida, na Azenha, os voluntários da cozinha solidária e do MTST trabalham com um brechó caridoso, onde as pessoas não precisam pagar nada pelas roupas. Também possuem parceria com o Consultórios na Rua, programa do Sistema Único de Saúde (SUS) para atendimentos de saúde voltados a pessoas em situação de rua. A cooperação garante o tratamento contra a tuberculose, doença infecciosa que teve 1.252 novos diagnósticos em 2025 na Capital, o maior número da série histórica. Há ainda a ação Reduções de Danos e Alimentação, com oficinas para fortalecer o cuidado à saúde e os direitos à moradia.

Mesmo que o número de gaúchos em situação de insegurança alimentar tenha caído em 22% entre 2023 e 2024, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),, a fome ainda persiste na população do Rio Grande do Sul: são 1,7 milhão de pessoas, ou 15,13% da população do estado, que não têm certeza do que vão conseguir comer na próxima refeição. Com isso, o trabalho de cozinhas solidárias tem por objetivo fornecer alimentação gratuita e de qualidade à população, preferencialmente às pessoas em situação de vulnerabilidade e risco social, incluída a população em situação de rua e em insegurança alimentar e nutricional.

Magnun Bernardes é enfermeiro, cozinheiro e responsável pela prestação de contas das Cozinhas Solidárias do MTST no Rio Grande do Sul para o MDS (Ministério de Desenvolvimento Social). Segundo ele, o trabalho do Movimento de Trabalhadores Sem Teto é importante para a transformação das estruturas que causam a fome, a falta de moradia e ataques aos direitos humanos, indo além da distribuição de comida.

“No movimento social, a gente entrega comida e faz um serviço que é assistencial. Porém, também temos, em paralelo, a luta para mudar essas estruturas que colocam as pessoas nessa condição. Então, não é só a questão de fazer a comida. É  fazer a comida e lutar para que  nós não sejamos mais necessários. Essa é a nossa luta, a nossa luta como movimento social: modificar a realidade”
Magnun Bernardes, 37 anos
Ativista do Movimento de Trabalhadores Sem Teto no RS

Além de servir comida, na Azenha, os voluntários da Cozinha Solidária e do MTST trabalham em outras frentes | Imagem: Gabriel Ximendes Ortega/Humanista

Segundo Juliano Ferreira de Sá, doutorando  em Políticas Públicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e ex-presidente do Conselho Estadual de Segurança Alimentar Nutricional (Consea) do Rio Grande do Sul, as histórias das Cozinhas Solidárias podem ser divididas entre dois momentos: o antes e o depois da pandemia de Covid-19, que começou no início do ano de 2020. O pesquisador e ativista afirma que foi “a partir desse marco simbólico que a sociedade civil brasileira deu uma resposta para a ausência do poder público”: “Foi a partir desse momento que podemos dizer que tivemos um boom de cozinhas solidárias. De forma emergente, essas cozinhas começaram a ser a resposta da sociedade civil que, juntamente com diversos movimentos, como os sociais e dos agricultores familiares, doaram para essas cozinhas comunitárias e acabaram protagonizando uma grande corrente de solidariedade.”

“Enquanto a gente via o agronegócio não se mexendo no que se refere à questão de promover solidariedade para aqueles e aquelas que também estavam sofrendo com a crise da Covid-19, agricultores familiares passaram a doar o pouco que tinham sem receber nada em troca. Tudo isso acabou fazendo com que as cozinhas solidárias tivessem uma importância enorme. Mesmo com a retomada das políticas públicas, a partir de 2023, esses lugares continuaram sendo territórios que organizam muita gente: desde as pessoas que organizam o espaço, até as comunidades que ficam na volta, criando uma rede de solidariedade que vai muito além de um prato de comida”
Juliano Ferreira de Sá, 47 anos
Doutorando em Políticas Públicas pela UFRGS

Para Juliano, uma de suas maiores vitórias enquanto estava à frente do Consea foi a garantia de pautar um projeto de lei apresentado pelo então deputado federal Guilherme Boulos para fortalecer as cozinhas solidárias. Além do projeto , o Conselho Estadual de Segurança Alimentar Nutricional redigiu uma proposta de  política pública para o governo do Rio Grande do Sul,que foi aceita e tornou-se uma política pública estadual. Com isso, o governador Eduardo Leite emitiu um decreto instituindo a Estratégia Estadual de Fomento dos Pontos Populares de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (PPSSAN). 

Também, não é possível falar da trajetória de Juliano frente ao Consea sem falar dos desafios: passar pela pandemia de Covid-19 foi um deles, mas o maior foi a extinção do conselho presidido por ele, a partir de uma medida provisória então presidente Jair  Bolsonaro, em seu primeiro dia de mandato. No entanto, desde 2023, com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, o orgão federal foi restituído.

Fundado em 1997 e com caráter social-político-popular para defender o direito à moradia nas cidades, o MTST se iniciou no Rio Grande do Sul em 6 de novembro de 2015.   Naquela noite, cerca de cem famílias e ativistas ocuparam um terreno  localizado aos pés do Morro Santana, na Zona Leste da capital gaúcha. Desde então, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto esteve presente ajudando a população gaúcha em momentos críticos, como a pandemia e as enchentes que assolaram o Estado. 

Criada em 2021, durante a pandemia, a Cozinha Solidária da Azenha foi a primeira entre as quatro que existem hoje em dia, em Porto Alegre. Durante as enchentes, cerca de quatro mil marmitas foram entregues para a população afetada com as mudanças climáticas extremas. Foram fornecidas  ao menos 84 mil refeições nas regiões mais impactadas pelas enchentes. Além dos alimentos, foram oferecidos materiais de higiene, limpeza e roupas, que foram arrecadados em São Paulo pelo MTST paulista.

Eu estava sentado dentro da cozinha onde o almoço estava sendo preparado. Lá, eu escutava as conversas entre os frequentadores e os ativistas do MTST.  Falavam sobre as mais diversas questões acerca do estado atual do Brasil: desde a função e a eficácia de auxílios à população até a violência policial em Porto Alegre.

Dois irmãos, Júlio e André, foram entrando pela garagem até chegar onde estavam  sendo servidos os pães e o café-da-manhã. André estava com o lábio inferior da boca bastante inchado e o braço enfaixado; Júlio mancava pelo chão de brita: “aí, tia, me vê um cafézinho? Mas me vê pouco, eu estou com a boca toda costurada e não vou poder tomar o café quente.” Lili saiu do lado da panela industrial onde preparava cerca de 50 quilos de arroz para servir o café ao moço. Enquanto isso,  André chegava mais lentamente.

Lili olhou para Júlio e lhe entregou a bebida e um pedaço de pão cacetinho. “Levou pau da polícia, foi?”, questionou. Ambos acenaram para a pergunta da cozinheira. Estavam um tanto envergonhados, pareciam não querer falar sobre o assunto: “é, tia. Estavam batendo no mano, aqui, e me perguntaram ‘quer ver que eu não te quebro inteirinho, também?’. Eu não estava pra brincadeira, mas disse que queria ver… daí, eu vi. Quase quebraram minha perna.”

Após se alimentar com os pães, André ainda esperava o seu café esfriar.  Ele e o irmão foram se sentar perto de uma outra mulher, Marina. Os três pareciam ser um pouco mais velhos do que eu: no mínimo, uns 25 e, no máximo, uns 35 anos. Toda vez que alguém chegava para tomar o café-da-manhã, perguntava para André sobre seu braço e sua boca e, então, as respostas começaram a variar: “isso que tu não viste como eu deixei o outro colega… foi uma briga de rua, sabe como é? A polícia chegou mais tarde e bateu no Júlio, só. Eu levei pau de um outro por aí.”

Quanto mais pessoas chegavam, o papo ia mudando aos poucos. Em certo momento, se falou sobre o aumento do auxílio do Bolsa Família. Um dos apoiadores da cozinha virou e começou a conversar com outras pessoas: “tinha que aumentar mais! O povo precisa disso pra sobreviver.” Uma frequentadora que já estava na fila esperando o almoço escutou e indagou a fala do ativista: “eu cansei de auxílio, queria um emprego.”

Aqui, senti (e continuo sentindo) algo complexo: não é possível desmerecer o anseio dela. Mesmo que a quantidade de desempregados tenha caído de 9 milhões, entre fevereiro e abril de 2023, para 5,8 milhões, entre maio e julho de 2026, ainda há muito a ser feito e ser melhorado: muitas vezes, são empregos com um alto nível de precarização, como questões de informalidade, alta rotatividade e salários insuficientes.

O ativista olhou para ela através da divisão do espaço da cozinha e da fila para pegar sua marmita e disse: “pois vamos conseguir!”

*Os nomes das pessoas em situação de rua foram alterados para protegê-las.

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