Ao atravessar a linha de chegada do Grande Prêmio da Espanha de Fórmula 1 na sexta posição, Lella Lombardi se tornou a primeira mulher a pontuar em uma prova do campeonato mundial. O meio ponto conquistado por Lombardi em Montjuïc, em 1975, é até hoje o único conquistado por uma mulher na principal categoria de automobilismo do mundo. Desde então, apenas três outras mulheres estiveram inscritas para alguma corrida, e nenhuma sequer conseguiu largar. Lombardi deixou a categoria em 1976, marcando meio século desde a última vez que algum fã pôde torcer para uma pilota em uma corrida. A Federação Internacional do Automobilismo (FIA), porém, tem planos para que essa realidade mude nos próximos anos, e os resultados começaram a aparecer.
Em 2014, a FIA criou a Fórmula 4, um modelo de competição que passou a ser a principal porta de acesso a pilotos que desejam fazer a transição dos karts para os carros de fórmula (aqueles parecidos com os de Fórmula 1, com rodas expostas). Um levantamento feito por esta reportagem , considerando 25 categorias mistas (abertas aos dois gêneros) de F4 ao redor do mundo mostra que, de 2015 a 2025, a presença feminina nesses campeonatos quase quintuplicou, saindo de 12 representantes para 59.

A principal explosão neste número aconteceu a partir de 2023, ano em que a Fórmula 1 instaurou a F1 Academy, primeira categoria de F4 exclusivamente feminina e que acontece em paralelo ao campeonato mundial, correndo nos mesmos circuitos e nos mesmos fins de semana deste. Desde 2024, cada equipe da Fórmula 1 apoia ao menos uma pilota. O objetivo da modalidade é facilitar e incentivar a participação feminina no automobilismo, aumentando sua visibilidade e buscando, a longo prazo, voltar a ter uma representante no grid do campeonato mundial.
Mas a ideia de criar uma categoria de monopostos destinada exclusivamente ao público feminino não foi uma novidade apresentada pela F1 Academy. Em 2019, a W Series foi criada com o mesmo objetivo, mas utilizava carros de Fórmula Regional, que são mais rápidos e estão um nível acima da F4 no caminho rumo à F1. Para equalizar a disputa, todas as competidoras tinham o mesmo chassi e uma única equipe gerenciava todos os carros. Outra iniciativa dos organizadores era o apoio financeiro, já que a própria categoria bancava de forma integral a campanha de todas as participantes.
Após um primeiro ano bem sucedido, a temporada de 2020 precisou ser cancelada devido à pandemia. Quando a categoria retornou, em 2021, passou a funcionar como suporte à F1. Foi neste ano que a brasileira Bruna Tomaselli ingressou na modalidade, aos 23 anos.
Catarinense de Caibi, Bruna foi a única representante do país no grid, competindo em 2021 e 2022. Ela disputou 15 provas, terminando nos pontos em quatro. Seu melhor resultado em corridas foi o quinto lugar, alcançado duas vezes. No campeonato, foi a 12ª colocada em 2022, de um total de 19 competidoras.

Mesmo que não tenha conseguido seguir carreira em carros de fórmula, Bruna acredita que iniciativas como a W Series e a F1 Academy estejam fomentando a presença das mulheres no esporte. “Elas chamam atenção, elas buscam pilotos, então eu acho que todas essas iniciativas são incríveis, independente da categoria”.


Mesmo sem conquistar pódios e vitórias, a experiência obtida durante sua passagem na Europa lhe rendeu aprendizados que vão muito além da performance. “A gente fazia parte do circo da Fórmula 1, correndo junto com a Fórmula 1, conhecendo os circuitos, todo o ecossistema”, comenta Bruna. “É um cenário totalmente diferente, muito profissional, muito competitivo, assim como em todas as categorias que eu já passei, mas a Fórmula 1 é a Fórmula 1”, ressalta. Todos esses aprendizados colaboraram para o restante da sua carreira. Bruna segue competindo, fazendo parte de uma formação 100% feminina, na equipe SG28, da Nascar Brasil, ao lado da colombiana Tatiana Calderón.

A biologia pode explicar a baixa presença feminina?
O automobilismo difere de muitas outras modalidades por ser mista. Em outros esportes, as práticas masculina e feminina têm regulamentos próprios. No basquete, por exemplo, a bola tem uma circunferência 2,6 centímetros menor, pesando cerca de 57 gramas a menos para elas. No vôlei, a rede é 19 centímetros mais baixa.
Isso faz surgir um questionamento: a baixa presença de mulheres no automobilismo poderia ser explicada pela biologia? Para a fisioterapeuta da equipe do Centro do Movimento da PUCRS, Roberta Tolledo, não. “O carro vai ser adaptado para todos os corpos”.
Isso não quer dizer, contudo, que não haja diferenças na forma como homens e mulheres precisam se preparar para os desafios físicos que enfrentam. Os corpos são diferentes e, por isso, elas precisam reforçar áreas que são biologicamente menores que as deles.
Uma das diferenças diz respeito à pelve. A femina tem uma mobilidade maior para, anatomicamente, facilitar o processo de gestação. “O treinamento teria que gerar um pouco mais de estabilidade na região da pelve para que o abdômen se firme o suficiente para, na hora do torque, dos giros, esse centro de força esteja tão firme quanto o do homem”. O mesmo vale para outras partes do corpo exigidas pelo automobilismo, como a cintura escapular, o pescoço, os ombros, o trapézio e os braços. “Tem mulheres com estrutura tão grande quanto um homem, em estrutura de massa e gordura, mas se a gente pegar a parte estrutural das vértebras, elas têm uma densidade óssea menor”, expande Roberta, que ainda faz uma ressalva: “o esforço para os dois [homens e mulheres] se mantém o mesmo”.
Dinheiro: a primeira barreira
Até o momento, nenhuma das participantes da F1 Academy ou da W Series sequer alcançou a Fórmula 3. Apesar disso, Bruna Tomaselli nega que tais iniciativas estejam falhando em seu propósito. “Muito pelo contrário, eu acho que elas desenvolvem o papel delas muito bem no objetivo de preparar pilotas pros próximos passos”. Ela aponta que, na verdade, o automobilismo é um esporte em que resultados, apenas, não são suficientes, seja para homens ou mulheres. “O automobilismo exige tanto financeiramente como [da habilidade] do piloto para você seguir carreira, seguir subindo de categoria”, explica Bruna. Essa foi uma das razões pelas quais ela decidiu mudar os rumos de sua carreira para carros de turismo após a falência da W Series ao final de 2022.
A trajetória rumo ao topo do automobilismo começa pelo kartismo, onde pilotos podem participar de uma grande variedade de campeonatos regionais, nacionais e internacionais. Os que desejam alcançar a Fórmula 1 costumam começar entre os três e os seis anos de idade. Com o passar do tempo, os karts vão ficando mais rápidos, complexos e caros (veja valores na arte abaixo, com base em um levantamento feito pela BBC). Esta é a etapa em que os pilotos passam mais tempo, aprendendo os fundamentos do esporte.
Aos 15 anos, eles tornam-se elegíveis para competir em algum campeonato de Fórmula 4, fazendo a transição para os monopostos. O passo seguinte é o da Fórmula Regional, criado em 2019 e permitido a partir do momento que o piloto completa 16 anos de idade. Os mais habilidosos e ambiciosos podem, por sua vez, decidir saltar a Fórmula Regional e subir diretamente para a Fórmula 3, que também é liberada aos 16 anos. Aos 17, o piloto pode fazer sua estreia na Fórmula 2, último passo antes da tão sonhada Fórmula 1.

Para além das finanças
Bia Figueiredo sabe muito bem os desafios enfrentados para chegar ao topo do esporte a motor. Ela é a única brasileira que já disputou uma categoria de ponta de monopostos, sendo uma das 11 mulheres que já competiram na Fórmula Indy. Mas sua trajetória até lá não foi fácil. Além da questão financeira, Bia conta episódios de sua carreira em que o preconceito praticado por homens dificultou ainda mais esse árduo caminho. “Sofri um pouquinho no Brasil, nas categorias de base de fórmula, principalmente. A galerinha me jogava para fora, então me atrapalhou um pouco no campeonato”, relata a hoje pilota da Copa Truck pela Iveco. “Em 2005 eu disputei o título, mas acredito muito que eu teria sido campeã se não fossem algumas batidas propositais, sabe?”, reclama. Na ocasião, ela venceu três corridas e terminou a temporada da Fórmula Renault 2.0 Brasil na terceira colocação.
“Eu não ligava muito, mas eles [membros da equipe] me zoavam o tempo inteiro por ser mulher e tentar algo no automobilismo. É como se fosse uma tentativa ridícula”
Bia Figueiredo, Pilota e presidente da Comissão Feminina de Automobilismo

Após mais um ano competindo na América do Sul, Bia se mudou para a Europa em 2007 e passou cerca de quatro meses testando carros da Fórmula Renault Britânica. Mas, em seguida, mudou-se para os Estados Unidos e, em 2008, decidiu dedicar seus esforços ao sonho de chegar à Fórmula Indy, passando a disputar sua categoria de acesso, a Indy Lights. Lá, terminou na terceira colocação do campeonato, foi a melhor estreante e se tornou a primeira mulher a vencer, quando triunfou no circuito oval de Nashville.
Para Figueiredo, um dos principais motivos para seu sucesso nos Estados Unidos estava no apoio que recebia da equipe. “Na Inglaterra eu senti assim: ou você tem dinheiro, ou sai fora”, relembra. “Eu não ligava muito, mas eles [membros da equipe] me zoavam o tempo inteiro por ser mulher e tentar algo no automobilismo. É como se fosse uma tentativa ridícula”, continua Bia. “E nos Estados Unidos não, eu senti um mega apoio quando eu fiz os testes pela [equipe] Sam Schmidt”, aponta. “Eles piraram comigo, e fizeram de tudo para eu correr no ano seguinte, arrumar patrocinador, diminuíram a verba, porque realmente viram um talento, né? Fico feliz com isso, que me ajudou a fazer a minha carreira internacional”, finaliza.

O que falta para uma mulher na Fórmula 1?
Para Bia Figueiredo, a resposta é bastante lógica: mais pilotas na base. “Num cenário de 500 pilotos, cinco a dez meninas é muito pouco para você encontrar os grandes talentos. A estatística acaba não ajudando”.
É aqui que os dados se alinham com as análises de quem acompanha o dia a dia do esporte. O levantamento realizado pelo Portal Humanista considera todas as mulheres que fizeram ao menos uma largada nos 25 campeonatos analisados. Considerando-se apenas as cinco principais categorias de Fórmula 4, de onde saem a maioria dos pilotos que alcançam a Fórmula 1, eram sete mulheres em 2015. Em 2025, esse número cresceu para 17. E em 2026, embora a temporada ainda esteja em andamento, já se registram 22 pilotas diferentes, um aumento de mais de três vezes em relação a 2015.

Apesar desse crescimento no número absoluto, as mulheres representaram apenas 10,8% do total de competidores em 2025, ainda uma minoria para que seja possível que alguma delas seja a próxima representante na principal categoria do automobilismo mundial.
Preconceito muito além do esporte
Para que a quantidade de meninas disputando categorias de base cresça é necessário mudar um cenário cultural que permeia a relação das mulheres com o cenário automotivo como um todo. Existe um estereótipo de que a mulher é mais perigosa nas ruas, enquanto, na verdade, os dados da realidade demonstram o oposto.
De acordo com o Detran RS, ao longo de todo o ano passado, foram registradas 1683 vítimas fatais de acidentes de trânsito no estado. Dessas, 79% eram homens e 21% mulheres. No mesmo ano, o perfil do Rio Grande do Sul apontava que 37,3% das condutoras eram mulheres e 62,6% homens, mostrando que, proporcionalmente, elas se envolvem muito menos nesse tipo de acidente.

Para a doutora em psicologia pela Universidade de Barcelona e coordenadora do Grupo de Pesquisa Trânsito e Transporte Sustentável da UFPR, Alessandra Sant’Anna Bianchi, algo que leva ao pensamento estereotipado é uma construção sociocultural de décadas. “Da sociedade dizer que meninos brincam de carrinho”, pontua. “Pelo menos a Barbie tem carro, agora, né?”.
Essa falta de contato com os carros faz com que um momento comumente aguardado por homens seja um de maior tensão para parte das mulheres: a autoescola. “Enquanto para os meninos, muitas vezes, a autoescola é aquela permissão para poder dirigir, para as mulheres acaba sendo ‘meu Deus, agora eu vou ter que dar um jeito de passar nisso aqui para o meu pai ou para a minha mãe liberarem o carro. Eu vou ter que provar que eu sou boa, que eu não sou isso que a sociedade diz’”, argumenta a psicóloga.
Entretanto, nem tudo tem a ver com se provar para as pessoas. Segundo a especialista, estudos apontam que mulheres se sentem mais nervosas em situações de avaliação, e se preocupam mais em não causar dano para o outro. “Errei, que droga, bati o carro”, apresenta Alessandra para ilustrar a linha de pensamento de um homem que se acidenta. Para a mulher, o raciocínio é outro: “Eu só bati o carro, tudo bem, [não é bom] mas eu poderia ter feito mal para alguém”.
As mulheres também são menos agressivas ao dirigir, o que colabora para o medo de enfrentar as ruas. “Nosso trânsito brasileiro é um ambiente agressivo”, analisa Alessandra. “E corta a frente e ‘eu preciso chegar antes’ e buzina se eu acho que você está lerda demais. Ainda tem os engraçadinhos que passam e dizem ‘só podia ser mulher’”, exemplifica.
Iniciativas que fazem a diferença
A cultura que existe nas ruas se estende aos autódromos. “Quando eu comecei, era somente eu, basicamente, que ia para as pistas”, relembra Bruna Tomaselli sobre a ausência de outras meninas em suas corridas. Hoje o cenário mudou bastante e iniciativas que apoiam a participação de mulheres não se resumem aos dois campeonatos exclusivamente femininos citados.
A nível internacional, o FIA Girls on Track – Rising Stars foi um dos pioneiros. O projeto surgiu em 2020 a partir de uma parceria entre a Comissão Mulheres no Automobilismo da FIA e a Scuderia Ferrari. Ele promove campos de treinamento e testes em pista para jovens pilotas em duas categorias: sênior, em carros de Fórmula 4, e júnior, em karts. Ao final, uma vencedora é escolhida em cada, com a premiação sendo apoio técnico, esportivo e financeiro para uma temporada completa em um campeonato internacional de F4 ou kart, respectivamente. Até 2022, as vencedoras da categoria sênior também eram selecionadas para fazer parte da academia de jovens pilotos da Scuderia Ferrari a partir do ano seguinte. Em 2022, a vencedora foi a brasileira Aurelia Nobels.

Já a F1 Academy, por meio do projeto Discover Your Drive, apoia a participação de meninas ainda no kart. A iniciativa arca com 30% dos custos das taxas de inscrição e oferece macacão, luvas, sapatilhas e camisetas de competição. Este apoio é destinado a um número determinado de meninas de oito a 17 anos que desejam disputar os campeonatos internacional ou britânico da Champions of the Future Academy.. Também oferece acompanhamento com uma equipe de performance e desenvolvimento ao longo de todo o ano, além de outros benefícios.
No cenário nacional, quem coordena as ações voltadas a mulheres é a Confederação Feminina de Automobilismo (CFA), presidida por Bia Figueiredo. “Hoje nós somos referência nos projetos FIA Girls On Track no mundo”, explica Figueiredo. “Não tem nenhuma comissão no mundo que faça mais que a gente”, complementa. Segundo a presidente da CFA, entre as principais ações desenvolvidas pelo projeto estão as seletivas FIA Girls On Track de kart. Em 2023 e 2024, elas foram disputadas em três categorias, com os prêmios às vencedoras sendo participações totalmente gratuitas na Copa Brasil de Kart de 2023 e no Campeonato Brasileiro de Kart de 2024, respectivamente. Em 2024, as três primeiras na categoria Graduadas também ganharam um teste na Nascar Brasil. Em 2025, edição mais recente, as seletivas sofreram alterações, passando a ser disputadas apenas em duas categorias e com o prêmio às vencedoras passando ao valor de 30 mil reais.


O programa FIA Girls On Track brasileiro também é voltado para quem tem interesse fora das pistas. Em diferentes eventos realizados em todo o território nacional, estudantes de engenharia e comunicação, principalmente, são convidadas para vivenciar um fim de semana de corridas dos boxes, conhecendo a rotina de trabalho em categorias como a Stock Car, a Porsche Cup Brasil, a Endurance Brasil, a Mitsubishi Cup, o Rally dos Sertões, a Fórmula E, o Campeonato Mundial de Endurance (WEC) e, claro, a Fórmula 1. Projeto similar criado por Bia Figueiredo no Brasil é o Estágio em Motorsports, que busca não apenas levar alunas a vivenciar a rotina das categorias, como também trabalhar nelas e em suas equipes. “Hoje uma menina entra num box, por exemplo, da Stock Car e, no inconsciente dela, aquilo não é para ela, porque não tem nenhuma mulher ali”, analisa Bia. “Quando você começa a ter duas, três mulheres, tem a pilota, tem a mecânica, ela já [pensa] ‘nossa, olha que legal, tem mulheres trabalhando’, e aí já dá um clique nela, que ela pode fazer parte daquilo”, continua. “Trabalho de formiguinha que a gente está fazendo que eu acredito muito que no médio e longo prazo a gente tenha mudanças muito bacanas”, finaliza.
Perspectivas para o futuro
Apesar de todos os desafios, é possível perceber a diversidade de campeonatos das quais pilotas estão participando. No ano passado, 23 categorias de Fórmula 4 foram disputadas. Dessas, 18 tiveram ao menos uma mulher competindo em pelo menos metade das etapas. Isso representa 78,2% de todos os campeonatos.


“Hoje a gente não tem meninas preparadas, acredito eu, vendo a F1 Academy, para chegar na Fórmula 1”, analisa Bia Figueiredo. Enquanto essa menina não aparece, a presença de mulheres de forma regular em quase 80% dos campeonatos do mundo permite, ao menos, que cada vez mais meninas se inspirem e pensem que aquele é um caminho possível para elas. “Chamar a atenção de meninas, para a gente ter mais meninas tentando, mais meninas entrando no kart, e acredito que daqui cinco, dez anos, quem sabe, a gente tenha uma F1 Academy com meninas prontas para tentar a Fórmula 1”, conclui Figueiredo.




