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Arborização urbana reduz os impactos da poluição sonora e amplia o conforto ambiental

Ruído excessivo é considerado ameaça ambiental pela OMS e afeta a qualidade de vida em centros urbanos

O som dos motores, buzinas e obras faz parte da rotina de quem vive nas grandes cidades. Em Porto Alegre, a paisagem sonora urbana é marcada por uma combinação de ruídos que acompanham os moradores ao longo do dia. Presentes nas ruas, nos deslocamentos e nos espaços públicos, esses sons costumam ser naturalizados por quem é obrigado a conviver diariamente com eles.

Reconhecida pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) como uma das principais ameaças ambientais emergentes das cidades contemporâneas, a poluição sonora está associada a problemas como estresse, distúrbios do sono, prejuízos cognitivos e redução da qualidade de vida. O relatório“Fronteiras 2022: Barulho, Chamas e Descompasso” inclui o ruído urbano entre os desafios ambientais emergentes, ao lado do aumento dos incêndios florestais e do descompasso dos ciclos naturais – fenômeno que vem alterando a sincronia entre as espécies e comprometendo o equilíbrio dos ecossistemas.

No Brasil, o Programa Nacional de Educação e Controle da Poluição Sonora (Programa Silêncio), coordenado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), também alerta para os impactos da exposição contínua ao excesso de ruídos. Com base em diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), o programa aponta que a poluição sonora pode desencadear reações de estresse, dificuldades de concentração, distúrbios do sono e problemas cardiovasculares. Segundo o órgão, a exposição prolongada ao ruído mantém o organismo em estado de alerta constante, comprometendo o descanso e a saúde.

Ruído, acessibilidade e inclusão

Embora os efeitos da poluição sonora sejam sentidos por toda a população, eles não atingem todas as pessoas da mesma forma. Para indivíduos autistas, os estímulos sonoros presentes no ambiente urbano podem representar uma barreira adicional à circulação e à participação social.

A terapeuta ocupacional Luísa Hartwig, do Centro de Referência do Transtorno Autista (Certa), explica que alterações no processamento sensorial são frequentes entre pessoas autistas e podem se manifestar por meio da hipersensibilidade auditiva. “A hipersensibilidade auditiva é uma resposta exagerada a um estímulo sensorial. Sons que, para a maioria das pessoas, são considerados normais podem provocar respostas emocionais, cognitivas ou comportamentais”, explica.

Segundo a especialista, ambientes marcados por trânsito intenso, buzinas, obras e grande circulação de pessoas podem desencadear sobrecarga sensorial. Irritação, dificuldade de concentração, choro e crises são algumas das manifestações observadas. “Ninguém gosta de ficar desconfortável em um ambiente. Quanto mais a pessoa sofre com aqueles estímulos que ela não suporta, pode acontecer uma sobrecarga sensorial e ela vai tender a evitar certos espaços e acabar se isolando. A hipersensibilidade pode causar essa limitação na participação social”, afirma.

Para Hartwig, esse cenário evidencia a importância de pensar estratégias que permitam a permanência dessas pessoas nos diferentes espaços da cidade. Medidas como a criação de ambientes de autorregulação sensorial, a disponibilização de abafadores de ruído e protetores auriculares e a sinalização prévia sobre as características sonoras de determinados eventos podem tornar esses locais mais acessíveis.

A necessidade de adaptações também dialoga com a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015), que amplia o conceito de acessibilidade para além da eliminação de barreiras arquitetônicas. A legislação prevê a promoção de condições que garantam participação social em igualdade de oportunidades, o que inclui refletir sobre como as características do ambiente urbano podem favorecer ou limitar a permanência de pessoas com diferentes formas de percepção sensorial.

Na avaliação da psicóloga ambiental e professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Alessandra Bianchi, esse debate também passa pela forma como as cidades são planejadas. Segundo ela, características do ambiente influenciam diretamente a maneira como as pessoas utilizam os espaços urbanos. “Tem vários fatores ambientais que modificam a maneira como a gente se comporta. Se o ambiente é aversivo, a pessoa tende a sair menos de casa, caminhar menos e ocupar menos os espaços da cidade”, aponta.

O papel das árvores

Entre as estratégias capazes de minimizar os impactos da poluição sonora nas cidades, a arborização aparece como uma importante aliada. Além de contribuir para a qualidade do ar, a regulação térmica e a preservação da biodiversidade, áreas verdes podem ajudar a amenizar a intensidade dos ruídos presentes no ambiente urbano.

A especialista em Planejamento e Gestão Ambiental Carine Borba explica que esse efeito está relacionado à quantidade e à disposição da vegetação. Segundo ela, copas, folhas e troncos funcionam como obstáculos que auxiliam na dispersão e absorção das ondas sonoras. “A arborização urbana vai dar esse efeito principalmente quando tiver uma grande quantidade de árvores, porque a copa e as folhas fazem esse amortecimento dos ruídos”, afirma.

Corredores arborizados e áreas verdes extensas costumam apresentar resultados mais significativos do que árvores isoladas distribuídas ao longo das ruas. Para Borba, a presença de vegetação pode contribuir para tornar os espaços urbanos menos hostis e mais agradáveis para quem circula por eles.

Alessandra Bianchi explica que pensar a qualidade sonora das cidades não significa eliminar todos os sons, mas refletir sobre quais estímulos compõem a experiência cotidiana das pessoas. Segundo a especialista, sons naturais costumam ser percebidos de forma diferente dos ruídos produzidos pelo trânsito e por outras atividades urbanas. “Uma ausência completa de estimulação também não faz bem. O importante é o tipo de estímulo. O som do vento nas árvores, de uma cachoeira ou do mar produz uma experiência muito diferente de um ruído repetitivo ou artificial”, avalia.

A psicóloga destaca que o planejamento urbano que incorpora áreas verdes pode contribuir para ambientes sonoros mais equilibrados. Com isso,  a predominância de ruídos urbanos é reduzida,favorecendo a presença de sons naturais.

Um exemplo dentro de Porto Alegre

Poucos metros adiante do fluxo intenso da Avenida Bento Gonçalves, uma realidade diferente se desenha dentro dos muros do Hospital Psiquiátrico São Pedro. Em uma manhã fria de quinta-feira, quatro usuárias da instituição percorrem lentamente os caminhos do Jardim Terapêutico. Guiadas por uma terapeuta ocupacional, observam folhas, tocam diferentes texturas vegetais e aproximam o rosto das plantas para sentir seus aromas. Enquanto o trânsito segue intenso do lado de fora, o espaço é atravessado principalmente pelo som do vento entre as árvores e pelo canto dos pássaros.

A cena faz parte das atividades desenvolvidas no Jardim Terapêutico, iniciativa que utiliza elementos da natureza como ferramenta de cuidado e estimulação sensorial. Fruto da recuperação de uma área antes abandonada do hospital, o espaço foi inaugurado em 18 de maio de 2021, no Dia Nacional da Luta Antimanicomial, como parte das ações de desinstitucionalização dos tratamentos em saúde mental. Em 2025, o jardim passou a incorporar atividades voltadas à estimulação sensorial em parceria com o CERTA e o Jardim Botânico de Porto Alegre.

O jardim integra uma proposta de cuidado alinhada aos princípios da reforma psiquiátrica, que busca ampliar as possibilidades de convivência, autonomia e participação social dos usuários dos serviços de saúde mental. Para a terapeuta ocupacional Simone Meyer, uma das responsáveis pela iniciativa, a relação com a natureza também faz parte desse processo de ressignificação dos espaços e das experiências. “A ideia é ampliar as possibilidades de relação com o ambiente, criando oportunidades para acessar memórias, estimular os sentidos e construir novas formas de interação com o espaço e com a cidade.”

O engenheiro ambiental Leandro Dal Ri, responsável pelo projeto, explica que o jardim foi planejado para acolher diferentes formas de percepção sensorial, especialmente de pessoas mais sensíveis aos estímulos do ambiente. A organização privilegia experiências graduais, reduz contrastes abruptos e busca criar um espaço de permanência e conforto.

Ao percorrer o jardim, essa proposta se traduz em diferentes elementos. Caminhos com curvas suaves conduzem o trajeto, espécies vegetais convidam à exploração de texturas e aromas, troncos de árvores podem ser utilizados em atividades de coordenação motora e equilíbrio, enquanto instalações artísticas se movimentam com o vento sem produzir sons estridentes.

O engenheiro ambiental Leandro Dal Ri explica que os caminhos em curvas suaves foram projetados para facilitar a adaptação de pessoas autistas aos estímulos do espaço | Foto: Evelise Machado

A arborização, porém, ocupa papel central no projeto. Segundo Dal Ri, a escolha das espécies e a disposição da vegetação foram pensadas para criar um ambiente mais acolhedor e minimizar interferências externas. “A ideia foi botar alta diversidade”, afirma.

Ainda em processo de expansão, um cinturão de árvores envolve parte do espaço e funciona como uma barreira vegetal em relação à Avenida Bento Gonçalves. Além de reforçar a sensação de isolamento em relação ao ambiente urbano, a vegetação ajuda a amenizar a influência sonora do trânsito, criando condições mais favoráveis para as atividades desenvolvidas no local.

Cercado por árvores, o Jardim Terapêutico do Hospital São Pedro cria uma barreira natural contra o ruído da Avenida Bento Gonçalves | Foto: Evelise Machado

Como ampliar as áreas verdes nas cidades?

As experiências desenvolvidas no Jardim Terapêutico do Hospital Psiquiátrico São Pedro levantam uma questão que ultrapassa os limites da instituição: se a presença de áreas verdes pode contribuir para reduzir ruídos, amenizar o estresse e promover conforto ambiental, qual a importância atribuída à arborização no planejamento e na ocupação das cidades?

Em Porto Alegre, a arborização urbana aparece como uma das diretrizes do Plano Diretor Urbano Sustentável (PDUS). Segundo a Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade (Smamus), o documento reconhece as árvores como parte do Sistema Ecológico da cidade e prevê a ampliação de áreas verdes, corredores ecológicos e espaços permeáveis, além de tratá-las como elemento central para a adaptação às mudanças climáticas e a qualificação dos espaços públicos.

Na prática, porém, a gestão da arborização é alvo de críticas de especialistas e entidades ambientais. O diretor científico da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), Francisco Milanez, afirma que Porto Alegre já foi referência em arborização de rua, mas perdeu cobertura ao longo das últimas décadas. “Nós éramos a capital com maior índice de arborização de rua. Nos últimos 20 anos, só fizeram praticamente cortar”, afirma.

Dados da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (SMSUrb) mostram que, entre 2022 e 2026, foram executadas milhares de ordens de serviço de manejo arbóreo. Atualmente, os serviços de poda e supressão realizados pela prefeitura são executados por empresas terceirizadas contratadas pelo município. Apenas em 2025, foram registradas 3.425 ordens de poda e 1.214 de supressão de vegetais. A secretaria esclarece que os números se referem às ordens executadas pelas empresas, e não necessariamente ao total de árvores manejadas, afirmando que os serviços são fiscalizados por equipes técnicas habilitadas.

Manejo arbóreo20222023202420252026*
Podas (ordens de serviço)1812326810633425593
Supressões (ordens de serviço)4819743171214470
*Dados parciais até junho de 2026 | Fonte: SMUrb.

Milanez, entretanto, questiona o modelo adotado. Segundo ele, a terceirização incentiva intervenções recorrentes e dificulta uma gestão voltada à preservação das árvores. “A empresa terceirizada ganha por poda. Então, quanto mais podam, mais ganham”, analisa.

Conforme dados da própria Smamus, nos últimos quatro anos foram plantadas 6.580 árvores nativas em áreas públicas, incluindo ruas, praças e parques, por meio de empresas terceirizadas contratadas pelo município. Embora o número indique ações de ampliação da cobertura vegetal, Milanez afirma que o impacto efetivo dessas iniciativas depende do desenvolvimento das árvores ao longo do tempo e da capacidade de manutenção das mudas. “Tu cortar uma árvore e plantar mudinhas e dizer que foi reposto não é equivalente. Dez ou cem mudas não dão uma árvore”, analisa.

Outro ponto de debate envolve o planejamento urbano. Embora o PDUS reconheça a importância da infraestrutura verde, o principal instrumento específico para a gestão da arborização na cidade permanece desatualizado há quase duas décadas. Elaborado em 2006, o Plano Diretor de Arborização Urbana ainda aguarda revisão. De acordo com a Smamus, o documento passa por ajustes técnicos e a abertura do processo licitatório para sua atualização está prevista para 2026.

Reportagem desenvolvida na disciplina Jornalismo e Meio Ambiente no semestre 2026/1, sob orientação da professora Dra. Eloísa Beling Loose.

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