Laura Berrutti
Após a tarde tumultuada, o clima menos tenso retornaria à DEAM (Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher). O combinado entre as policiais é levar os pedidos de medidas protetivas até às 20 horas ao Fórum Central de Porto Alegre. A reportagem acompanhou uma das agentes, que usa o seu próprio carro para não chamar a atenção (vídeo abaixo). A distância da DEAM até lá é de 10 minutos. No prédio, só estavam trabalhando os seguranças e alguns plantonistas. Para chegar à recepção, é necessário subir uma escada rolante na área externa. O cartório do Juizado de Violência Doméstica, onde os documentos são recebidos, ficam no segundo andar do prédio.
Durante horas a delegacia ficou vazia. As plantonistas conseguiram jantar com tranquilidade e assistir a um pouco de televisão, naquele que fora o fim de semana mais frio no Estado desde o início do ano. Quando a temperatura baixa, a tendência é que o movimento na DEAM também baixe, relatam as policiais. Nos meses de verão, há mais festas na cidade e as pessoas costumam reunir-se com mais frequência para beber.
Quando o relógio marcava 23 horas, as policiais trancaram a porta da frente e começaram a desligar as luzes da cozinha e do quarto para descansar. O silêncio, no entanto, durou pouco tempo. O som da campainha rompeu a calmaria do ambiente 45 minutos depois. Era mais uma jovem vítima de vazamento de vídeo íntimo – nesse caso, crime agravado pelo fato de sequer ter consentido a gravação. O homem com quem manteve relações sexuais enviou o vídeo para a atual namorada da vítima, ameaçando espalhá-lo.
Meia hora mais tarde, duas mulheres que já haviam pedido medida protetiva contra ex-parceiros incentivavam uma amiga a denunciar o seu antigo marido. Elas estavam prontas para comemorar o aniversário de uma delas, mas, ainda assim, decidiram ir à delegacia delegacia após a vítima ter recebido uma mensagem ofensiva pelo celular. Mesmo depois do divórcio, o homem insistia em ameaçá-la e insultá-la. Durante o casamento, ela já havia sofrido agressões físicas, mas nunca denunciou. Atualmente, o homem a chama de “mentirosa” , de “cadela no cio”, de “fraca”, entre outras ofensas, de acordo com a própria vítima. No contexto da família, a situação passou a ficar mais preocupante quando um dos filhos do casal começou a reproduzir atitudes semelhantes as do pai com a própria irmã, a chamando de “vagabunda”.
A professora Vanessa Chiari Gonçalves, que leciona Criminologia e Direito Penal na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), explica que a violência contra a mulher surge a partir de um padrão cultural e familiar. Mesmo não concordando com as agressões do pai quando pequenos, esses homens reproduzem o mesmo cenário quando adultos. Por isso, ela acredita que a reeducação é fundamental para quebrar o padrão.
Na mesma noite, outras três mulheres denunciaram parceiros por ameaça e agressão física. Um deles, após a sua namorada ter sumido, ligou às 4 horas da manhã para a delegacia perguntando se ela estava lá. E as horas que se seguiram até o domingo clarear seriam de uma monotonia estranha; um misto de cansaço para quem chegara às 9 horas da manhã do dia anterior e indignação seguida de impotência diante de tantas histórias de mulheres cujas marcas da violência compõem a identidade de uma sociedade gaúcha ainda permeada pelo machismo.
24 horas na Delegacia da Mulher
FOTOS: Laura Berrutti/Humanista




