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“Eu viajo sem sair de casa”

Entenda a relação dos leitores com os livros durante a pandemia.

O ano de 2020 está marcado pela pandemia do novo coronavírus e pelas medidas de distanciamento social. Ao se verem obrigadas a ficar em casa, inclusive com mais tempo livre, diversas pessoas partiram para uma válvula de escape: a literatura.

Livros podem ajudar a escapar da realidade, além de serem uma forma de relaxamento, uma ferramenta contra o tédio, mas também uma forma de manter um tempo mental produtivo, de pensar e refletir, aponta a dra. Ivânia Campignotto Aquino, professora e pesquisadora do curso de letras da Universidade de Passo Fundo. “A experiência de isolamento social que estamos vivendo pode ser mais leve e equilibrada, se incluirmos a leitura literária em nossas atividades diárias”, afirma.

No início do ano, diversos jornais já apontavam a importância do livro para o período de confinamento. A Agência Brasil afirmou que o confinamento poderia estimular a leitura. O portal G1, em um branded content com o Fecomércio, apresentou como a leitura poderia ajudar a relaxar e aliviar o estresse.

Já o Estadão apontou que, devido ao aumento de tempo, os leitores optaram por livros clássicos, densos e longos: livros que sempre quiseram ler, mas não tinham o tempo necessário. É o que fizeram Carina Barreto, 23 anos, designer gráfica, Júlia Moraes, 23 anos e Tabata Kolling, 23 anos, publicitária. Vanessa França, 39 anos, professora de Língua Portuguesa, Literatura e Redação, já foi por um caminho diferente e dedicou-se a leitura de distopias.


Sobre as leitoras
A leitora Carina. Créditos: Arquivo pessoal

Carina começou a ler no Ensino Médio por uma obrigação da escola e por indicações de amigas. “Percy Jackson foi o primeiro livro que eu li, não era o primeiro da saga, mas era obrigada a ler para o colégio e acabei comprando, gostei e minhas amigas acabaram me recomendando cada vez mais livros”, conta. Hoje ela lê uma média de 20 a 30 livros por ano, já tendo superado a marca na pandemia.

 

A leitora Julia. Créditos: Arquivo Pessoal

Júlia começou a ler ainda criança, por influência familiar, “cresci com livros, sempre frequentando bibliotecas e sendo incentivada por familiares e professores, e conforme eu crescia, os livros lidos também evoluíram”. O primeiro livro que a marcou foi A Menina do Cabelo Azul, de Ivana Versiani. A média de Julia também é de 20 a 30 livros por ano.

 

A leitora Vanessa. Créditos: Arquivo pessoal

Vanessa tem uma história parecida: aprendeu a ler sozinha, aos quatro anos, porque queria entender o amor do pai, que também é professor, pelos livros, e entender por que sua casa era cercada por aqueles objetos. O primeiro livro que leu em voz alta e provou para a família que conseguia ler sozinha foi A Porquinha do Rabinho Enrolado, de Therezinha Casasanta. A importância do livro é tão grande para a professora que um grupo de alunos se reuniu para dá-lo a ela em seu aniversário, “foi muito especial”, afirmou. Vanessa tem um padrão alto de leitura “busco ler, pelo menos, um livro por semana. Sempre leio mais de um ao mesmo tempo, para terminar um em cada semana”, então sua meta anual é de, no mínimo, 52 livros, “mas já passei desse número em 2020”. Ela se define como “aficionada por livros”.

A leitora Tábata. Créditos: Diffocus

Tabata também começou a ler ainda nova e apesar de seus pais não serem professores, sempre apoiaram que a filha lesse. “Minha história com a literatura é uma coisa que eu nem sei quando começa, porque quando eu era bem pequena a minha mãe lia livros infantis, curtos, para mim. E quando aprendi a ler, continuei lendo. Cresci e os livros cresceram comigo, se tornando um dos meus passatempos preferidos”, lembra a publicitária. A média de leitura de Tabata é de cerca de 20 livros por ano.

 


Títulos Escolhidos

Carina variou de clássicos como a editora inglesa Jane Austen, para o mundos de fantasia conhecido desde sua adolescência, como Percy Jackson, criado por Rick Riordan, e a saga dos Caçadores de Sombra, de Cassandra Clare.

A volta a livros considerados “do coração”, aqueles preferidos, lidos durante a infância e adolescência, foi apontado por Heloisa Daou, diretora de marketing da editora Intríseca, em uma matéria do jornal O Globo. Livros como Harry Potter, Percy Jackson e Crepúsculo foram escolhidos por serem confortáveis, considerando que os leitores já conhecem a história. Carina concorda ao contar que releu Percy Jackson e percebeu que “ainda é um ótimo escape para parar de pensar em tudo o que está acontecendo e relaxar”.

Séries de fantasia famosas nos anos 2000 continuam em alta: a saga do bruxinho Harry Potter, apesar de todas as polêmicas envolvendo as falas transfóbicas da autora, J.K. Rowling, segue na lista dos mais vendidos da Amazon e da Saraiva, enquanto Rick Riordan segue lançando uma nova saga, no mesmo universo de Percy Jackson e a saga original se tornará uma série pelo sistema de streaming Disney Plus. Crepúsculo voltou com força após sua autora, Stephenie Meyer, lançar mais um livro da saga: Sol da Meia Noite, que conta a mesma história de Crepúsculo, mas sob o ponto de vista do vampiro Edward Cullen, e vendeu mais de um milhão de cópias em apenas uma semana.

Se Rick Riordan foi para relaxar, Carina leu Jane Austen para “entender porque tanta pessoas gostam e indicam a leitura” e as obras escolhidas foram Orgulho e Preconceito, Razão e Sensibilidade e Persuasão.

Tabata afirmou que leu “um grande conjunto de livros que não tinha coragem de ler até então”. Na lista estão Sherlock Holmes, de Sir Arthur Connan Doyle, A Ilíada e A Odisseia, de Homero, A Divina Comédia, de Dante Alighieri, Madame Bovary, de Gustave Flaubert, Os Miseráveis, de Victor Hugo, e sua leitura atual, e livro preferido até então, é Guerra e Paz, de Liev Tolstói.

Julia afirma que leu “de tudo um pouco” durante a pandemia, clássicos como A Divina Comédia a e Mulherzinhas, de Louisa May Alcott, mas também vários livros que se passam durante a segunda guerra mundial, obras de Dan Brown e Stephen King — ela aproveitou o tempo para iniciar a leitura de IT — A Coisa, que possui mais de mil páginas. “Não tenho um estilo literário preferido, vario entre populares e clássicos, porque é bom variar e diferentes obras” afirma. Uma de suas leituras preferidas no ano foi a obra A Guerra Não tem Rosto de Mulher, de Svetlana Aleksiévitch.

Já Vanessa foi para o caminho das distopias como O Conto de Aia, de Margaret Atwood; Battle Royale, de Koushun Takami. “Momentos pesados nos fariam ler coisas mais leves, mas eu, pelo contrário, li coisas mais pesadas, porque já está tudo tão difícil, tão pesado, que uma leitura assim não vai fazer diferença”, afirma. Por ser professora, também teve que reler diversos livros para trabalhar com os alunos, e um dos títulos escolhido para ser novamente lido foi o Quarto de Despejo — Diário de Uma Favelada, um expoente do naturalismo brasileiro, escrito por Carolina Maria de Jesus.

Por que ler clássicos?

Livros clássicos são universais, aponta Ivania: “os clássicos são clássicos porque permanecem, e permanecem porque, de forma especial, manifestam, como literatura, o esforço de captar a essência humana e de problematizar os movimentos da vida em sociedade”, explica. Eles também são “fenômenos estéticos e manifestações culturais que problematizam o movimento do indivíduo na sua historicidade, seus anseios e suas visões do mundo” aponta a professora.

E os clássicos sempre permanecem e voltam para o debate: Dom Casmurro, de Machado de Assis, frequentemente entra nos trending topics do twitter com a pergunta: traiu ou não traiu? E cada nova geração que lê tem uma visão e uma opinião sobre o livro que foi lançado em 1899. E a nova tradução de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de 1881, para o inglês esgotou no primeiro dia de vendas nos Estados Unidos.

Já Orgulho e Preconceito, publicado pela primeira vez em 1813, possui mais de dez adaptações para cinema e televisão. A obra até hoje inspira outras histórias, como o livro Orgulho, de Ibi Zoboi, que será adaptado para a televisão pela HBO. Mulherzinhas, de 1868, também teve uma nova adaptação lançada no início deste ano, com direção de Greta Gerwig e nomes como Emma Watson, Meryl Streep e Laura Dern no elenco. A adaptação recebeu o Oscar de melhor figurino.

A Revolução dos Bichos, clássico do George Orwell, tornou-se debate após ter seu nome modificado para A Fazenda dos Animais, pela nova tradução da Companhia das Letras.

Os livros clássicos seguem, também, entre os mais vendidos: 1984, também de Orwell, A Revolução dos Bichos, O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë, Sherlock Holmes e um box com as obras essenciais de Virginia Woolf estão na lista dos 100 livros mais vendidos da Amazon. Já na Saraiva, Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas, O Diário de Anne Frank, um box da Jane Austen com Persuasão, Orgulho e Preconceito e Razão e Sensibilidade, estão presentes como mais vendidos.

Mas por que ler esses livros? Carina já afirmou que era para entender o porquê tantas pessoas comentam e recomendam a obra. Julia começou a lê-los porque, para ela, um livro puxa o próximo, “uma geração leu o Morro dos Ventos Uivantes porque é citado no Crepúsculo. Muitas pessoas leem Jane Austen porque várias heroínas de livros infantis gostavam dela. O próprio A Divina Comédia, eu decidi ler esse ano porque eu estava lendo um livro do Dan Brown, O Inferno, que citava a obra de Dante”, conta.

Tabata começou a ler e se interessar por obras clássicas pela obrigação de ler Machado de Assis na escola, “percebi que não eram livros chatos, de ‘gente velha’, e pensei que se Machado era bom, outros clássicos também deviam ser. Também gosto muito de cinema e vários filmes são inspirados em obras clássicas”.



Ler clássicos é mais do que apenas formar leitores e formar uma bagagem literária, aponta Ivânia, clássicos são importantes para a compreensão da sociedade, e por meio das reflexões e construções que trazem nas obras “produzem esferas de elevação humana fundamentais para a consciência de si e das relações sociais”. Clássicos fazem com que os leitores tenham consciência de si, do momento, da sociedade. São responsáveis por trazer debates e reflexões, “os clássicos são obras referenciais que exercem significativo papel de conexão do indivíduo com o seu mundo” explica a doutora. É por gerar esse conhecimento de si e da relação histórica e social que os livros clássicos são clássicos e são procurados por leitores.

A escolha por lê-los na pandemia é porque livros literários são uma companhia excelente já que “encontrar companhia nos livros é encontrar, ao mesmo tempo, a companhia dos próprios pensamentos e uma forma de criar novos. Para isso, conhecer os universos ricos dos clássicos, criados por tantos escritores, além de ser prazeroso, possibilita ao leitor acessar orientações inusitadas de tempo e espaço da criatividade humana” afirma Ivania.


 

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