A inserção do geoprocessamento nas atividades do Centro de Ecologia iniciou em meados de 1988, quando o Coordenador do Laboratório, Prof. Heinrich Hasenack, retornou da Suíça onde frequentou o curso de Tecnologias de sistemas de informação geográfica para estudos da biosfera. Este curso foi patrocinado pelo UNITAR (United Nations Institute for Training and Research) e pelo UNEP (United Nations Environment Programme) e ministrado por docentes do Departamento de Engenharia Rural da EPFL (Ecole Polytechnique Fédérale de Lausanne), em Lausanne e técnicos do UNEP/GRID (Global Resources Information Database) em Genebra.
No retorno ao Brasil, a dura realidade: a dificuldade de acesso a computadores e softwares de sistemas de informação geográfica, em parte devido à Lei de Informática então em vigor. A alternativa para pôr em prática os conhecimentos adquiridos foi realizar análises usando os tradicionais mapas em papel e aplicando os princípios, hoje amplamente conhecidos, de sobreposição de planos de informação. A primeira aplicação desta natureza ocorreu na disciplina Pesquisa em Geografia I (GEO 164) do curso de Geografia da UFRGS, cujo trabalho envolveu a avaliação do potencial de degradação no bairro Santa Isabel, município de Viamão-RS.
A partir da mudança do Centro de Ecologia para o Campus do Vale, em março de 1990, o Laboratório passou a ter espaço próprio e recebeu os primeiros equipamentos: um computador e uma impressora jato de tinta colorida A4. Nessa época, entretanto, os computadores pessoais tinham grandes limitações de processamento e, em especial, de capacidade gráfica. O custo das licenças dos softwares de SIG comerciais também era elevado e não raramente era necessário adquirir hardware especial, também de alto custo.
Em agosto do mesmo ano, chega ao laboratório o primeiro software de SIG: o UNITAR doou a cada um dos ex-alunos de seu curso de treinamento uma cópia do Idrisi 3.1, lançado em 1989. Começou para nós, finalmente, a era digital! Frente às limitações tecnológicas da época, o Idrisi mostrou-se extremamente versátil por exigir poucos recursos de hardware e ser de fácil aprendizado, demonstrando ser uma tecnologia apropriada à nossa realidade.
Os trabalhos então desenvolvidos estiveram associados com pesquisas em andamento no Centro de Ecologia, como o projeto PADCT (Programa de Apoio ao Desenvolvimento de Ciência e Tecnologia), com estudos na Região Carbonífera do Baixo Jacuí, o projeto CIRM (Comissão Interministerial para os Recursos do Mar) associado ao gerenciamento do litoral e o Projeto SEMA (Secretaria Especial do Meio Ambiente) com o programa de gerenciamento da Estação Ecológica do Taim, todos no estado do Rio Grande do Sul.
Paralelo à introdução do SIG em projetos próprios, buscava-se sensibilizar diferentes setores da Sociedade no uso desta ferramenta como apoio à tomada de decisão, em especial prefeituras e órgãos públicos, para que as informações geradas nos projetos pudessem ser efetivamente aproveitadas. Uma das dificuldades estava associada ao idioma, uma vez que o Idrisi foi desenvolvido na língua inglesa. Fazia-se necessária a tradução do software para o português. Em 1991, em contato pessoal com Ron Eastman, líder de desenvolvimento do Idrisi na Clark University, foi-nos sugerido iniciar pela tradução dos tutoriais, pois é o primeiro documento que um novo usuário usa para se familiarizar com o software.
Em março de 1992 foi lançada a versão 4.0 do Idrisi, em sistema operacional DOS, incorporando avançados recursos de apoio à decisão, ferramentas que só estariam disponíveis em outros softwares anos mais tarde. A tradução dos tutoriais da versão 4.0 DOS foi concluída em 1994, quando solicitamos autorização para publicação à Clark University. A revisão do texto foi feita gentilmente pelo Prof. Marcelo Pereira de Souza, da USP/São Carlos, então bolsista no projeto Idrisi da Clark University.
Em 1994 o Laboratório de Geoprocessamento também adquiriu uma mesa digitalizadora e o software Tosca 2.0, este também desenvolvido pelo grupo do projeto Idrisi. Apesar das limitações, o Tosca foi extremamente útil nos primeiros passos da digitalização do acervo cartográfico do Laboratório. Em função das informações espaciais digitalizadas em diversos projetos, algumas vezes cobrindo áreas comuns, constatou-se a necessidade de estruturar os dados para facilitar seu acesso e evitar duplicação de esforços. Começou nesse momento uma iniciativa para organizar bases de dados espaciais estruturadas, seguindo um padrão de qualidade e documentação.
Concomitante com a autorização de publicação da tradução dos tutoriais, impressos na gráfica da UFRGS em 1995, o Centro de Ecologia recebeu convite para sediar um Centro de Recursos Idrisi para Países de Língua Portuguesa. Ao invés de representantes comerciais do software, a Clark University buscava oferecer apoio aos usuários em diferentes idiomas. Os primeiros cinco centros foram criados em 1995, sendo quatro na Europa (Áustria, Grã-Bretanha, Hungria, Suíça) e um no Brasil. Desde então vários outros Centros de Recursos Idrisi foram criados, também na Ásia, na África e na América Latina.
Em 1996 foi lançada a primeira versão do Idrisi para sistema operacional Windows, o que demandou novamente a tradução dos respectivos tutoriais e, adicionalmente, dos menus do software. Esta tarefa foi desenvolvida com o auxílio de um colaborador recém chegado ao grupo de trabalho, Eliseu Weber. A publicação dos tutoriais da Versão Idrisi for Windows 1.0 ocorreu ainda em 1996.
Com o lançamento do Idrisi for Windows 2.0, em 1997, os tutoriais introdutórios da versão anterior foram atualizados e os tutoriais avançados que acompanhavam essa nova versão também foram traduzidos. Por solicitação de muitos usuários, incluiu-se ainda a tradução da parte introdutória do manual do usuário, onde são abordados conceitos básicos de sistemas de informação geográfica, sensoriamento remoto e bancos de dados cartográficos digitais. Essa tradução foi publicada em 1998.
Nesse mesmo ano foi também lançado o Cartalinx, um software para estruturação de dados vetoriais, extremamente leve e simples e que contempla a estrutura topológica e o armazenamento de atributos. O Cartalinx facilitou a edição de dados vetoriais a partir de diversas fontes, como mesa digitalizadora, vetorização em tela a partir de mapas escaneados, listas de coordenadas em arquivos de texto e coordenadas polares (rumo/azimute e comprimento), além de aceitar dados diretamente de receptores GPS de navegação. O Cartalinx funciona independente do Idrisi e possibilita a exportação para vários outros softwares de SIG.
Em 2001 foi lançado o Idrisi 32, primeira versão do Idrisi para sistema operacional Windows de 32 bits. Apesar de várias tentativas, não foi possível realizar a tradução dos exercícios tutoriais desta e das versões posteriores do Idrisi. As dificuldades em avançar na tradução, em parte, resultaram da concentração de esforços para atender a demanda por cursos de capacitação e treinamento, especialmente de órgãos públicos. De outro lado, a expansão do uso da Internet tornou o uso do inglês mais disseminado e, pela maior familiarização, diminuiu a dificuldade dos usuários em usar o material didático neste idioma.
A partir desse período, intensificaram-se também as atividades de apoio aos usuários e os projetos de extensão e de pesquisa, buscando demonstrar a aplicação do SIG em diferentes áreas do conhecimento (saúde, meio ambiente, políticas públicas, agricultura, planejamento rural e urbano, etc.).
Em 2003 foi lançada a versão 14 do Idrisi, chamada de Idrisi Kilimanjaro, a primeira versão cujo nome remetia a questões ambientais, no caso, o monte Kilimanjaro, no Quênia. Três anos mais tarde, em 2006, seguindo a mesma tendência, foi lançada a versão 15 do Idrisi, chamada de Idrisi Andes e, em 2009, a versão 16, chamada de Idrisi Taiga. Em 2012 foi lançada a versão 17 do Idrisi, chamada de Idrisi Selva, que é a versão corrente do Idrisi.
A experiência adquirida ao longo dos últimos anos, em especial através de cursos, demonstrou que a carência de dados espaciais digitais para uso em SIG é um dos grandes obstáculos para a maior difusão dessa tecnologia no Brasil. Visando colaborar neste sentido, partiu-se também para a geração de algumas bases cartográficas digitais. Até o momento foram publicados Modelos Digitais de Elevação (SRTM) para os estados brasileiros, uma base cartográfica 1:250.000 para o Rio Grande do Sul, uma base 1:50.000 para a região da Serra Gaúcha e uma base vetorial contínua na escala 1:50.000 para o Rio Grande do Sul. Esta última é produto de um dos maiores esforços do Labgeo, demorando cerca de 10 anos para ser concluída.
Diversos outros dados espaciais digitais, gerados em diferentes projetos, também são disponibilizados pelo Labgeo na forma de arquivos estruturados para uso em SIG. Para o estado do Rio Grande do Sul, estão disponíveis os arquivos referentes ao Mapeamento da Cobertura Vegetal do Bioma Pampa (MMA/PROBIO). Para a Região Metropolitana de Porto Alegre estão disponíveis vários mapas temáticos da bacia do Rio Gravataí. Para o município de Porto Alegre, são disponibilizados todos os dados espaciais gerados para o Diagnóstico Ambiental de Porto Alegre, a base altimétrica vetorial contínua de Porto Alegre (escala 1:1.000) e o mapa geomorfológico de Porto Alegre. Para outros países de língua portuguesa, são disponibilizados também os respectivos Modelos Digitais de Elevação do SRTM.
Desde 2009 o Labgeo começou a desenvolver recursos usando bancos de dados geográficos e Web GIS. A primeira aplicação foi o mapa de localização dos espaços físicos da UFRGS. Desenvolvido para auxiliar a administração interna, o sistema interliga um banco de dados geográfico contendo as plantas dos prédios e um banco de dados dos espaços físicos da universidade. É possível fazer buscas por campi, número ou nome do prédio e encontrar sua localização no mapa, bem como clicar no prédio para recuperar suas principais informações. Na mesma linha, também foi desenvolvido um sistema para o mapeamento das instituições de atendimento de usuários de álcool e outras drogas, em um projeto conjunto com o Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) e a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD). Este último mais tarde deu origem ao Censo das Comunidades Terapêuticas no Brasil, também executado em conjunto com o HCPA e a SENAD. As três iniciativas continuam em desenvolvimento.









