Caso Clínico 177PO
Identificação
Espécie: Felina
Raça: SRD
Idade: 3 anos
Sexo: Macho
Peso: 4,3 kg
Anamnese
O paciente foi atendido no dia 0 com a queixa de prostração e que há 4 dias estava tentando urinar em diversos locais, sem sucesso. O tutor relatou que o felino apresentava anorexia, adipsia, disúria e polaquiúria. Esta seria a primeira vez que o paciente apresenta este quadro. Há 3 meses o tutor havia se mudado e com isso o paciente passou a ter contato com outros gatos e estava exposto a brigas.
Exame físico
Temperatura retal: 35,8 °C↓ (ref: 37,8-39,2).
Paciente bastante prostrado e com a bexiga repleta; escore corporal ideal; desidratado.
Exames complementares
Dia 1 – Ultrassonografia
- Rins simétricos, medindo cerca de 5,5 cm de eixo longitudinal; contornos regulares; arquitetura, ecogenicidade e relação corticomedular preservadas.
- Presença de sinal de dilatação de pelve renal medindo cerca de 0,36 cm no rim esquerdo e 0,27 cm no rim direito.
- Bexiga urinária pouco a medianamente distendida, parede espessada e irregular, medindo cerca de 1,0 cm na região crânio-ventral; conteúdo anecogênico com vários pontos ecogênicos em suspensão.
Tratamento e evolução
Dia 0: realizada cateterização para desobstrução uretral. Durante a sedação, o felino apresentou estado mental alterado e cianose, teve um episódio de apneia e necessitou receber oxigenioterapia. Foram administrados tramadol (analgésico), escopolamina (antiespasmódico), diazepam (para relaxamento de esfíncter e estimulo à micção) e solução de Ringer-lactato (hidratação). A bexiga era esvaziada e lavada com soro fisiológico.
Dia 1: mantidas as prescrições do dia 0, porém a escopolamina foi substituída pela dipirona.
Dia 2: felino arrancou a sonda vesical, necessitando, com isso, de compressão para urinar. Foi administrado meloxicam (anti-inflamatório) e ampicilina (antibiótico) devido aos espirros, secreções e prostração. Realizada nebulização.
Dia 4: muito prostrado, sendo a ampicilina substituída por amoxicilina/ácido clavulânico. Administrado um complexo de vitaminas do complexo B, nicotinamida, frutose, aminoácidos, macro e microminerais.
Dia 5: as medicações foram mantidas. Medicado com dimeticona (antifisético) devido à presença de gases.
Dia 6: adicionado fanciclovir (antiviral recomendado para o tratamento da rinotraqueíte) às medicações já prescritas.
Dia 8: óbito.
Hemograma
| Eritrograma | Dia 0 | Dia 7 |
| Eritrócitos (5-10 milhões/µL) | 9,62 | 5,35 |
| Hematócrito (24-45%) | 41 | 21↓ |
| Hemoglobina (8-15 g/dL) | 14,0 | 7,7↓ |
| VCM (39-55 fL) | 43 | 40 |
| CHCM (31-35%) | 34 | 37↑ |
| Plaquetas | ||
| Quantidade (200-600 ×103/µL) | 220 | n.d.* |
Observações: Dia 7 – *agregação plaquetária; plaquetas gigantes; corpúsculos de Heinz em cerca de 80% dos eritrócitos; plasma discretamente ictérico; n.d.: não determinado.
| Leucograma | Dia 0 | Dia 7 |
| Leucócitos totais (5.000-19.500/µL) | 31.900↑ | 79.900↑ |
| Mielócitos (0/µL) | 0 | 0 |
| Metamielócitos (0/µL) | 0 | 0 |
| Neutr. bast. (<300/µL) | 0 | 0 |
| Neutr. seg. (2.500-12.500/µL) | 29.667↑ | 71.111↑ |
| Basófilos (<100/µL) | 0 | 0 |
| Eosinófilos (100-1.250/µL) | 0↓ | 0↓ |
| Monócitos (<850/µL) | 319 | 2.397↑ |
| Linfócitos (1.500-7.000/µL) | 1.914 | 6.392 |
Observações: Dia 7 – neutrófilos tóxicos (2+)
Bioquímica sanguínea
| Dia 0 | Dia 2 | Dia 7 | |
| Amostra | soro | soro | soro |
| Hemólise | ausente | ausente | ausente |
| AnticoagulanteA | nenhum | nenhum | nenhum |
| Proteínas totaisB (60-80 g/L) | 82↑ | n.d. | 82↑ |
| Proteínas totaisC (54-78 g/L) | n.d. | n.d. | n.d. |
| Albumina (21-33 g/L) | 30 | n.d. | n.d. |
| Ureia (43-64 mg/dL) | 622↑ | 148↑ | 561↑ |
| Creatinina (<1,6 mg/dL) | 19,8↑ | 1,6↑ | 4,7↑ |
| FA (<93 U/L) | n.d. | 39,4 | n.d. |
| ALT (<83 U/L) | 224↑ | 81 | n.d. |
BEstimadas por refratometria; CDeterminadas por espectrofotometria
Urinálise
| Dia 0 | |
| Método de coletaA | cat |
| Sedimento urinárioB | |
| Células epiteliais | escamosas (1) |
| Cilindros | ausente |
| Hemácias | 100↑ |
| Leucócitos | 100↑ |
| Bacteriúria | moderada↑ |
| Outros | espermatozoides |
| Exame químico | |
| pH (6,0-7,0) | 8,0↑ |
| Corpos cetônicosC | ausente |
| GlicoseD | ausente |
| BilirrubinaE | ausente |
| Urobilinogênio (<1 mg/dL) | ≈0,2 mg/dL |
| ProteínaF | +++↑ |
| SangueG | +++↑ |
| RPCUH | n.d. |
| Exame físico | |
| Dens. espec. (1,015-1,060) | 1,018 |
| Cor | vermelha↑ |
| Consistência | fluida |
| Aspecto | turvo |
Amic, micção natural ● cat, cateterização ● cist, cistocentese ● out, outros (especificar em “Observações”)
BNúmero médio de elementos por campo de 400 x
Ctraços, ≈5 mg/dL ● +, ≈15 mg/dL ● ++, ≈40 mg/dL ● +++, ≈80 md/dL ● ++++, ≥160 mg/dL
Dtraços, ≈100 mg/dL ● +, ≈250 mg/dL ● ++, ≈500 mg/dL ● +++, ≈1000 mg/dL ● ++++, ≥2000 mg/dL
E+, leve ● ++, moderada ● +++, alta
F+, ≈30 mg/dL ● ++, ≈100 mg/dL ● +++, ≈300 mg/dL ● ++++, ≥2000 mg/dL
Gnh, não hemolisado ● h, hemolisado ● +, leve ● ++, moderada ● +++, alto
HRPCU, relação proteína/creatinina urinária (na ausência de sedimento ativo)
– Caninos: <0,2, não proteinúrico ● 0,2 a 0,5, proteinúria limítrofe ● >0,5, proteinúrico
– Felinos: <0,2, não proteinúrico ● 0,2 a 0,4, proteinúria limítrofe ● >0,4, proteinúrico
– Equinos: <0,93, não proteinúrico
n.d.: não determinado
Necropsia e histopatologia
Exame macroscópico
- Saco pericárdico repleto de conteúdo amarelado, parcialmente coagulado, com pus e fibrina.
- Bexiga espessada, mucosa avermelhada e conteúdo discreto e de aspecto mucopurulento.
Exame microscópico
- Saco pericárdico acentuadamente espessado por infiltrado de linfócitos, macrófagos e plasmócitos.
- Bexiga: na mucosa, estendendo-se também à submucosa, é notado moderado infiltrado de neutrófilos íntegros e degenerados, linfócitos e plasmócitos associados a intensa deposição de material amorfo e eosinofílico (fibrina), além de hemorragia moderada e proliferação de tecido conjuntivo fibroso. Há ainda ulceração multifocal moderada da mucosa, além de áreas com moderada hiperplasia tecidual.
- Exame bacteriológico (cultivo aeróbio) Bexiga e conteúdo do pericárdio: crescimento misto de Escherichia coli (predominante) e Proteus sp.
Discussão e referências bibliográficas
Devem ser discutidos os achados laboratoriais alterados (referentes a urinálise, bioquímica sanguínea e hemograma), estabelecendo as correlações relevantes com o quadro clínico do paciente. Não deve ser discutido o tratamento realizado. As alterações nos achados laboratoriais devem ser justificadas com base nas informações contidas na literatura especializada. É sugerido organizar a discussão nos seguintes grandes tópicos:
- Hemograma
- Bioquímica sanguínea
- Urinálise
- Outros exames laboratoriais (quando for o caso)
- Considerações gerais sobre o quadro clínico
