Caso Clínico 176Y3
Identificação
Espécie: Canina
Raça: SRD
Idade: 9 anos
Sexo: Fêmea
Peso: 14 kg
Anamnese
O tutor relatou que, há cerca de uma semana, o animal havia sido atacado por outro cão. Além disso, foi relatado que, no dia do ocorrido, foi utilizado spray prata (Bactrovet) nas feridas (sic). O animal apresentou piora desde o dia do ataque, ficando bastante prostrado e sem se alimentar. A paciente apresentava diversos ectoparasitas pelo corpo, não era vacinada regularmente nem fazia o uso de vermífugos. O animal era inteiro (não castrado) e havia tido cria há cerca de um ano. O animal não havia sido medicado até o momento da consulta. Na consulta, ocorreu um episódio de vômito, que, segundo o tutor, seria o primeiro desde o ataque.
Exame físico
Escore corporal: 3↓ (ref.: 1-9, ideal=5)
Estado mental: apático
Desidratação: 7%↑ (moderada)
Temperatura retal: 37,2 °C↓ (ref.: 37,5–39,2)
Mucosas normocoradas
Tempo de preenchimento capilar (TPC): < 2 segundos (ref.: < 2 s)
Glicemia (glicosímetro): 85 mg/dL (ref.: 65-118)
Frequência respiratória: 20 mrpm↓ (ref.: 37-40)
Na ausculta, foi revelado sopro cardíaco de grau III; apresentava uma grande lesão necrótica no ombro direito, algumas feridas nas orelhas e na testa; apresentava secreção purulenta no trato geniturinário; nódulo firme, flutuante, de 1,5 cm de diâmetro na 5ª mama direita; bastante prostrado em decúbito lateral no momento do exame clínico.
Exames complementares
Dia 0 – Ultrassonografia abdominal: piometra.
Dia 1 – Radiografia de tórax: nenhuma alteração relevante foi observada.
Dia 5 – Ultrassonografia abdominal: área de hemorragia no rim direito.
Tratamento e evolução
DIA 0: submetida a um processo de estabilização por 24 horas, para posterior ováriosalpingohisterectomia (OSH). Medicações: administração de fluidoterapia (Ringer com lactato), metronidazol[1] , enrofloxacina[2], cefalotina[3], cerenia[4], cloridrato de ondansetrona[5] e cloridrato de ranitidina[6].
DIA 1: realizada a colocação de sonda uretral para avaliação do débito urinário e manutenção da higiene, pois não conseguia se levantar por conta própria. Realizada OSH, durante a cirurgia foi encontrada uma pequena área hemorrágica na cápsula renal. Medicações: retirado o cerenia da terapia e adicionados: cloridrato de tramadol[7], dipirona sódica[8], bionew[9] e sucralfato[10].
DIA 2: Passou a ser alimentada via sonda nasogástrica.
DIA 3: Adicionado glicopan[11] à terapia.
DIA 5: Submetida à ecografia abdominal, na qual observou-se uma área de hemorragia no rim direito. Levantou-se pela primeira vez sozinha. Mucosas apresentavam icterícia moderada. Medicações: retirado o cloridrato de tramadol da terapia.
DIA 6: Realizada uma transfusão de sangue total. Alimentou-se voluntariamente pela primeira vez após a cirurgia, tendo sido retirada a sonda nasogástrica. Retirada a sonda uretral. Medicações: adicionado Hemolitan[12].
DIA 7: Observadas mucosas pálidas e ictéricas. Medicações: retirado dipirona sódica e Glicopan do tratamento.
DIA 8: Medicações: retirado enrofloxacina, cefalotina e cloridrato de ondansterona da terapia e adicionado amoxicilina + clavulanato de potássio[13] e Cobavital[14].
DIA 10: Medicações: retirado Bionew e Cobavital da terapia.
DIA 11: Hemograma indicando uma anemia regenerativa; a paciente teve alta do HCV.
[1]nitroimidazol protozoocida e antibacteriano. [2]bactericida fluoroquinolona de 2ª geração. [3]antibiótico beta-lactâmico, cefalosporina de 1ª geração. [4]antiemético antagonista dos receptores da neurocinina 1. [5]antiemético antiserotoninérgico. [6]protetor gástrico, antagonista do receptor histamínico H2. [7]analgésico opióide análogo sintético da codeína. [8]derivado pirazolônico analgésico, antitérmico e antiespasmódico. [9]vitaminas do complexo B, nicotinamida, frutose, aminoácidos, macro e microminerais. [10]complexo de alumínio e sulfato de sacarose protetor e antiácido. [11]suplemento de aminoácidos, vitaminas do complexo B e glicose. [12]suplemento de vitaminas e minerais. [13]antibiótico beta-lactâmico bactericida de amplo espectro. [14]estimulador de apetite de ação anabolizante-proteica.
Hemograma
| Eritrograma | Dia 0 | Dia 4 | Dia 6 | Dia 8 | Dia 11 |
| Eritrócitos (5,5-8,5 milhões/µL) | 5,11↓ | 3,49↓ | 2,54↓ | 3,1↓ | 3,38↓ |
| Hematócrito (37-55%) | 32↓ | 24↓ | 18↓ | 22↓ | 28↓ |
| Hemoglobina (12-18 g/dL) | 11,2↓ | 7,7↓ | 5,6↓ | 7,2↓ | 8,1↓ |
| VCM (60-77 fL) | 63 | 69 | 71 | 71 | 83↑ |
| CHCM (32-36%) | 35 | 32 | 31↓ | 33 | 29↓ |
| Reticulócitos (<1%) | n.d. | n.d. | 0,04 | 0,00 | 2,79↑ |
| Plaquetas | |||||
| Quantidade (200-500 ×103/µL) | 45↓ | 218 | n.d. | 291 | 615↑ |
Observações: n.d.: não determinado.
DIA 4: Hipocromasia.
DIA 6: Excentrócitos e anisocitose.
DIA 8: Plasma ictérico, hipocromasia discreta, policromasia e anisocitose.
| Leucograma | Dia 0 | Dia 4 | Dia 6 | Dia 8 | Dia 11 |
| Leucócitos totais (6.000-17.000/µL) | 94.600↑ | 52.600↑ | 43.400↑ | 46.000↑ | 43.520↑ |
| Mielócitos (0/µL) | 0 | 0 | 0 | 0 | 0 |
| Metamielócitos (0/µL) | 0 | 0 | 0 | 0 | 0 |
| Neutr. bast. (<300/µL) | 5.676↑ | 0 | 0 | 460↑ | 0 |
| Neutr. seg. (3.000-11.500/µL) | 83.248↑ | 45.762↑ | 39.928↑ | 39.100↑ | 36.122↑ |
| Basófilos (<200/µL) | 0 | 0 | 0 | 0 | 0 |
| Eosinófilos (100-1.250/µL) | 0↓ | 0↓ | 0↓ | 0↓ | 870 |
| Monócitos (150-1.350/µL) | 3.784↑ | 4.734↑ | 2.604↑ | 4.600↑ | 4.352↑ |
| Linfócitos (1.000-4.800/µL) | 1.892 | 2.104 | 868↓ | 1.840 | 2.176 |
Observações:
DIA 0: Neutrófilos tóxicos 1+, neutrófilos hipersegmentados.
DIA 4: Neutrófilos tóxicos, neutrófilos hipersegmentados, monócitos ativados.
DIA 6: Neutrófilos hipersegmentados.
DIA 8: Neutrófilos tóxicos, neutrófilos hipersegmentados, monócitos ativados.
DIA 11: Neutrófilos tóxicos e monócitos ativados.
Bioquímica sanguínea
| Dia 0 | Dia 4 | Dia 6 | Dia 8 | Dia 11 | |
| Amostra | soro | soro | soro | soro | soro |
| Hemólise | ausente | ausente | ausente | ausente | ausente |
| AnticoagulanteA | nenhum | nenhum | nenhum | nenhum | nenhum |
| Proteínas totaisB (60-80 g/L) | 83↑ | 74 | 66 | 68 | 80 |
| Proteínas totaisC (54-71 g/L) | n.d. | n.d. | n.d. | n.d. | n.d. |
| Albumina (26-33 g/L) | 20↓ | 14↓ | n.d. | 23↓ | n.d. |
| Globulinas (27-44 g/L) | n.d. | n.d. | n.d. | n.d. | n.d. |
| Ureia (21-60 mg/dL) | 277↑ | 277↑ | 115↑ | 48 | n.d. |
| Creatinina (<1,4 mg/dL) | 3,88↑ | 4,16↑ | 2,18↑ | 0,85 | 1,11 |
| ALT (<102 U/L) | 46 | n.d. | 160↑ | 45 | n.d. |
BEstimadas por refratometria; CDeterminadas por espectrofotometria n.d.: não determinado.
Urinálise
| Dia 5 | |
| Método de coletaA | cat |
| Sedimento urinárioB | |
| Células epiteliais | escamosas (1) |
| Cilindros | granulosos |
| Hemácias | 60↑ |
| Leucócitos | >100↑ |
| Bacteriúria | n.d. |
| Outros | aglomerados leucocitários↑ |
| Exame químico | |
| pH (5,5-7,0) | 6,5 |
| Corpos cetônicosC | ausente |
| GlicoseD | ausente |
| BilirrubinaE | ausente |
| Urobilinogênio (<1 mg/dL) | ≈0,2 |
| ProteínaF | +↑ |
| SangueG | +++↑ |
| RPCUH | n.d. |
| Exame físico | |
| Dens. espec. (1,015-1,045) | 1,014↓ |
| Cor | Amarelo escuro |
| Consistência | fluida |
| Aspecto | turvo |
Amic, micção natural ● cat, cateterização ● cist, cistocentese ● out, outros (especificar em “Observações”)
BNúmero médio de elementos por campo de 400 x
Ctraços, ≈5 mg/dL ● +, ≈15 mg/dL ● ++, ≈40 mg/dL ● +++, ≈80 md/dL ● ++++, ≥160 mg/dL
Dtraços, ≈100 mg/dL ● +, ≈250 mg/dL ● ++, ≈500 mg/dL ● +++, ≈1000 mg/dL ● ++++, ≥2000 mg/dL
E+, leve ● ++, moderada ● +++, alta
F+, ≈30 mg/dL ● ++, ≈100 mg/dL ● +++, ≈300 mg/dL ● ++++, ≥2000 mg/dL
Gnh, não hemolisado ● h, hemolisado ● +, leve ● ++, moderada ● +++, alto
HRPCU, relação proteína/creatinina urinária (na ausência de sedimento ativo)
– Caninos: <0,2, não proteinúrico ● 0,2 a 0,5, proteinúria limítrofe ● >0,5, proteinúrico
– Felinos: <0,2, não proteinúrico ● 0,2 a 0,4, proteinúria limítrofe ● >0,4, proteinúrico
– Equinos: <0,93, não proteinúrico
n.d.: não determinado
Discussão e referências bibliográficas
Devem ser discutidos os achados laboratoriais alterados (referentes a urinálise, bioquímica sanguínea e hemograma), estabelecendo as correlações relevantes com o quadro clínico do paciente. Não deve ser discutido o tratamento realizado. As alterações nos achados laboratoriais devem ser justificadas com base nas informações contidas na literatura especializada. É sugerido organizar a discussão nos seguintes grandes tópicos:
- Hemograma
- Bioquímica sanguínea
- Urinálise
- Outros exames laboratoriais (quando for o caso)
- Considerações gerais sobre o quadro clínico
