Leonardo Reis

No dia 29 de outubro de 2022, o simpósio O Caminho para o Haikai — evento integrado à programação da 68ª Feira do Livro de Porto Alegre — foi realizado no Auditório Barbosa Lessa, localizado no Espaço Força e Luz, no centro da capital gaúcha. Promovido pela Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre e pelo Escritório Consular do Japão em Porto Alegre, o evento teve como mediador o tradutor de literatura japonesa e professor de língua e literatura japonesa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Andrei Cunha, e contou com os seguintes participantes: Alice Ruiz, poeta, haikaísta, letrista e tradutora; Ricardo Silvestrin, escritor, músico e professor de literatura; Roberto Schmitt-Prym, tradutor de poesia e editor da editora Bestiário.

Após as solenidades de abertura, Andrei Cunha apresentou uma síntese da história do haikai. Conceituando a forma poética, descreveu sua origem e desenvolvimento no Japão, destacando o fato de que seu marco de origem pode ser tomado como uma questão de perspectiva. Realmente, nas falas que abriram o evento, o Cônsul do Japão em Porto Alegre, Takashi Yokoyama, e o secretário municipal de Cultura, Gunter Axt, apontaram para diferentes momentos históricos quando trataram da aurora do haikai; e, conforme atestou e demonstrou o tradutor e professor da UFRGS, nenhum estava errado. O que se conhece hoje por haikai, explicou Andrei Cunha, é a sequência de três versos que inicia o haikai no renga — poema escrito colaborativamente por dois ou mais poetas compondo as estrofes de maneira intercalada —, a qual foi elevada ao patamar de literatura por Matsuo Bashô a partir da segunda metade do século XVII. Contudo, a métrica 5-7-5 do haikai também refere à forma do waka: poema composto no Japão desde a Antiguidade (período que vai de 592 a 1192), e constituído por duas estrofes que compartilham um elo semântico indireto, o qual direciona para a autossuficiência das seções. Quando se considera o haikai como forma independente, a referência passa a ser Masaoka Shiki — poeta que, em finais do século XIX, separou a forma poética do contexto de interação com outras estrofes.

Depois dessa explanação, Andrei Cunha comentou sobre os caminhos que o haikai tomou até chegar ao Brasil, citando poetas brasileiros que escreveram e foram influenciados por essa forma poética, ressaltando também as duas principais vias de recepção. A primeira é aquela subordinada ao modernismo: oriundas de leituras francesas — influenciadas pelo japonisme europeu surgido na segunda metade do século XIX — e, posteriormente, com influência de interpretações estadunidenses. A segunda se trata daquela desenvolvida pelos imigrantes japoneses chegados ao Brasil no início do século XX, a qual, nas últimas décadas, tem se ramificado para além da comunidade nikkei e se constituído como gênero de literatura brasileira.

O movimento atual de sincretismo entre essas duas vertentes e a significante diversidade de abordagens do haikai em solo brasileiro também foram destacados, inclusive nas falas dos demais especialistas, que comentaram sobre suas trajetórias dentro do contexto de composição dessa forma poética, versando também sobre suas perspectivas a respeito do fazer artístico do haikai.
ALICE RUIZ — “A SÍNTESE É DA MAIOR IMPORTÂNCIA”
A poeta Alice Ruiz não tardou em afirmar que cada haikaísta tem a sua própria dicção; consequentemente, existem diversos procedimentos relativos à poética do haikai. A também letrista lançou mão de dois grandes mestres para destacar a pluralidade de abordagens, destacando “o preciosismo de Buson” e “a insubordinação de Issa”.

A conexão do haikai à natureza e à experiência sensorial também foi aludida por Alice Ruiz, que revelou o costume de frequentar durante a adolescência um terreno perto de sua casa onde havia um córrego. Neste local, conta a curitibana, aprendeu lições com o mundo natural e começou a escrever sobre o que sentia. Essas composições foram posteriormente mostradas ao seu então namorado, Paulo Leminski, o qual lhe disse que ela escrevia haikai. Alice, porém, destaca que foi só depois de começar a traduzir essa forma poética que realmente a conheceu: “O que eu fazia antes eram observações. Quando comecei a traduzir, percebi a diferença da lírica. O melhor caminho para o aprendizado é o traduzir”. Segundo relatou, foi a partir desse ângulo propiciado pela tradução que pôde perceber a simplicidade, a concisão — “A síntese é da maior importância” — e o caráter enunciativo do haikai: “O haikai é quase como a fala”.

Quando relatou suas experiências ministrando oficinas — em específico, uma realizada em Porto Alegre, em 1990 —, Alice novamente salientou a diversidade estilística de cada poeta, criticando o “engessamento da forma” e discordando de definições do haikai brasileiro que limitam suas abordagens. Nesse cenário, citou o haimi (“sabor do haikai”): “Não importa a forma. Não importa a poética. Importa o haimi”. Rememorando as oficinas, a poeta destacou ainda o fazer comunitário característico do haikai, e o modo como operou com essa abordagem durante a Pandemia de COVID. No contexto de quarentena, citou as redes sociais como meio de aproximação entre os haikaístas e a utilização de fotografias como fonte de inspiração para a escrita de haikais. Ainda falando sobre as oficinas, comentou sobre o que chamou de “estado de haikai”: abordagem que, aproximando-se de preceitos do zen budismo, considera o distanciamento em relação ao próprio intelecto no momento da composição: “[É preciso] se preparar para a ausência do ‘eu’. O intelecto tem de entrar antes [do momento de escrita]. No momento haikai, estamos inteiros, mas nunca à frente do que se está observando”.
Ao final de sua explanação, destacou a composição de haikai também como prática de uma forma poética de outra cultura, fazendo observações sobre a língua japonesa: “A escrita japonesa refere ao objeto. [Assim,] por si só, leva ao haikai”, afirmou, comentando sobre a visualidade que percebe como intrínseca aos kanji. Alice falou ainda sobre a diferença de abordagem dos kigo quando se compara os haikais japonês e brasileiro: “Pela extensão do território brasileiro, é impossível que os kigo se repitam. A fauna e a flora são muito variadas”.
RICARDO SILVESTRIN — “HAIKAI NÃO É SÓ ARTE. É A EXPERIÊNCIA DE FAZER ARTE”
O poeta e músico porto-alegrense iniciou seu relato destacando o interesse que nutre, pelo menos desde o início da vida adulta, por poemas curtos; referindo-se, em específico, a poetas do modernismo brasileiro. Sua introdução ao haikai, conta, veio por intermédio do amigo e artista Chico Zorzo, que, ao ler seu poema “32 graus centígrados” — “na rua da praia / todo olhar com / vida a mar” —, publicado no livro Viagem dos Olhos (1985), comentou que se tratava de um haikai.

Curioso a respeito dessa forma poética, Silvestrin conta que o próximo passo foi procurar se inteirar a respeito do que era um haikai; nesse contexto, teve como obra introdutória a biografia de Matsuo Bashô escrita por Paulo Leminski. Através desse livro, conheceu o poeta que o inspirou em seu primeiro livro de haikais: Bashô um santo em mim (1988).
Silvestrin então comentou sobre participação no Encontro Brasileiro de Escritores de Haicai de 1987, em São Paulo, ocasião em que foi premiado com o segundo lugar. O haikaísta ainda revelou conversa que teve com uma senhora japonesa durante o evento, na qual foi indagado sobre como interpretava o haikai “Ah! O antigo açude! / E quando uma rã mergulha, / o marulho da água”, de Matsuo Bashô. Ao responder que o texto falava do barulho que uma rãzinha produzia ao mergulhar, foi surpreendido por uma réplica que afirmava que o foco do texto não era o som, mas a sua ausência: “Ela me disse: ‘Esse haikai fala sobre o silêncio. É um lago tão quieto que podemos ouvir o som da rã saltando’”, disse, destacando que a revelação dessa interpretação foi como um gongo japonês soando em sua mente. Outra fonte de aproximação com a perspectiva japonesa do haikai revelada pelo poeta porto-alegrense foi Edson Iura, fundador e administrador do portal “Caqui — Revista Brasileira de Haicai”, e grande divulgador do haikai composto pela comunidade nipo-brasileira.
Seguindo sua fala pelo âmbito da perspectiva japonesa do haikai, Silvestrin destacou o zen budismo como componente da poética do haikai do Japão — destacando que essa influência está presente mesmo nas composições de Masaoka Shiki, o qual tinha por objetivo dissociar o haikai do zen: “Para fugir do zen, só se exista o zen”. O poeta e músico falou das experiências sensorial e do “aqui-agora” como viabilizadores do haikai, transcendendo essa poesia para além da sua própria manifestação: “Haikai não é só arte. É a experiência de fazer arte”. Ainda sobre a poética japonesa, Silvestrin também ressaltou como alguns modos de expressão do haikai japonês podem ser mais complexos de se produzir no haikai brasileiro.
Outras características da forma poética mencionadas pelo também professor de Literatura foram a aparente singeleza — “A questão do mínimo. Um haikai pode não ser nada; ou pode ser um grande poema” — e a brevidade. Nesse último ponto, parafraseando Paulo Franchetti, Silvestrin destacou que “O haikai não é escrever muito com pouco. É escrever pouco com pouco”.
ROBERTO SCHMITT-PRYM — “OUVIR O BAMBU É MAIS IMPORTANTE DO QUE O INTELECTO”
O tradutor de poesia e editor iniciou sua fala comentando sobre a relação entre a editora Bestiário e a promoção do haikai no Brasil. Criada em 2002, publicando produções de alunos de oficinas literárias realizadas em Porto Alegre, a Bestiário iniciou sua frente de divulgação da literatura japonesa no Brasil em 2019, com o lançamento de Cem poemas de cem poetas — a primeira versão em língua portuguesa do Ogura Hyakunin Isshu, antologia pertencente ao cânone do waka japonês. Um ano depois, é publicado Poemas do Japão antigo, apresentando composições do Kokin’wakashû, coletânea de waka cujo papel é imprescindível na constituição do senso estético e formal da poesia tradicional japonesa, incluindo o haikai — ambas as obras são traduções de Andrei Cunha. Atualmente, revelou o editor, são nove os títulos de literatura japonesa que integram o catálogo da editora, sendo oito obras de poesia, e um livro de prosa curta: O Limão, de Motojirô Kajii, com tradução de Karen Kazue Kawana. Nesse ponto, destacou a aceitação da literatura japonesa em território brasileiro.

Quanto ao haikai em específico, Prym revelou que já são quinze os haikaístas do Brasil publicados pela Bestiário; sendo que, com a obra Clarões manifestos, haicais brasileiros (coletânea que reúne 140 poetas e lançada poucos dias depois do presente simpósio), o número de haikaístas brasileiros no catálogo da Bestiário chegou aos 115. De fato, esses dados comprovam a afirmação do também tradutor sobre a aceitação da forma poética: “O haikai é o gênero mais popular da editora. Falam que poesia não vende, mas não é o caso da Bestiário”. Ademais, a popularidade do haikai destacada por Prym não se limitou ao âmbito das publicações da editora. Ressaltando o caráter comunitário dessa forma poética, o tradutor comentou sobre a existência de grupos de haikaístas em redes sociais como o Facebook, nos quais centenas de pessoas publicam seus poemas diariamente, trocando comentários e percepções a respeito dos seus fazeres poéticos e das composições dos colegas de comunidade.
Em sua apreciação sobre a poética do haikai, o tradutor de poetas como Bashô e Ryôkan também manifestou a importância de se distanciar da racionalidade e das opiniões pessoais. Parafraseando Bashô, Prym revelou que, em seu ponto de vista, “Ouvir o bambu é mais importante do que o intelecto”.

UMA NOVA CORRENTE DE VISIBILIDADE
O simpósio O caminho do Haikai foi um evento pioneiro na programação da Feira do Livro de Porto Alegre, e situado em um contexto de maior visibilidade para a Literatura Japonesa no Brasil, o qual se manifesta nos âmbitos editorial, de consumo e acadêmico. Efetivamente, o próprio evento foi capaz de atentar essas três frentes: as duas últimas podiam ser comprovadas no grande público presente no Auditório Barbosa Lessa, composto por poetas, leitores, pesquisadores da área e interessados por literatura que ainda não conheciam o haikai. A primeira pôde ser comprovada na manifestação de Roberto Schmitt-Prym, revelando como a literatura japonesa traduzida no Brasil (com ênfase na poesia) tem na Bestiário uma das suas principais frentes de promoção. Além disso, a editora de Porto Alegre é também representativa da ampliação do mercado da Literatura Japonesa em território nacional.
Relato escrito por Leonardo Reis, que estava presente na plateia. Bruno Zitto colaborou com anotações sobre o evento.



e 1928 e 1930 na revista Nyonin Geijutsu e, posteriormente, ainda em 1930 como livro, Memórias de uma Errante

