Em A implosão do capitalismo contemporâneo – outono do capitalismo, primavera dos povos? (2018) Samir Amin (1931-2018) resgata conceitos trabalhados ao longo de sua trajetória intelectual, no intuito de refletir sobre o papel da esquerda diante da obsolescência do sistema capitalista contemporâneo e sobre as respectivas articulações centro-periferia. O autor egípcio foi um dos principais teóricos da corrente do sistema-mundo, preocupou-se ao longo de sua trajetória com um marxismo capaz de acolher a realidade dos países periféricos do sistema capitalista.
O livro é constituído de cinco capítulos em formato de ensaios que, de forma combinada, apresentam um panorama geral das contribuições de Amin para a Economia Política Internacional. As análises propostas se articulam com base na definição do sistema atual como o Capitalismo dos Monopólios Generalizados, capitaneado pela tríade – Estados Unidos, Japão e Europa. Outono do capitalismo, porque é evidente que este nada mais tem a oferecer à humanidade, além de sua autodestruição, por conta da acentuação de suas contradições internas. Primavera dos povos porque é o momento propício para que os oprimidos pensem estratégias em favor da superação para o socialismo, entendido como uma etapa superior da civilização. Contudo, há um gap dramático entre o outono e a primavera que só há de ser preenchido caso a esquerda radical se reconstitua diante dos desafios atuais.
O capitalismo hoje possui formato muito particular; isso demanda que alguns conceitos básicos para o marxismo sejam ressignificados, fortalecendo, assim, o surgimento de uma nova estratégia da esquerda. Por exemplo, os dominantes são uma oligarquia financeira sustentada pela nova classe média – na periferia, esse papel é exercido pela classe especuladora, homens de negócio, não empreendedores criativos; os dominados são os segmentos de status diversificados para mascarar seu pertencimento comum ao proletariado; a burguesia se distancia do tradicionalismo anterior, se tornando uma classe mais restrita e composta de recém-chegados que se impuseram mais pelo sucesso de suas operações financeiras do que por sua contribuição para os desenvolvimentos tecnológicos da época. O que não mudou? A relação de conivência entre poder econômico e político.
A discussão proposta sobre periferia e semiperiferia é norteada pelo conceito de país emergente, conjunto de transformações com o propósito elementar de construção e fortalecimento de uma economia autocentrada. As ambições desse tipo de país entram em conflito com os objetivos estratégicos da tríade, uma vez que pleiteiam uma ordem internacional mais inclusiva. A China é o modelo autêntico de emergência, por desenvolver um projeto soberano coerente e adequado às suas próprias necessidades, sua integração à globalização financeira segue parcial e controlada – vide o sistema bancário completamente nacional e focado no mercado de crédito doméstico. O capital estrangeiro só consegue alcançar a China se beneficiando de baixos salários e bons lucros, caso seus planos sejam compatíveis com os do governo chinês.
Sobre o centro, Amin foca sua análise na implosão do sistema europeu, que – pela arrogância de se considerar um conjunto de países unidos, potência tal qual os Estados Unidos – negligencia o perigo da heterogeneidade e da estratificação inerente à sua composição. Não existe uma identidade comum, apenas a ilusão do leste de partilhar da europeidade da parte da tríade capitalista. Mais do que isso, assim como está concebida, a União Europeia segue sendo uma institucionalização problemática, com valores globalizantes e liberais. Outra Europa é possível, desde que as soberanias nacionais sejam reconhecidas em sua diversidade e que o capitalismo em si mude sua lógica de dominação. A esquerda consegue enxergar tal necessidade, mas falha em mobilizar forças sociais e políticas capazes de inverter o jogo.
A obra oferece um bom aparato para refletir acerca da atual conjuntura. Fenômenos como os debates na União Europeia sobre o seu orçamento e a continuidade da Política de Coesão, o Brexit capitaneado pelo conservadorismo, a reação anti-imigração tão vinculada à direita colocam sob questionamento o futuro da integração nesse continente. Embora não por esses meios, o fim não seria de todo mal para o autor. Por outro lado, o aumento da influência do ideário direitista, defensor do avanço da tríade sobre a periferia do sistema, é refletido no esfacelamento de iniciativas genuínas do Sul Global, como a UNASUL, à despeito da inserção de membros periféricos na OTAN. Em favor da superação do sistema de Monopólios Generalizados, é preciso capacidade disruptiva e de inovação da esquerda diante de tamanhos desafios. Ou já optamos pelo que o autor denomina de “meros ajustes às vicissitudes do sistema em implosão”?
Resenha do livro A implosão do capitalismo contemporâneo – outono do capitalismo, primavera dos povos?, escrito por Samir Amin e publicado pela UFRJ (Rio de Janeiro, 2018).
Sobre a resenhista:
Camille Amorim é Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos Internacionais (PPGEEI/UFRGS) e especialista em Estratégia e Relações Internacionais Contemporâneas pelo mesmo. Bacharel pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), é bolsista CAPES e membro do Laboratório de Análise de Política Externa Brasileira (Lab-PEB/UFRGS). Sua agenda de pesquisa está focada nas relações Brasil-África no Século XXI.